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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Em nome da Copa

Ruy Castro



O estádio do Maracanã, na zona norte, fica numa confluência de bairros -São Cristóvão, Tijuca, Vila Isabel, Grajaú, Benfica, Estácio, Riachuelo, Andaraí, Rio Comprido-, todos densamente povoados e a distâncias que dispensam condução. Até há pouco, em dia de clássico, era emocionante ver a massa indo a pé, de chinelo, para o estádio -aos milhares, em passo acelerado, com as camisas dos dois clubes vestindo vizinhos de bairro ou de rua.

E, para quem morasse longe, nunca faltaram trens, táxis e, depois, o metrô. O carro particular sempre foi a última opção. Em 50 anos de Maracanã, posso contar as vezes em que fui num deles ao estádio.

Leio agora que, em nome da Copa e por ordens da Fifa, as violências que já se cometeram contra o Maracanã se estenderão ao seu entorno, a começar pela demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare. Esses dois equipamentos, em cujas pistas e raias surgiram tantos atletas brasileiros, irão ao chão para dar lugar a um estacionamento. Mais uma vez, o esporte é atropelado pelo mais arcaico e egoísta dos meios de transporte, o automóvel.

As picaretas atingirão ainda o Museu do Índio, prédio de 1865, que o poder público reduziu a cortiço. Em seu lugar, surgirá uma área de escape, permitindo que o Maracanã se esvazie em oito minutos em caso de terremoto, tsunami ou tufão. E, ao lado, a Escola Municipal Friedenreich, admirada por sua eficiência, também será demolida, para que surjam quadras de aquecimento de atletas.

Para a Fifa, o novo frequentador do Maracanã, depois de estacionar seu Cooper ou Jaguar, fará compras nos shoppings do estádio, se acomodará num belo camarote, discutirá Kant com os convidados da CBF e, de vez em quando, dará uma espiada no jogo pelo janelão que o separa dos verdadeiros torcedores.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/12/2012.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A conquista de um sonho




Rafael Soares

Acredito que poucos se deram conta das vitórias conquistadas pelo Corinthians no seu Centenário. A primeira delas, e talvez a mais importante porque abriu caminho para as que se seguiram, foi a reestruturação da diretoria do clube. O Corinthians, semelhante a grande maioria dos clubes brasileiros, nunca havia conseguido emplacar uma administração profissional de seu futebol. A história do alvinegro paulista foi marcada por diretorias amadoras, escândalos, declarações acaloradas, negócios realizados por pura emoção ou que não beneficiavam em nada o clube.

No entanto, após umas das piores crises, que levou o clube ao inferno da segunda divisão, surgiu no Corinthians uma nova administração muito mais próxima ao modelo profissional que todos desejam. A marca Corinthians foi reconhecida como uma das mais importantes do país, gerando uma série de ações de marketing muito bem sucedidas, auferindo muitos recursos ao clube, além do reconhecimento internacional. O time passou por um grande período mantendo a base e o treinador, comportamento que permitiu o retorno a primeira divisão do futebol nacional, lhe rendeu títulos tanto regional quanto nacional e o colocou novamente na disputa do mais desejado título para os corinthianos, o da Copa Libertadores.

A Libertadores não foi conquistada, ainda, porém algo mais importante, e que parece passar desapercebido, sim. A construção de seu estádio, sonho mais antigo do que a conquista da América, foi garantida hoje. E mais, este estádio tão desejado e tão importante para seu crescimento e afirmação do clube como o mais importante do país, será nada mais nada menos do que a abertura da Copa do Mundo de 2014! Esta conquista, articulada no ano do Centenário, é muito mais importante do que a Libertadores, porque elevará o clube a um novo estágio e proporcionará muitos títulos, inclusive o da Libertadores.

* Rafael Soares, corinthiano, é colaborador do Ludopédicas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Teixeira por Teixeira

Juca Kfouri


Dá até pena.

As declarações de Ricardo Teixeira, o cartola que comanda o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo no Brasil, à repórter Daniela Pinheiro, da revista "Piauí", são uma saraivada de tiros nos próprios pés.

Fora as balas perdidas em devaneios que os fatos não comprovam, como por exemplo a menção às pesquisas que aprovam seu trabalho na CBF. Fosse assim, por que ele fugiria de qualquer evento público no país? Por que foi vaiado na festa da própria CBF no fim do ano passado, no Theatro Municipal do Rio? Ou por que ouviu o coro que ouviu até da elite que estava na premiação do último Mundial de futebol de areia em Copacabana?

Outro tiro que erra o alvo é o que tenta convencer os leitores de que não foram as manobras protelatórias de seus advogados, pagos pela CBF, que conseguiram levar ao arquivo boa parte das denúncias que teve de responder na Justiça.

Mas nada disso surpreende.

Nem mesmo sua arrogância e o vocabulário destemperado, de baixo calão, típico de quem usa o discurso para esconder o sentimento, embora faça questão de revelar seu indiscutível poder.

Poder, como ele mesmo diz, de fazer maldades, de negar credenciamentos e até de constranger os amigos, ao deixar mal, por exemplo, o jornalismo da Rede Globo que, segundo ele, lhe seria subserviente.

Mas poder que não o faz nem ter credibilidade nem ser querido, apesar de achar que merece pois imagina que ganhou as duas Copas do Mundo conquistadas em sua gestão interminável.

Apesar disso, fica evidente que Teixeira sofre.

Porque quem crê nele? Nem sua pequena filha, que protagoniza episódio delicioso na reportagem, ao se surpreender com a repentina mudança de candidato apoiado por ele na recente eleição da Fifa e levar um beliscão por baixo da mesa para calar-se e deixar de ser inconveniente.

Que o ex-sogro, João Havelange, aos 95 anos, o tenha na conta e diga que ele é a própria definição de malandragem ("no bom sentido, claro") é compreensível. Mas que ele, ainda aos 64, fale que um portal como o UOL dá traço, ou que faz parte, com a Folha, o "Lance!" e a "ESPN", de uma "patota" é digno de internação, porque só Freud explica.

Teixeira imaginou que uma publicação com laços com o banco Itaú, patrocinador da CBF e da Copa, o pouparia. Enganou-se e falou demais.

Deu bom-dia a cavalo.


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/07/2011.

Obs: A entrevista concedida por Ricardo Teixeira à Revista Piauí: http://blogprosecontras.blogspot.com/2011/07/entrevista-de-ricardo-teixeira-revista.html

terça-feira, 5 de julho de 2011

Por uma solução realmente majestosa

Após o 5 a 0 contra o São Paulo, com direito a frango do ídolo Rogério Ceni, o diretor de marketing do Corinthians, Luis Paulo Rosenberg, lançou a campanha: faltam 19 gols para o Timão fazer o centésimo sobre Ceni. A provocação é uma resposta ao tão propalado centésimo gol do goleiro, feito sobre o alvinegro, em partida realizada em março. Além disso, é mais uma resposta – como se não bastasse o baile no último jogo – aos tricolores que afirmavam que Rogério faria o centésimo gol, pela segunda vez, contra o arquirrival, já que a FIFA reconhece apenas 99 dos tentos anotados pelo arqueiro.


Essas são provocações que fazem parte do futebol. A rivalidade entre as torcidas é um ingrediente fundamental para que o esporte bretão seja tão popular e, por que não dizer, elemento relevante na cultura nacional. E a rivalidade entre corinthianos e são-paulinos, em particular, no chamado Clássico Majestoso, é uma das principais, indubitavelmente, do futebol brasileiro.

Intróito feito, há que se realçar uma disputa nada majestosa que vem se travando entre alvinegros e tricolores. Uma disputa que vai muito além das quatro linhas e que abrange dinheiro público e a possibilidade de desenvolvimento de uma região carente da capital paulista.


O último capítulo da novela do estádio da Copa do Mundo de 2014 foi a aprovação de R$ 420 milhões em incentivos fiscais pela Câmara Municipal de São Paulo para a construção Fielzão, projeto de “casa” do Corinthians. Após dois turnos de votações, os incentivos foram aprovados por 39 votos contra 15 e uma abstenção. Além disso, foi aprovado substitutivo do Executivo que condiciona os incentivos à realização da abertura da Copa do Mundo em São Paulo e que o governo abra em até 60 dias um novo edital para que haja isenção fiscal para as empresas interessadas em se instalar na Zona Leste.

Em minha modesta opinião, sopesados os prós e contras, os custos e benefícios da aprovação ou não, a solução parece ter sido razoável. Há bons argumentos de lado a lado, assim como há discursos demagógicos e eleitoreiros para atingir, por um lado, os que não admitem que São Paulo esteja fora do Mundial ou, por outro lado, aqueles que associam tudo o que diz respeito à Copa com falta de ética, com corrupção e, na melhor das hipóteses, com falta de mentalidade cidadã. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Do jeito que ficou, como amante do futebol e como cidadão paulistano, confesso que fiquei satisfeito. Contempla o desejo – legítimo! – da maior cidade do país em participar deste evento caríssimo (em todos os sentidos) aos brasileiros, os interesses – também legítimos! – de inserção da Zona Leste no desenvolvimento da capital e as cautelas – fundamentais! – para que recursos públicos não sejam aplicados tão-somente para a contemplação de interesses privados e/ou em projetos indevidos.

***


Este desfecho, contudo, não se deu sem discussões ríspidas e acusações. Acusações, inclusive, de que interesses e sentimentos clubísticos estariam acima do interesse público. No caso, interesses e sentimentos de corinthianos e de são-paulinos.

O mais engraçado é que tanto os favoráveis à concessão das isenções, como os contrários, arrogam-se na condição de patriotas em defesa do bem nacional. Afloram-se os ímpetos de grandiosidade patriótica naqueles que bradam pela necessidade da concessão, num indisfarçável tom de chantagem, uma vez que sem elas não haverá estádio paulista na Copa, uma vergonha municipal, estadual e nacional, além de que a pobre região de Itaquera jamais terá semelhante oportunidade de desenvolvimento econômico e social. Já os contrários vociferam pela injustiça, falta de ética e inconstitucionalidade das isenções, tratando-se de um clube rico e de uma empreiteira milionária, beneficiados por uma graça estatal, via de regra, negada aos comuns empreendedores.

O fato é que a Copa está aí e São Paulo, por meio de seus representantes, precisa decidir se quer ou não participar do evento. Claro que a questão não é tão simples, há outros tópicos a serem considerados. Não foi São Paulo – a cidade – que tirou o estádio do Morumbi logo no início, considerado palco certo da abertura. Também os cidadãos paulistanos não foram consultados se desejavam que seus recursos fossem investidos neste evento, muito embora seja bem provável uma aprovação maciça à participação da cidade na Copa, em que pese o discurso moralista de quem não se conforma até agora que o Brasil tenha sido escolhida para ser a sede da Copa de 2014 e também das Olimpíadas de 2016.


A propósito, apesar de legítimo o voto contrário aos benefícios fiscais à Odebrecht e ao Corinthians dado vereador Aurélio Miguel, campeão olímpico e conselheiro do São Paulo Futebol Clube, bem como por outros onze membros da edilidade paulistana, parece um tanto forçada a atitude de, perdida a batalha no plenária da Câmara, recorrer ao Ministério Público aventando a inconstitucionalidade da medida.

Enfim, tanto os favoráveis como os contrários aos benefícios podem fundamentar seus votos nas razões e interesses mais condizentes com o interesse público, como podem valer-se das motivações mais torpes. Não é o ser a favor ou ser contra, pura e simplesmente, que evidenciará o patriotismo ou a malandragem implícita na decisão do “nobre” edil. Ainda assim, o resultado do imbróglio talvez tenha sido o melhor, dada a circunstância.

JFQ

***

Como votaram os vereadores

Sim

Adolfo Quintas (PSDB)

Agnaldo Timóteo (PR)

Alfredinho (PT)

Atílio Francisco (PRB)

Carlos Apolinário (DEM)

Claudinho (PSDB)

Claudio Prado (PDT)

Dalton Silvano (sem partido)

David Soares (PSC)

Domingos Dissei (DEM)

Edir Sales (DEM)

Eliseu Gabriel (PSB)

Everson Marcos de Oliveira (PSDB)

Francisco Chagas (PT)

Gilson Barreto (PSDB)

Goulart (PMDB)

Ítalo Cardoso (PT)

Jamil Murad (PCdoB)

José Américo (PT)

José Police Neto (sem partido)

José Rolim (PSDB)

Juliana Cardoso (PT)

Juscelino Gadelha (sem partido)

Marta Costa (DEM)

Milton Leite (DEM)

Milton Ferreira (PPS) Natalini (sem partido)

Netinho de Paula (PCdoB)

Noemi Nonato (PSB)

Paulo Frange (PTB)

Quito Formiga (PR)

Roberto Tripoli (PV)

Salomão (PSDB)

Senival Moura (PT)

Souza Santos (sem partido)

Toninho Paiva (PR)

Ushitaro Kamia (DEM)

Victor Kobayashi (PSDB)

Wadih Mutran (PP)

Não

Abou Anni (PV)

Adilson Amadeu (PTB)

Antonio Carlos Rodrigues (PR)

Arselino Tatto (PT)

Attila Russomanno (PP)

Aurelio Miguel (PR)

Aurélio Nomura (PV)

Carlos Neder (PT)

Chico Macena (PT)

Claudio Fonseca (PPS)

Donato (PT)

José Ferreira, o Zelão (PT)

Marco Aurélio Cunha (DEM)

Sandra Tadeu (DEM)

Tião Farias (PSDB)

Não votou

Celso Jatene (PTB)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Alguém explica?

Antero Greco

Como apaixonado por futebol, assim como você, preferia agora discutir o belo empate do Santos contra o Peñarol, anteontem, pela final da Libertadores. O time brasileiro ficou perto do tri, para honra de sua história gloriosa. Seria mais empolgante, também, falar do líder São Paulo, do vice-líder Corinthians e do imprevisível Palmeiras, ali entre os quatro.

Mas vou ser sincero: se na coluna de hoje eu me pusesse a abordar só a bola rolando, iria me sentir traidor. Isso mesmo: estaria a enganar a você e a mim. Na ordem natural das coisas, o mundo do futebol deveria girar em torno dos astros, dos treinadores, das polêmicas a respeito de quem é melhor, se o juiz errou ou com quem ficará o título. Era assim; agora não mais, infelizmente.

Por aqui, o esporte mais popular do mundo virou assunto de Estado e de interesse público, por causa dos preparativos para a Copa que a Fifa jogou no nosso colo. Não passa dia sem que sejamos surpreendidos por medidas que desafiam o bom senso e atingirão nosso bolso, em nome da boa organização do evento previsto para 2014.

Abro o Estado de ontem e vejo que é aprovada isenção de ISS para a Fifa, que já havia recebido outras benesses. O texto final carece de ajustes, mas o essencial está lá: a dona da Copa, que nem brasileira é, fica livre de imposto que toda empresa daqui paga. (Em São Paulo, todo mês religiosamente repasso 5% para a Prefeitura, sem perdão.)

Veja que curioso. A Fifa vira e mexe se zanga com algum governo que mete o bedelho na estrutura do futebol. Ela diz que isso é inadmissível, pois não se pode permitir que a política interfira no esporte. E pune o país em questão. Está certo que em geral ela propõe represálias para Confederações poderosas como as de Cochinchina, Longistão, Beleléu… O Brasil teve CPIs sobre futebol, há uma década, e não sofreu sanções.

Pois a Fifa apolítica, que celebrou um Mundial na Argentina sob ditadura sangrenta, dá seus pitacos em governos soberanos. Basta ver as exigências que faz de participação oficial para as Copas e as isenções fiscais que pede. Quer dizer, governo não pode intervir no futebol, mas a Fifa pode fazer com que estados deixem de arrecadar impostos.

Abro também a Folha de S. Paulo de quinta-feira e leio que o governo federal pretende manter sob sigilo os custos das obras para a Copa de 2014 e para os Jogos Olímpicos do Rio em 2016. Trocando em miúdos, é o seguinte: os gastos só serão fornecidos para órgãos competentes – os Tribunais de Contas –, quando o governo achar conveniente, e sob a condição de que não se tornarão públicos. Ficam fechados a sete chaves.

Dessa forma, não se saberá, por exemplo, se houve estouro em algum orçamento para esses eventos.

A alegação para a inclusão desse item na Medida Provisória 527 (que trata especificamente das duas competições) é a de que se corria risco de fraudes nas licitações. Agora, tudo se torna mais controlável. Também se diz que a constituição prevê sigilo, sempre que houver interesse do Estado e da sociedade.

Sei que assunto tão delicado foi estudado por gente muito mais preparada do que eu, que não passo de reles palpiteiro de esportes. Mas, preso à minha ignorância, me assaltam dúvidas. Uma delas: quanto mais transparentes forem as contas e as concorrências públicas, tanto melhor para todos? Ou não?

Não é de interesse da sociedade saber para onde vai seu dinheiro? Não é melhor para o governo escancarar o jogo, num momento em que as obras para a Copa despertam ceticismo no povo e nos deixam com um pé atrás? Não lutamos tanto contra censura e pelo estado democrático, justamente para debatermos com os governantes temas importantes para nossa vida? Já querem tornar eternos certos papéis oficiais. Agora, também os gastos para Copa e Olimpíada, que não são tão essenciais assim, ficarão trancados, longe de olhos curiosos?

Sei que é alta a probabilidade de estarmos a travar batalha perdida. Sei que são cada vez menos os órgãos de imprensa que se permitem fazer questionamentos. Sei que, à medida que se aproximar a Copa, com clima ufanista, serão vistos como chatos e antipatriotas Jucas, Trajanos, Calazans, Mauro Cézares, Salins e Malias da vida e outros que rechaçam o jornalismo chapa-branca. Mas esses, tanto quanto você e eu, são como o macaco Sócrates, do Planeta dos Homens, e candidamente afirmam: “Eu só queria entender”.

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 17/06/2011, e em http://blogs.estadao.com.br/antero-greco/2011/06/17/alguem-explica/ 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Chega de conversa

Antero Greco


O noticiário desta semana sobre Fifa e Copa do Mundo foi de provocar indignação em espíritos sensatos. As reportagens do Jamil Chade, na Suíça, deram enjoo em estômagos mais sensíveis. A cartolagem internacional emporcalha-se na lama de suspeitas de corrupção e, pelo jeito, nem liga pra isso, não está nem aí para a opinião pública.

Os conchavos e o jogo sujo na briga pelo poder não me surpreenderam – e, suponho, nem a você. Faz tempo que vira e mexe aparece um escândalo a envolver a casa suprema do futebol, que se auto-protege para evitar destruição. Que famiglia! Embora, como qualquer império, um dia venha a acabar, apodrecido, como de praxe. É lei da vida, é da História, não escapa. Uma hora acontece.

Mas teve um detalhe que me chamou a atenção. A reportagem de capa de ontem deste caderno de Esportes, assinada pelo Jamil, trouxe indiscrições preocupantes de pessoas ligadas à Fifa. Fontes do bravo repórter garantiram que os entraves às pretensões de São Paulo e do São Paulo para o Mundial programado para estas bandas são consequência de postura do Comitê Organizador Local. Em resumo: o interesse de azucrinar a cidade e o time que leva seu nome é coisa doméstica e não da Fifa.

Não é à toa que há um ano e meio o São Paulo tomava bordoada ao apresentar seu projeto de reforma do Morumbi. A turma da Fifa se aferrava a cada vírgula para fazer cara feia e pedir revisão. Nova versão, com os ajustes pedidos, e mais restrições, mais broncas, mais ar entediado. Sinais claros de que se preparava terreno para a exclusão, confirmada pelo Estado três meses antes de tornar-se oficial. A desfaçatez veio mais tarde, quando a mesma Fifa aprovou, sem sequer conhecer, o plano alternativo paulistano representado pelo estádio a ser erguido pelo Corinthians. Estava visível a mão do gato nessa lengalenga.

Superada a fase da arena, vieram as cobranças por obras em São Paulo. Pessoal ligado à Copa se meteu a botar banca, como se fosse dono da cidade, como se aqui fosse a casa da Mãe Joana. Porque em São Paulo não tem isto, porque falta aquilo, porque o aeroporto é ruim, porque as obras estão atrasadas, porque não haverá Copa das Confederações, porque a abertura pode ir para outra cidade, porque São Paulo pode ser banida de vez da festa. É ministro que reclama; governador e prefeito pressionados.

Ei, que história é essa?! O cronograma para a Copa de 14 escoou ralo abaixo faz tempo, e isso não se discute. Se a Fifa levasse a sério suas exigências, teria mandado o Brasil cantar em outra freguesia e repassava adiante a organização do evento. Mas a bagunça é geral, não se limita à cidade de São Paulo. Não que isso sirva de consolo; ao contrário, é lamentável. O brasileiro médio já pressente o festival de improviso, dentro de três anos. E com uma fatura monstruosa, que já se sabe quem vai pagar: eu, você, nós…

Enche a paciência pintar São Paulo como fútil, indolente, desinteressada. Parece que no restante das sedes vai tudo no melhor dos mundos. Não é assim, a Fifa sabe, a presidente Dilma sabe, o Comitê Organizador Local está careca de saber. Só que agora, após a reportagem de ontem, surgiu uma luz. Sempre segundo a Fifa, é briga política, de caráter pessoal, de gente daqui com o São Paulo e com os governantes paulistas. Ficou tudo mais claro…

São Paulo precisa, de fato, de aeroportos modernos, como tem necessidade de escolas públicas boas, de transporte decente, de melhor qualidade de ar, de mais segurança, de menos agressão à sua paisagem. De mais verde. Não por causa da Copa, mas por direito das pessoas que vivem aqui. Os governantes deveriam se coçar por respeito aos cidadãos e não por meia dúzia de jogos de futebol.

Se a Fifa (ou CBF ou Comitê Local ou o Zé das Couves) não vê São Paulo em condições de receber partidas do Mundial, que a risque do mapa e fim de papo. Só não fique com conversa fiada. Não venha incomodar quem está quieto e trabalha. São Paulo não é a sede mais bonita – provavelmente seja até a mais feia. E daí? Mesmo assim, é das cidades mais importantes.

São Paulo não precisa da Copa, mas o inverso é verdadeiro. Os cartolas sabem que aqui estão muitos dos melhores hotéis, dos hospitais mais modernos, os grandes centros de venda. É o grande mercado do País. Chega de jogo de cena, que soa a chantagem. E está na hora de os políticos daqui darem um basta nessa esculhambação

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 03/06/2011, e no blog do autor: http://blogs.estadao.com.br/antero-greco/2011/06/03/chega-de-conversa/ 

sexta-feira, 4 de março de 2011

O legado da Copa do Mundo da Alemanha

Rodrigo Bueno


O país-sede da Copa de 2006 tem muito a ensinar ao país-sede da Copa de 2014.

Não me refiro à organização do Mundial em si, mas sim ao fortalecimento do futebol nacional. Se a inglesa Premier League hoje é o sonho, a alemã Bundesliga é algo que caminha nesse sentido e que está ao alcance.

Com estádios novos, mercado aquecido e venda coletiva de direitos de TV, a liga alemã é a de maior média de público, superando a casa dos 40 mil torcedores/jogo.

Os ingressos não são caros, e a distribuição de renda entre os clubes equilibra a disputa, nos moldes do que acontece na Inglaterra (50% dos direitos de TV são divididos igualmente entre os times, 25% decorrem da classificação e 25% ficam por conta da audiência).

Foi assim que a liga alemã superou o tradicional Italiano no ranking da Uefa e parte para cima do Espanhol, que já decidiu rever o privilégio absurdo de Barcelona e Real Madrid na distribuição do dinheiro da TV.

Na temporada passada, o campeão Bayern foi o clube alemão que mais arrecadou da TV (€ 28,1 milhões), porém não muito mais que o lanterna no quesito, o Hoffenheim (€ 13,3 milhões).

O Borussia Dortmund sairá da fila com média superior a 78 mil pessoas/jogo. Festa justa para sua fiel torcida, mas a Alemanha celebra mais, coletivamente.

***

PÚBLICO ALEMÃO

2010/ 2011 (24 rodadas)

Total 9,02 mi Média 41.805

2009/2010

Total 13,00 mi Média 42.490

2008/2009

Total 13,01 mi Média 42.519

2007/2008

Total 12,07 mi Média 39.457

2006/2007

Total 12,23 mi Média 39.972

2005/2006

Total 12,47 mi Média 40.766

2004/2005

Total 11,56 mi Média 37.794

2003/2004

Total 11,46 mi Média 37.474

2002/2003

Total 10,46 mi Média 34.198

2001/2002

Total 10,10 mi Média 33.039

2000/2001

Total 9,45 mi Média 30.913


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 03/03/2011.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Talvez

Fábio Seixas


Há exatos cinco meses, em 6 de setembro, o secretário-geral da Fifa chegava ao Brasil para decidir sobre a inclusão do Itaquerão na Copa de 2014.

Caso tenha ligado a TV do hotel, Jerôme Valcke viu imagens do acontecimento esportivo da véspera: o adeus do Maracanã, num Flamengo x Santos com 43.350 torcedores.

Saiam os jogadores para entrar os operários, quase dá para ouvir o "Suderj informa".

O francês decidiu. Provavelmente viu. Falou, falou, falou, como sempre. Embarcou para o aconchego do escritório nas colinas de Zurique. De lá para cá, não regressou ao país.

E caso retornasse hoje, para curtir um dia mais ensolarado do que aquela segunda-feira chocha de inverno, ficaria surpreso. Pelo que não foi feito.

Pelos cinco meses perdidos.

Pela confusão armada, muito maior agora -até porque o prazo é mais escasso.

Em Itaquera, tudo o que fizeram foi limpar o terreno.

Nunca houve o anúncio da parceria que pagará (será?) os 12 mil lugares a mais exigidos para a partida de abertura.

O Corinthians tampouco fechou acordo de "naming rights". E, convenhamos, além de essa tendência não ter pegado por aqui, que empresa acreditará que o torcedor abraçaria sua marca em vez de "Itaquerão"? Ou "Fielzão"?

Na sexta-feira, esta Folha revelou que o projeto é o recordista de ressalvas em relatório da Fifa e do Comitê Organizador Local sobre a situação dos estádios para o Mundial: 109.

O Morumbi, descartado porque o presidente da CBF não se entende com o presidente do São Paulo, recebeu 30 críticas na primeira avaliação...

No Maracanã, o cenário só é um pouco melhor porque já há, de fato, operários trabalhando. Parte das arquibancadas foi ao chão. Mas o Ministério Público Federal investiga suspeitas de irregularidades na licitação, além de problemas na elaboração do projeto.

Tem mais: problemas estruturais na cobertura do estádio não detectados antes do processo licitatório, vejam que graça, podem encarecer a obra em mais R$ 275 milhões.

Mas talvez a premissa do quarto parágrafo esteja errada. Talvez Valcke não se surpreenda. Talvez o francês e seus colegas de Fifa estivessem esperando por isso.

Talvez não seja coincidência terem dado uma Copa para o Brasil após os problemas nas obras da África do Sul, com direito a torneira aberta dos cofres do governo para saná-los.

Talvez as belezas do Rio não tenham sido o grande argumento para que o COI trouxesse a Olimpíada para cá. Talvez a boa vontade governamental e a experiência do derramamento de dinheiro público na preparação para o Pan-Americano de 2007 não tenham passado despercebidas pelos cartolas europeus. Talvez, para eles, quanto pior, melhor.

Por ora, são só talvez...

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/02/2011.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A logomarca da Copa de 2014



A logomarca da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi registrada pela FIFA no OHMI, entidade responsável pelo registro de marcas na União Européia, no dia 29 de março deste ano.
O anúncio oficial da logo será no dia 8 de julho, em Joanesburgo. O desenho estará nos uniformes de todas as seleções participantes da Copa de 2014.

sábado, 15 de maio de 2010

Portal da Copa de 2014

Pensando na Copa do Mundo de 2014, que será realizada aqui no Brasil, o Ministério do Turismo lançou portal sobre o evento. Vale a pena dar uma olhada, especialmente nos depoimentos.

De vez em quando, postaremos algum desses depoimentos aqui. Para começar, Sócrates e Xico Sá.

O endereço é http://www.copa2014.turismo.gov.br/