segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Estupidez coletiva

Paulo Vinicius Coelho


Há três semanas, um executivo do canal esportivo italiano Mediaset telefonou. Perguntou se eram verdadeiros os boatos que escutava na Itália de que o Brasileirão voltaria a ser disputado em mata-mata. Ao ouvir que essa possibilidade era remota, informou: "Se é assim, a Mediaset vai comprar os direitos do Brasileirão".

A estabilidade do futebol brasileiro nos últimos sete anos produz o interesse internacional. É ela também a responsável pela negociação dos direitos de TV partir de uma proposta mínima de R$ 500 milhões. Há 15 anos, a TV pagava R$ 10,6 milhões para transmitir o Brasileirão. Hoje, pode, ou poderia, pagar perto de R$ 1 bilhão.

Andres Sanchez, Patrícia Amorim, Peter Siemsen, Maurício Assumpção e o vice de futebol do Vasco, José Hamilton Mandarino -quem manda no clube é ele-, puseram tudo a perder. Ninguém discute o direito de desafiar a forma de poder do C13. A pergunta é: por que fazer isso na semana do lançamento da licitação para o novo contrato de TV?

Como a Globo teria vantagem de 10% na concorrência, a Record teria de fazer um lance mínimo de R$ 600 milhões para ganhar. A expectativa era que a emissora paulista propusesse mais de R$ 700 milhões. A dúvida é se os executivos continuam dispostos a pagar tudo isso após a incerteza gerada pela crise.

O ponto central não é quem vai ganhar, Globo ou Record. A melhor proposta poderia ser da Globo, mesmo que a Record pagasse mais. Mas tudo isso deveria ser discutido em conjunto. Nesse caso, o novo contrato poderia dar aos clubes dinheiro para diminuir o abismo financeiro para a Europa. Mais dinheiro, mais craques, menos êxodo, melhor campeonato, mais interesse de torcida e patrocinadores.

No futuro, é evidente que Corinthians e Flamengo poderão receber mais negociando sozinhos. Mas a crise faz despencar seus preços.

Com Fluminense e Botafogo, é pior. Hoje, a dupla arrecada R$ 23 milhões por ano. Como é certo que a proposta mínima será de R$ 600 milhões, saltam para R$ 40 milhões anuais só na TV aberta. Sozinhos, arrecadariam menos.

Se Corinthians e Flamengo fechassem o contrato em conjunto com o C13 agora e anunciassem, em agosto, que negociarão sozinhos na próxima vez, veriam um leilão por seus jogos nos próximos três anos. Aí, sim, ganhariam mais.

Hoje, na Mediaset, o comentário é outro. Se o Brasil não consegue consenso para organizar sua Série A, como fará para promover a Copa?

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 27/02/2011.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Globo e Hugo Chavez, tudo a ver

Qual a semelhança entre a Rede Globo e o presidente venezuelano Hugo Chavez? Neste momento, consigo ver duas: a vontade de ocultar a realidade quando esta fere seus interesses e de agir de todas as formas para anular seus concorrentes.

A última do regime bolivariano (esquerdas de todo o mundo, uni-vos para pular deste barco furado) foi enviar “jornalistas” a Trípoli para mostrar, via Telesur, a rede oficial da Venezuela, que a normalidade impera na Líbia. Sim, aquele mesmo país que todos os demais meios de comunicação do mundo revelam estar à beira da guerra civil, cujo presidente, um ditador detestável, está no poder há mais de quarenta anos, que ordenou às suas forças de segurança que abrissem fogo contra a multidão revoltosa (há quem fale em mais de mil mortos) e que mantem com o “socialista” Chavez bons laços de amizade. Não nos surpreendamos se Gaddafi, caso não “morra como mártir”, venha curtir seu exílio no nosso vizinho de cima.

A Globo, por sua vez, não noticia com a relevância merecida o caso do esfacelamento do Clube dos 13. A emissora da venus platinada resolveu que a saída em massa de clubes da organização – o Corinthians puxando a fila – não é um fato jornalisticamente relevante e, pior, não lhe diz respeito. Ou, quem sabe, finge que o fato é irrelevante justamente porque lhe diz respeito. E como! O irônico é que a mesma Globo promoveu uma (quase) total ocultação da cobertura do Mundial da FIFA em 2000, ganho justamente pelo Corinthians, já que os direitos de transmissão daquele torneio ficaram nas mãos da Bandeirantes. Jornalismo, jornalismo, negócios à parte... e acima. Na briga atual, a Globo corre o risco de perder seu monopólio eterno na transmissão de futebol ou de pagar muito mais caro por isso. Para se ter uma ideia, hoje a emissora desembolsa R$ 400 milhões por ano ao Clube dos 13 para TV aberta, TV fechada, paper-view, internet e placas de publicidade. Se vingasse a concorrência a ser promovida pelo C13, para o Brasileirão de 2012 a 2014, a proposta mínima somente para TV aberta seria de R$ 500 milhões! Em tese, seria um aumento substancial de recursos aos clubes. Em contrapartida, um dispêndio bem maior à Globo, que sofreria a concorrência da Record e da RedeTV! Detalhe: sob o pretexto de ser uma emissora que oferece maior exposição às marcas, para vencer a concorrência, a Globo poderia ofertar um preço 10% maior que a da menor proposta. Mas, nem assim...

A propósito, me lembrei de uma outra semelhança entre Globo e Chavez: a disposição em se associar a líderes que não conseguem largar do poder. Chego a sonhar (maldito pendor utópico!) com os torcedores brasileiros, a exemplo de tunisianos, egípcios e líbios, derrubando Ricardo Teixeira. Pelo sim, pelo não, vou já ao Facebook.  

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Em tempo: Juca Kfouri, sua coluna da Folha, em 24/02/11, escreveu o seguinte a respeito do racha no Clube dos 13 (“A implosão”):

O racha se dá porque os que saíram não querem saber de mudanças e preferem a Globo. Eu, aliás, também preferiria, ainda mais que o dinheiro da Record é uma forma de concorrência desleal, porque da Iurd [Igreja Universal do Reino de Deus].”

Pois é. Pode ser que o monopólio da Globo não seja o único senão da sexagenária TV brasileira. É o clássico “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

JFQ

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mais um empate em casa



Libertadores 2011Fluminense 0x0 Nacional-URU

O Fluminense penou contra o Nacional de Montevidéu, ontem, no Engenhão. Com desfalques importantes (Fred, Emerson, Deco) e sem jogadores de qualidade para reposição, o Flu tentou de todas as formas furar a zaga uruguaia. Em vão.

O técnico Muricy Ramalho escolheu uma formação inicial que privilegiava a proteção da defesa e a supremacia no meio-campo. Em compensação, com Araújo, Tartá e Souza no banco, o tricolor carioca perdeu em velocidade.

O time começou com um 3-5-2 que pressupunha o acionamento constante dos laterais (no caso, alas). O problema é que Carlinhos não estava bem – foi, inclusive, hostilizado pela própria torcida durante boa parte do jogo – e Mariano só conseguiu se soltar no segundo tempo. Quando o fez, foi o melhor jogador da partida.

No primeiro tempo, o Flu tinha mais volume de jogo, mas oferecia pouco – ou nenhum – perigo à meta do goleiro Burian. A partir do meio-campo, a bola era sempre levada pelos pés pouco criativos de Diguinho e Valência. Conca, vindo de cirurgia, estava claramente à busca de um melhor ritmo de jogo.

Dos três zagueiros, Gum e Leandro Eusébio permaneceram mais plantados atrás, restando a Digão algumas subidas esporádicas à frente. No ataque, Rafael Moura ficou muito isolado e Marquinhos pouco fez na nova função como um segundo atacante.

Tanto o goleiro do Fluminense, Ricardo Berna, como o do Nacional, Burian, pouco trabalharam no primeiro tempo. Aos poucos, o time uruguaio foi se soltando nos contraataques. Mas não soube se aproveitar de mais um mal dia da equipe carioca e de certo desespero em resolver a partida, já que estava em casa.

No segundo tempo o Fluminense melhorou. Com a entrada de Tartá no lugar de Valência, o time de Muricy ganhou em movimentação. A bola passou a chegar mais a Rafael Moura. O lateral direito Mariano passou a apoiar com perigo.

Aos 26 minutos, porém, veio o susto: o atacante do Nacional, Garcia, aproveitando-se de um contra-ataque, passou por toda a zaga do Flu, mas perdeu o gol “feito”.

Aos 27, Muricy colocou Araújo no lugar de Digão. Além de mudar esquema tático, voltando à formação com 2 zagueiros, o Flu ficou com 3 atacantes: Araújo pela esquerda, Tartá pela direita e Rafael “He Man” Moura como centroavante. O tricolor aumentou a pressão, utilizando-se mais os lados do campo. Praticamente todo o restante da partida se deu na intermediária do Nacional.

Aos 35, veio a última substituição: Souza no lugar de Marquinho. A pressão continuou, mas sem finalizações precisas. O 0 a 0 deixou o Fluminense com apenas dois pontos na classificação do grupo, em dois jogos em casa. Agora, pega o América, do México, fora.

Destaque para mais uma boa arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla.

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Vitória do Internacional


Jogando no Beira-Rio, o Colorado passou pelo Jaguares, do México, por 4 a 0. O nome do jogo foi o volante argentino Mario Bolatti, que marcou dois gols. Além dele, Leandro Damião e o campeão sub-20 Oscar marcaram.

O time gaúcho não contou com D’Alessandro, contundido.

JFQ

Levante contra a FIFA

John Carlin


Oponho-me à ideia de que os americanos interfiram na política de outro país, o que sem dúvida tentarão fazer em meio aos levantes contra as tiranias da África do Norte e do Oriente Médio. Mas, no caso da tirania da Fifa, abro uma exceção.

Um jornalista anunciou ser candidato à presidência da Fifa. Jamais havia ouvido falar dele até a semana passada, mas Grant Wahl, repórter da "Sports Illustrated", pode contar com meu voto. Entre Sepp Blatter e Mohamed Bin Hammam, membro do Comitê Executivo da Fifa, fico com Wahl. Sua proposta essencial, como a de egípcios, tunisianos, líbios e iemenitas que estão se rebelando contra seus governos, é que a Fifa "precisa de mudança".

E certamente precisa. Não sei se as histórias sobre subornos, corrupção e abuso de poder na Fifa procedem, mas tendo recentemente ido ao Qatar (terra de Bin Hammam), suspeito que sejam ao menos parcialmente verdadeiras. Há algo de tão absurdo na decisão de dar a Copa-2022 ao Qatar que se torna obrigatório concluir que existe algo de podre. O conclave que dirige a Fifa se esquece de que, para milhões, o futebol é grande parte da diversão, emoção e consolo que a vida dá.

O Qatar é um lugar árido em todos os aspectos. Os Lamborghinis, Bentleys e Rolls-Royces que percorrem as ruas vazias não mitigam o tédio desértico da capital Doha. O primeiro problema é que as temperaturas em junho atingem 52º C. É possível que, com a fortuna do petróleo e do gás natural, o país crie estádios com ar-condicionado. Mas o que os torcedores farão nas horas sem futebol? Só buscar refúgio em seus hotéis refrigerados.

Quando se espalhar a notícia de que visitar o Qatar no verão é como tirar férias no inferno, é improvável que haja visitantes (ou, no mínimo, o número será pequeno). Quem verá os jogos? Havia preocupação com essa questão antes da Copa da África do Sul, um país de 50 milhões de pessoas, onde metade é louca por futebol. O Qatar, sem tradição esportiva (exceto na falcoaria), tem menos de um milhão de habitantes. A perspectiva para a Copa-22 é de estádios vazios, mas perfeitamente refrigerados. Fora, ruas vazias e igualmente sem vida.

A ideia toda é tola, insana: uma receita para destruir o que resta da magia da Copa. E foi a Fifa que aprovou o plano. Como diz o admirável Wahl e os manifestantes de Egito, Tunísia, Líbia etc. poderiam ter dito, chegou a hora de "curar a infecção”.

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JOHN CARLIN é colunista do diário espanhol "El País"
Tradução de PAULO MIGLIACCI
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 22/02/2011.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ninguém segura a Raposa



Cruzeiro 4x0 Guarani-PAR

O Cruzeiro mostrou mais uma vez que é sério postulante ao título da Libertadores. Não que o adversário – o Guarani, do Paraguai – fosse lá essas coisas, mas a postura da Raposa, repetindo o que já se vira contra o Estudiantes, é de quem está levando o torneio muito a sério.

Além da postura, a equipe mineira também mostrou bom futebol. Principalmente do meio para a frente, desde a coordenação das jogadas por Roger, passando pela ligação de Montillo, até os atacantes. Estes, por sua vez, vivem um bom momento de competição interna. Wallyson, em ótima fase, marcou dois gols. O argentino Farias, que entrou no lugar de Wellington Paulista, também fez o dele. E Thiago Ribeiro, tentando retomar a condição de titular, acertou um belo chute de fora da área. Seja qual for a dupla titular, é certo que Cuca terá boas opções no banco.

A Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, vem se tornando a Bombonera cruzeirense. A torcida em cima não deixa o time se desligar da partida.

Que venha o tão falado Tolima!
JFQ

A morte e a morte anunciada de um craque

Roberto Damatta


Os que reduzem tudo a poder que me perdoem, mas o evento destas semanas não foi "político". Foi a despedida, em pleno meio-dia, do senhor Ronaldo Luís Nazário de Lima, excepcional praticante de futebol, conhecido como Ronaldo Fenômeno ou, em virtude da precocidade típica dos gênios, simplesmente como Ronaldinho.

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Cronistas e jornalistas esportivos, bem como a maioria dos técnicos, são conhecidos pelo nome completo, mas os jogadores são personificados pelo primeiro nome ou por algum apelido de quatro letras: Vavá, Dida, Didi, Lelé, Mané, Cacá e Pelé. São os tais eufemismos que prezamos tanto e que permitem transformar bandidagem em malandragem, assalto em falcatrua, e mensalões em "caixa 2" partidário. Não é que debaixo do Equador não exista pecado, é que há vários tipos de pecado cujo julgamento depende dos pecadores. (Temos igualmente muitas polícias e tribunais, o que é bonança para os criminosos). O jogador de futebol, como um gladiador subversivo, pois luta dentro das regras observado de perto pelas massas injustiçadas que com ele se identificam aclamando o drible que faz cair de "bunda" o brancalhão azedo que todos consideravam racialmente superior, é assim um ser redutível a uma falsa intimidade de quatro letras e duas sílabas. Sua grandeza está em ampliar seu nome tornando-o maior (e melhor) do que o dos riquinhos, dos teóricos do futebol (que confundem sabedoria com memória) e dos filhinhos de papai (que jamais furaram um gol em suas vidas!) que deles falam com desprezo, admiração, ódio e incomensurável inveja. Porque os craques de quatro letras ganham salários de mil e tantos zeros, mas são analfabetos; e - pior que isso as "ronaldinhas" louras e comem todo mundo. Hoje - como pode? cosmopolitas e empresários. Eis as subversões rotineiramente praticadas por esses vingadores sociais que invertem os termos de nossas hierarquias, levando aos estádios um raro e nobre sopro de uma terrível (e temida) igualdade. E de uma poderosa excelência gritantemente ausente do nosso universo administrativo em geral, pautado pela mediocridade contida dos ocupantes de cargos públicos. Como lidar com esses demiurgos que roubaram o "football" dos "adiantados" britânicos e, sem ajuda do Estado, do sorriso hipócrita dos políticos com desculpas até para não fazer oposição, e dos partidos do povo cujos patrões odeiam a igualdade, deram ao povo uma arte fundada no desempenho, capaz de promover a experiência da vitória e da igualdade? Um "futibol" que veio redimir e permitir amar o Brasil?

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Comoveu-me a despedida lúcida e soluçante de Ronaldo. Tanto quanto ele fazia gols pelo selecionado brasileiro. Fiquei impressionado quando ele disse que essa despedida era uma morte.

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Todos nós morremos muitas vezes nesta vida. Na outra, para onde estamos indo, não morremos mais. A morte não existe na morte, eis o grande segredo. Ela só existe no curso de nossas vidas porque no Nada e no Eterno só há o silêncio do apito final.

Mas para quem, em algumas décadas, vive uma eternidade - como é o caso dos que, como você e gente como Charles Chaplin, que passaram aperto para comer, vestir e dormir, a orgulhosa e bela superação da miséria pelo domínio de uma arte - é como saltar por cima do Everest (subir seria pouco) ou ir à Lua nu em pelo. Só quem tem uma imensa capacidade de sublimação consegue virar-se pelo avesso e transformar-se em mestre de alguma coisa.

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Com o seu jogo de corpo, sua força e suas arrancadas, você não passava por pessoas, você saltava a doença que mata; a desesperança que paralisa; o desespero que emperra; o desânimo que não deixa começar; a inveja que impede a admiração e o amor; o ressentimento e a vingança que aprisionam no passado. O seu gol não era só um sinal de vitória, era um grito contra o analfabetismo e a ignorância que você tão bem superou. Era o sinal de que mesmo carregando o não saber formal você descobriu na vida a sabedoria da vida. Aquele jogo de cintura era sua arma contra o mau político, contra o radical que acha que pode resolver o mundo com um regime político de chumbo, o religioso que rouba o crente. Você, Ronaldinho, deu ao povo o que ele mais precisava, pois seu modo de jogar restabelecia a igualdade e, para além dela, a crença na vida e no Brasil.

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Você diz que abandonou o futebol, mas o futebol não vai te abandonar. Você é parte dele. Você é um dos raros jogadores que a ele acrescentaram algo novo. Neste universo de regras fixas e de jogadas esperadas, você inovou. Repetiu no campo o que os seus fãs não podem fazer nas suas vidas: a revolução que permite rir do poderoso, o drible que faz o ricaço arrogante e o político vazio cair de quatro, o vai mas fica que passa por cima da sabedoria dos falsos sábios e vira pelo avesso o sistema que nos fez nascer por baixo. E para terminar - que gozo... - do adversário...

* Publicado no Estado de S.Paulo, em 23/02/2011.

Vingança e homenagem



Corinthians 3x1 Santos

Em tarde de muita chuva no Pacaembu, o Corinthians manteve a invencibilidade no Paulistão – além de mais uma vitória sobre arquirrivais –, aplicando um convincente 3 a 1 sobre o Santos. Sobretudo, foi uma tarde de homenagem a Ronaldo, o ídolo recém-aposentado.

Antes da partida, o Fenômeno, acompanhado dos filhos Ronald e Alex, desceu ao gramado vestindo uma camisa em que afirma amor eterno ao Corinthians. Discursou, agradeceu, recebeu uma placa das mãos do presidente corinthiano e reforçou a condição de “mais um louco no bando de loucos”. Os ex-colegas de clube entraram em campo com uma outra camisa em que se lia “Ronaldo, eternamente em nossos corações”. Além disso, na camisa de jogo, cada jogador tinha o número 9 nas costas.

Tudo muito bom, bela homenagem. Só que o melhor estava por vir. Elenco compenetrado, sabedor da pedreira que era o adversário, o Timão impôs forte marcação e foi implacável nos ataques. Fábio Santos revelou uma qualidade pouco conhecida da sua nova torcida: a de grande batedor de faltas. Marcou um golaço.

Se a qualidade do chute de longa distância de Fábio Santos não era tão conhecida, ninguém poderia alegar desconhecimento quanto à mesma qualidade em Elano. O que não impediu que o ex-titular de Dunga mandasse um tirombaço indefensável no ângulo esquerdo de Júlio César: 1 a 1.

O segundo tempo começou e com ele, a tempestade. Mas quem se adaptou muito bem à água não foi o Peixe, e sim, o Mosqueteiro. À la Robinho, Dentinho entrou na área santista às pedaladas e qual o Rogério da final de 2002, Adriano perdeu o tempo da bola e derrubou o corinthiano. Pênalti convertido por Fábio Santos, o artilheiro do dia. Vingança consolidada.

Só que a partida não tinha acabado. Se Dentinho repetira o Robinho de 2002, Liedson resolveu repetir Ronaldo – o homenageado do dia – na final do Paulistão de 2009. O golaço de Liedson, encobrindo Rafael, foi imediatamente associado àquele de Ronaldo em cima de Fábio Costa, certamente o mais bonito que o Fenômeno fez com a camisa do Timão.

Após a vexatória desclassificação da Libertadores, o Corinthians parece ter começado a engrenar. Destaque para Liedson, uma excepcional – apesar de tardia – contratação. Destaque também para Ralf, que a cada jogo vem provando ser um dos melhores volantes em campos brasileiros.

O Santos, por sua vez, continua bem na tabela e, pelo menos no papel, a ser um grande time, talvez o melhor do país na atualidade. Apesar disso, Adilson Batista começa a ouvir os gritos hostis de parte da insatisfeita torcida santista. Gritos, aliás, parecidos com os que ouviu há pouco tempo justamente no Corinthians. Os próximos jogos serão decisivos para seu futuro no Santos. A insistência em Diogo, no lugar de Zé Love, e em deixar o rápido Maikon Leite no banco, podem abreviar sua passagem pela Vila Belmiro.

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Líder limitado

Mogi Mirim 0x0 Palmeiras


Mesmo permanecendo líder, o Palmeiras vem cada vez mais demonstrando suas fragilidades. Assim como a árdua missão em fazer uma boa campanha com um elenco nitidamente limitado. Kleber merece cada vez mais o apelido de Gladiador, tamanha a luta para vencer zagas adversárias praticamente sozinho. Apesar da volta de Valdívia, ainda longe de sua melhor forma, não é o chileno o atacante capaz de formar boa dupla de ataque com Kleber. Falta um matador, um atacante de peso, com faro de gol. Felipão gostaria de ter Grafite, hoje no futebol alemão, mas a diretoria já sinaliza que a contratação é difícil. Enquanto isso, o Palmeiras vai de Kleber, Valdívia e uma série de jogadores, na melhor das hipóteses, razoáveis.

O goleiro João Paulo, do Mogi, foi o nome da partida. Um verdadeiro paredão diante de tentativas infindáveis do Palmeiras, que, diga-se de passagem, também tomou seus sustos.

O Palmeiras ainda é líder, mas já se pode notar uma queda na empolgação da torcida após série de vitórias sucessivas. E suadas.

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Oito mais oitenta

São Paulo 4x0 Bragantino


Para mim, o São Paulo é o favorito à conquista do título paulista de 2011. Carpegiani parece ter encontrado, finalmente, a fórmula de organização das jogadas de ataque que há muito tentava com Marlos, após a saída de Hernanes. A solução responde pelo nome de Lucas. O garoto resolveu se emancipar e mostrar que não é apenas uma promessa, mas uma realidade. Com Dagoberto e Fernandinho abertos – prescindindo de um centroavante e de organizadores de jogada com característica de cadenciar as jogadas, como Fernandão –, e Lucas vindo de trás, os ataques são-paulinos aumentaram a velocidade e a eficácia. Com triangulações rápidas e bastante objetivas, em poucos toques a bola surge nos pés de algum atacante frente a frente com o goleiro.

Na partida contra o Bragantino, isso foi uma constante. E os gols surgiram, um atrás do outro.

Além de Lucas, Casemiro e William José mostram a força tricolor da garotada. Aliada à experiência de veteranos como Rivaldo e o ídolo maior Rogério Ceni, o São Paulo tem tudo para se fortalecer cada vez mais.

JFQ

Dos pênaltis à final




Flamengo e Boavista disputarão a final da Taça Guanabara no próximo domingo. Coincidentemente, ambos obtiveram a classificação na disputa por pênaltis. O Boavista (zebra?) passou pelo Fluminense, após um 2 a 2 empolgante, em que buscou o placar na maior parte do tempo. Já o Mengo, que mostra um elenco promissor, sem entrosamento, com jogadores em busca de suas posições em campo e sem um esquema tático definido, pode louvar-se de ter passado de um adversário, se não brilhante, bem organizado por Joel Santana.

No Mengo, destaque para o carrapato Williams, para o bravo Léo Moura e para a revelação da Copinha, Negueba.

No Boavista, destaque para a louvável determinação dos jogadores. Se a equipe repetir a postura contra o Nova Iguaçú e contra o Fluminense, a zebra pode dar as caras nessa final.

JFQ

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Enfim, o Flamengo é campeão brasileiro de 1987


A CBF reconheceu, enfim, o título brasileiro de 1987 do Flamengo. Conforme decisão divulgada hoje, dia 21/02/2011, o time carioca dividirá o título com o Sport.

Sobre a Taça das Bolinhas, cuja posse definitiva é destinada ao primeiro pentacampeão brasileiro, o imbróglio continua. A taça foi entregue ao São Paulo no último dia 14. O Flamengo disputa a taça na Justiça.

Ironia das ironias: enquanto São Paulo e Flamengo disputam a taça de primeiro pentacampeão brasileiro – ambos já são hexacampeões –, a CBF, ao homologar os títulos da Taça Brasil e do Robertão como títulos brasileiros, fez com que o Santos e o Palmeiras se tornassem octacampeões.

Certa vez, o então ministro Pedro Malan, ao se referir às decisões judiciais sobre planos econômicos antigos, afirmou que “no Brasil até o passado é incerto”. Que o diga nosso futebol.

JFQ

Uma imagem também diz muito sobre quem a faz e sobre quem a vê

Circulam pela internet fotos de Ronaldo e Roberto Carlos fumando. As fotos foram tiradas por um paparazzi, que conseguiu captar imagens de dentro da casa do Fenômeno, quando dava uma festa para o lutador Anderson Silva.

Também criou frisson – esse é o objetivo dos tais fotógrafos “profissionais” – foto do jogador Piqué, abraçado a um amigo. A foto, tirada em 2006, mas somente agora colocada no fogo eterno da internet, reforça o blá-blá-blá sobre a orientação sexual de Piqué, já insuflado por outra foto, em que foi flagrado em pose “suspeita” com o então colega de Barça Zlatan Ibrahimovic.

Enquanto as fotos de Ronaldo e Roberto Carlos procuram despertar a discussão – a palavra certa seria fofoca ou futrica – em torno do hábito de atletas profissionais fumarem (no caso, Ronaldo sequer é mais jogador), as fotos de Piqué sugerem o questionamento de sua orientação sexual.

Muito se fala e muito se escreve sobre as imagens. Contudo, pouco se fala sobre a criminosa e abjeta prática de invasão da privacidade. Como que, sob a desculpa de se tratarem de “personalidades públicas”, fosse totalmente autorizada a invasão da vida particular desses cidadãos – sim, o fato de serem “públicas”, não as retira a condição de cidadãos, como os direitos e deveres que todos temos. Assim como pouco se fala ou se escreve sobre o costume não menos nojento de tecer juízos de valor a respeito de atletas cujo único âmbito passível de avaliações deveria ser o que fazem dentro de campo. Ou, muito pior, pouco se fala ou se escreve sobre a prática cretina de impor e patrulhar comportamentos alheios.

Eis o óbvio: o tabagismo é ruim para qualquer um, mas cada qual é responsável pela preservação da própria saúde; ser heterossexual ou homossexual é determinação íntima do sujeito, não cabendo a qualquer um fazer juízos a respeito (a propósito, passou da hora da homofobia ser crime no Brasil); tecer juízos de valor sobre o outro ou patrulhar comportamentos são atos dignos de canalhas, e invadir a privacidade alheia, de bandidos.

JFQ

Locomotiva azul



Cruzeiro 5x0 Estudiantes

Desde o início da partida, o Cruzeiro pareceu uma locomotiva desenfreada para cima do Estudiantes. Sabe-se lá o quanto a sede de vingança pela derrota na final da Libertadores 2009, em pleno Mineirão, pesou no empenho de seus jogadores. O fato é que deu pena do craque Verón diante da voracidade da Raposa, em noite inspiradíssima de Roger e Montillo.

A equipe de Cuca impôs um jogo eletrizante. O gol de Wallyson, logo nos primeiros segundos, foi a senha para o sofrimento que acompanharia a equipe argentina. O atacante, aliás, foi até mais participante e perigoso no ataque do que Wellington Paulista, em tese, o matador do time mineiro.

Fábio trabalhou pouco. Não somente pelo ímpeto ofensivo do Cruzeiro, mas pela eficiência defensiva, com destaque para as atuações do zagueiro Gil e do volante Marquinhos Paraná. Gilberto também esteve muito bem na lateral esquerda, posição na qual volta a se acostumar.

Após o primeiro gol, o Cruzeiro recuou e Estudiantes começou a esboçar ataques, sempre iniciados dos pés de Verón. O que o Estudiantes não contavam era com a ineficácia dos manjados lançamentos do carequinha argentino e, especialmente, com a surpreendente eficiência dos contra-ataques cruzeirenses.

Justamente em um contra-ataque, Montillo encontrou Roger na frente, que driblou e acertou um belo chute de direita no canto. Em seguida, o próprio Montillo se encarregou de destroçar seus compatriotas do Estudiantes com dois belos gols: o primeiro, após ótimo passe de Roger; o segundo, em um belíssimo chute de fora da área. Wallyson, por fim, deu números finais ao baile da Raposa.

Roger esbanjou nos lançamentos, quase sempre perfeitos. Já o Estudiantes, mostrou, além da fragilidade na defesa, excessiva dependência de Verón, sempre procurado pelos companheiros.

Não só pelo placar – contra um adversário poderoso, pelo menos no papel –, mas pelo entrosamento e pela vontade demonstrada em campo, o Cruzeiro se credencia como seríssimo postulante ao tricampeonato da Libertadores.

Destaque negativo para a frágil segurança do estádio de Sete Lagoas e positivo para a atuação firme de Carlos Amarilla.

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Burocrático e sonolento

Deportivo Táchira 0x0 Santos

Burocrático e sonolento são os melhores adjetivos para definir a partida de estreia do Santos na Libertadores. Jogando em San Cristóbal, na Venezuela, contra o fraco Deportivo Téchira, o Peixe postou-se em campo sem a ousadia dos seus meninos. A propósito, os santistas deste ano já não são mais tão meninos, a começar pelo principal articulador de jogadas: Elano.

Adilson Batista montou uma equipe cautelosa e mais pesada, mantendo Maikon Leite e Zé Eduardo no banco. Em compensação, escalou os campeões do Sul-Americano sub-20 Neymar e Danilo, e colocou o lateral esquerdo Alex Sandro no segundo tempo, no lugar de Léo.

O Santos, apesar nitidamente superior tecnicamente ao Táchira, foi, digamos, extremamente respeitoso. O goleiro Rafael praticamente só assistiu à partida. Além disso, a dupla sub-20 do Peixe demonstrou o cansaço pela campanha vitoriosa no Peru, especialmente Neymar, sempre muito caçado em campo. Danilo até mostrou boa movimentação na ala direita – o titular Jonathan está contundido –, mas não logrou êxito em produzir jogadas, talvez pela ausência de Maikon Leite, que vem jogando muito bem por aquele setor.

Destaque para Rodrigo Possebon, volante vindo do Manchester United, que mostrou firmeza na marcação, cobrindo as saídas mais à frente de Arouca, ainda fora de forma. Elano abusou dos lançamentos a Neymar e Diogo, sem muito proveito. Diogo, apesar de presente próximo à área do Táchira, não ofereceu qualquer perigo ao goleiro adversário, sendo substituído no segundo tempo por Zé Eduardo. O garoto de Promissão, porém, também não entrou bem no jogo.

Apesar da nítida superioridade técnica do time, o Santos conseguiu apenas chutar uma bola na trave do Táchira – bate-rebate em que a bola sobrou para Danilo, na pequena área –, e ainda tomou um pequeno sufoco no final da partida.

O empate sem gols foi o resultado mais apropriado pela qualidade do futebol demonstrado pelas duas equipes.

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A estreia dos gaúchos

Mantendo a fase do gauchão, o Inter, atual campeão da Libertadores, empatou com o Emelec, no Equador, por 1 a 1. Empate com sabor de derrota, já que o Colorado vencia a partida quando tomou o gol nos acréscimos.

Já o Grêmio passou fácil pelo Oriente Petrolero, da Bolívia, por 3 a 0, no Olímpico.

JFQ

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um herói com caráter

Daniel Piza


Ronaldo ficou muito emocionado e chorou em sua entrevista de despedida, mas o final de sua carreira não foi nada a lamentar. Mais uma vez, ele deu seu recado com elegância, lembrando brevemente seu histórico de lesões e o hipotireoidismo que já tinha sido revelado em 2007, no Milan, e agradeceu até mesmo aos críticos, que lhe deram força para responder em campo. Enquanto ele pôde responder, enquanto as dores e as ausências não o impediram de ser decisivo com a bola, levou a carreira adiante, como raros atletas conseguiriam. No momento em que perdeu as últimas motivações, decidiu antecipar a aposentadoria que já estava anunciada. Isso tudo é, no mínimo, digno - muito mais digno do que tantas acusações feitas a ele desde 1998.

Em dois anos de Corinthians, Ronaldo foi protagonista na conquista de dois títulos, fez 35 gols - alguns que serão lembrados por muito tempo - e ajudou o clube a se modernizar. Melhor que isso, só se tivesse conquistado a Libertadores, que seria a primeira numa história centenária. Mas tratar esse par de anos como algo que mancha ou diminui a biografia do Fenômeno não faz sentido - ainda mais vindo de pessoas que diziam que ele teria no Corinthians o mesmo fim de Garrincha. Ronaldo nunca foi parar no Usbequistão; nunca faltou ao treino ou se escondeu nas decisões; nunca foi parar nem sequer no banco de reservas. Quantos grandes craques não tiveram queda de rendimento nos últimos anos? E quantos saíram imediatamente depois de título importante?

Não se trata de não ver seus defeitos, os momentos de enfado e descuido que poderiam ter sido evitados, a dificuldade de cabecear, etc. Mas se trata de reconhecer que ele escreveu uma bela história, muitas vezes solitário como só um ídolo pode ficar, e mostrou sempre bom caráter. Em 2001, quando se recuperava no Rio e todos o davam como "acabado" - jamais como alguém que voltaria e faria oito gols numa Copa do Mundo -, lá estava ele, dando duro, suportando tudo, tratando todos com simpatia e bom humor. Em 2008, depois de romper o outro tendão patelar, fato inédito na história do futebol, ele poderia ter se aposentado, mas todo dia ia ao Flamengo, treinava em aparelhos defasados, tomava banho frio. À noite, era acordado pelo fisioterapeuta Bruno Mazziotti dobrando sua perna com força para ganhar um grau de ângulo mais.

Ou antes ainda: quantos jogadores suportariam dezenas de milhões de brasileiros decretando que ele tinha "amarelado" diante da França em 1998? Quantos conseguiriam atravessar aquilo sem acusar colegas, técnico ou dirigentes ou sem desistir? Ele nunca pôs a culpa em ninguém. E poderia, afinal havia outros dez atletas em campo, e mesmo o escalado Edmundo entrou depois e nada fez. Ronaldo foi criticado porque quis jogar. Quatro anos depois, fez dois gols na final contra a Alemanha. Cadê o amarelão? Foi para o Real Madrid e fez mais uma centena deles, embora alguns digam que "não jogou nada" depois de 2002. Pela seleção em 2004, no Mineirão, fez três gols na Argentina; o tempo passou e o Brasil ainda não viu nada parecido.

Desde ali, o corpo foi perdendo mobilidade e equilíbrio muscular. De 2005 em diante, ele não conseguiu mais fazer oito partidas seguidas; praticamente jogava um mês e parava outros dois. Dos 18 anos de carreira, aliás, apenas em metade deles conseguiu temporada integral. Uma das consequências foi a alta exposição de sua vida privada, que ele mesmo promoveu em alguns momentos, como ao levar namorada para a concentração, e que em outros o mostrava fumando e bebendo. Já as coisas boas não viram notícia, como o carinho com a família, o apoio aos colegas, a conversa divertida, a curiosidade herdada do pai (embora não tenha se tornado um leitor de livros como ele), as iniciativas sociais como a que anunciou ontem (Fundação Criando Fenômenos).

Amor irrestrito. Também seu amor pelo futebol nem sempre transparecia, como transpareceu num restaurante do Rio, no final de 2008. Ao ver na televisão a torcida do Corinthians gritando "Aqui tem um bando de loucos", Ronaldo comentou: "Essa torcida é incrível".

Hoje, a julgar pelos milhares de comentários e tweets postados desde domingo, é a vez de todas as torcidas dizerem: "Sua carreira é que foi incrível". Ninguém, exceto os chatos, está chorando pelo que ele não fez, mas por saudade do que fez e poucos igualaram.



* Publicado no Estado de S.Paulo, em 15/02/2011.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110215/not_imp679658,0.php

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O título, as vagas, o show


É justo ser otimista quanto ao futuro do futebol brasileiro, a tomar a seleção brasileira sub-20, campeã do Sul-Americano 2011. Com o título também vieram as vagas para o Mundial da Colômbia e para as Olimpíadas de Londres, para não falar do show dado pela meninada do Brasil.

Além das revelações que brilharam em Arequipa, Peru, vale lembrar que Phillipe Coutinho, ex-Vasco, atualmente na Inter de Milão, ficou de fora por conta de uma lesão na coxa.

As partidas da seleção brasileira foram marcadas pelo bom toque de bola e chegadas arrasadoras ao gol adversário. É certo que o time demorava um pouco a engrenar; mas quando o fazia – geralmente no segundo tempo –, era muito difícil de segurar.

As partidas contra a Argentina – derrota por 1 a 0 – e a goleada sobre o Uruguai – 6 a 0 –, foram, a meu ver, os “pontos fora da curva”, para o bem e para o mal. De qualquer forma, servem como alerta para correção de falhas e como amostra do imenso potencial desses meninos.

Casemiro e Fernando, os volantes, demonstraram boa presença na marcação (principalmente Fernando) e boa chegada à frente (especialmente Casemiro). William José – exímio chutador de fora da área – e Oscar, também revelaram-se competentes na articulação no meio e aproximação na área adversária. Lucas e Neymar... bem, estes merecem parágrafos à parte.

Neymar é genial, uma das principais revelações do futebol brasileiro dos últimos tempos. Não é à toa que desde antes da profissionalização já se falava dele. Como também não é sem razão que Neymar seja titularíssimo no ataque da seleção principal. Além de craque da competição, o jovem santista de 19 anos marcou nove gols, sagrando-se o artilheiro deste e o maior artilheiro do Brasil em todos os Sul-Americanos. Fica apenas a impressão de que Neymar abusa um pouco do talento, recorrendo, às vezes, a provocações desnecessárias.

Na minha modesta opinião, porém, a grande revelação do torneio foi Lucas. Não que tenha superado Neymar ou que dele não se esperasse demonstrações de talento, mas o fato é que Lucas foi além das expectativas. Inteligente, arrojado, habilidoso e rápido, o meia são-paulino deu mostras de maturidade futebolística suficiente para fazer Mano Menezes pensar em uma convocação em breve para o time principal do Brasil.

De qualquer forma, mesmo que se precise esperar um pouco mais pelo amadurecimento de Lucas e outros jovens talentos da seleção sub-20, é bom notar que a safra é bastante promissora.

JFQ

O súbito adeus de Roberto Carlos

Considero Roberto Carlos o melhor lateral que já vi jogar. Levando-se em conta a dupla função do ala – marcar atrás e apoiar à frente –, nenhum jogar mostrou futebol à altura desse baixinho parrudo, cuja carreira iniciou-se no singelo União São João de Araras, no princípio dos anos 1990. Junto com Cafu, Roberto Carlos compôs a dupla de laterais titular da seleção por muitos anos.

Às portas dos 40, Roberto mantém uma forma física invejável e, mesmo oscilando de partida a partida, continua a mostrar que é um grande jogador de futebol. Foi dessa forma que o vi, contente, chegar ao Corinthians. Ainda mais por reencontrar no Timão o amigo de longa data, Ronaldo, com quem jogou na seleção e no Real Madrid.

Após curta passagem – que prometia ser longa –, Roberto Carlos deixa o Corinthians, melancolicamente. Em que pese boas partidas por ele protagonizadas no Timão. A melancolia não se deve tanto à partida prematura, mas à forma como sai: imediatamente após mais uma eliminação de Libertadores, quando, de forma obtusa, ausentou-se da partida decisiva e, principalmente, pela retórica dissimulada antes e depois da eliminação.

Depois da péssima partida contra o Tolima, no Pacaembu, Roberto foi o jogador escalado para falar com a imprensa antes do fatídico jogo na Colômbia. Aliou um discurso de desculpas, de esperança e de temor pela possível desclassificação. De forma surpreendente, pouco depois veio a notícia de que não poderia jogar por causa de uma contusão na coxa. Claro, há que se lembrar que o lateral fora substituído por Marcelo Oliveira na primeira partida, o que deduz que tinha – ou poderia ter – problemas físicos. Eliminado do torneio, passou a se dizer ameaçado pela torcida, o que poderia justificar sua saída do Timão. Agora, vem à tona propostas vindas da Rússia e dos EUA para levar o lateral.

Por mais que se diga o contrário, fica difícil não pensar que as propostas já estavam sendo consideradas e que a eliminação, bem como o lamentável “protesto” das “organizadas” veio a calhar para Roberto Carlos.

Apesar do destino provável ser a Rússia, Roberto saiu à francesa, em busca de um negócio da China, com justificativas para inglês ver.

JFQ

Crepúsculo de Jogo



Marcos, Cafu , Gamarra, Baresi e Roberto Carlos, Falcão, Zico, Zidane e Maradona, Romário e Ronaldo. Na reserva: Rogério Ceni, Leandro, Lúcio, Maldini e Junior, Matthaus, Platini, Sócrates e Ronaldinho Gaúcho, Klinsmann e Van Basten. Se coubessem, estariam também Schumacher, Gullit e Careca. Às vezes me lembro de outros, sou forçado a mudar o time. Melhor não pensar.

Eis o que considero a escalação com os melhores jogadores que vi jogar, ponderadas as posições. O princípio dessa memória data do final dos anos 1970, começo dos 80. O time titular joga num 4-4-2 meio manco, assumidamente frágil na marcação: recuso-me a escalar volantes faltosos e zagueiros brucutus. Afinal, eu sou o técnico do meu time de todos os tempos – o meu tempo –, ninguém tasca. Terão que me engolir!

Como bom aspirante a boleiro, apaixonado por futebol desde que me entendo por gente, gosto da brincar de técnico, escalando times disso e daquilo. Gosto de selecionar os melhores. Noto vieses, alguns, inconscientes, outros, nem tanto. Por exemplo: na minha seleção predominam brasileiros. Também, pudera: além de ser a minha nacionalidade, somos realmente os melhores, ora bolas. Neste caso, ninguém faz mais milagre que o santo de casa.

Acompanhei e acompanho a trajetória de cada um dos ídolos que escalo nos “meus” times. Alguns, continuo a acompanhar, já que não pararam: Marcos, Ceni, Roberto Carlos. Hoje, um deles chega ao fim da carreira. Ou, como diria Fiori Giglioti, chega ao crepúsculo de jogo, torcida brasileira.


Apesar de saber que a aposentadoria viria neste ano, apesar de perceber que o desempenho atual está longe daquele dos áureos tempos, o desolamento pela notícia é inevitável. O sentimento que surge é um misto de nostalgia e de melancolia. De saudades do futebol brilhante, da fantástica capacidade em marcar gols, da determinação em superar graves lesões e críticas. De alegria pelas boas lembranças vestindo camisas que me são tão caras: da seleção brasileira e do Corinthians. Que maravilha rever os gols em Oliver Kahn! Ou aquele golaço contra o Santos, encobrindo Fábio Costa! Para não falar daquele do alambrado, de cabeça – o ponto fraco do Fenômeno –, contra o Palmeiras, no último minuto! Que delícia!

Infelizmente, também há tristeza, vergonha e revolta pela antecipação do fim motivar-se, em parte, pela violência das “organizadas” que dizem representar a torcida da qual faço parte.

Eis Ronaldo: Três vezes escolhido o melhor jogador do mundo. Campeão de duas Copas e maior artilheiro de todas elas. O segundo maior artilheiro da seleção brasileira, atrás de Pelé (ou o primeiro, já que, como diria Pepe, Pelé não conta...)*. Bi-campeão da Copa América, campeão da Copa das Confederações. Flamenguista de coração, desfilou sua genialidade no São Cristóvão, no Cruzeiro, no PSV Eidhoven, nos rivais espanhóis Barcelona e Real Madrid, nos rivais italianos Internazionale e Milan, e – bendito seja – no Timão. Conquistou títulos em quase todos.

De uns tempos para cá, passou a travar uma luta ingrata contra a balança. Acostumou-se a ser chamado de gordo por todos. Do mais singelo cidadão até o presidente da República. De forma ofensiva ou carinhosamente. O fato é que o peso o incomodava, não obstante tenha levado a pecha, por vezes, em tom de brincadeira.


E como sofreu com as contusões. Os joelhos, principalmente o direito, fizeram com que se distanciasse dos gramados por muito tempo. Em 1996, inflamação nos dois joelhos e calcificação no direito: dois meses sem jogar. Em 1999, rompimento parcial do tendão patelar do joelho direito: quatro meses parado. Em 2000, rompimento total do tendão patelar do joelho direito: quinze meses de gancho e a sentença proferida por muitos boleiros afoitos de que jamais voltaria aos gramados. Não só voltou, pelas mãos de um sábio Felipão, como foi fundamental para a conquista do penta. Depois disso, ainda sofreu rompimento total do tendão patelar do joelho esquerdo – para variar –, ausentando-se dos campos por mais treze meses. Além dessas, sofreu outras contusões menores. Voltou sempre.

Foi até o limite, até não dar mais. Até se convencer de que o corpo não mais executava a jogada genial que a mente antecipava. Até o fatídico dia de hoje, quando, como diria Falcão, morre pela primeira vez. Ou, como ensina o filósofo da bola Sócrates Brasileiro, cede à realidade de que, mesmo não abandonando o futebol, o futebol o abandonou.

Salve, Ronaldo Nazário de Lima, um dos maiores atacantes da história do futebol. Surgido Ronaldo, tornou-se Ronaldinho na Copa de 94 para se diferenciar do xará zagueiro, que virou Ronaldão. Adiante, voltou a ser Ronaldo para se diferenciar do outro Ronaldinho, o Gaúcho. Seja lá o nome que se lhe dê, basta o apelido, justo: Fenômeno.

Não verei mais Ronaldo nos campos. Não torcerei mais por ele pela televisão ou nas arquibancadas do Pacaembu. Meu consolo é que, independentemente da aposentadoria, continuarei a convocá-lo para a seleção dos melhores que vi jogar.

JFQ

* Dependendo da fonte, Ronaldo aparece como o segundo ou o terceiro maior artilheiro da seleção brasileira, atrás de Zico. Dependendo da fonte, é considerada apenas a seleção principal ou também as seleções de base.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Em busca do título, pertinho de Londres



A seleção brasileira sub-20 decide hoje, contra o Uruguai, a vaga para as Olimpíadas de Londres e o título do Sul-Americano.

Após a apreensão gerada pela derrota contra a Argentina, no domingo, duas boas notícias vieram de Arequipa, no Peru, na quarta: o Uruguai venceu a Argentina por 1x0 e o Brasil, o Equador, pelo mesmo placar. Com essa combinação, a celeste uruguaia garantiu sua vaga para as Olimpíadas de Londres e o Brasil está com uma mão e quatro dedos da outra na vaga restante. Se os hermanos argentinos ainda pretendem buscar o tri olímpico, precisam vencer a Colômbia, torcerem para uma vitória do Uruguai sobre o Brasil e, o mais difícil, reverterem um saldo de 6 gols favorável à seleção brasileira. Haja caixinha de surpresas!

Após cumprir suspensão, o Brasil contará com o retorno de Neymar. Paradoxalmente, apesar da ausência do craque do time, o escrete de Ney Franco fez uma grande partida contra o Equador. Às vezes, a falta da principal referência faz com que o restante do time se apresente mais, que o conjunto se sobreponha à atuação sempre dependente da busca pelo craque. Assim foi. Oscar, Casemiro e Lucas fizeram uma partida brilhante. Lucas, aliás, talvez tenha mostrado o seu melhor futebol neste Sul-Americano: tabelou, enfileirou adversários, chegou à frente com perigo. Mostrou, enfim, o grande potencial que tem.

O time canarinho movimentou-se com rapidez, com muitos toques e chegadas com perigo. A marcação antecipada dificultou muito a saída do Equador. Nossa defesa mostra problemas: entradas fáceis dos adversários. Por outro lado, há que se ressaltar o empenho da da zaga reserva – tornada titular pelas circunstâncias: contusão de Bruno Uvini e suspensão de Juan –, formada por Saimon e Romário.

Que venham os uruguaios. Com eles, a vaga para Londres e, quiçá, mais um caneco para o Brasil.

JFQ

Um fantasma à solta


Depois de Luis Ramirez, no jogo Tolima 2x0 Corinthians, pela pré-Libertadores, e de Juan, no jogo Brasil 0x1 Argentina, pelo Sul-Americano sub-20, agora foi a vez de Hernanes confirmar, no Stade de France, que um fantasma ronda o futebol brasileiro: o fantasma de Felipe Melo. Se bem que o lance protagonizado pelo ex-são paulino foi mais parecido com a entrada de De Jong, da Holanda, na final da Copa 2010 (detalhe: o holandês não foi expulso naquela oportunidade). Ou, quem sabe, Hernanes tenha se inspirado na última luta de Anderson Silva...

O fato é que a saída prematura de Hermanes e o jogador a menos pesaram decisivamento no jogo da seleção brasileira, que praticamente passou o restante da partida defendendo-se das investidas francesas. Por si só, a expulsão não explica a vitória da França, que jogou muito bem e poderia ter feito mais gols, não fosse a atuação primorosa de Júlio César. Aliás, o goleirão da Internazionale não precisa mais provar que é, disparado, o melhor goleiro do Brasil, restando aos demais jogadores da posição brigarem pela primeira vaga no banco de reservas.

A França conseguiu imprimir seu ritmo ao jogo, com toques rápidos, envolventes, e chegadas constantes à frente. Menéz e Malouda, sempre procurando os lados do campo, e o perigosíssimo Benzema foram os destaques franceses. Em pouco tempo, o técnico Laurent Blanc mostra resultados promissores sob o comando dos Bleus, invertendo a aura de fundo do poço deixada pelo arrogante Raymond Domeneche. Há que se lembrar ainda que nem Nasri, do Arsenal, nem Ribery, do Bayern de Munique, participaram da partida de ontem. Ou seja, pode-se vislumbrar daqui para frente uma França muito mais poderosa do que o lamentável escrete que circulou por campos da África do Sul em 2010.

Quanto ao Brasil, além de Júlio César, destaque para Daniel Alves, David Luiz e, apesar do pouco tempo em campo, Jadson, bastante rápido e capaz de boas assistências para os atacantes na entrada da área. Merece ser convocado novamente.

Apesar da derrota, confesso que estou otimista em relação à seleção brasileira. Da mesma forma que no jogo contra a Argentina, contra a França, nossa seleção não pode ser avaliada tão-somente pelo resultado negativo. Inclusive para que não se faça o mesmo juízo das equipes comandadas por Parreira e Dunga, vitoriosíssimas antes das Copas, mas que culminaram nos vexames de 2006 e 2010.

Nas cinco partidas disputadas até agora, Mano Menezes tentou consolidar um padrão de jogo, mas sofre com a ausência dos principais jogadores. Três deles – Kaká, Ganso e Neymar – tendem a se firmar como titulares absolutos ao longo do tempo. Do meio para trás, Mano está consolidando uma boa formação com jogadores de nome duplo: Júlio César, Thiago Silva, David Luiz, Daniel Alves e André Santos. Os dois zagueiros são jovens e excelentes – confesso que não conhecia e hoje sou fã de David Luiz –, podendo a seleção, quem sabem, contar com o infindável Lúcio no futuro. Quem sabe, em uma linha de três zagueiros, nada ao gosto dos brasileiros, mas que deu muito certo no penta em 2002. De qualquer forma, é uma opção.

Já os laterais caracterizam-se pela rapidez e pela facilidade no apoio, mais do que pela capacidade de marcação. Como Dani Alves – em ótima fase – e André Santos – com menos nome, mas com a confiança do técnico – apóiam muito, a tendência é que Mano procure uma dupla de volantes fortes na marcação, para cobrirem as subidas dos lateriais. Lucas parece titularíssimo; quem será o outro? Elias vem sendo testado, Hernanes, apesar da técnica apurada e da boa fase na Lazio, não caiu nas graças de Mano (ainda mais depois da expulsão contra a França), Sandro vem sendo convocado, mas pouco testado. Em suma, algum volante de contenção deve fazer dupla com Lucas, o que tira pontos de Ramirez, bastante leve.

O grande problema da seleção está no meio – ausência de um cérebro, um articulador que pense e distribua o jogo – e na frente – ausência de um matador. No caso do meio, Paulo Henrique Ganso tem tudo para cumprir a função, apesar de sua recuperação ser ainda uma incógnita. Na frente, já foram testados Alexandre Pato, Hulk, André, Diego Tardelli; nenhum convenceu. O certo é que Neymar deve ser o segundo atacante.

Uma solução, digamos, heterodoxa, seria um esquema sem centroavantes, à moda Barcelona. Kaká, Robinho e Neymar fariam as vezes de atacantes chegando de trás. O fato é que o Brasil de hoje não tem mais um atacante que amedronte a zaga adversária. Em outras palavras, não tem mais um Romário ou um Ronaldo.

No entanto, a grande ameaça para a seleção, ao meu ver, é o entendimento de Mano Menezes de que a seleçao precise de um salvador da pátria, alguém que seja responsável por resolver sozinho as partidas. Os nomes prováveis seriam Kaká, Robinho e Ronaldinho Gaúcho, na minha modesta opinião, incapazes de postularem atualmente a condição do Messi ou do Cristiano Ronaldo da seleção brasileira. Aliás, não creio que o Brasil precise disso. Talvez nem Pelé tenha desempenhado esse papel, sendo um jogador excepcional entre outros craques. O problema é que já não temos tantos craques como em 70 ou em 82.

JFQ

Antes tarde do que nunca


Paulistão 2011
Corinthians 4x0 Ituano

Ironia das ironias: o Corinthians pós-trauma da pré-Libertadores oferece boas razões para que a Fiel tenha esperanças. Após o desastre contra o Tolima, foram duas vitórias: uma contra o arquirrival Palmeiras, outra contra o fraco Ituano, mas com goleada e bela atuação de Liedson e Morais.

Sem ofender Ronaldo – de quem sou fã incondicional –, mas, apesar da fragilidade do Ituano, Liedson passou a impressão de que o Corinthians voltou a jogar com onze jogadores.

Também Morais, mesmo jogando pouco tempo nas últimas duas partidas, voltou a apresentar sua melhor forma: a dos tempos de Vasco.

Fica clara a tendência de desmanche no Parque São Jorge, de fim de um ciclo e começo de outro. Bruno César está, no mínimo, “de castigo”. O que é um risco para o Corinthians, já que se trata de um ótimo jogador. Bruno César não pode ficar de fora, mesmo tendo Morais em boa forma, além de Danilo e Ramirez. É uma incógnita, de qualquer forma, seu destino na equipe. Ou fora dela.

Roberto Carlos despediu-se melancolicamente, sob o pretexto de preservar sua segurança e de sua família, ameaçadas após a eliminação. Acredite quem quiser.

E Ronaldo? Bem, Ronaldo espera um novo bom momento para se aposentar. Ou - há quem aposte - transferir-se para o Flamengo.

JFQ

Correndo atrás



Libertadores 2011
Fluminense 2x2 Argentinos Juniors


O espírito da Libertadores – muita garra e pressão quando se joga em casa, muito sangue frio e doses cavalares de catimba quando se joga fora – é uma espécie de veneno-remédio aos times brasileiros. Especialmente quando o adversário é argentino, tarimbadíssimo em cultivar tal espírito.

Pode-se dizer que o Fluminense de Muricy Ramalho – cuja carreira de treinador o coloca como especialista em pontos corridos, mas frágil em torneios mata-mata – foi vítima do remédio que procurou dosar a si próprio. Foi vítima do tal espírito de Libertadores.

Doutor Sócrates – sempre recorro a ele – é enfático na tese de que o futebol, acima de tudo, é um jogo psicológico, além da técnica e da tática. Creio que a Libertadores seja o campeonato em que esse âmbito do jogo seja ainda mais forte. Principalmente se tomarmos equipes nada brilhantes técnica e taticamente que conquistaram o título nos últimos tempos, como LDU e Once Caldas. Em suma, para ser campeão da Libertadores não é indispensável uma equipe brilhante, mas, sim, o tal espírito de Libertadores. O que, por exemplo, o Boca Juniors tinha de sobra e o Corinthians sempre confundiu com obsessão.

Voltando ao Flu, ao tricolor das Laranjeiras não faltou garra, pressão, enfim, o tal espírito, na partida contra o Argentino Juniors. Em contrapartida, o adversário esbanjou catimba e capacidade de conter o ímpeto adversário. Além de se aproveitar muito bem das falhas do Fluminense, haja vista os dois gols de cabeça do baixinho Niell, de 1,62m. Do lado do Flu, Rafael Moura demonstra que está em grande fase, não pelo futebol brilhante – o que nunca teve –, mas pelo oportunismo em colocar a bola para dentro do gol. Aliás, característica igual a do aposentado Washington, de quem Moura herdeu o lugar.

JFQ

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Futebol Cordial

Daniel Piza


A opinião no futebol, talvez mais que em outros assuntos, é presa demais às circunstâncias e impressões. Não é que as pessoas mudem de opinião sobre um jogo ou jogador em respeito aos fatos; é que trocam radicalmente de palpite com base em eventos pontuais, que tratam logo de explicar com generalizações fáceis, ou então o veem confirmado como se fosse uma profecia. Uma partida é uma narrativa cujo desfecho não pode ser atribuído a um só fator, mas todos – comentaristas e torcedores – insistem em lê-la assim. E, como em quase toda interpretação passional, o que se segue são as acusações, o falso moralismo dessa gente que aparece na TV com o dedo em riste.

A semana foi pródiga em exemplos. Veja o caso de Rivaldo, no São Paulo. Em sua estreia, deu chapéu e fez um belo gol ao driblar o zagueiro com um toque de coxa. Até então pouco destacada pela imprensa, em comparação com a de Ronaldinho no Flamengo, a estreia foi exaltada no dia seguinte. Como ele está magro e tem muita técnica, já foi tido como a solução para o São Paulo e, ainda, seu desempenho seria a redenção de um jogador que nunca teria recebido o merecido destaque porque é tímido e não marqueteiro. “Esse sim é um fenômeno”, soltaram. No jogo seguinte, ele não fez quase nada, o time perdeu e ele saiu vaiado. Esperavam que fizesse um golaço por jogo?

Com Ronaldinho, não foi muito diferente. Sua estreia, também contra um time fraco, foi apenas mediana, para quem – ao contrário de Rivaldo – vinha atuando com frequência num campeonato acirrado como o italiano. Mas ele deu alguns passes com aquele jeito vistoso e, na partida seguinte, marcou um gol, embora de pênalti. Bastou para que o oba-oba se reanimasse. Observadores mais distantes, no entanto, veem que apesar de ter apenas 30 anos Ronaldinho está muito longe do seu auge, talvez nem a 50% dele. Mesmo assim, os torcedores acham que em breve ele estará dando títulos e shows de novo; afinal, se aparece sempre sorridente, deve ser porque está “motivado”. Caso nada disso aconteça, pode anotar que a culpa será das baladas noturnas.

Ronaldo, que começou o ano mal, sem fazer gols, apanhou de todos os lados depois da derrota para o Tolima. Ninguém jogou bem, mas o “gordo” paga o preço porque é o maior nome e salário do time. Mais justo seria criticar primeiro a diretoria, que não achou ninguém para dividir com ele a responsabilidade dos gols – como agora Liédson, que chegou tarde – e ninguém à altura de Elias e William, que vinham sendo tão importantes. Quanto à aposentadoria, por que insistem tanto nela se já tem data marcada? Ronaldo tem todo o direito de ficar até o final do ano, tanto quanto qualquer outro jogador desse elenco, e sabe que tem de melhorar a mobilidade. Já a vitória sobre o Palmeiras foi tida como prova de um novo “brio” e “coração”, como se o rival não tivesse criado muito mais perigo.

Mas é assim que os brasileiros tratam os ídolos: ou eles jogam tudo ou não são nada. E não só os veteranos, como temos visto na seleção sub-20. Neymar já é tratado como astro: na vitória, parece que jogou sozinho; na derrota, é sempre o principal culpado. Ele é esquentado e tem muito a melhorar também na técnica, mas a geração não é das mais animadoras e, se existe alguém que pode vir a fazer história no futebol, esse alguém é ele. Deve, porém, ouvir os conselhos certos e não cair na gangorra emocional em que a mídia vive, endeusando às quartas e demonizando aos domingos.

Tudo isso lembra o “homem cordial” de Sergio Buarque de Holanda. Cordial quer dizer que vem do coração, da paixão, dos afetos, sem passar pelo filtro da razão, do método, dos motivos impessoais. Por isso o torcedor está sempre pronto ou à exaltação ou à agressão, quase nunca ao exame criterioso dos fatos. Os times brasileiros, por exemplo, nunca perdem para um adversário, seja ele o Tolima seja a Argentina; perdem apenas para si mesmos e a culpa é sempre do craque, a quem “faltou coração”… Eu queria que pelo menos a uma minoria não faltasse cabeça.

* Publicado no Estado de S.Paulo, em 09/02/2011.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Clássico é clássico

Clássico é clássico. Ou seja, não importa se um dos times está numa conjuntura favorável e o outro em pleno inferno astral: em um clássico, qualquer resultado é possível. Ontem, o princípio valeu até para o rubgy e o futebol americano. No rugby, o Brasil, pela primeira vez na história, venceu a Argentina (vão precisar refazer aquela propaganda que exalta o crescimento do esporte no nosso país, mencionando o feito histórico). No Super Bowl, o principal jogo daquele rugby de capacetes que os norte-americanos chamam de futebol, o franco-favorito Pittsburgh Steelers viu a zebra Green Bay Packers, que quase não se classificou para os playoffs finais, levantar a 45ª taça.


Voltando ao futebol de verdade, jogado com os pés, Palmeiras x Corinthians, pelo Paulistão, Botafogo x Fluminense, pelo Carioca, e Brasil x Argentina, pelo Sul-Americano Sub-20, reforçaram o princípio.

***

São Júlio César

Em tarde inspiradíssima do goleiro corinthiano Júlio César, o Timão frustrou as expectativas – de alguns corinthianos, inclusive – de que passaria por mais um vexame após a derrota para o Tolima, o que seria a pá de cal sobre Tite, Ronaldo, Andrés Sanchez e companhia. Mas, apesar de ter maior volume de jogo, mais posse de bola e, sobretudo, mais chances reais de gol, o Palmeiras, líder do Paulistão, se viu derrotado pelo arquirrival em uma das duas únicas subidas perigosas do Corinthians. Além do gol de Alessandro, o Timão só ameaçou a meta alviverde em um chute à queima-roupa de Jucilei, defendido por “são” Marcos.

No entanto, quem andou fazendo milagres foi mesmo Júlio César. O goleiro corinthiano fez nove defesas, sendo quatro bastante difíceis. O que mostra a evolução desse jovem talento do Parque São Jorge. Como se não bastasse, Júlio César também contou com aquilo que nove entre dez comentaristas mencionam como pré-requisito de todo bom goleiro: sorte. Em dois lances, o gol palmeirense só não saiu por conta do rodrigueano Sobrenatural de Almeida. No primeiro, após rebatida do goleiro corinthiano, o zagueiro Maurício Ramos, frente a frente com o gol livre, chutou para fora. No segundo, um lance inacreditável, já nos estertores da peleja, em que, após outra rebatida, a bola foi cabeceada na trave por Patrick, bateu nas costas de Chicão e foi agarrada por “são” Júlio César em cima da linha.

Apesar da superioridade palmeirense, como futebol é bola na rede, comemorou o Timão, que soube se defender e marcar o tento da vitória.

No Palmeiras, destaque para Adriano, que deu grande movimentação ao time logo que entrou no lugar de Tinga. Destaque também para a “ausência” de Cicinho, apagadíssimo em campo, e para a evidente necessidade de um companheiro de ataque para Kleber. Que venha Valdívia.

No Corinthians, além de Júlio César, destaque para Ralf, sempre eficiente na marcação, para a renascida determinação de Jucilei e para a evidente incapacidade de Edno em cumprir a função de um atacante realmente perigoso. Que venha Liedson.

***

Loco é quem me diz...


Na partida entre Botafogo e Fluminense aconteceu de tudo. Pênaltis polêmicos, pênalti com cavadinha (dois), pênalti marcado, pênalti perdido, expulsões, substituições criticadas, cinco gols e até convite para churrasco. Isso mesmo. Perguntado após o jogo sobre entrevero com Fred, o botafoguense “Loco” Abreu, disse que o atacante tricolor se enervara por sua recusa em ir a um churrasco que faria logo mais.

Como se não bastasse, para comprovar que o apelido vem bem a calhar, Abreu cobrou dois pênaltis – um polêmico, outro inexistente – com a tradicional cavadinha. No primeiro, Diego Cavallieri pegou facilmente; no segundo, converteu.

O grande destaque em campo foi Renato Cajá, que marcou gol, deu assistência para outro de Herrera, além de chutes sempre perigosos de fora da área.

O Fluminense, então líder do grupo e favorito, também viu sua superioridade em tese cair na real. Em que pese o chororô contra a arbitragem (neste caso, chororô com razão de ser, partido do pessoal das Laranjeiras), o Botafogo faturou três gols, três pontos e a chance de escapar do Flamengo nas semifinais da Taça Guanabara.

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Complexo de Felipe Melo

Também o Brasil foi vítima da maldição dos favoritos nos clássicos deste domingo. Acima de tudo, foi vítima de si mesmo, de seu nervosismo. Enfrentando uma Argentina que, pelo retrospecto no torneio sul-americano, assusta muito menos que outros escretes hermanos do passado, o Brasil deixou-se levar pela ansiedade e, talvez, pela pressa em resolver sua classificação para o Mundial da Colômbia e para as Olimpíadas de Londres.

Logo no início, nossa seleção perdeu o zagueiro e capitão Bruno Uvini, contundido. Com a zaga enfraquecida, sofreu com as investidas do bom atacante argentino Funes Mori. Logo aos 7 minutos, Mori disputou uma bola com o zagueiro Juan que, num ímpeto de Felipe Melo, aplicou-lhe um sopapo dentro da área. Resultado: pênalti para a Argentina e Juan expulso. O mesmo Funes Mori bateu e converteu a cobrança. Ney Franco foi obrigado a sacrificar o atacante Oscar para repor a zaga.

Mesmo jogando com a zaga reserva (Romário e Saimon) e com um a menos, o Brasil era mais perigoso. Neymar passou a se movimentar por todo o campo – e, da mesma forma, foi duramente caçado pelos marcadores argentinos. Lucas também participou mais da articulação de jogadas. Aos 10 do segundo tempo, em um chute de fora da área, William marcou um golaço.

Com o empate, o Brasil deu mais espaços à Argentina, que contra-atacou pouco quando esteve em vantagem no placar. A Argentina chegou ao segundo gol em uma bobeira da defesa brasileira, que assistiu Iturbe entrar costurando até ficar na cara de Gabriel. Resultado: 2 a 1, Argentina.

Daí para frente o Brasil foi nervosismo puro. E ineficiência para chegar ao gol argentino. Para piorar, Neymar, irritado com as constantes faltas sofridas, tomou cartão amarelo por reclamação e está fora da próxima partida.

Em suma, o Brasil está agora em segundo lugar – o que basta para ir às Olimpíadas –, restando duas partidas para acabar o Sul-Americano. Porém, no próximo confronto, contra o Equador, a equipe não contará com Bruno Uvini, Juan e Neymar. Se não vencer, o Brasil pode ver muito longe uma vaga que já dava como certa.

JFQ

Luto


William Moraes, 20 anos, atacante do Corinthians, emprestado ao América Mineiro, foi assassinado, ontem, em Belo Horizonte. O jogador, que participou de algumas partidas pelo Corinthians no campeonato brasileiro do ano passado, foi morto ao reagir a um assalto.

Confesso que fiquei bastante chocado com o fato. Pela brutalidade em si, por conta da pouca idade de William, por considerá-lo uma revelação com potencial verdadeiro para uma carreira brilhante. No ano passado, tive a oportunidade de ver William Moraes em campo, e constatei in loco sua boa mobilidade aliada à afoiteza natural de um garoto tendo que mostrar serviço ao técnico e à torcida.


A morte de William Moraes me fez lembrar a de outra jovem promessa corinthiana, cuja vida foi ceifada aos 19 anos. Seu nome era Sérgio Gil, um jogador muito rápido, habilidoso e inteligente. Um grande talento, sem dúvida, morto em um acidente de carro, em 1989.

E como não lembrar a prematura partida do genial Dener...

JFQ

Talvez

Fábio Seixas


Há exatos cinco meses, em 6 de setembro, o secretário-geral da Fifa chegava ao Brasil para decidir sobre a inclusão do Itaquerão na Copa de 2014.

Caso tenha ligado a TV do hotel, Jerôme Valcke viu imagens do acontecimento esportivo da véspera: o adeus do Maracanã, num Flamengo x Santos com 43.350 torcedores.

Saiam os jogadores para entrar os operários, quase dá para ouvir o "Suderj informa".

O francês decidiu. Provavelmente viu. Falou, falou, falou, como sempre. Embarcou para o aconchego do escritório nas colinas de Zurique. De lá para cá, não regressou ao país.

E caso retornasse hoje, para curtir um dia mais ensolarado do que aquela segunda-feira chocha de inverno, ficaria surpreso. Pelo que não foi feito.

Pelos cinco meses perdidos.

Pela confusão armada, muito maior agora -até porque o prazo é mais escasso.

Em Itaquera, tudo o que fizeram foi limpar o terreno.

Nunca houve o anúncio da parceria que pagará (será?) os 12 mil lugares a mais exigidos para a partida de abertura.

O Corinthians tampouco fechou acordo de "naming rights". E, convenhamos, além de essa tendência não ter pegado por aqui, que empresa acreditará que o torcedor abraçaria sua marca em vez de "Itaquerão"? Ou "Fielzão"?

Na sexta-feira, esta Folha revelou que o projeto é o recordista de ressalvas em relatório da Fifa e do Comitê Organizador Local sobre a situação dos estádios para o Mundial: 109.

O Morumbi, descartado porque o presidente da CBF não se entende com o presidente do São Paulo, recebeu 30 críticas na primeira avaliação...

No Maracanã, o cenário só é um pouco melhor porque já há, de fato, operários trabalhando. Parte das arquibancadas foi ao chão. Mas o Ministério Público Federal investiga suspeitas de irregularidades na licitação, além de problemas na elaboração do projeto.

Tem mais: problemas estruturais na cobertura do estádio não detectados antes do processo licitatório, vejam que graça, podem encarecer a obra em mais R$ 275 milhões.

Mas talvez a premissa do quarto parágrafo esteja errada. Talvez Valcke não se surpreenda. Talvez o francês e seus colegas de Fifa estivessem esperando por isso.

Talvez não seja coincidência terem dado uma Copa para o Brasil após os problemas nas obras da África do Sul, com direito a torneira aberta dos cofres do governo para saná-los.

Talvez as belezas do Rio não tenham sido o grande argumento para que o COI trouxesse a Olimpíada para cá. Talvez a boa vontade governamental e a experiência do derramamento de dinheiro público na preparação para o Pan-Americano de 2007 não tenham passado despercebidas pelos cartolas europeus. Talvez, para eles, quanto pior, melhor.

Por ora, são só talvez...

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/02/2011.