sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Jogo dos sete acertos

Tostão
O Barcelona tem várias particularidades. A primeira é que seus três grandes astros, Messi, Xavi e Iniesta, se comportam como cidadãos comuns. Não vestiram a máscara da celebridade. Iniesta chegou ao Japão, pegou um metrô e, na folga, foi passear, sozinho, sem seguranças. Os japoneses devem ter achado que era um sósia. Não poderia ser um Iniesta.

A segunda particularidade é ter, há três anos, mais posse de bola em todas as partidas. Consegue isso porque os jogadores são bons no passe, vários companheiros se movimentam para receber a bola, recuperam-na com facilidade e não a passam para um jogador marcado.

A terceira é, em um mesmo jogo, mudar o esquema tático sem trocar de jogadores. Guardiola, quando quer ter mais um jogador no ataque, troca a linha de quatro defensores para três. Outras vezes, os jogadores se movimentam tanto, que muitos acham que houve mudança tática.

A quarta é ter apenas um típico volante, marcador, Busquets, que é também ótimo no passe. O time não possui também um meia de ligação. Xavi, Iniesta e Fàbregas são armadores, que marcam, organizam e atacam.

A quinta é não cruzar bola na área apenas para se livrar dela. Ninguém dá um chutão. Nem o goleiro, que, às vezes, erra, já que não é um Rogério Ceni.

A sexta é não ter centroavante. Messi é meia, ponta e atacante. O time possui ainda um jogador de cada lado, que marca e ataca. Contra o Real, Guardiola colocou mais um meia (Fàbregas) no lugar do jogador que atua pelo lado (Villa). A única virtude que falta a Xavi e a Iniesta, a de entrar mais na área para fazer gols, é uma das qualidades de Fàbregas.

A sétima particularidade -há outras- é jogar com os zagueiros mais adiantados. O time fica mais compacto, porém deixa mais espaços nas costas dos defensores. Mesmo assim, o Barcelona leva poucos gols. Isso ocorre porque os zagueiros são muito bons, rápidos, o goleiro sabe jogar adiantado, e o time fica a maior parte do tempo com a bola.

O estilo do Barcelona é uma mistura do Santos de Pelé, do Flamengo de Zico e de outras grandes equipes, de todas as épocas, que privilegiavam a troca de passes, como a do carrossel holandês da Copa de 1974, que marcava por pressão e em que os jogadores não tinham posições fixas.
Os técnicos dizem que só o Barcelona pode jogar dessa forma, por ter criado uma escola. É uma meia-verdade. É também uma boa desculpa para a incapacidade de mudar, de arriscar e de sonhar.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/12/2011.

Fácil, mas dolorido




Barcelona 4x0 Al Saad
Mundial de Clubes 2011



Onze em cada dez comentaristas diziam não haver a menor chance do frágil catariano Al Saad desbancar o quase perfeito Barcelona. A previsão foi confirmada. Porém, a partida não foi um mero cumprimento de tabela, revelando algumas pistas ao Santos e um grande prejuízo ao escrete catalão.

Comecemos pelo fim. A perda de David Villa - que teve confirmada fratura na tíbia - será sentida pelo Barça, não apenas neste Mundial, mas, principalmente, na continuidade do campeonato espanhol. É certo que o atacante - maior artilheiro da história da seleção espanhola - não vive sua melhor fase. Aliás, vem iniciando as últimas partidas no banco, dando lugar ao chileno Alexis Sanchez. Por azar, também o substituto saiu contundido, sentindo dores musculares, e é dúvida para a final de domingo.

Em que pese a má fase de Villa, o atacante não deixa de ser uma “peça” importante no time de Pep Guardiola, que não se resume a onze titulares. Ontem, aliás, isso ficou claro. O jeito do time jogar, o, digamos, “padrão Barça de qualidade” é mantido mesmo com substituições de jogadores que muitos poderiam achar imprescindíveis. Já disse, e repito: o Barça de Guardiola é fenomenal como conjunto, não como soma de ótimas individualidades, ainda que estas, óbvio, existam. Nem mesmo Messi, o melhor do mundo, é imprescindível nesse time. Ontem, inclusive, a equipe esteve desfalcada - de propósito, para preservá-los - de Piquet, Busquets e Xavi, sem que mudasse em uma vírgula na sua excepcional qualidade.

Além de ter opções no elenco capazes de manter o padrão coletivo, foi possível constatar outra vantagem desse time: a capacidade de variar taticamente. O Barcelona não muda sua filosofia de jogo - toques exaustivos, formação compacta e adiantada, supremacia absoluta na posse de bola, não rifar a bola ou dar chutões, fazer a bola girar da direita para a esquerda e da frente para trás, e vice-versa - mas é capaz de variações interessantíssimas. Por exemplo: via de regra, o time joga com uma linha de quatro atrás e seis (quando sobe um lateral, geralmente Dani Alves) do meio para frente, trocando passes até encontrar o espaço para a finalização. Ontem, sabedor da fragilidade do adversário, o time espanhol foi ainda mais ousado: montou uma linha de três atrás (Abidal, Puyol e Mascherano), com todos os demais adiantados: Adriano (na direita), Thiago Alcântara, Keita, Iniesta, Messi, Pedro e Villa.

Em ritmo de treino, o Barça foi se impondo, encurralando cada vez mais o adversário. Erro fatal do Al Saad: não contra-atacar. Não por falta de vontade e instrução do seu técnico, o uruguaio Jorge Fossatti, mas por abismal diferença técnica entre as equipes. Quando o fez – eis a melhor informação para o Santos -, em duas únicas oportunidades, no final do primeiro tempo (Kader Keita, aos 44, e Niang, aos 45 minutos), criou perigo ao gol de Valdes. Ou seja, a grande chance do Peixe sair campeão no domingo está, além da atenção constante na marcação, em montar e não desperdiçar contra-ataques.

***

Independentemente do quão forte ou fraco seja o adversário, é impressionante a forma que o Barcelona sempre joga, encurralando-o. Se o adversário se arvora em jogar de igual para igual, é abatido no primeiro espaço dado. Se monta uma retranca, ainda mais se não tem competência em aproveitar contra-ataques, o Barça toca a bola com paciência de jó, até furar o bloqueio. Também impressionante é a multifuncionalidade dos jogadores nesse esquema: os volantes viram zagueiros e vice-versa, os meias viram atacantes e vice-versa, os laterais viram zagueiros e vice-versa.

Confesso que, juntamente com o São Paulo de 92, o Flamengo de 81 (que está completando 30 anos do título mundial) e a seleção brasileira de 82, o Barcelona de Guardiola é a exceção a todos os times que vi. Já assisti a ótimas equipes, mas sempre com um que de normalidade. Essas foram as únicas “anormais”, excepcionais, fora do comum que tive o prazer de assistir.

***

A diferença fundamental entre Barcelona e Santos é que aquele se caracteriza pelo conjunto, este, por individualidades. O toque do Barça se contrasta com o drible do Santos, especialmente de Neymar. Justo por isso, Neymar faz muito mais falta à equipe brasileira do que Messi à espanhola.

No domingo, penso que nem Santos deve jogar como jogou contra o Kashiwa, nem Barça como jogou contra o Al Saad. O Santos porque descobriu a fragilidade de manter Durval improvisado como lateral esquerdo, sobretudo com o retorno de Daniel Alves. Aposto que Danilo atuará como volante, compondo o setor de marcação no meio com Arouca; neste caso, Elano ou Henrique deve ser sacrificado, e Pará deve ocupar a lateral direita. Já o Barcelona deve ser um tanto mais precavido, porém não menos criativo e poderoso. Caso Alexis Sanchez não possa jogar, Fábregas deve substituí-lo. E devem voltar Piquet, Busquets, Xavi e Dani Alves.

JFQ

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Enfrentando o Kashiwa, pensando no Barça


Santos 3x1 Kashiwa Reysol
Mundial de Clubes 2011

Quase todos os que viram o jogo Santos x Kashiwa Reysol, hoje, pelo Mundial de Clubes, tinham na cabeça uma outra equipe. Ou, se preferirem, A equipe: o Barcelona. Com todo o respeito aos Mazembes da vida, penso que nem os mais ferrenhos rivais do clube da Vila Belmiro acreditavam na possibilidade de uma “mazembada” japonesa. Muito menos, em uma “mazembada” do catariano Al Arred, amanhã.



Isto posto, alguns comentários sobre a peleja do dia. Como toda a estreia – ainda mais se tratando de uma estreia eliminatória –, o jogo foi nervoso. Especialmente para os brasileiros, que carregavam o peso do favoritismo. Até os 19 minutos do primeiro tempo, o Santos era confuso e tinha menos posse de bola que o Kashiwa. Além da fase de estudos, que marca o início de partidas decisivas, o Peixe parecia buscar uma postura e uma dinâmica de jogo. Fiquei com a impressão de que Muricy testou uma formação já antevendo a final contra o Barça: laterais fixos atrás, meio campo mais congestionado e dois atacantes rápidos (um deles, genial). No entanto, se a intenção foi boa, o resultado não foi lá tão promissor.

A defesa foi eficiente: o Kashiwa conseguiu trocar passes perigosamente na intermediária santista e o lado esquerdo, onde Durval foi improvisado de lateral, mostrou-se vulnerável por três vezes. Imagine o que pode acontecer quando Messi, Xavi e Iniesta aparecerem trocando passes e quando Daniel Alves surgir no apoio. Bruno Rodrigo foi firme na marcação, mas à zaga peixeira parece ter faltado o entrosamento da dupla Edu Dracena-Durval.  

Também o meio-campo não foi capaz de articular sistematicamente jogadas de ataque. Tanto que os três gols originaram-se de lances isolados de criatividade individual. Paulo Henrique Ganso, ainda que tenha tido uma boa (razoável?) atuação, não desempenhou a contento o papel de maestro, de ditador do ritmo do time. Arouca foi o leão de sempre na marcação e na origem de contra-ataques com suas tradicionais arrancadas. Henrique foi confuso, um tanto perdido na marcação; risco: caberá a ele, primordialmente, marcar Messi. Elano foi mais um meia avançado pela direita do que um articulador ou um marcador; um tanto deslocado, sem função em campo, embora tenha se empenhado no primeiro tempo. Enfim, os quatro do meio se esforçaram, mas não jogaram como um conjunto.

Com efeito, o ataque, embora seja promissor, carece de receber mais a bola. Neymar e Borges não podem voltar tanto para buscar bola. Contra o Barcelona, que joga com os zagueiros mais adiantados, a velocidade de Neymar será fundamental, assim como o oportunismo de Borges e as assistências de Ganso.

Por falar em Neymar, seu gol foi espetacular. Eis o futebol: ainda que o time ou mesmo o craque não esteja jogando bem, um único lance de genialidade é capaz de mudar a história da partida e do campeonato. Está aí o maior trunfo do Santos: ter jogadores – sobretudo Neymar – capazes de protagonizar um lance genial.

Contra o Barça, o Santos não deve ter a pretensão de ser superior em posse de bola. Aliás, nem hoje parecia ter essa ambição. Se essa foi a característica do Peixe dos tempos de Dorival Jr., Robinho, Wesley e André, o “equilíbrio” construído na era Muricy Ramalho deixou isso um pouco de lado. E é bom não forçar a natureza, mormente contra um time expert no assunto.

O Santos deve ter atenção total durante toda a partida – lembrando-se que a equipe de Guardiola troca passes com paciência de Jó – e aproveitar contra-ataques. Também deve ter cuidado extremo com toque de bola na sua intermediária. Razão pela qual, creio, Muricy deva colocar Léo na esquerda e, quiçá, Danilo como volante, no lugar de Elano (neste caso, quem ficaria na lateral direita é a incógnita).

Também deve ter cuidado com a roubadas de bola no meio-campo, principalmente com Neymar, que perde a bola várias vezes em tentativas de dribles; contra o Barça, isso pode significar ataque fulminante.

Por fim, acredito ser uma boa dica ao Santos chutar de longe, arriscar. Cá comigo, tenho que o goleiro Valdes é o calcanhar de Aquiles deste Barcelona, um dos melhores escretes da história.

JFQ

Anticorintianismo

José Roberto Torero


Fiel leitora, traidor leitor, o Corinthians é o mais amado e odiado time do futebol brasileiro. Nem o Flamengo, ainda o time de maior torcida no país, consegue ser tão polarizador como o time do Parque São Jorge. Ou do Itaquerão.

Eu vos pergunto: Por que isso acontece?

E eu vos respondo: Não sei. Mas desconfio de algumas raízes e razões.

Primeiramente, é interessante notar que seus três adversários estaduais têm o Corinthians como maior rival.
No caso do Santos, creio que a adversariedade (como diria Tite) nasceu depois do jejum de 11 anos em que o Corinthians não ganhou do time da Vila no Campeonato Estadual. O clube paulistano foi a maior vítima de Pelé. Logo, quando passou a ganhar do alvinegro praiano, isso soou como uma insubordinação. "Eles não eram nossos fregueses? Que história é essa de ganhar da gente agora?"

Com o São Paulo, a questão é bem mais recente, coisa de uns 20 anos para cá. Quando o Tricolor começou sua ascensão com Telê, tornando-se o melhor time da cidade, passando a ser um assíduo frequentador da Libertadores e ganhando títulos planetários, sua torcida cresceu rapidamente, passando a do Palmeiras. Daí, nada mais natural que a torcida emergente passar a ter por inimiga a torcida majoritária.

Quanto ao alviverde imponente, é uma história mais longa, que começa já na sua fundação, pois vários italianos abandonaram o Corinthians para fundar o Palestra Itália. A oposição deve ter aumentado com a rivalidade entre as colônias italiana e espanhola, e foi fermentada por vários torneios e jogos memoráveis. Já em 1922 e 1923, o Corinthians foi bicampeão paulista, e o Palestra, dolorosamente, bivice. Depois disso, o Corinthians deixou o Palmeiras como vice estadual mais seis vezes, levando o troco outras seis. E houve, é claro, os dois confrontos pela Libertadores decididos nos pênaltis.

Mas acredito num motivo além do esportivo. Numa "culpa" da própria torcida, e não apenas do clube. É que, enquanto os outros torcedores dizem que seus times são os melhores, os corintianos dizem que não apenas têm o melhor time, mas, principalmente, que são eles mesmos os melhores e mais apaixonados torcedores.

Ou seja, não falam: "Meu time é melhor que o seu", mas sim: "Eu amo meu time mais do que você ama o seu".

Não importa, e não sei, se é verdade ou não. O fato é que não há nada que provoque mais ira do que se colocar como superior aos outros. Ainda mais quando não se fala de futebol, mas de amor.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/12/2011.

sábado, 10 de dezembro de 2011

"Ser Campeão é Detalhe", vale a pena assistir



Assista ao filme "Ser Campeão é Detalhe: Democracia Corinthiana":

http://www.youtube.com/watch?v=MNyRGt95cWw&feature=share

O filme é interessante para se ter uma noção do que representou aquele time não apenas para os corinthianos, mas para aqueles que buscavam democracia no Brasil.

JFQ

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Lançamento do filme "Ser Campeão é Detalhe"

Nesta quinta-feira, dia 08/12, o Museu do Futebol será palco do lançamento do filme “Ser Campeão é Detalhe”, que conta os bastidores do movimento Democracia Corinthiana e apresenta depoimentos de personalidades como os dos ex-jogadores Sócrates e Casagrande, do jornalista Juca Kfouri e do publicitário Washington Olivetto.

Serão realizadas três sessões: às 19h, às 19h30 e às 21h. A entrada é gratuita e senhas serão distribuídas 1h antes.

Durante o evento, o Museu do Futebol realizará uma homenagem especial ao craque Sócrates.



Mais informações: (11) 3664-3855 ou eventos@museudofutebol.org.br

www.museudofutebol.org.br

www.facebook.com/museudofutebol

www.twitter.com/_museudofutebol

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Paulista precisa dormir


Danilo Paiva Ramos

Na noite de ontem, o que mais me aterrorizou enquanto era espancado por um PM não identificado na Avenida Paulista não foi a violência dos golpes cada vez mais fortes em minha mão e barriga. “Cuzão!”, “Seu merda!”, “Filho da puta!”, “Quer ser espancado de verdade?” eram as palavras que acompanhavam as pancadas que eu ia recebendo sem ter como me defender. Mas também não foram as ameaças ou as ofensas que mais me aterrorizaram ontem. O que mais me assombrou foi perceber, enquanto era espancado, o sorriso e o olhar do policial que mostravam um prazer maior a cada bofetada. A cada pancada meu medo aumentava. E foi com espanto que vi o prazer e ódio que cresciam nos rostos dos policiais à medida que investiam contra qualquer pessoa que, naquele momento, estivesse com uma camiseta do Corinthians comemorando na calçada, pacificamente, a vitória do campeonato. Indignado, sem saber por que apanhava, perguntei o nome de meu agressor. Mais ofensas e ameaças seguiram-se enquanto ele erguia novamente sua arma contra mim. Afastando-me, perguntei por que me batia. Ele, então, respondeu: “As pessoas da Paulista precisam dormir”.
Essa talvez fosse a fala de um “camisa negra”, grupo fascista que, na Itália, perseguia os operários que faziam greve. Ou talvez a fala de um policial da ditadura que investisse contra estudantes que lutavam pela democracia. Mas estranhei muito que o motivo da violência com que acabaram com a “festa da vitória” que um grupo de pessoas fazia por volta das 23hs na calçada da Paulista fosse o sono dos edifícios de bancos e empresas. Ainda sendo coagido pelos policiais, fui conversar com o sargento que liderava o grupo. Comuniquei a ele que havia sido espancado por um de seus policiais e que queria saber a razão disso e o nome de meu agressor. Ele pediu que eu apontasse o oficial. Identifiquei-o. O 3 Sgt LUIZ disse que não conhecia o policial que continuava a espancar e a coagir as pessoas.
Memorizei a identificação do sargento Luiz e fui a uma delegacia próxima à minha casa. Quando contei ao delegado minha intenção de fazer um boletim de ocorrência, B.O., por ter sido espancado por um PM, ele alterou seu tom de voz. Falando alto e gesticulando fortemente, afirmou que um policial “não batia por nada” e perguntava repetidamente o que eu tinha feito. “Nada, não fiz nada! Estava voltando para casa. Saí do metro Trianon-Masp, após assistir ao jogo com meus amigos, parei durante 5 minutos para ver a festa que o grupo fazia na calçada. Estava um pouco longe do grupo. Um cordão de policiais formou-se atrás de mim sem que eu percebesse. Quando virei meu corpo, já recebi os primeiros golpes. Não fiz nada”. Vítima, machucado e apavorado, tive que perguntar ao delegado se esse era o modo de tratar as vítimas em sua delegacia. Afirmei que iria a outra D.P. fazer minha ocorrência, já que naquela não me sentia seguro. Somente, então, o delegado começou a tratar-me como vítima. Registrei a queixa, fiz exame de corpo de delito e aguardo que consigam identificar o sargento e meu agressor. Por sugestão do delegado, irei à corregedoria da polícia militar para fazer uma queixa.
Antropólogo, pesquisador da USP, venho acompanhando a violência, o prazer e a liberdade com que policiais, soldados e autoridades “competentes” restabelecem a “ordem” na Universidade, na avenida Paulista ou na Amazônia, onde realizo meu trabalho com um povo indígena. Espancar, ofender, perseguir, rir, ameaçar parecem ser modos cada vez mais rotineiros das autoridades que aplicam a coerção física do Estado em estudantes, torcedores, índios, professores, trabalhadores etc. O prazer que vi no rosto de meu agressor me aterrorizou. A dificuldade de identificar meu agressor — causada pela falta de distintivo, pela atitude do sargento que disse não conhecer seus soldados, pelo comportamento do delegado que insistiu que eu devia ter provocado ou pela dificuldade de saber de qual batalhão eram os PMs que atuavam na Paulista àquela hora — me assombra. O riso e o prazer de meu agressor iniciam-se no motivo banal da “Paulista que precisa dormir” e terminam na saciação do sadismo com que golpeava meu corpo que, naquele momento, por acaso — apenas por acaso —, era o corpo de um torcedor corintiano.

Meu ídolo

Quando vejo um garoto de sete anos com brilho nos olhos ao se deparar com o craque Neymar, sou capaz de entendê-lo perfeitamente. Com sete anos eu também tinha um ídolo que entortava os adversários, muito embora não fosse tão rápido.

Os meninos de sete anos da época de Leônidas deviam se orgulhar da jogada que ele criara e operava como ninguém: a bicicleta. Não me lembro de nenhuma bicicleta dada por meu ídolo. Assim como não me lembro de ninguém usar o calcanhar com tamanha habilidade e visão de jogo como ele.

Compreendo os guris de Minas que aos sete anos idolatravam o atleticano Reinaldo e o cruzeirense Tostão. Como aquele, meu ídolo marcava gols e comemorava com o braço esticado para cima e o punho cerrado. Como este, também era doutor e vestia a oito.

Vi crianças de sete anos idolatrando Ronaldo e venerando Romário. Logo surgiram as comparações. Quem era melhor? Quando eu tinha sete anos, meu ídolo era comparado a Zico. Acho até que este era melhor, mas o bom é que estavam juntos na seleção de Telê, a melhor de todas para mim. E, como meu ídolo, Zico também sabia alegrar o povão, brilhando em um clube de massas. Multidões que se entristeceram quando o Galinho saiu do Flamengo, assim como eu e outros tantos milhões lamentamos a despedida do nosso ídolo rumo a campos italianos. Logo a Itália, quanta injustiça!

A propósito, consigo até enxergar os pequenos holandeses de 74 e os garotos húngaros de 54, inconformados por não verem Cruyff e Puskas campeões do mundo. Desde criança, não admito que meu ídolo, capitão do mágico escrete de 82, tenha deixado de levantar o caneco.

Nos anos 90, seu irmão Raí foi idolatrado por pequenos são-paulinos. Também começara em Ribeirão, também jogava de modo elegante. Tinha um físico bem mais atlético, é verdade. E – coisa de família? – também se revelou um cidadão genuíno, participativo, politizado a ponto de apresentar suas demandas, de expor suas opiniões, de buscar um Brasil melhor. Muito embora tivesse o perfil de bom-moço, e não o de intelectual boêmio, como o do meu ídolo. Ainda que não tivesse ajudado a construir uma inusitada democracia em tempos de ditadura.

Meu ídolo tinha nome de filósofo e fama de inteligente, ao contrário do ingênuo e folclórico Garrincha. Mas, como Mané, era PhD da bola. Penso que os meninos com sete anos em 62 jamais aceitariam que a bebida, e não os zagueiros, seria capaz de derrubar seu ídolo. Eu, pelo menos, não consigo aceitar.

Dizem que Pelé não torcia para o Santos aos sete anos. Meu ídolo, sim. Justamente por causa de Pelé. Mas também virou a casaca ao se ver representante eterno de uma torcida, a do Corinthians, o meu time... o nosso time! Imagino meu ídolo aos sete anos, absorto com a maestria do melhor de todos os jogadores, sua competência em ditar o ritmo e a lógica da partida. Volto aos meus sete anos, quando ficava embasbacado ao notar que meu ídolo, a seu modo, também era capaz de majestosas proezas, ainda que não se lhe outorgassem a coroa de um rei.

Ontem foi um dia, ao mesmo tempo, feliz e triste. Ontem, nosso time foi campeão e meu ídolo morreu. Lembrei-me da primeira vez que comemorei um título do nosso time. Meu ídolo jogou, foi o principal responsável pela conquista. E eu tinha sete anos.

JFQ

Futebol, arte e os adjetivos da vida

“Arte, no futebol, nunca foi adjetivo.”

Sócrates Brasileiro

Glauber Piva 
O Sócrates foi um grande ídolo. Uma referência incontornável. Perdê-lo é ver esfumaçar o que dá substância aos nossos sonhos.
Mesmo palmeirense insistente, foi com Sócrates e Zico que aprendi a beleza do futebol. Foi com eles e alguns outros que percebi que futebol e arte compõem a mesma visão de mundo. É por isso que muitos dos que aprenderam a ver futebol no começo dos 80 preferem dizer que têm mais orgulho da seleção de 82, mesmo com a derrota, do que da de 94. O que difere uma da outra não é o título, mas os valores que o futebol de cada uma exibiu.
Mas Sócrates foi maior que todos os seus contemporâneos por ter tido a clara dimensão do que representava o futebol e do que ele próprio representava na árdua tarefa de fazer do Brasil um país melhor, mais inclusivo, justo, minimamente democrático.
Pelo que ele disse e fez, podemos afirmar que Futebol é arte por ser mais que um ambiente de competição: ele é um promotor de valores. Não é a quantidade de troféus que nos permitem gostar mais de alguns jogadores do que de outros, mas é a capacidade que cada um deles tem de nos afetar. E eles nos afetam pela maneira de jogar, de falar, de interagir com a torcida. Sócrates nos afetava!
Líder em campo, fez de sua preguiça um traço de elegância. Líder das massas, fez de seu punho cerrado uma senha de luta. Líder das ruas, fez de suas idéias os sonhos de muitos de nós.
A democracia corintiana nasceu de sua liderança e de seu futebol. Biro Biro não poderia ser o líder daquele sonho. Seu futebol não tinha arte, não tinha idéias. Sócrates, mais brasileiro que os ditadores, sabia que os calcanhares que exibia em campo fortaleceriam nossa luta grega, nossa conquista de Tróia, nossas “diretas já”.
Sócrates Brasileiro nos entregou, com arte, a certeza de que luta e alegria podem estar do mesmo lado do jogo, pois é a ética pública que garante o contorno da beleza democrática. É drible de corpo, é voto na urna, é comida na mesa, é estrela no peito, é bola no gol as coisas que valem. Tudo isso junto; tudo isso misturado.
Hoje, na sua despedida, nos cabe agradecer.
Obrigado, Doutor, por ter nos ensinado que a arte, no futebol e na vida, não pode ser adjetivo. 

* Glauber Piva é colaborador do Ludopédicas
Também postado em www.glauberpiva.blogspot.com

domingo, 4 de dezembro de 2011

Valeu, Sócrates!



Justo no dia em que o Corinthians pode se sagrar pentacampeão brasileiro, acordo com a notícia da morte de meu maior ídolo do Timão. O Doutor é caríssimo a muitos de minha geração, que nos deslumbramos com sua genialidade em campo e aprendemos com sua postura de cidadão, capaz de, em tempos adversos, propagar a democracia. Independentemente de como acabar o Brasileirão 2011, salve o Corinthians, salve a Democracia Corintiana, salve Sócrates Brasileiro! 

JFQ

domingo, 27 de novembro de 2011

Hoje, domingo


Acordou como se fosse um domingo qualquer e iniciou o ritual de sempre. Escovar os dentes, banhar-se, pentear o cabelo, vestir-se, tomar o café, engolir rapidamente o pão com manteiga ao mesmo tempo em que espia as manchetes do jornal. Quer dizer, com especialíssima atenção às notícias do caderno de esportes. Afinal, aos seus olhos e aos de outros milhões e milhões de pessoas, aquele não era um domingo qualquer.

Fingia tranquilidade ao passo em que a ansiedade tomava-lhe conta da alma. Não poderia falar disso a qualquer um, principalmente à esposa. Acharia tudo tão ridículo. Como pode acordar nervoso por causa de uma bobagem dessas!

Bobagem? Este domingo poderia ser decisivo, vitorioso, após um longo ano de batalhas ganhas e vacilos inexplicáveis. Um longo ano de lutas a culminar, quem sabe, em total felicidade justo neste domingo supostamente ordinário, idêntico a tantos outros. Tudo dependeria da famosa combinação de resultados; das nossas próprias forças e do que ocorresse em outro campo. Tão complexo! Tudo podia acontecer: da quase irrecuperável frustração à mais completa glória.

Lembrou-se do ano de 2007, da tristeza arrebatadora que acometeu a si e àqueles tantos e tantos milhões. Lembrou-se da volta e de tudo o mais que ocorrera até este dia de domingo. Sim, não era qualquer domingo. Era o domingo em que o ciclo estaria completo, em que todos veriam que o lugar a ser ocupado é o topo entre os primeiros, não entre os segundos.

Chegou o domingo. É hoje! É hoje? Façamos o nosso. E seja o que Deus quiser.

JFQ

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Péssima troca

Tostão


Um diferencial do Corinthians é o forte laço afetivo entre os torcedores e o time. Na adversidade, os jogadores crescem e viram a partida.

O comprometimento afetivo entre os atletas e Ricardo Gomes, sempre presente, é uma das virtudes do Vasco. Abel Braga é um técnico emotivo. Passa isso aos jogadores do Fluminense.

Não são importantes apenas a qualidade individual, coletiva, e as escalações e substituições dos treinadores. "Quem ganha e decide as partidas é a alma." (Nelson Rodrigues, com seu exagero e sem conhecer quase nada de detalhes técnicos e táticos, nos ensinou muito sobre futebol.)

Um profissional, em qualquer atividade, para fazer bem as coisas, é necessário, além de talento, ter prazer e envolvimento emocional no trabalho.

Como há tantos times no mesmo nível -os detalhes técnicos e os imprevistos colocam um mais à frente ou mais atrás-, não é fracasso um grande time ficar fora da Libertadores.

Se o campeonato começasse hoje, com os mesmos jogadores e treinadores, haveria, no fim, várias trocas de posições na tabela.

Se o Coritiba não tivesse perdido tantos pontos no início, quando só pensava na Copa do Brasil, teria hoje mais chances de conseguir vaga na Libertadores.

Já as possibilidades do Figueirense são grandes. Marcelo Oliveira e Jorginho fizeram excelentes trabalhos.
Muitos times jogam com dois jogadores pelos lados. Como é o esquema da moda, alguns técnicos colocam jogadores nessa posição, sem ter nenhuma característica para isso. É o caso de Wellington Paulista, no Cruzeiro, um típico centroavante.

Outras equipes atuam com três no meio-campo, um meia de ligação e dois atacantes. Há variações. No Fluminense, Marquinho marca no meio e avança como um atacante. Já no Flamengo, os três do meio-campo (Aírton, William e Renato) pouco se misturam com os três da frente (Deivid, Ronaldinho e Thiago Neves). Fica compartimentado, previsível e ineficiente.

Características comuns de todas as equipes são ter sempre zagueiros encostados na grande área -uma postura ultrapassada- e uma grande pressa para chegar ao gol, por meio de lançamentos longos de bolas aéreas. Há poucas trocas de passes. Não adianta também trocar passes se quem passa não avança para receber a bola.

Os times brasileiros jogam hoje como os europeus nos anos 1960, e eles, as principais equipes, atuam como no Brasil da mesma época.

Nessa troca, o Brasil levou uma grande desvantagem.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 23/11/2011.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Os oligarcas

Kenneth Maxwell
Na semana passada, o Manchester United mudou o nome da arquibancada norte do seu estádio, Old Trafford, para arquibancada "Sir Alex Ferguson". A área acomoda 25 mil torcedores e ganhou o novo nome para homenagear sir Alex por seus 25 anos como técnico do lendário clube.
Sir Alex já é um "freeman" da cidade de Glasgow, em sua Escócia natal, o que significa, diz ele, que caso venha um dia a ser preso por lá terá direito "a uma cela individual".
Há quem pense que o Manchester United também deveria ter batizado uma de suas arquibancadas em honra de sir Matt Busby, outro de seus duradouros técnicos (de 1945 a 1969). Mas não há muitos que considerem injusto o reconhecimento dado a sir Alex.
Os problemas do futebol inglês estão em outros quadrantes. O Manchester United é apenas um dos times da Premier League inglesa controlados por grandes companhias ou magnatas estrangeiros.
Sandro Rosell, inimigo dessa prática e presidente do Barcelona, clube que é propriedade de seus 180 mil sócios, declarou que "o Barcelona jamais será colocado à venda, em hipótese alguma". Mesmo assim, o time fechou contrato de patrocínio com o Qatar por prazo de cinco anos.
Desde 2005, o Manchester United é propriedade da família Glaser, dos EUA. No Manchester City, o principal acionista é o xeque Mansour, dos Emirados Árabes Unidos.
Americanos detêm interesses financeiros no Arsenal, no Liverpool, no Aston Villa e no Sunderland. O mais notório dos proprietários estrangeiros de futebol é Roman Abramovich, o russo que, em 2003, comprou o Chelsea Football Club, em Stamford Bridge.
Abramovich está envolvido em um importante processo no tribunal comercial de Fetter Lane, em Londres. Outro oligarca russo, Boris Berezovsky, abriu um processo privado quanto a transações com Abramovich envolvendo uma companhia petroleira russa. Ele quer indenização de US$ 5 bilhões e mais US$ 564 milhões em indenização por outra transação frustrada com Abramovich, envolvendo uma empresa russa de alumínio.
Berezovsky era um professor de matemática que abriu a primeira concessionária Mercedes da Rússia e fez fortuna na era pós-comunista de Boris Ieltsin, em que as opacas conexões entre dinheiro, política e poder importavam muito. Desentendeu-se com Vladimir Putin e recebeu asilo no Reino Unido, depois que foi revelado um complô da agência de espionagem russa para matá-lo. Recentemente, pagou mais de £ 100 milhões a sua ex-mulher, no maior acordo de divórcio de todos os tempos.
De Old Trafford para Stamford Bridge o caminho, com certeza, é longo. Mas serve como lembrete de que o dinheiro importa.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/11/2011.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Morre Ézio, ídolo do Fluminense



A história do Fluminense perdeu na noite desta quarta-feira um de seus principais personagens. Vítima de um câncer no pâncreas, Ézio Leal Moraes Filho, o Super Ézio, morreu após um período internado em um hospital em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Ídolo tricolor na década de 90, Ézio tinha 45 anos e, a pedido da família, será velado nesta quinta-feira, no salão nobre do estádio das Laranjeiras, de 9h às 15h.

Ézio se tornou um dos maiores artilheiros do Fluminense. Jogou pelo time das Laranjeiras de 1991 a 1995, marcando 118 gols em 236 jogos. É o oitavo maior goleador da história do clube e um dos maiores da história do Fla-Flu, com 12 gols. Antes da doença, o ex-atacante estava trabalhando como empresário de jogadores e também acumulava o cargo de vice-presidente do Yasmin, clube da Terceira Divisão do futebol carioca.

sábado, 5 de novembro de 2011

O melhor na arte prática do gol


Éder Menegassi

Uma das discussões mais calorosas no mundo futebolístico brasileiro hoje é a "disputa" entre Messi e Neymar, candidatos ao Prêmio Fifa Bola de Ouro. Não fosse pela legitimidade do debate democrático, dispensar qualquer atenção acreditando ingenuamente que o brasileiro é o melhor, seria uma grande perda de tempo. Dessa forma, nada impede de compararmos nosso jovem e brilhante atleta ao ícone do futebol de ponta da atualidade. Por nossa conta e risco, diga-se.
Essencialmente, repito, essencialmente, o que é o futebol? Homens tentado fazer e não sofrer gols. Esse é o jogo. Como estamos falando de dois jogadores aos quais o "fazer" foi incumbido, só nos cabe então analisar o modus operandi de ambos para alcançar esse objetivo. Neymar está mais para o típico driblador-pirofágico-mané-garrinchiano. Estilo que, por vezes, é muito eficiente e, com certeza, sempre vistoso. Messi é o tocador-pragmático-maradoniano. Tão eficiente e vistoso quanto o primeiro. E aí, qual a diferença? A praticidade, meus caros, a praticidade. Messi, que tem mais idade, é verdade, parece já ter adquirido a sabedoria daquele que entende a beleza nas coisas simples da vida. Mas, dirão os republicanos de chuteira e meião para além dos joelhos, você é contra o futebol arte! Ora, jamais. O fato é que há maneiras distintas de se fazer arte e cabe a cada um escolher aquele que mais lhe convence. Há escritores contistas e escritores romancistas. Qual o gênero mais aprazível a você? Pelo menos na Literatura, há um consenso de que o conto é um tanto mais complexo. Logo, o mais objetivo pode não ser o mais simples nem o mais fácil e, então, aos olhos mais atentos, pode ser o mais vistoso.
Mas eu gostaria de chamar atenção para um fator que me salta aos olhos: a fidelidade de Messi ao Barcelona. No futebol globalizado e mercadológico que temos hoje, é impensável que um jogador, salvo raras exceções, não tenha interesse em atuar por times que não o de coração. O argentino é taxativo ao ser questionado sobre uma possível transferência: não há a menor possibilidade. E, realmente, é inimaginável o camisa dez do Barça vestindo outra camisa. Ainda que talvez não tenha peso na votação, esse sim deveria ser um fator a ser levado em consideração, principalmente por se tratar do cara mais bem pago no futebol. Ou seja, ele tem valores, ele tem caráter.
Neymar, não se sabe se falsamente modesto ou verdadeiramente sincero, reconheceu a superioridade do suposto adversário. Mas, dirão os republicanos de chuteira e meião esticado para além do joelho, que tal fato não caracteriza a vitória de Messi, uma vez que a eleição é determinada por outros fatores e outros eleitores. Isso é verdade, ao que nada mais acrescento.

*Éder Menegassi, corinthiano, é colaborador do Ludopédicas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Titebilidade

Alunos fumam maconha no campus. Polícia mobiliza um batalhão inteiro, lança bombas de gás lacrimogênio e o escambau  para dar um “teje preso” nos maconheiros. Alunos formam uma horda pretensamente revolucionária para defender os companheiros, sobem nas viaturas, invadem o prédio da administração e escondem o rosto com camiseta, lembrando cena de rebelião de presídio. Mais uma vez. Um deles, mais empolgado, queima a bandeira do Brasil. Mas a polícia só quer o império da lei; o cacete é inevitável, alegam. Sim, estão preparados para lidar com a situação. Preparadíssimos! Da mesma forma que na retirada dos camelôs da feirinha da madrugada. Quem manda ser ilegal e, sem direito ao contraditório, posar de comerciante de produtos piratas e roubados?
Ex-presidente descobre estar doente. Na internet, pululam mensagens de apoio juntamente a destemperos e manifestações desumanas (inconfessáveis, não fosse o anonimato) pró-tumor, não pró-pessoa. “Devia ser internado pelo SUS!”; se é contra o Lula (até câncer?), é legal. Na TV, repórter é agredida por grupelho que, pela enésima vez (sempre com surpresa e violência), atrapalha o link ao vivo. Alguns acham legal; tudo que ferra a Globo é legal. Além do mais, humor agora é assim, punk, à moda Rafinha. Para outros: “cadê a polícia que não prende esses caras?”. Ah, tá na USP, tá no Bráz... Só não está na proteção da juíza, assassinada. Ou na dos gays que andam pela Paulista. Ou na do deputado carioca, forçado a se exilar, em pleno século XXI, para que não seja morto também. Por bandido ou, quem sabe, pela própria polícia.
E tomem gritos, xingamentos, acusações, bravatas. De um lado: “Tudo vândalo, terrorista, esquerdista de merda, revolucionários de meia pataca, lixo da história, corruptos todos: PT, PC do B, Venezuela, diretório acadêmico, presidenta (faxineira é o catso!), ex-presidente metalúrgico vagabundo!”. A resposta: “Elite de merda, direita de bosta, exploradores dos pobres, parasitas do dinheiro público, indignemo-nos contra todos esses corruptos: PSDB, DEM, EUA, reitor, banqueiros, mídia, governador mauricinho, ex-presidente neoliberal entreguista (virou maconheiro também?)!”.
Quer saber, concordo com o Tite. “Está faltando namorar!”. Eis o melhor remédio para os dias que correm. Levar o jogo da vida com mais titebilidade, mas sempre em busca da vitória. Falta pensar nas coisas com mais moderação, menos fígado. Para torcer apaixonadamente, serve o Timão.
JFQ

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dia das Crianças

Pelo dia das crianças, postei vídeo que fiz com meus sobrinhos em 2007. Eis o link: http://www.youtube.com/JFQuirino#p/a/u/0/E43B4WPEBbw

Melhor que associar futebol a cartolagem, dinheiro ou grandes eventos é associá-lo a brincadeira e a criança.

Feliz dia a todas!

JFQ

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A Copa do Mundo é Nossa?

Com o título "A Copa do Mundo é Nossa?", Juca Kfouri assina artigo publicado na edição de outubro da Revista Interesse Nacional, em discute o mundial de 2014, a ser disputado no Brasil, para muito além das quatro linhas.

Dane-se a seleção

Lúcio Ribeiro


Cada qual com sua agenda, eu e o Pelé estivemos em Porto Alegre sexta passada. Mesmo dia em que a seleção do Mano, depois de atropelar a Argentina que não é a Argentina com seu time que não é o Brasil, suou para ganhar da tradição-zero Costa Rica. Repare como eu falo "seleção do Mano".

Porto Alegre, para variar, vive seu disputado GreNal de todos os dias. Agora estão travando o clássico dos estádios. Qual vai ficar pronto primeiro? O do Inter, com a obra mais embaçada, é o da Copa, a princípio. Por isso trouxeram até o Pelé para ajudar no bastidor de assinatura de contrato com construtora. O do Grêmio, aparentemente mais acelerado, corre por fora, na execução da obra e no lobby.

Dá para acompanhar a evolução da "Grêmio Arena" no site do clube, www.gremio.net. O endereço virtual tem ".net" e não ".com" por causa do rival Inter. Inter-Net. Ok?

Até quando o assunto é seleção, os rivais gaúchos "brigam". Não por causa dela, mas deles mesmos. Com a "seleção do Mano" não estão nem aí.

O colorado Leandro Damião virou orgulho nacional com a amarelinha depois de dar lambreta em argentino. Dois jogos depois, desapareceu dos campos, estourado por não aguentar a combinação "jogos da reta final do Brasileiro" mais "amistosos lado B da seleção". O Inter luta pela vaga na Libertadores sem seu principal jogador. Os gremistas sorriem. Os colorados culpam a CBF.

Daí o Grêmio vai e iça à categoria de ídolo o lateral Mário Fernandes, que disse "não" ao chamado para a seleção, alegando "motivos pessoais". A torcida gremista entendeu "motivos pessoais" como "prefiro o Grêmio" e passou a idolatrar o garoto, até com bandeira própria.

Sempre gostei de futebol e, claro, admiro a seleção. Mas desde que ela não mexa com meu time. Sou daqueles que, se o clube para o qual torço jogasse contra a seleção dez vezes, eu torceria por dez massacres do meu time. Achei que isso era "coisa de paulista".

Recentemente, teve o caso do Marcelo do Real Madrid e o e-mail errado, que no fim refletia que ele preferiu ficar treinando no time espanhol em vez de servir à seleção. E o Rogério Ceni, que, perguntado se via a seleção na Copa América, respondeu que não, porque a seleção dele tinha três cores e não disputava Copa América.

A pouco mais de dois anos da Copa no Brasil, os clubes olham para a Copa, não para a seleção. Os torcedores olham o Brasileiro, não a seleção. Os jogadores olham a si mesmos, não à seleção.

E aí, você? Animado pelo "jogaço" desta noite no México?

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/10/2011.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Uma seleção que prejudica os clubes

Luiz Zanin


O Santos, em situação complicada na tabela, vai ficar sem Neymar para enfrentar Grêmio e Palmeiras. Por quê? Porque o rapaz vai servir à seleção nos amistosos contra Costa Rica e México. Outros jogadores desfalcarão seus times nesta fase de definição do Campeonato Brasileiro

Ninguém, em sã consciência, tira a razão de Mano Menezes quando ele diz que cada um tem seus problemas e ele tem os seus. Precisa preparar uma equipe para 2014 e tem de contar com os jogadores que julga os melhores. Neymar é peça-chave do seu hipotético time, assim como Ganso, quando se recuperar, Lucas e poucos outros que ainda atuam no Brasil. Nada a contestar.

Mas tudo a contestar quanto ao calendário, que não permite a paralisação do Campeonato Brasileiro a cada vez que a seleção desfalca os clubes. O técnico Dorival Jr., do Internacional de Porto Alegre, classificou de "estúpidos" os amistosos da seleção, pensando na sobrecarga ao seu jogador Oscar. Este, como Neymar, também suporta o honroso fardo de haver servido à seleção sub-20. É muita coisa, mesmo para jovens.

Afinal, se a seleção, ou as seleções, são importantes, muito mais o são os clubes. São eles que, contra toda a lógica econômica, têm conseguido manter no Brasil jogadores cobiçados na Europa. São eles que pagam salários exorbitantes, completamente irreais. São eles que montam complicadas engenharias financeiras para satisfazer ao craque, ao pai do craque, ao empresário e aos proprietários das várias fatias em que o boleiro se divide, com os "parceiros" e investidores, sócios nos direitos econômicos do astro. Todos ávidos de lucro imediato e de maneira alguma preocupados com essa abstração a que chamamos "qualidade do futebol brasileiro".

Ora, a tal da qualidade não é mesmo assunto dessa gente. O negócio deles é grana, ponto final e não se fala mais nisso. Qualidade é assunto nosso, da torcida, dos cronistas, dos apreciadores; enfim, de todos aqueles que visam apenas a um lucro com o futebol - o prazer de vê-lo bem jogado.

Se o mundo fosse justo, deveria ser também uma preocupação da CBF, sigla que designa uma confederação de futebol, e que deveria zelar não apenas pela seleção, mas pelo nível do jogo praticado no País. Isso em todos as instâncias, suponho: da melhoria de qualidade dos gramados e da arbitragem até o estímulo à permanência de jovens talentos no País. Melhorando o jogo melhoraria tudo para todo mundo - até mesmo para aqueles que veem no futebol apenas um ótimo investimento. Talvez demorassem um pouco mais para lucrar, mas, no final das contas, lucrariam mais. Interessaria também à TV que, com melhores espetáculos, teria mais facilidade para vendê-los no próprio país e no exterior.

Ora, não é penalizando os clubes que se estimula a melhoria do futebol no Brasil. Afinal, são os clubes que revelam vocações, são eles que funcionam como vitrine a partir da qual esses talentos são expostos, conhecidos e reconhecidos, inclusive no exterior. São os clubes que mantêm, no dia a dia, viva a paixão brasileira pelo futebol - que, afinal, é o fundamento real de tudo. Fundamento, inclusive, dos lucros extraordinários de que todos, salvo os torcedores, usufruem.

Não há nenhuma possibilidade de se contemplar as exigências da seleção sem prejudicar os clubes senão alterando o calendário do futebol brasileiro. Sei o quanto isso é polêmico. Implicaria, talvez, enxugar os campeonatos estaduais, ou mesmo mudar as datas de início e fim do Campeonato Brasileiro. Talvez mexer com datas da Libertadores e da Sul-Americana, o que exigiria negociações com a Conmebol. Enfim, são problemas a serem debatidos e não ignorados e jogados para debaixo do tapete, como têm sido até agora.

* Publicado em O Estado de S.Paulo, 04/10/2011.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A calça vermelha

Xico Sá

Amigo torcedor, amigo secador, o que é futebol diante de uma mulher de calça vermelha? Antes que você arrisque uma resposta clubística, digo: nada. Antes que você, corintiano, se arvore e pense na redenção do Adriano, que eu muito aprovo, corto pela raiz, desculpa: zero. Sim, são-paulino, sei que é importante a volta sebastianística do Fabuloso. Santista do coração, a gente nem carece mais falar de bola este ano.

Palmeirense amada, aqui me dirijo só a elas, com mordaça ou com burca, censura não leva a nada. Só ilude. Como se o cala-boca pudesse ser a resposta em momentos de perguntas.

Não se iluda, o que é a catimba argentina diante de uma mulher de calça vermelha? Linda. E o sorriso, queria que você visse. Incrível. Foi no segundo tempo. Foi um piscar de olhos antes do gol do Lucas contra os caras.

Sei, camarada João Valadares, senhor Samarone Lima, sei que o que importa é o jogo do Santa Cruz contra o Cururipe, justo no lugar onde os caetés canibalizaram lindamente o bispo Sardinha. O jogo de domingo à tarde, querido dom Sebastião, o da volta à glória possível.

Tenho ciência de tudo isso, mas, quando Lucas partiu com a bola, não me interessava saber que era uma arrancada de beisebol, qual o quê, foi linda, mas nada se compara à partida da mulher de calça vermelha.

Tudo bem, você se liga no jogo, no esquema tático, mas que tal prestar mais atenção na cor das vestes das moças? Independentemente de clubes. Que tal preferir uma lingerie a uma pelada de fato?

Simples sugestão, meu querido. Evidentemente por causa da moça da calça vermelha. No segundo tempo do jogo Brasil x Argentina, arrancava o Lucas, repito o gol, ela passava de lado. Adivinhe em que eu prestei atenção, amigo?

Ah, gol a gente vê a qualquer hora. O videoteipe de futebol é o aquário dos homens na madruga. A gente fica vendo qualquer coisa, chega no hotel ou em casa, liga a tevê como quem mira Rumble Fish ou como quem apenas assiste a uma reprise gelada de Flamengo e algum outro.

Assim é a vida, amigo, nada diante de uma moça de calça vermelha no segundo tempo. Estou falando de quem ainda presta atenção nessas coisas. Arranca o Lucas, ela passa como quem abstrai, lindamente, a ideia de pátria em chuteiras. Mercearia São Pedro, Vila Madalena, SP, anteontem como se fosse o meu dia de são nunca. A moça de calça vermelha.

@xicosa
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 30/09/2011. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Por que torço pela seleção

Daniel Piza


Toda vez que no período mais intenso do Brasileirão tem jogo sem muita importância da seleção, mesmo que seja o embate de hoje à noite contra a mega-rival Argentina, é comum ouvir o lamento de que o torcedor não está nem aí para a canarinho, “só quer saber mesmo é do seu clube”. É difícil não partilhar certo desinteresse quando se tem em vista que no próximo fim de semana há uma rodada com confrontos, entre outros, de Vasco e Corinthians, primeiro e terceiro colocados, e de São Paulo e Flamengo, segundo e sexto. A expectativa enche o ar de frisson, quase como se fossem decisões, e põe em segundo plano um amistoso com pinta de caça-níqueis.

Diego Souza vai confirmar a grande fase e confirmar a sensação de que o Vasco está jogando o futebol mais convincente neste terço final do calendário? Seu terceiro gol contra o Cruzeiro não foi bonito apenas pelo chapéu no goleiro, mas também pela maneira como dominou de peito o passe de Juninho Pernambucano (que pode ser o maestro dessa marcha vascaína para o título), já lançando a bola à frente, longe do alcance do zagueiro, e também pela conclusão rápida de cabeça. Diego é de fases, mas, atuando como segundo atacante numa equipe com armadores experientes e alguns velocistas, essa fase pode se estender até dezembro. O Vasco é o time brasileiro menos dividido entre volantes que só desmarcam e meias que não marcam; e isso libera Diego para seu melhor.

Como venho dizendo desde agosto, Vasco e São Paulo têm os elencos mais completos, coesos, e por isso tendiam mesmo a desbancar Corinthians e Flamengo, antes se alternando na liderança. O Flamengo depende mais de Ronaldinho do que o Vasco de Diego, sobretudo depois que Thiago Neves caiu de produção, e aos poucos essa realidade ficou clara. O Corinthians ainda está na vice-liderança, mas até o fiel mais fanático sabe que o time tem poucas opções táticas, sobretudo na criação de jogadas, e que faltam jogadores que resolvam situações com um lance individual; mesmo Liédson, espertíssimo dentro da área, só trabalha com bola recebida ali.

O São Paulo demorou a acertar a defesa e ainda sofre com a falta de goleador, por mais que Dagoberto viesse em grande fase. No domingo, no empate emocionante com o Botafogo, muito se elogiou a mudança que o técnico Adílson Batista fez no intervalo, mas pouco se falou no erro da escalação inicial, com apenas um jogador de “vertical”, Lucas. Rivaldo é ótimo recurso para o segundo tempo, mas, com a volta de Dagoberto, a estréia de Luís Fabiano e a consolidação de um bom setor de meio-campo, em torno de Casemiro, há potencial para um estilo mais eficiente, de um padrão mais claro e afirmativo.

No entanto, embora não veja quase nenhuma relevância em jogos como o de hoje, não sou desse tipo que vê a seleção nacional como um estorvo no cronograma, uma imposição que atrapalha a paixão por nossos times de infância. Pode ver que, no fundo, essas críticas são de pessoas que são ainda mais nacionalistas do que aquelas que acham que torcer pela seleção é defender a pátria, a honra brasileira, pois repetem isso desde que a maioria de seu elenco passou a ser composta por jogadores que atuam no exterior e ganham fortunas. Não concordo com nenhuma das duas posturas.

Algum senso de pertencimento à parte (sou brasileiro e, como tal, fico feliz que minha nacionalidade seja associada a nomes como Pelé e seu “beautiful game”, não apenas a miséria, violência e vulgaridade), o que me interessa na seleção é que seja… um selecionado, uma combinação do que o futebol brasileiro tem de melhor. Se não fosse por ela, não teríamos visto Zico, Falcão e Sócrates do mesmo lado, ou Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Se não fosse por ela, não veríamos Neymar e Ronaldinho no mesmo time, apenas em times adversários. Ou seja, não veríamos o encontro de duas gerações de fantasistas, de jogadores que com sua plasticidade entortam os adversários, quer sejam eles argentinos quer japoneses. Enquanto essa possibilidade existir, vou estar diante da TV, torcendo pela seleção.

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 28/09/11 e no blog: http://busk.com/deck/por-que-torccedilo-pela-seleccedilatildeo?q=hoje 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O calcanhar de Sócrates

Fernando de Barros e Silva


"Muito alto e de pés pequenos, com dificuldade para virar rapidamente em direções opostas, ele deu uma dimensão inesperada ao passe de calcanhar, que explorava em condições inimagináveis, incluindo lançamentos longos -como se fosse um Curupira adulto e esclarecido, capaz de investir de um sentido positivo o ponto fraco de Aquiles". Talvez essas sejam as palavras mais inspiradas e certeiras para descrever o que distinguia o gênio de Sócrates em campo.

José Miguel Wisnik, seu autor, diz ainda em "Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil" que nunca sabíamos bem "o que esperar daquele genial gafanhoto ambulante que não parecia ostentar o inteiro domínio da sua disposição física".

O próprio Sócrates, em entrevista reunida no livro "Recados da Bola", do jornalista Jorge Vasconcellos, conta que desenvolveu o passe de calcanhar ainda jovem, diante da necessidade de se desfazer rapidamente da bola, antes do contato físico com o adversário, que seu corpo esguio não suportava. "O sapo não pula por boniteza, mas por precisão", dizia Guimarães Rosa.

Ainda sob o regime militar, Sócrates foi mentor e líder da Democracia Corintiana, uma experiência adulta e avançada no ambiente em geral infantilizado e até hoje arcaico e autoritário do futebol. No auge dos anos 80, passava semanas sem falar com a Rede Globo e se dava o direito de reagir com indiferença aos próprios gols, em protesto contra atos hostis da torcida.

Antiatleta com nome de filósofo -e Brasileiro como Tom Jobim-, Doutor Sócrates foi o capitão da seleção de Telê Santana em 1982, segundo ele "o grande time" em que jogou na vida, capaz da proeza de vencer perdendo, como a Hungria de 1954 ou a Holanda de 1974.

O drama decorrente do alcoolismo que ele enfrenta agora o coloca na posição de um Garrincha moderno, ou de um Garrincha esclarecido: desconfiado do sucesso, despreparado para a solidão, outsider como Mané, gauche na vida.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 11 de setembro de 2011.

Do "pum"

Antonio Prata

Passei segunda-feira escrevendo a crônica que deveria ocupar este espaço. Era seriíssima, sobre a morte, tinha arroubos de lirismo e aspirava mesmo a alguma profundidade. Após terminá-la, resolvi perambular pela internet, para dar uma espairecida. Qual não foi meu assombro ao ler, na página do UOL, a seguinte manchete: "'Pum' foi lamentável, mas não fez Fla perder, afirma Luxemburgo".

Minha primeira reação, após o susto, foi a descrença. Não entendo muito de futebol. Talvez "pum" fossem as iniciais de uma regra -"Pontos Unificados da Média"?-, que prejudicara o Flamengo, na tabela. Quem sabe, "Pum" seria uma torcida organizada -"Palmeirenses Universitários de Mucuri"?-, acusada de atirar pedras no ônibus rubro-negro, a caminho de tal partida. Cheguei a pensar que "pum", sempre entre aspas, na matéria, pudesse ser uma jogada nova, importada da Inglaterra, espécie de paradinha, proibida pela FIFA. Imaginei o atacante do time adversário praticando um "pum" desleal e marcando o gol da vitória.

Ao clicar na manchete, contudo, descobri que pum era pum mesmo - e meu coração bateu forte, como o de uma criança ouvindo pela primeira vez um palavrão sair da boca de um adulto.

A matéria começava assim: "O técnico Vanderlei Luxemburgo negou que o "pum" que um jogador (ainda não identificado) soltou durante sua preleção tenha sido um dos causadores da derrota por 3 a 1 para o Bahia, no último domingo". Ainda segundo o texto, Luxa teria ficado possesso com o riso desencadeado pelo traque e abandonado o vestiário. No dia seguinte, o Flamengo perdeu o jogo.

Queria parabenizar o UOL pelo pioneirismo. Salvo engano, é a primeira vez que um pum vira manchete, e eis aí um fato da maior importância. Afinal, se a flatulência causou tal estrago numa preleção, que desconfortos, desentendimentos e tragédias não terá acarretado, ao longo da história?

Imaginem um pum no plenário da ONU. Nas prévias eleitorais. Em negociações entre patrões e empregados. Terá o pum sido utilizado em interrogatórios? Haverá a CIA criado a simulação de pum, assim como inventou a terrível simulação de afogamento? Sem falar no perigosíssimo pum medieval, época em que reinos sustentavam-se sobre casamentos arranjados e alimentos pútridos.

Se nada sabemos sobre esses acontecimentos é porque, durante o século 20, a história esteve sequestrada pelo viés econômico. Nem a escola dos "Annales" -sem trocadilho, por favor-, com sua abertura metodológica, chegou a levar o pum a sério. E, no entanto, como provam a matéria do UOL e a experiência cotidiana, o homem não é governado somente por desejos materiais e conflitos políticos: move-se também por impulsos mais etéreos e -com trocadilho, por favor- intestinos.

Podemos tentar fugir de nossa pequenez construindo foguetes, fazendo abdominais ou escrevendo crônicas sobre a morte, com arroubos de lirismo e profundas aspirações, mas no fim das contas -e era isso que eu queria dizer em meu texto anterior, quando fui interrompido pelo anônimo traque, assim como Luxemburgo, na preleção-, não somos mais do que uns risíveis primatas que nascem, crescem, morrem e, neste ínterim, soltam uns puns por aí.


@antonioprata
Blog 'Crônica e Outras Milongas'
antonioprata.folha.blog.uol.com.br
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 7 de setembro de 2011.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Bellini e a menina

Ruy Castro


Em julho de 1958, uma menina de 10 anos, sofrendo de poliomielite desde bebê, fez sua primeira cirurgia na perna. Enquanto convalescia, montou um álbum de recortes sobre seu ídolo, o homem mais bonito do Brasil, o xodó de todas as mulheres, crianças e até avós: Bellini, zagueiro do Vasco e capitão da seleção brasileira recém-campeã do mundo na Suécia. Certo dia, a porta da casa onde ela morava com sua família no Leblon se abriu, e uma visita de surpresa disse: "Boa-noite". Era Bellini.

Como? Simples. Alguém que conhecia alguém que conhecia Bellini falou-lhe da menina. Bellini tinha 28 anos e não chegava para as encomendas. Quando não estava treinando ou jogando pelo Vasco, tinha de viajar com a Copa do Mundo pelo país e levantar o caneco em festas e banquetes. Mas ele achou tempo para ver a garota, que ficou muda de emoção enquanto ele lhe contava histórias da Suécia.

Dois anos depois, em 1960, a menina encontrou Bellini na rua, em Copacabana. Ele a reconheceu e ela lhe disse que, no dia seguinte, iria fazer sua segunda (e última) cirurgia. Bellini se interessou. Dali a dias, ligou para o hospital para perguntar como estava. Ao saber que brevemente ela iria para casa, deu um tempinho e foi visitá-la de novo, desta vez levando bombons. Era assim que ele era.

Passaram-se anos. Celia se tornou a violonista, arranjadora e maestrina Celia Vaz, uma das musicistas mais completas do Brasil e com sólida reputação no Japão, na Europa e nos EUA, muito maior do que em seu país.

Sábado último, após intermediação de amigos, Celia foi a São Paulo para encontrar Bellini e sua esposa Giselda, dar-lhe um beijo e retribuir os bombons. O intervalo de mais de 50 anos -o próprio Bellini tem hoje 81- não impediu que a emoção desandasse e as lágrimas de todos descessem pelos rostos e sobre o estojo da Kopenhagen.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/08/2011.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Gente humilde

José Roberto Torero


Abastada leitora, abestado leitor, alguns dias atrás resolvi fazer um programa de rico.

Não, não fui passar o fim de semana em Paris, nem passear de iate entre as ilhas de Angra.

É que, como estava em Curitiba, resolvi assistir ao jogo entre Atlético-PR e Corinthians e, para meu azar, só havia o mais caro dos ingressos, que custava a bagatela de R$ 150.

Então, já que teria que quebrar meu porquinho, resolvi fazer a festa completa. Fui e voltei de táxi, almocei na excelente churrascaria que fica dentro do estádio e comprei uma camisa na loja oficial. No total gastei mais de R$ 400. Quatrocentos!

Ainda não conhecia a Arena da Baixada e fiquei surpreso. É realmente o melhor estádio do Brasil.

Acomodações confortáveis, boa visão de campo e uma infraestrutura excelente.

Quantos aos torcedores endinheirados de meu camarote, devo dizer em sua defesa que vibram a contento. Aquela ideia de que só os fiéis de baixa renda têm amor real pela sua equipe é um preconceito tolo. Rico também tem coração. E de vez em quando o usa.

Pois bem, pensando em números, vi que minha cadeira estofada custava o mesmo preço de uns cinco assentos nas arquibancadas. Ou seja, o clube ganhava com a minha presença, o mesmo que com cinco torcedores normais. Mas tinha um gasto cinco vezes menor.

Quando comecei a frequentar estádios, ainda existia a geral, que hoje custaria algo como R$ 10. Você ficava de pé e a visão era muito ruim, mas qualquer pé-rapado podia ver o jogo. Porém, atualmente, não existem mais gerais. A elitização do torcedor de futebol é um fato. E nada indica que vá diminuir. Pelo contrário, a classe média invadiu os estádios. E a alta está chegando.

Por conta disso, creio que, se Chico e Vinícius escrevessem hoje os versos alexandrinos de "Gente Humilde", talvez eles fossem assim:

"Tem certos dias em que eu penso em minha gente/ E sinto assim todo o meu peito se apertar/ Porque me lembro num susto, bem de repente,/ Que eles não têm um camarote pra sentar./ Penso nisso quando eu passo no subúrbio,/ Eu muito bem, vindo de táxi ou avião/ E aí me dá como uma pena dessa gente/ Que vê o jogo narrado pelo Galvão./ São casas simples com cadeiras na calçada,/ E na estante uma TV sem pay-per-view/ Pela varanda flores tristes e baldias/ Como o torcedor que mais um jogo não viu./ E aí me dá uma tristeza no meu peito/ Feito um despeito de eu não ter como lutar/ O futebol abandonou a minha gente/ É gente humilde que nem pode mais gritar."

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/08/2011.

A fase anal do poder

Xico Sá


Amigo torcedor, amigo secador, na minha mania de Freud de botequim, refletia, com os cavalheiros da távola redonda, ainda sobre essa história, repetida ad nauseam, da oratória suja do senhor Ricardo Teixeira, o tutacamon da CBF.

Isso mesmo. Recapitulávamos a oralidade do mandatário, especialmente o episódio do "montão" de dejeto humano que diz despejar sobre a cabeça dos jornalistas que teimam em revelar o óbvio sobre o seu mandato perpétuo.

Não seria, amigo, manifesta confissão de quem não conseguiu ultrapassar a tal fase anal, a que se passa ali entre os dois e os quatro anos de idade?

A diferença, recorrendo à sabedoria do Dr. Sigmund, é que, no caso do cartola, talvez haja noção clara e consciente da sujeira que se pratica dentro de casa. Não existe, porém, a menor possibilidade de evolução para distinguir o sujo do mal-lavado, principalmente quando o assunto é dinheiro.

No pobre diagnóstico de boteco, também concluímos que o apego do dirigente à sujeira evita o famoso "tchau" que o pirralho dá às fezes durante a citada fase freudiana. A pequena criatura se orgulha de fazer cocô no lugar certo, mas se despede da sujeira.

Com o mandatário do futebol verde e amarelo, o desejo manifesto, a tomar pela sua oralidade, é emporcalhar os supostos adversários, como a imprensa que se rebela diante dos seus podres.

Dá para viajar um montão na leitura, com toda licença aos profissionais do divã, da fala ricardiana. Provavelmente outras interpretações bem mais humoradas e inteligentes aparecerão amanhã à tarde na avenida Paulista, local da marcha "Fora Ricardo Teixeira".

Uma coisa que não tem faltado a essa rapaziada que protesta nas ruas é juntar humor e política. Talvez acreditando no velho ditado latim "Ridendo castigat mores", ou seja, rindo corrigimos os costumes.

Tomara que a frase, citada de "O Carapuceiro" -jornal recifense da primeira metade do século XIX- ao grande esculhambador-geral José Simão, faça todo o sentido do mundo nos próximos meses. Só, assim, quem sabe, o alvo da passeata perca a sua garantia até a próxima Copa.

Sonha, meu filho, sonha, como dizia minha santa mãezinha dona Maria do Socorro. Sonha, meu filho, pois sonhar ainda é de graça aqui na serra do Araripe. Motivo é o que não falta para ir às ruas, ainda a mais eficiente das redes sociais da humanidade, e dizer um montão para o cara.

@xicosa
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/08/2011.