quinta-feira, 27 de maio de 2010

Futebol para Ler


Alambrado é o título do último livro de Antonio Roque Citadini, lançado pela Algol Editora. Trata-se de uma coletânea de textos, publicados nos últimos anos em revistas, jornais e na internet, abordando o universo do futebol sob o prisma assumidamente parcial – no caso, corinthiano – de Citadini.

Aliás, neste ano do centenário do Corinthians, é mais que do oportuno – diria: é necessário – o registro das opiniões e comentários deste que é um dos mais conhecidos dirigentes da história do Timão.

Ontem, na Livraria Cultura, em São Paulo, houve noite de autógrafos com o autor. Estive lá para conferir.

JFQ

Exposição Copas do Mundo de A a Z


A partir do próximo dia 1 de junho, estará aberta a nova exposição temporária do Museu do Futebol: “Copas do Mundo de A a Z”.

A exposição pretende ser uma enciclopédia das Copas do Mundo. Contará com 26 salas, correspondentes às 26 letras do alfabeto. Alguns exemplos: a sala “D” mostrará dribles, a sala “F”, figurinhas, a “Z”, zebras, e assim por diante.

O Museu do Futebol fica no estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Vale a pena conferir.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Internazionale é campeã da Liga dos Campeões da Europa


A Internazionale de Milão conquistou a Liga dos Campeões da Europa 2009-2010. Com ela, a tríplice coroa, já que também faturou neste ano a Copa da Itália e o Campeonato Italiano, pelo 5º ano consecutivo.

A Inter sagrou-se campeã da Europa após 45 anos de espera. Da última vez que havia levantado a taça, na temporada 1964-65, o gol da vitória contra o Benfica foi do brasileiro Jair da Costa. Ou seja, não é novidade a participação de brasileiros nos títulos europeus desse clube milanês.

Júlio César, Maicon, Lúcio e Thiago Motta foram fundamentais na conquista da terceira Liga da Inter. Os dois primeiros, há mais tempo no clube, participaram de todos os títulos da fase vitoriosa iniciada com o campeonato italiano de 2005-06; diga-se de passagem, um título que “caiu no seu colo”, após descoberta de manipulação de resultados pela Juventus.

É cada vez mais comum ouvir declarações de comentaristas que consideram Júlio César o melhor goleiro do futebol mundial atualmente. A conquista da Liga e a participação muitas vezes decisiva de Júlio César tendem a fazer com que essa concepção beire ao consenso. O que será fatal caso o Brasil conquiste a Copa.

Também Maicon chegou ao ápice de sua carreira jogando, ao mesmo tempo, no time italiano e na seleção brasileira. Não se trata apenas de um ala forte e veloz, mas de um jogador que alia tais características a uma técnica mais e mais apurada e um desempenho tático fundamental, tanto no papel de defensor como no de apoio ao ataque.

Lúcio provou que ainda é um grande zagueiro, vencendo justamente seu ex-clube, o Bayern de Munique, que o dispensara em 2009 por conta de uma renovação do elenco.

Thiago Motta, por sua vez, mostrou-se um defensor implacável – às vezes, exageradamente –, importantíssimo na marcação, a maior característica da Internazionale do técnico José Mourinho.

A propósito, há que se louvar o competentíssimo treinador português, vitorioso na Inter como nos tempos de Porto e de Chelsea. O grande mérito de Mourinho foi tornar o elenco “italiano” – na verdade, não há um só jogador italiano no time titular – em um time, uma equipe que sabe jogar em conjunto. Aliás, eis a missão que terá no Real Madrid: fazer com que um elenco galáctico se torne uma equipe.

Além dos brasileiros, os argentinos foram essenciais à campanha campeã da Inter. Tanto os defensores – Samuel, Cambiasso e o veternano capitão Zanetti – como a grande estrela da final, o atacante Diego Milito, autor dos dois gols.



Merecem menção também o camaronês Eto’o – mais tático, jogando para o time, e menos técnico e habilidoso que nos tempos de Barcelona – e o ótimo meio-campo holandês Sjneider, importantes peças para as conclusões a gol, feitos por eles próprios ou em assistências, especialmente a Milito.

Enfim, a Internazionale foi, com todos os méritos, a legítima campeã européia desta temporada. A vitória por 2x0 sobre um esforçado, mas desarticulado Bayern – em grande parte pela ausência de Ribery e pelo dia sem brilho de Robben – foi apenas a gota d’água de uma estupenda campanha. Só para lembrar, a Inter despachou os poderosos Chelsea, nas oitavas, e Barcelona, nas semifinais.

Se servir de alento à seleção brasileira, em comum com a concepção de Dunga, o time de Mourinho estrutura-se primeiramente na defesa, formando uma barreira praticamente intransponível, em que Eto’o começa a marcar na frente, Cambiasso e Thiago Motta formam uma parede no meio, assim como Samuel e Lúcio mais atrás, terminando nas mãos seguras de Júlio César. Em suma, um time em que todos se aplicam na marcação, mas que também sabe atacar – especialmente, contraatacar – com muita rapidez, utilizando a velocidade de Maicon nas subidas, e a presença Eto’o e Milito próximos à área adversária.

Em tempo: ainda nas quartas de final, previ que a Inter seria a campeã. É só pesquisar aqui no blog.

JFQ

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Libertadores chega às semifinais com mais um confronto brasileiro

A Libertadores chega às semifinais com mais um confronto brasileiro: São Paulo e Internacional. O último, já que só os dois ainda representam o Brasil no torneio.

São Paulo e Internacional disputarão uma vaga nas finais. Como recordar é viver, os dois fizeram a final da Libertadores em 2006, quando o time gaúcho conquistou sua primeira – e, até agora, única – taça. Por ironia, naquela ocasião, um dos principais jogadores do Colorado era Fernandão, que assume a mesma condição hoje no Tricolor. Além dele, também Jorge Vagner, hoje no São Paulo, sagrou-se campeão da Libertadores pelo Inter.

Outra curiosidade é que os dois times se enfrentarão no próximo domingo. Não pela Libertadores, mas pelo campeonato brasileiro. Mera coincidência. Os jogos pelas semifinais da Libertadores acontecem apenas depois da Copa do Mundo.


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O campeão voltou?




O São Paulo passou como um trator pelo Cruzeiro. Duas vitórias por dois a zero, ambas com gols de Dagoberto e Hernanes. Ambas com grandes atuações de Marlos e Fernandão. A grande diferença entre os jogos é que, no segundo, infelizmente, houve uma participação decisiva também do árbitro.

Para ficar claro: o São Paulo não obteve sua classificação por causa da expulsão indevida de Kléber; o Tricolor conquistara uma vantagem importantíssima em Belo Horizonte, e dificilmente deixaria escapar a classificação. Porém, o exagero da interpretação de Jorge Larrionda sobre a mão do atacante cruzeirense no rosto de Richarlyson foi decisivo para que a Raposa não oferecesse qualquer ameaça na partida do Morumbi. Interpretações são sempre relativas, subjetivas, coisa e tal. Porém, não apenas pelo pouquíssimo tempo de jogo – que, a rigor, não é critério para que se dê ou não o cartão vermelho –, mas pelo lance em si, é difícil considerar que o senhor Larrionda tenha acertado na sua decisão.

O árbitro uruguaio considerou agressão o gesto de Kléber de abrir os braços quando da aproximação de Richarlyson. Essa atitude – proteger-se abrindo os braços – pode ser inconveniente, às vezes merecedora de cartão? Sim, às vezes: quando o jogador, de forma ríspida, atinge o rosto do adversário. Mas dificilmente será comparável a uma cotovelada, uma agressão propriamente dita, merecedora de cartão vermelho. O fato é que Kléber não agrediu Richarlyson; no máximo, disputou a jogada de forma atabalhoada. Para ser sincero, não achei sequer merecedor de cartão amarelo. O que ficou claro, interpretações à parte, é que Oscar Larrionda apita no grito. Duvido que daria o cartão vermelho não fosse a reação de Richarlyson e os apupos da torcida. Aliás, caso o entendimento de Larrionda fosse aplicado por todos os árbitros, muitos jogadores deveriam ser expulsos a cada jogo. Dentinho, do Corinthians, e Fábio Rochembach, do Grêmio, por exemplo, nunca mais ficariam 90 minutos completos em campo.

Há que se louvar a melhora que o São Paulo teve nesses dois jogos contra o Cruzeiro. Marlos, que já vinha se firmando como uma das principais peças na articulação do meio para a frente, assume a condição de jogador fundamental no esquema são-paulino. Arranca muito bem, iniciando a distribuição de bola para o ataque tricolor, e chega bem à frente. Porém, ainda falta melhorar a conclusão. Marlos costuma chutar mal e fraco ao gol adversário. Sanada essa insuficiência, será um jogador ainda mais perigoso, nos moldes do seu companheiro Hernanes.

A propósito, o ambidestro meio-campo são-paulino voltou a jogar seu melhor futebol, após longa fase de perda de brilho. Hernanes voltou a ser perigoso como antes, marcando atrás e chegando para aplicar seus tirombaços a gol, seja de direita, seja de esquerda. Para isso, deve-se reconhecer a participação de Fernandão. O novo reforço do time não deve ser considerado um gênio que mudou a história são-paulina, mas certamente, abriu ao São Paulo a possibilidade de um novo esquema ofensivo, servindo de pivô para as chegadas dos homens de trás. O ataque do São Paulo, sem a menor dúvida, tornou-se muito mais perigoso depois de sua chegada.

Arrisco-me a dizer que o São Paulo está com pinta de campeão. Assume a condição de favorito. Claro, ponderando-se tal condição com o velho discurso de que em clássicos, dado o peso do adversário, favoritismo não é certeza de vitória. Aliás, que o digam Corinthians e Cruzeiro, também considerados favoritos em seus confrontos, respectivamente, contra o Flamengo e contra o próprio São Paulo.

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O humano e o grito



O ex-jogador Sócrates, hoje comentarista, tem uma tese de que o futebol, acima de tudo, deve ser analisado pelo seu prisma humano. O futebol é encantador não só por conta dos esquemas táticos, das belas jogadas, da plasticidade dos lances. O futebol é encantador porque revela o ser humano na sua essência, seu lado racional e, sobretudo emocional, assim como os modos como se dão as relações humanas com suas belezas e mazelas. Faço esse intróito tosco – me perdoem – apenas para salientar que o árbitro, coitado, também está à mercê da imensa carga emocional que envolve uma partida. Não apenas os jogadores são vitimados ou fortalecidos pela vibração da torcida, que ora os eleva, ora os enterra, como também o juizão é passível dessa onda emocional.

Jorge Larrionda não agiu impulsivamente, muito menos racionalmente, ao expulsar Kléber. Foi levado pelo forte impulso emocional vindo do grito da torcida são-paulina no momento em que Richarlyson contorcia-se no chão. Arnaldo César Coelho, aliás, foi muito feliz ao definir a arbitragem de Larrionda: um bom árbitro, mas que apita no grito. Pelo grito, agiu (reagiu?), expulsando erroneamente Kleber. Sim, Larrionda errou. E errar é humano.

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A garra que vem dos pampas


Se o São Paulo assumiu a aura de “time de Libertadores”, o Internacional mostrou toda a tradição da bravura dos pampas. Para que esse espírito florescesse de vez, nada melhor do que disputar a vaga nas semifinais contra uma equipe argentina. Mais: o atual campeão do torneio.

Os dois jogos foram disputadíssimos, duros como se era de esperar. O Colorado, vale lembrar, conta com jogadores argentinos (Abbondanzieri, D’Alessandro, Guiñazu), com o uruguaio Sorondo, além do técnico Jorge Fossati, também uruguaio. Ou seja, essa mesclado elenco sul-americano, aliado à força gaúcha, resulta no melhor espírito de Libertadores. É o que se viu contra o Estudiantes.

Da mesma forma que na partida em Porto Alegre, o Inter resolveu a parada a poucos minutos do fim. Perdendo por 2x0 desde o primeiro tempo – destaque para o lançamento de Verón, cracaço, mesmo veterano, no primeiro gol do Estudiantes –, o Colorado partiu para o tudo ou nada. Mas só aos 43 do segundo tempo, em um passe milimétrico de Andrezinho, Giuliano tocou no canto, selando a classificação da equipe brasileira.

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O instável Flamengo, enfim, caiu


Não deu para o Flamengo. Apesar da vitória por 2x1, a vaga ficou para o Universidad de Chile, que vencera no Maracanã por 4x3. O Mengo foi brioso, lutou, mas chegou ao resultado previsível da instabilidade que demonstrou durante todo o torneio. Desde o começo, o Flamengo esteve no fio da navalha. Ainda na primeira fase, passando pelas oitavas contra o Corinthians, culminando na desclassificação de ontem, o rubro-negro oscilou bons e maus momentos na Libertadores. Eis um torneio em que estabilidade, no caso, expressão de um time bem estruturado, é fundamental para qualquer pretensão de título. Resta agora partir com tudo para o bicampeonato brasileiro (ou seria o hepta? O hexa?). E torcer para que a ameaça de crise, que também se mostrou claudicante desde o começo do ano, não acabe por estourar de vez agora.

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Campeão Mundial sem ser campeão da Libertadores?
O Chivas Guadalajara, que entrou já nas oitavas de final, também está classificado. Vai pegar o Universidade de Chile e tem boas chances de chegar às finais. Se isso acontecer, e o time mexicano for o campeão, quem vai ao Mundial da Fifa é o vice. Os times do México são convidados para o torneio sul-americano; a vaga no Mundial a que podem almejar é a decorrente do título da Concacaf, torneio referente às Américas Central e do Norte. E tal vaga já está preenchida para o Mundial deste ano: é do mexicano Pachuca.

Ou seja, caso o Chivas vença a Libertadores 2010, e o vice vá a Dubai no final do ano para representar a América do Sul, pode haver um campeão mundial que não venceu a Libertadores. Assim como o Corinthians em 2000. No caso, esse time seria o São Paulo ou o Internacional.

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Reforçando: as semifinais da Libertadores serão jogadas só depois da Copa do Mundo.

JFQ

Os novos meninos da Vila contra os novos baianos



Santos e Vitória farão as finais da Copa do Brasil. Vale lembrar que o vencedor dessa disputa assegura vaga na Libertadores de 2011. Será o confronto entre os novos meninos da Vila contra os novos baianos.

Desde 1993, quando o próprio Vitória disputou – e perdeu – o título brasileiro contra o Palmeiras, é a primeira vez que um clube baiano chega à final de um torneio nacional. A propósito, levantar um caneco nacional, naquele Estado, é privilégio do arquirrival do Vitória: o Bahia foi campeão da Taça Brasil de 1959 e campeão brasileiro em 1988.

O Vitória passou com louvor sobre o Atlético Goianiense: 4x0. Assim como seu próximo rival, o Santos, o time baiano reverteu situação adversa, já que perdera o primeiro jogo por 1x0. Desfalque importante será o goleiro Viáfara, que tomou o segundo cartão amarelo, erroneamente aplicado por Eber Roberto Lopes, após cobrar um pênalti com paradinha. Não avisaram o juizão que a determinação da Fifa só passará a vigorar a partir de junho. Mancada que, a bem da justiça, deve ser revertida no tapetão.

Quanto ao Santos, o discurso é o de sempre: joga bonito, é o melhor time brasileiro da atualidade, Ganso, Neymar e companhia são ótimos, coisa e tal. Mas há um senão que aos poucos fica mais evidente: o Santos oscila seus momentos de futebol maravilhoso com momentos de apagão total. Assim como na final do Paulistão contra o Santo André, o primeiro tempo santista foi uma sucessão de erros de passe, conclusões desperdiçadas e perigosos avanços do adversário. Mais uma vez teve a sorte de não sofrer gols enquanto perdurava seu apagão. Quando “voltou a ser Santos”, Paulo Henrique, que errara diversos passes no primeiro tempo – em um deles, inclusive, quase Borges fez o gol gremista –, acertou um tirombaço, de muito longe, que levou a bola ao ângulo esquerdo do gol de Victor. Parênteses: o gol de Paulo Henrique, cujo futebol me faz lembrar muito o de Sócrates, foi bastante parecido com o gol feito pelo doutor na Copa de 82, contra a União Soviética; fecha parênteses. Em seguida, em contraataque fulminante, a bola sobrou para Robinho que fez uma pintura, encobrindo Victor. Mesmo o gol do Grêmio, após falha de Felipe, não impediu que o Peixe repetisse seu contraataque fatal, resultando em outra pintura, agora desenhada por Wesley.

O Santos merece a condição de vedete do momento, seus jogadores merecem os aplausos que vêm recebendo. Porém, a pergunta que surge é: até quando sairá vitorioso esse Santos que oscila entre brilhar e apagar?

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Assim como a Libertadores, a Copa do Brasil só volta após a Copa do Mundo.

JFQ

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Contusão tira Ballack da Copa


A Alemanha não contará com Michel Ballack na Copa do Mundo. O meia do Chelsea sofreu uma entrada forte de Kevin-Prince Boateng, do Portsmouth, na final da Copa da Inglaterra. O lance ocasionou rompimento dos ligamentos do tornozelo direito do jogador alemão.

O Chelsea venceu por 1x0 e conquistou mais um título nacional neste ano.

Ballack deve voltar a jogar em oito semanas. A Copa começa no dia 11 de junho.

sábado, 15 de maio de 2010

Portal da Copa de 2014

Pensando na Copa do Mundo de 2014, que será realizada aqui no Brasil, o Ministério do Turismo lançou portal sobre o evento. Vale a pena dar uma olhada, especialmente nos depoimentos.

De vez em quando, postaremos algum desses depoimentos aqui. Para começar, Sócrates e Xico Sá.

O endereço é http://www.copa2014.turismo.gov.br/


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Racismo e outras "coisas de jogo"

Ontem foi dia 13 de maio. Comemorou-se os 122 anos de assinatura da Lei Áurea, quando foi abolida a escravidão no Brasil. Há quem minimize a importância dessa data como marco da luta dos negros pela liberdade, pela conquista de direitos iguais e contra o racismo. Há quem prefira o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, quando se comemora o “dia da consciência negra”. A importância do negro na sociedade brasileira deve ser destacada todos os dias, assim como sua luta por dignidade e respeito.

A propósito, há pouco tempo ocorreu um episódio de racismo no futebol brasileiro – mais um! Em partida realizada pela Copa do Brasil entre Palmeiras e Atlético Paranaense, uma cena acabou se destacando mais do que a peleja em si. O zagueiro palmeirense Danilo, após uma cobrança de escanteio, entrou em atrito com o zagueiro atleticano Manoel. Este ameaçou lhe dar uma cabeçada, ao que Danilo reagiu cuspindo e chamando Manoel de “macaco”. As hostilidades recíprocas prosseguiram por todo o jogo – Manoel chegou a pisar em Danilo quando este estava caído –, e foi além. Após a partida, o atleticano dirigiu-se a uma delegacia, onde registrou boletim de ocorrência contra o palmeirense por injúria qualificada por discriminação racial. Ambos foram denunciados no STJD, mas confesso desconhecer se houve alguma punição efetiva nos gramados e a quantas anda o caso na esfera criminal.

O que me chamou mais a atenção foram as reações. De um lado, aqueles que julgaram a atitude de Danilo como imperdoável expressão de racismo, merecedora da máxima pena. De outro, os que acharam a questão uma bobagem, muita discussão por nada ou, explorando a fauna para transitar do racismo à homofobia, uma “veadagem”. O próprio Danilo, por sua vez, definiu sua atitude como uma dessas “coisas de jogo”. Ou seja, algo normal, que acontece em qualquer partida, como os encontrões, as faltas, as reclamações com o árbitro, as vaias e cantos da torcida, as discussões ríspidas entre companheiros do mesmo time para demonstrarem sua vontade de vencer (lembram-se dos “afagos” entre Obina e Maurício, ex-companheiros de Danilo?). Enfim, “coisas do jogo” são coisas corriqueiras, normais, ordinárias, sem importância, fazem parte da vida. E ponto. Será?

A atitude de Danilo é condenável, certamente, assim como toda forma de racismo. Do mais velado ao mais escancarado. Porém, sem querer justificar, mas, sim, entender a atitude do jogador, tento focar o sentido mais profundo da sua frase. Como assim chamar um adversário negro de “macaco” é “coisa de jogo”? Quer dizer que uma afronta dessas é normal, banal?

Fundado no escravismo que vigorou por séculos no Brasil, legalmente extirpado no 13 de maio de 1888, o racismo subsiste na sociedade brasileira, donde os gramados e as arquibancadas constituem também seus espaços. Subsiste em forma e intensidade diferentes do racismo observado em outras sociedades. Nesse sentido – de estar, de alguma forma, presente – o racismo, infelizmente, é normal como a homofobia, o bullying nas escolas, a corrupção na esfera pública, a ganância dos empresários, a sonegação de impostos, e tantas outras coisas observadas com frequência indesejada, mas real. É tudo “coisa do jogo”. Mesmo que não seja aceitável.

Os preconceitos, todavia, não teriam a persistência que têm se existissem apenas nesse âmbito genérico a que denominamos ora como sociedade, ora como cultura. Têm um domicílio mais recôndito: o inconsciente dos indivíduos, o mais profundo de suas almas. Aliás, um dia após a partida, Danilo veio a público desculpar-se pela reação infeliz e alegou não ser racista. Acredito piamente que Danilo não se veja, com toda a sinceridade, como racista. Pelo menos, esse tipo de preconceito não lhe ocorre conscientemente. Mas também acredito que o racismo está nele de modo inconsciente, evidenciado pelo impulso incontrolável quando afrontado por Manoel.

Na mesma vertente pode ser entendida frase do jovem craque Neymar, em entrevista a uma rádio. A jornalista questionou-lhe se já havia sofrido preconceito racial, ao que Neymar respondeu: "Nunca. Nem dentro, nem fora do campo. Até porque não sou preto, né?". Objetivamente, é cada vez mais complicado afirmar-se desta ou daquela cor ou raça. Não obstante, Neymar não se ver como negro, enquanto muitas pessoas – a jornalista, inclusive – assim o fazem, diz muita coisa sobre os preconceitos escondidos em nós. Falando nisso, há um ótimo estudo da antropóloga Lilia Schwartz mostrando certos negros que, ao ascenderem econômica e socialmente, passaram por uma espécie de “embranquecimento” da autoimagem. Isto é, lembram-se do tempo em que eram pobre e “eram negros”.

Paradoxalmente, apesar de admitir como fato social que o racismo é “coisa de jogo”, acredito que condição fundamental para que esta e outras formas de preconceito sejam definitivamente debeladas da sociedade (utopia?) é a não aceitação, de modo veemente, de atitudes como as de Danilo. Não, não são “coisas de jogo”! As pessoas devem, sim, indignar-se quando se deparam com irrupções racistas como essa, sem o desdém cínico e confortável de taxar as críticas de “veadagem”. De qualquer forma, também devem tomar muito cuidado para controlarem nelas próprias esses impulsos discriminatórios, reveladores da necessidade de atenção íntima quanto aos próprios preconceitos, inconscientemente guardados.

Uma atitude louvável foi tomada pelo governo brasileiro e de países africanos: pediram à ONU que discuta propostas práticas para erradicar o racismo do esporte. Resolução nesse sentido foi aprovada por unanimidade no Conselho de Direitos Humanos da entidade, em Genebra. O combate ao racismo vai muito além do fair play pregado pela FIFA. É interessante como, mesmo persistindo os xingamentos nas arquibancadas – xinga-se o árbitro, ou melhor, sua mãe, xinga-se o craque adversário de tudo, especialmente de “veado” –, já vigora uma auto-contenção por parte dos torcedores, ao menos os brasileiros, em relação a insultos racistas. Infelizmente, em outros lugares tais insultos são ainda observados, causando a repulsa de todo o mundo, como no caso do Zenit, de São Petersburgo, na Rússia: seus os torcedores imitavam macacos em jogos contra adversários que tinham jogadores negros no elenco.

Encerro, aproveitando a passagem do 13 de maio para registrar a homenagem aos tantos e tantos negros que ajudaram a fazer do futebol a força que é no Brasil e no mundo. Desde o mais anônimo perna-de-pau até o Rei Pelé. E também para saudar o fato de que daqui a alguns dias assistindo a uma Copa do Mundo em plena África. Melhor: na África do Sul, de Mandela. 

JFQ

Os jogos de ida das quartas da Libertadores

Para os mais apressados, os jogos de ida das quartas de final da Libertadores foram marcados pela quase definição dos classificados. Para os mais cautelosos, porém, qualquer previsão é extremamente temerária.

O Chivas Guadalajara entrou “com o bonde andando”, mas entrou com tudo no torneio. Jogando em casa, arrasou o Libertad, do Paraguai, por 3x0. Para se classificar, pode perder por até dois gols de diferença. Se marcar um gol, pode perder por três gols. Lembrando que, caso o Chivas seja o campeão da Libertadores, o vice é que terá a vaga para o Mundial da FIFA. Só o Pachuca, campeão da Concacaf, representará o México em Dubai, no final do ano.

Quem se deu muito mal foi o Flamengo. Perdeu em pleno Maracanã para o Universidad de Chile por 3x2. Mas o jogo poderia muito bem ter acabado 10x10, tantas foram as oportunidades de gol incrivelmente perdidas. Agora o Mengo tem a missão duríssima de vencer o Universidad em pleno Chile, onde a pressão da torcida é muito forte, por dois gols de diferença. Reverter essa situação é possível, muito difícil, porém possível. De qualquer forma, o time carioca mostra ser o mais instável dos brasileiros na Libertadores.

O vexame do rubro-negro carioca não se limitou ao placar. Perguntado sobre as vaias e xingamentos vindos dos próprios torcedores do próprio Flamengo, descontentes com a atuação do time, a reação de Bruno não foi das mais tranquilas. “Estou me lixando para eles”, foi sua resposta. Depois de brigar com Andrade, desdenhando do ex-comandante por “nunca ter ganho nada” (Andrade venceu 5 brasileiros, foi um ótimo jogador, muito melhor que Bruno!), depois de soltar a pérola sobre sair no tapa com a própria mulher, agora Bruno lixa-se para quem paga ingresso e lota os estádios para ver o seu time. Conclusão inescapável: Bruno, calado, é um poeta! Além do destempero, a originalidade também não é o forte do goleiro. Afinal, estar se lixando também é o pensamento de certos deputados a respeito daqueles que os elegem, não é mesmo?!

Cruzeiro e São Paulo fizeram o segundo embate brasileiro da Libertadores. Mesmo jogando fora de casa, o Tricolor foi um time equilibrado, sólido na defesa e perigoso no ataque, durante toda a partida. Aliás, creio que tenha sido a melhor partida do São Paulo este ano. Não há como deixar de creditar ao estreante Fernandão boa parte dos méritos pelo resultado. Fernandão foi um exímio pivô – função que muitos queriam que Washington desempenhasse, apesar de não ser essa sua melhor característica –, preparando bolas para Hernanes, Marlos, Dagoberto e quem mais chegasse. Além dele próprio mostrar capacidade de desempenhar a função de matador.

O fato é que, com Washington, o time precisa jogar em sua função. A eficiência ofensiva, nesse caso, seria aumentada com um esquema 4-3-3, com dois segundos atacantes – no caso, Dagoberto e Fernandinho –, abertos nas pontos, a servir o “coração valente” na área. Como Ricardo Gomes é avesso a essa esquema, não admitindo perder meio-campo em prol de um atacante a mais, Fernandão passa a ser a opção ideal.

Além dele, Marlos e Hernanes articularam muito bem as jogadas de ataque, conduzindo a bola do meio para a frente. Na ligação, Dagoberto mostrou sua rapidez. Na zaga, mesmo com a ausência de Miranda, Xandão e Alex Silva cumpriram bem suas funções. Cicinho também foi bem, mostrando que aos pouco retoma seu melhor futebol. Rogério Ceni foi decisivo quando requisitado. O ponto fraco do São Paulo foi a marcação de Thiago Ribeiro nas escapadas pela direita, que, para sorte dos são-paulinos, não se transformaram em gol.

O já ganhou é sempre temerário e a humildade deve ser sempre valorizada. Mas, para mim, a vaga do Tricolor para as semifinais está garantida. Mais do que isso: a atuação do São Paulo o coloca como um dos grandes favoritos ao título. Muito embora, ser favorito nesta Libertadores revelou-se condição que dá um certo azar...

No jogo de ontem, o Internacional, jogando em casa e empurrado por uma torcida entusiasmada, enfrentou um páreo duríssimo: o Estudiantes, atual campeão da Libertadores. O jogo foi brigado e a bola só entrou a poucos minutos do final. Porém, o golzinho do uruguaio Sorondo pode ter sido o gol da classificação do Colorado. Apesar da necessária cautela – é bom lembrar que o Estudiantes em casa é fortíssimo –, acredito na classificação do Inter. O que resultaria no terceiro confronto de brasileiros desta Libertadores.

JFQ

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Os jogos de ida das semifinais da Copa do Brasil

Começaram as semi da Copa do Brasil. Como se esperava, jogos duros e emocionantes. E nada definido.

O emergente Atlético Goianiense conquistou um importante resultado em casa sobre o Vitória: 1x0. Placar excelente, não apenas por derrotar o adversário, como por ter evitado o gol dentro de casa. Agora o time baiano precisa vencer em casa por dois gols de diferença para assegura sua classificação à final. Sem favoritos.

Já a partida de Porto Alegre foi digna de uma final (não quero sugerir nada). Um jogaço! O Santos, para manter sua recente tradição, oscilou momentos de arrasar o adversário a outros de completo apagão. Fez dois a zero, tomou o vira (4x2), e fez o terceiro no final. Placar: 4x3 para o Grêmio. Uma vitória, desde que o Grêmio não faça três ou mais gols, dá a classificação ao Peixe. O jogo é na Vila e também não há favoritos.


O que não oscilou no Santos foi o futebol de primeiríssima categoria de Paulo Henrique Ganso (viu, Dunga!). Deu um passe perfeito para a chegada de André, no primeiro gol, um toque espetacular para Robinho no segundo, e ainda quase fez um gol de placa, encobrindo Victor: a bola, caprichosamente, bateu no travessão.

Eu juro que por mais que tente não consigo entender a opção de Dunga por não levar Ganso. Falando nisso, adorei a última de José Simão. Tinha que ser ele! Diz o Macaco Simão: “Dunga aderiu à campanha antidrogas: CRACK NEM PENSAR”. É isso, eis a explicação.

JFQ

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Opinião de Torcedor

Abaixo, comentários de torcedores sobre o confronto entre São Paulo e Cruzeiro pela Libertadores:




"Apesar de ser uma opinião suspeita, acho que o tricolor passa do Cruzeiro. O primeiro jogo vai ser truncado e aposto num placar 1 x 1, com destaque para a eficiência da zaga tricolor (Miranda vai dar conta do Kleber e o Alex Silva vai anular o Thiago Ribeiro). Já o segundo jogo vai ser bem mais aberto, tanto pelo fato do São Paulo jogar em casa e, por isso, se soltar mais ao ataque, como pelo Cruzeiro que vai tentar marcar um gol na casa do adversário a todo custo. Será um jogo bem mais interessante para quem gosta de futebol bem jogado, mas acredito que se não ocorrer expulsões bobas (tem ocorrido com frequência em jogos importantes) o São Paulo ganhará por um placar magro, mas que o levará as semi."

Rogério Ceron, são-paulino.


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"Acho que é grande a chance de o Cruzeiro enfrentar o Estudiantes em uma final novamente. Apesar de ainda haver indefinições em três jogos, na minha opinião, os confrontos nas quartas serão: Cruzeiro X São Paulo; Estudiantes X Inter; Chivas X Libertad; Flamengo X Universidad de Chile. Destes, caso Cruzeiro, Estudiantes, Flamengo e Chivas avancem, por exemplo, o Cruzeiro enfrentará o Flamengo na semi-final, e o Estudiantes pegará o Chivas. Se os dois avançarem, o que eu considero provável, teremos uma reedição do duelo!"

William, cruzeirense (www.cruzeiroonline.blogspot.com)

Mais um duelo brasileiro na Libertadores




Hoje tem mais um duelo de brasileiros pela Copa Libertadores. O Cruzeiro pega o São Paulo, em Belo Horizonte, no primeiro jogo das quartas de final. Promessa de uma partida muito disputada e emocionante.

O Cruzeiro, há um bom tempo comandado por Adilson Batista, tem uma formação leve, rápida, com bons laterais – Jonathan e Diego Renan – , e bons atacantes: Kleber e Thiago Ribeiro, este último em ótima fase. Também no meio-campo conta com a experiência de Gilberto, convocado para a Copa na posição de lateral. Ou seja, o São Paulo terá uma missão duríssima de conter o ímpeto da Raposa, que joga em casa, onde costuma ter um ataque fatal.


Por outro lado, o São Paulo, com um time mais pesado, sem tanta mobilidade, tem uma defesa bem estruturada. O grande problema do Tricolor nesta Libertadores tem sido não transformar em gols as várias situações que cria na área adversária. No entanto, hoje é dia de estréia de Fernandão, em quem se deposita as esperanças de solucionar aquele problema. O trabalho do atacante será facilitado caso as subidas de Marlos e Hernantes funcionem, assim como os cruzamentos de Jorge Vagner – ex-companheiro de Fernandão também no Internacional. Vale lembrar: dado o regulamento, marcar gol na casa do adversário é fundamental para a classificação.


É um clássico, um confronto entre dois grandes times, cada qual com sua característica, e que não deve ficar no 0x0. Além de ser um confronto sem favoritos.


JFQ

A Surpresa da Surpresa

Os torcedores brasileiros somos sabedores do conservadorismo de Dunga. A isto, no mais das vezes, dá-se o nome de teimosia. No entanto, sabedores também da tradição das surpresas na convocação final para as Copas, contava-se também neste caso com o inusitado. Alguns mais afoitos esperavam a convocação de Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ganso, os três, hipótese muito pouco provável. Os mais realistas, por sua vez, esperavam que ao menos um deles estivesse na lista. Eu, por exemplo, achava tão absurda a ausência de Ganso como a presença de Doni, apesar desta ser relativamente previsível.
Eis que Dunga, qual um novo Zagallo, nos fez engolir sua lista arqui-conservadora. Mas não dá para dizer que não fomos surpreendidos novamente! Pois sim, houve uma surpresa: Grafite no lugar de Adriano. Apesar do esforço do atacante flamenguista em não ser convocado para a seleção, tantos foram seus problemas extra-campo, depois da classificação do Mengo na Libertadores esperava-se que o Imperador tivesse garantido sua presença na África do Sul. E, mesmo não sendo relacionado, esperava-se – ou melhor, desejava-se – que um outro atacante (Neymar?) tomasse sua vaga.
Em suma, Dunga surpreendeu na sua surpresa. Nem Ronaldinho Gaúcho, nem Ganso, nem Neymar, mas Grafite. Tal surpresa até foi especulada – inclusive no blog –, mas, confesso, sem muita convicção.
Concordo com Paulo Vinicius Coelho, o grande PVC, ao dizer que o ponto fraco da seleção é a falta de banco. A pergunta clássica: sendo Kaká o único “que desequilibra” no Brasil, quem poderá substituí-lo se houver necessidade? O racional professor Dunga responde: Júlio Batista. E fundamenta: quando foi preciso, Júlio entrou, e entrou bem. Morta a cobra, mostra o pau: na Copa América de 2007 o Brasil não teve Kaká, Júlio César e outros titulares. Contando com Júlio Batista, Doni e outros “contestados”, conquistou a taça, goleando a Argentina na final por 3x0. Ah, e com gol de Júlio Batista!
O que Dunga não pondera é que o Júlio Batista daquela época não é o mesmo de agora: reserva na Roma. Aliás, o mesmo acontece com Doni. Até mesmo a Argentina da Copa pode ser muito diferente – bem mais forte! – do que foi naquela Copa América e nas eliminatórias.
A solução – na verdade, uma espécie de gambiarra –, para a falta de banco pode ser a utilização dos polivalentes. Precisando-se de uma meia que arme e organize o meio-campo, na falta de um Ganso, coloca-se o lateral Gilberto. Na falta de um ala esquerdo de confiança ou de um volante que conduza a bola com mais rapidez, improvisa-se o lateral Dani Alves. Quem não tem cão – porque não quis –, caça com gato.
Por falar em banco, se vingar a tradição, sempre há alguém vindo do banco que se firma no time titular no decorrer da Copa. Quem será? O Josué?
JFQ
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Outros comentários sobre a convocação de Dunga:
O homem cordial
Quando a discussão sobre as convocações do Brasil fica mais ríspida, o treinador tende a colocar um ponto final com a sentença: o time é meu! Ou seja, o treinador é quem escala, ninguém tasca, gostou, gostou, não gostou, o problema é seu. Porém, mesmo que, logicamente, a decisão final deva ser a do comandante, a seleção não é de Dunga, mas do Brasil. As pressões dos torcedores brasileiros são legítimas e muitas vezes úteis. Que o diga Parreira em 94, que só levou Romário aos Estados Unidos por causa da “caixa de ressonância”. No entanto, Dunga mostra dificuldade em matizar sua autoridade, entendida com inquestionável, sobre o escrete canarinho. Assim como se tornam incontestáveis os critérios do treinador para suas escolhas. Exemplo: o critério da lealdade pessoal entre treinador e jogador para fundamentar uma convocação. Essa relação, a meu ver, não é critério razoável para se manter a convocação de jogadores que sabidamente estão mal em seus clubes. Alguns por longo tempo, como Doni. A confiança do professor, alicerçada num trabalho de quase quatro anos, se sobrepõe ao mérito, ao que o atleta produz efetivamente em campo. Enfim, se não é possível a coexistência de quase 200 milhões de treinadores, também não deveria ser aceitável tomar essa instituição nacional chamada seleção brasileira como “o time dos fiéis escudeiros do Dunga”. Isso, a propósito, nos é bastante familiar. Colocar o mérito técnico, profissional, abaixo da relação pessoal, do coração, é um dos traços da brasilidade, como bem ensinou Sérgio Buarque de Holanda no seu “Raízes do Brasil”. Neste instante, Dunga é nosso mais destacado homem cordial.
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O racional e o emocional
Dunga justificou sua lista, em grande parte, como uma escolha racional. Contraposta a ela, pedidos emocionais, apaixonados, de torcedores. Ou seja, pedir Ganso, Neymar e Ronaldinho seria fruto da paixão do torcedor, luxo a que não pode ceder o treinador da seleção. Da mesma forma, mesmo com “o coração” a pedir pela convocação de Adriano, “o cérebro” falou mais alto, optando pelo veto e consequente – além de racional – escolha de Grafite. O engraçado é que a mim parece justamente o contrário. Ao pedir Ganso, por exemplo, muitos brasileiros estão, racionalmente, pedindo o melhor meio-campista brasileiro do momento. Ao passo em que Dunga, convocando uma série de jogadores que estão na reserva em seus times, age com o coração de um pai que não poderia abandonar o filho neste momento tão importante. Além disso, quando Dunga afirma que nós (eles: jogadores e comissão técnica) temos compromisso, temos paixão etc., e esta é a maior força da seleção, beira ao discurso religioso de que a convicção da vitória, a fé, há de sobrepor qualquer adversidade e levar o Brasil ao hexa. Pois sim. Isso lá é racional?

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O Império da Frustração
Adriano não foi convocado. Por quê? Dou meu palpite: além das ausências aos treinos no Flamengo e do espírito baladeiro, porque, seguindo a propaganda em que até Dunga atua, Adriano foi “excessivamente” brahmeiro. Quer dizer, devia ter sido brahmeiro “com moderação”.
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Imagem é Tudo
Por falar nisso, o discurso de Dunga está repleto de palavras de ordem: compromisso, coerência, paixão pela seleção, patriotismo. Quanto ao último chavão, vem ainda adicionado a uma ideia chantagista: quem for contra a convocação é porque não é patriota. Ora, bolas! Soa tão falso, tão produzido, tão artificial, quanto seu grito desafinado na propaganda “A gente é guerreiro!”. Então tá. Convencidos, compraremos o seu peixe, professor.
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A sombra do passado
Outra ideia-força, e falsa, implícita na lista de Dunga, é a de que o sucesso da seleção durante os quase quatro anos em que esses mesmos jogadores estiveram em várias convocações seria uma evidência de repetição do sucesso na África do Sul. Sem querer estragar as expectativas, é bom lembrar que seleções tidas como fortes, até mesmo favoritas, fracassaram. Exemplos: 1982, 1990 e 2006. Por outro lado, seleções criticadas como as de 1994 e 2002 (a seleção de Felipão fora eliminada da Copa América em 2005 por Honduras!) levantaram o caneco. Eis uma boa evidência, isso sim, de que conservadorismo não leva necessariamente ao resultado pretendido, como defende Dunga.
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Haverá um Romário em 2010?
O ótimo Tostão comentou certa vez que o Brasil campeão mundial em 1994 era uma seleção inglesa com um gênio na frente chamado Romário. Tenho a impressão de que a seleção de 2010 também se parece com uma seleção inglesa: muita disciplina tática e pouca habilidade, pouca arte, enfim, pouco “futebol brasileiro” propriamente dito. Se assim for, desta vez, haverá um Romário que nos salve?
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Teoria da Conspiração
Há quem acredite que as Copas não são disputadas com a isenção imaginada. Acreditam, inclusive, que há acordos envolvendo as seleções para que se defina previamente quem será o campeão desta e das próximas Copas. Por este pensamento (paranoico?), a descrença na conquista do hexacampeonato em 2014 não se explica pelas falhas do nosso time ou pelos méritos do adversário nos jogos, mas pelo fato de o Brasil ser sede da próxima Copa e, provavelmente, o próximo campeão. Assim, “eles” não permitiriam que conquistássemos dois mundiais seguidos. Uma crítica possível, é que até hoje o Brasil é o único dos campeões que não venceu em casa, além de ser o único que venceu fora do próprio continente. Ou seja, o complô histórico favoreceria a vitória agora e a derrota em 2014. Não costumo acreditar nessas coisas, assim como não acredito em bruxas... pero que las hay, las hay. Mas, caso esse acordo realmente exista, Dunga certamente está envolvido até o pescoço.
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Quem será o coitado do cortado?
Outra tradição das Copas é a contusão e o corte de algum convocado antes da competição começar. Careca em 82, Ricardo Gomes em 94, Romário em 98, Émerson em 2002, Edmilson em 2006 são exemplos. Conscientes desse fenômeno – quiçá, motivados por alguma esperança indizível –, o pessoal do Futepoca está promovendo a seguinte enquete: Quem será o primeiro cortado da seleção brasileira? Um kit caipirinha será sorteado entre os acertadores. Vale a pena. É só entrar no www.futepoca.com.br . A propósito, quem será o cortado? Será o Josué?
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Os reservas da lista
Por falar em cortes, caso haja algum cortado na lista dos 23, outros 7 foram relacionados por Dunga para eventual substituição. São eles:
Paulo Henrique Ganso (Santos)
Ronaldinho Gaúcho (Milan)
Alex (Chelsea)
Marcelo (Real Madrid)
Sandro (Internacional)
Carlos Eduardo (Hoffeinheim-ALE)
Diego Tardelli (Atlético Mineiro)
Tenho a impressão de que, saia quem sair – se sair –, o convocado será o Ganso. Mas no lugar de quem? Do Josué?

JFQ

terça-feira, 11 de maio de 2010

Saiu a convocação do Brasil para a Copa


Acaba de ser divulgada a lista dos 23 jogadores da seleção brasileira para a Copa do Mundo da África do Sul. Eis os convocados:

GOLEIROS:
Júlio César (Internazionale-ITA)
Gomes (Totteinham-ING)
Doni (Roma-ITA)

LATERAIS:
Maicon (Internazionale-ITA)
Daniel Alves (Barcelona-ESP)
Gilberto (Cruzeiro)
Michel Bastos (Lyon-FRA)

ZAGUEIROS:
Juan (Roma-ITA)
Lúcio (Internazionale-ITA)
Luisão (Benfica-POR)
Thiago Silva (Milan-ITA)

MEIAS:
Gilberto Silva (Panathinaikos-GRE)
Felipe Melo (Juventus-ITA)
Elano (Galatassaray-TUR)
Josué (Wolfsburg-ALE)
Kleberson (Flamengo)
Ramires (Benfica-POR)
Júlio Batista (Roma-ITA)
Kaká (Real Madrid-ESP)

ATACANTES:
Nilmar (Villarreal-ESP)
Luis Fabiano (Sevilla-ESP
Robinho (Santos)
Grafite (Wolfsburg-ALE)

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Acabou a expectativa.

O que você achou?

Comente.
Em tempo: o participante da enquete que acertou o maior número de convocados foi Fabrizio Hamanaka. Acertou 20 dos 23 convocados. Só não previu as convocações de Doni, Michel Bastos e Grafite. Este, aliás, ninguém previu.
JFQ

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Resultado da Enquete

Amanhã será divulgada a lista com os 23 jogadores que irão à África do Sul para defender a amarelinha na Copa do Mundo. O Ludopédicas perguntou quem você acha que estará nessa lista.
Agradecemos àqueles que participaram, tentando decifrar o que está na cabeça (dura?) do professor Dunga, e que amanhã, às 13 horas, aproximadamente, será de conhecimento público.
Resultado da Enquete:
Foram mencionados, contando todas as listas enviadas, 33 jogadores.
14 nomes fizeram parte de todos os palpites. Ou seja, 100% dos participantes acreditam que Dunga convocará os seguintes jogadores: Júlio César (goleiro, Inter-ITA), Maicon (lateral, Inter-ITA), Daniel Alves (Barcelona-ESP), Lúcio (zagueiro, Inter-ITA), Luisão (Benfica-POR), Elano (meia, Galatassaray-TUR), Felipe Melo (Juventus-ITA), Gilberto Silva (meia, Panathinaikos-GRE), Kaká (meia, Real Madrid-ESP), Júlio Batista (meia, Roma-ITA... acredite se quiser), Luis Fabiano (atacante, Sevilha-ESP), Robinho (atacante, Santos) e Adriano (atacante, Flamengo... ah, a classificação na Libertadores!).
Foram mencionados em aproximadamente 80% das listas enviadas: Doni (goleiro, Roma-ITA), Victor (goleiro, Grêmio), Thiago Silva (zagueiro, Milan-ITA), Ramires (meia, Benfica-POR), Josué (meia, Wolfsburg-ALE), Nilmar (atacante, Villareal-ESP) e Paulo Henrique Ganso (atacante, Santos).
Constando de aproximadamente 40% das listas estão Gomes (goleiro, Totteinham-ING), Kléberson (meia, Flamengo), Michel Bastos (lateral, Lyon-FRA), Roberto Carlos (lateral, Corinthians) e Ronaldinho Gaúcho (atacante, Milan-ITA).
Por fim, em 20% dos palpites, mais ou menos, aparecem Miranda (zagueiro, São Paulo), Gilberto (lateral, Cruzeiro), Kléber (lateral, Internacional), Marcelo (lateral, Real Madrid), André Santos (lateral, Fenerbahce-TUR), Alexandre Pato (atacante, Milan-ITA) e Neymar (atacante, Santos).
Pelo jeito, entre as possíveis zebras, quem o pessoal leva mais fé é em Paulo Henrique Ganso.
Após a divulgação dos convocados, será postado aqui o nome do participante da enquete que mais acertou nomes da lista.
Até amanhã.
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Após a divulgação da lista de Dunga, a nova pergunta do blog será a seguinte:
Você está otimista na conquista do hexacampeonato na Copa do Mundo da África do Sul?

Acadêmicos boleiros



Acontece de hoje até sexta-feira, em São Paulo, o 1º Simpósio de Estudos sobre Futebol.

O simpósio é uma realização conjunta do Museu do Futebol, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Para ver a programação completa, basta clicar no link a seguir:

Favoritos ao título do Brasileirão 2010

Começou o Brasileirão 2010. Afora a goleada do Avaí sobre o Grêmio Prudente – pelo placar, não pelo resultado –, não houve nenhuma grande surpresa na primeira rodada. Destaque para o Cruzeiro, que obteve um ótimo resultado contra o Internacional, em Porto Alegre, vencendo por 2x1, com uma ajudazinha do árbitro: o senhor Wilson Luis Seneme viu um toque na área quando o zagueiro colorado Ronaldo tentou matar a bola no peito. Aliás, também o Corinthians precisa agradecer ao árbitro Marcelo de Lima Henrique pelo pênalti inexistente em Souza e que garantiu a vitória sobre o Atlético Paranaense. A vitória e o “amansa Leão” na Fiel, que passou toda a partida oscilando entre o apoio e as cobranças pela eliminação na Libertadores.

A propósito, quais seriam os favoritos para conquistarem o caneco neste ano?
Lembrando que daqui a 6 rodadas o campeonato para por conta da Copa do Mundo, e muita coisa pode mudar quando os jogos forem retomados, no final de julho.
É bom destacar que o campeonato brasileiro é considerado por muitos como o mais competitivo campeonato nacional do mundo. Diferentemente da maioria dos campeonatos europeus, e mesmo os sul americanos, cujos títulos são decididos por dois ou três clubes, o Brasileirão, a princípio, é disputado por quase todos. Quer dizer, no início há um equilíbrio razoável de forças entre a maioria das equipes.
Em suma, é uma especulação de altíssimo risco tentar prever, logo na primeira rodada, quem será o campeão.
Assim, com todas as ponderações possíveis, trago cá meu palpite. Claro, não aponto um único candidato, mas 5. Acredito que a taça ficará com um deles: Santos, Cruzeiro, Grêmio, São Paulo e Atlético Mineiro.
Último senão: o palpite não se mantém caso essas equipes se desfaçam dos principais jogadores e de seus treinadores no decorrer do certame. O que também pode ocorrer.
JFQ

Contratações e dispensas

O campeonato brasileiro já começou e ainda se fala em contratações e dispensas. O Internacional anunciou o retorno de Tinga ao Beira Rio. O São Paulo, enfim, trouxe Fernandão. O Palmeiras, pelo menos no papel, acertou as duas laterais: Vitor, ex-Goiás, na direita, e Carlinhos, ex-Santo André, na esquerda.

Quem parece que está de malas prontas para deixar o Parque Antártica é Diego Souza. Em conflito com a torcida, o meia pode ir para o Corinthians. Aliás, Diego Souza teve uma ótima participação no Grêmio, sob comando de Mano Menezes, hoje técnico do Timão. Mas, segundo blog de Juca Kfouri, é mais provável que Diego vá parar no Fluminense ou no Flamengo.

O Corinthians também foi às compras: trouxe o bom Bruno César, ex-Santo André. E nos próximos dias pode fazer uma considerável lista de dispensas, composta por promessas que não vingaram. Entre eles, Defederico, Edu e Marcelo Mattos. Para depois da Copa, porém, pode perder jogadores importantes: Elias, Jucilei, Ralf e Dentinho, todos com destino à Europa. Em compensação, a grande novidade no Parque São Jorge pode ser Deco.
JFQ

Torcida Contra

Preciso admitir: eu não estava totalmente certo na minha análise sobre o sentimento dos corinthianos quanto à eliminação do time na Libertadores. Mais especificamente: há controvérsias sobre a manutenção ou não de Mano Menezes no comando do time e quanto ao fato de que os torcedores assimilaram a derrota como algo “do jogo”, reconhecendo o esforço dos jogadores.
Ledo engano. Já no primeiro treino após a eliminação, no Parque São Jorge, torcedores compareceram para tirar satisfações e protestar. Abre parênteses: eu não sei qual a vantagem de abrir os treinamentos ao público, mas...; fecha parênteses. O interessante é que, mesmo entre os “torcedores profissionais” – membros de torcidas organizadas – não havia consenso. A maioria gritava “O, o, o, queremos treinador”, “Não é mole não, o Brasileiro agora é obrigação”, e coisas do tipo. Mas houve uma minoria que defendia o apoio ao técnico. Por pouco não foi linchada pelos “coirmãos”.
À noite, nos programas de debate na televisão, ex-craques do Timão não titubearam em criticar Mano Menezes, eleito como o grande responsável pela desclassificação. O ex-goleiro Ronaldo ironizou a postura analítica do “professor”, enquanto Neto, ainda mais afoito, reclamou do prêmio dado a Mano pela eliminação: o contrato estendido até o final de 2011. Em resumo, os argumentos contra o técnico corinthiano foram: covardia em não colocar o time para cima do Flamengo, especialmente no primeiro jogo, e as contratações erradas para posições erradas. Ainda bem que não falaram sobre a substituição de Elias no jogo do Pacaembu, já que o próprio jogador, alegando cansaço, pediu para sair. A propósito, eis uma pista para se entender o porquê da demissão da equipe de preparadores físicos.
Em que pese as críticas não serem totalmente improcedentes, vejo nelas uma dose cavalar de paixão sobrepondo-se à razão. Vociferações oriundas do coração, mas também do fígado, em vez do cérebro. Respeitando os contrários, não tenho dúvidas de que é uma estupidez demitir Mano Menezes neste momento. Quantos palmeirenses e são-paulinos não adorariam que isso acontecesse; aliás, quantos não adorariam que Mano fosse parar justamente no Palestra Itália ou no Morumbi?
Basta olhar para o passado e ver o quão contraproducente é a demissão de um técnico – sempre o técnico! – após um fracasso. Inclusive, no próprio Corinthians! Por outro lado, também é fácil observar que o sucesso no longo prazo passa pela manutenção do treinador. Ainda mais um treinador tão vitorioso como Mano Menezes, que, só no Timão, trouxe a equipe de volta à primeira divisão, disputou duas finais de Copa do Brasil, vencendo uma, e conquistou um Paulistão invicto. Ruim com ele (ruim?), péssimo sem ele!
A torcida em geral e a do Corinthians em particular é fundamental para qualquer time. Porém, a mesma força que levanta o time, quando transformada em pressão constante, pode ser um fator de desestabilização e crise. Se a Fiel quer ajudar o Corinthians, mesmo contrariada, neste momento deve apoiar seus jogadores e seu treinador.
Ah, no começo disse que não estava “totalmente certo”, mas também não estava “totalmente errado”. Ontem estive no Pacaembu para assistir à partida contra o Atlético Paranaense e presenciei algo inusitado. Em claro confronto com os pedidos – ou melhor, exigências – das organizadas, grande parte da torcida aplaudiu bastante Mano Menezes na hora da apresentação inicial. E mais: nas duas vezes em que a Gaviões entoou o coro de “queremos treinador” e “fora Mano”, recebeu uma sonora vaia de reprovação de parte da maioria dos torcedores, digamos, “desorganizados”.
Enfim, a torcida está rachada.
***
Ditadura Corinthiana
Espantosa a atitude de um sujeito, membro de torcida organizada, que foi ao treino do Corinthians no Parque São Jorge para protestar. Ao perceber que outro torcedor não concordava com sua demanda de demitir o treinador, preferindo o apoio ao elenco e à comissão técnica, o sujeito partiu para cima do oponente ameaçando-o de agressão.
Essa postura autoritária de alguns torcedores e torcidas organizadas é repulsiva, merecendo repúdio de quem se acha capaz de pensar por si só e cultivar sua paixão pelo time do coração preservando o espírito crítico. Isso é ainda mais asqueroso em se tratando de um clube como Corinthians, cujo nome já foi tão bem associado à ideia de democracia.
JFQ

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Vai Começar

No próximo sábado começa o Brasileirão 2010. Além da busca pelo título, pelas vagas na Libertadores e da fuga da zona de rebaixamento, agora também podemos esperar um embate sério pela classificação à Sul-Americana, já que doravante o campeão tem vaga assegurada à Libertadores do ano seguinte.
Ou seja, a expectativa é de fortes emoções. Tomara que na mesma proporção daquelas do ano passado.
A primeira rodada terá os seguintes jogos:
No sábado, dia 08/05:
Botafogo x Santos
Atlético-GO x Grêmio
Palmeiras x Vitória
No domingo, dia 09/05:
Flamengo x São Paulo
Atlético-MG x Vasco
Internacional x Cruzeiro
Corinthians x Atlético-PR
Ceará x Fluminense
Guarani x Goiás
Avaí x Grêmio Prudente

Na Conta


Como havia perdido por 3x1 o primeiro jogo, o Internacional tinha a difícil missão de vencer o Banfield, atual campeão argentino, por 2x0 para se classificar às oitavas. Foi exatamente o que conseguiu. Incentivado por sua torcida, que lotou o Beira Rio, o Colorado se impôs desde o início. Logo de cara, D’Alessandro acertou um tirombaço na trave do Banfield. Ainda no primeiro tempo, Alecssandro marcou o primeiro. No segundo, Walter garantiu o gol da classificação. Méritos ao Inter, que não apenas marcou os gols necessários como impediu que o Banfield fizesse o seu, forçando o time gaúcho a buscar o terceiro tento.

Com a classificação, o Colorado é o quarto brasileiro classificado para as quartas de final. Ou seja, o Brasil terá nessa fase a metade dos times ainda em disputa.

O Internacional pegará nada menos que o atual campeão da Libertadores: o também argentino Estudiantes.

JFQ

Toque de Letras

Em homenagem ao Internacional, classificado para as quartas de final da Libertadores, o Toque de Letras traz um vídeo em homenagem ao time gaúcho pela conquista do Mundial da FIFA em 2006.

De fundo, o texto do escritor colorado Luiz Fernando Veríssimo, intitulado “Não Me Acorde”, na narração de Guerrinha.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Valeu, Fiel!


Ronaldo não foi o fiasco do primeiro jogo, Elias estava ligadíssimo, Dentinho, ligeiro como sempre, o time, com a garra tradicional. Porém, para mim, o grande destaque corinthiano ontem foi a torcida. Descontada a atitude bocó de algum “torcedor”, tragado pela imbecil moda da luzinha de raio laser na cara dos adversários, o comportamento da Fiel foi grandioso. Mais do que isso: emocionante, inesquecível! Antes, durante e depois da partida.

No decorrer da semana que antecedia ao jogo, sabedora da difícil missão do time, milhares de torcedores foram aos treinos incentivar os jogadores. Notem o termo: incentivar, não pressionar. No Pacaembu, a torcida esgotou todos os ingressos e, munida de apitos, bandeiras e dos tradicionais gritos de guerra, empurrou o Timão até o fim. É claro que no ocaso da partida, naquele momento em que o saudoso Fiori Gigliotti narrava “crepúsculo de jogo, torcida brasileira”, a Fiel mais rezava do que propriamente torcia, pedindo aos céus o milagre do gol. E ele só não veio na falta cobrada por Chicão porque milagrosa foi a defesa de Bruno.

Só que o mais bonito – lindo mesmo – foi a manifestação da torcida ao final do jogo. Confesso que fiquei com nó na garganta e com um imenso orgulho de ser corinthiano. Em vez das vaias, cobranças e ameaças contra os jogadores, como na eliminação para o Palmeiras em 2000, ao contrário da tentativa de invasão de campo, como se vira na derrota para o River Plate em 2006, enfim, em vez de contribuir para a geração uma nova crise que fatalmente desestabilizaria o time daqui em diante, a Fiel mostrou que continuará sendo um importante apoio. A torcida amadureceu? Quem sabe. É fato que a dor, o sofrimento – sentimento tão corinthiano –, ajuda a tornar os espíritos mais sóbrios, serenos, fortalecidos. Talvez por conta do calejar de sonhos frustrados na Libertadores, a Fiel tenha descoberto que melhor que o desespero é a resignação honrosa e a persistência. Quiçá, compreendeu que o sonho não acabou: foi, uma vez mais, adiado.


O Corinthians, dado o comportamento da Fiel, não sai da Libertadores em crise, mas em paz. Claro, uma paz sem-graça, sob frustração, mas uma paz necessária à continuação do trabalho de Mano Menezes, competente treinador que já nos trouxe de volta à primeirona e nos deu dois títulos.

Sim, o Corinthians mais uma vez foi eliminado da Libertadores. Por mais algum tempo será lembrado pelos arquirrivais de que jamais levantou essa taça, alimentando ainda mais sua obsessão por conquistá-la. Parênteses: sustento a tese de que o Corinthians necessita de algum sofrimento como motivador histórico, tendo substituído o sofrimento do jejum de títulos pelo sofrimento da obsessão pela Libertadores; ou seja, esse sofrimento, de uma forma ou de outra, cumpre uma função, diria, existencial para o time e para os torcedores. Sem sofrimento, não há garra, não há luta de verdade, não há Corinthians. Fecha parênteses.

O centenário virou “sem ter nada”? Talvez. E daí? Há que se aprender que no futebol, não há espaço apenas para a lógica, a eficiência, a dita competência produtiva: os resultados. O futebol é – e jamais deixará de ser – o universo emocionante da caixinha de surpresas, do sobrenatural de Almeida, do imponderável. Ganhar ou perder, sim, fazem parte desse mais-do-que-esporte, dessa cosmologia chamada futebol. Para vivê-la em plenitude, deve-se aprender tanto a ser vitorioso como derrotado. Quem não se convence disso, embrutece a alma, vira um xiita enraivecido, valorizando as frustrações e não percebendo as próprias conquistas. Da eliminação de ontem, deve-se levantar a ideia de que não faltou competência aos jogadores, não faltou empenho, garra. O Corinthians, simplesmente, perdeu. Creio que a torcida, mesmo chateada, reconheceu isso.

O mais importante é que a Fiel mostrou, de fato, que nunca abandonará o Timão. Logo que terminou o jogo, recebi uma mensagem do meu cunhado, corinthiano roxo, dizendo: “Amanhã é dia de sair com a camisa do Timão”. Essa intenção, pelo jeito, generalizou-se. Hoje já vi vários corinthianos ostentando, orgulhosos, nosso manto sagrado.


A Libertadores um dia virá, assim como veio o “desjejum” em 77 e o Brasileiro em 90. Mas é bom saber que não depende da Libertadores o amor incondicional dessa massa de milhões de brasileiros apaixonados pelo escudo do Corinthians. Afinal, como diz a música do corinthiano Toquinho, “ser corinthiano é ir além de ser ou não ser o primeiro”.

JFQ
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Em tempo: Infelizmente, não há como deixar de mencionar certos fatos. Hoje, o muro do Parque São Jorge apareceu pichado. Além disso, houve briga na saída do estádio.

Essas ações de uns tantos vândalos, contudo, não invalidam a beleza proporcionada pela massa da torcida corinthiana. Aliás, é importante não confundir vândalos com torcedores. (JFQ)

Como tinha que ser

Previa-se um jogo emocionante, e assim foi. O Corinthians partiu para cima do Flamengo, pressionando desde o começo. Ao final do primeiro tempo, o Corinthians tinha algo em torno de 65% de posse de bola contra 35% do Flamengo. Mais do que isso: o Corinthians terminava o primeiro tempo com o placar de 2x0, suficiente para classificar-se às quartas.


Quem não conhece Libertadores ou não tem a real consciência do tamanho desses dois times, pode ter pensado que as favas estavam contadas. Ledo engano. Logo no início do segundo tempo, Kléberson entrou, o Flamengo melhorou, e eis que Vágner Love, até então apagado, surgiu na entrada da área para bater cruzado no canto esquerdo de Felipe. Seria o gol da classificação.



O Corinthians sentiu o baque e o cansaço pela frenética movimentação do primeiro tempo. Com extrema dificuldade para furar a zaga flamenguista, ainda viu o time da Gávea contra-atacar perigosamente algumas vezes. No finalzinho, quase conseguiu o gol salvador em falta cobrada por Chicão, defendida brilhantemente por Bruno.

Final: Corinthians, eliminado, 2 x 1 Flamengo, classificado. Jogo emocionante, como tinha que ser. Fosse quem fosse o vencedor do confronto.

Pelas quartas, o Mengo vai enfrentar o Universidad do Chile ou o Alianza Lima. Provavelmente o primeiro.

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Se cuida, Tricolor!

O São Paulo, que se classificou aos trancos e barrancos contra o Universitário, do Peru, vai enfrentar seu algoz do ano passado. Mais do que isso, o Cruzeiro foi o time brasileiro que passou pelas oitavas de modo mais consistente e convincente. Venceu em casa por 3x1 e fora por 3x0 de um outro tricampeão mundial, o Nacional, do Uruguai. É claro que, assim como o futebol uruguaio, o Nacional não é mais aquele do passado, em que pese, em todos os sentidos, a sua tradicional camisa. De qualquer forma, o Cruzeiro está crescendo e já figura como um dos mais sérios postulantes ao título que deixou escorregar das mãoes em 2009, contra o Estudiantes.


Clássico é clássico, não há favoritos. Mas o São Paulo precisa mostrar que é capaz de jogar mais do que jogou até aqui. Principalmente, precisa converter em gols as oportunidades que cria. Ironicamente, é o que vêm fazendo bem a dupla de ataque cruzeirense, Thiago Ribeiro e Kleber, ambos com passagem discreta pelo Morumbi.

JFQ

Copa do Brasil chega às semifinais

Quatro recentes campeões estaduais farão as semifinais da Copa do Brasil. Ainda assim, com todo o respeito aos campeões goiano e baiano, peço licença para considerar o jogo entre Santos e Grêmio como uma quase final antecipada. Depois do sufoco santista contra o Santo André, esse “quase” é fundamental.

Não apenas pelas camisas, mas porque os campeões paulista e gaúcho vêm se destacando entre os competidores da Copa do Brasil. De um lado, os meninos da Vila. De outro, o meio campo bem estruturado por Silas, sob a proteção de Fábio Rochemback e a inteligência organizadora de Douglas. Promessa de dois jogaços.

Não obstante, os rubro-negros Vitória e Atlético Goianiense merecem, sim, todo o respeito, algozes que foram de Vasco e Palmeiras. Quanto a estes, vale destacar que o Vasco saiu aplaudido por sua torcida, mesmo eliminado, enquanto o Verdão persiste em sua crise interminável.

Nesta Copa do Brasil, confesso que torcerei para o Santos. Sublinhe-se: não torço para o time, para o escudo, mas, sim, pelo “paradigma Santos”. Em outras palavras: torço para este Santos do futebol bonito, moleque, no bom sentido. Torço para que prevaleça o verdadeiro futebol brasileiro, o futebol-arte genuíno, cujo melhor representante neste momento é, sem dúvida, o Santos.

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

O espírito de 84

Perdoem-me os adversários e os rivais mais tradicionais, cruéis secadores nesse momento crucial. Peço licença para falar como torcedor. Afinal, trata-se de Libertadores, nossa obsessão.

O ano: 1984. Campeonato brasileiro, quartas de final. No primeiro jogo, o timaço do Flamengo aplicara “só” 2x0 no frágil Corinthians. Quer dizer, frágil em termos, já que era o bicampeão paulista e ainda contando com o genial doutor Sócrates. Do lado do Mengo, contudo, talvez o mais genial jogador daquele tempo em todo o mundo: Zico. Para piorar, além do Galinho, o rubro-negro contava com um jovem atacante baiano chamado Bebeto, ligeiro que só ele.

No entanto, perguntando aos corinthianos – que jamais havia levantado um título nacional, ao contrário do adversário, nada menos que o então campeão brasileiro –, o otimismo era observado com facilidade. A frase recorrente na Fiel em relação ao jogo de volta, em que o Corinthians precisava de uma vitória por dois gols de diferença para garantir a classificação: “O Timão pode até não se classificar, mas é certeza que ganha do Flamengo. Certeza!”. Impressionante: esse era o espírito geral dos corinthianos, valentes como nunca. Perdido por perdido, truco! E se o Flamengo é grande, o Corinthians é imenso. E o jogo é na nossa casa.

Resultado: o Corinthians entrou arrasando, como uma jamanta desembestada, muito embora tenha sofrido seus calafrios no começo da partida, sobretudo com as investidas de Zico e Bebeto. Mas o ataque foi um verdadeiro furacão sobre o gol do pobre goleiro argentino Fillol. Quando se deu por si, o alvinegro já tinha os dois gols a favor no placar. Só que, como se escutasse os gritos de “não para, não para, não para”, popularizado tantos anos depois, continuou em cima do poderoso time da Gávea e fez mais dois: 4x0. Ao final, ainda tomou um gol esquisito em uma bola prensada entre Paulinho e Adílio, que encobriu Carlos. Os 4x1, placar final, coroou a garra corinthiana com a justíssima classificação.

Se a história se repete, mesmo como farsa, que se repita hoje no Pacaembu. Que renasça o espírito de 84. Afinal, aqui é Corinthians!

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No meio da semana, a Gaviões foi em peso ao treino do Corinthians para incentivar o time.
Esse é o espírito!

O susto e a humildade


O São Paulo, segundo entre os melhores primeiros colocados na fase de grupos, teve a “sorte” de pegar o “fraco” Universitário, do Peru, nas oitavas. Mas o que era para ser um passeio mostrou-se um martírio. Está certo que o Tricolor teve lá seus deméritos pelo imprevisto sofrimento, especialmente pela incompetência em concretizar as tantas oportunidades de gol criadas. Culpa dos atacantes, de Ricardo Gomes? Um pouco de cada, mas não é só.

Após o 0x0 na casa do adversário, ontem, outro 0x0 que bem poderia ter sido 5x0, tantas foram as vezes que o São Paulo chegou próximo ao gol do Universitário. Por fim, pênaltis e eis que se reafirma pela enésima vez o heroísmo de Rogério Ceni, o maior ídolo da história são-paulina. Para ficar ainda mais dramático e heroico, quis o destino que Ceni perdesse a sua cobrança, forçando com que sua responsabilidade como goleiro – sim, é bom lembrar que é essa a posição de Rogério: goleiro – aumentasse exponencialmente. Não deu outra: Rogério pegou duas cobranças, uma outra foi chutada para fora e, mesmo dando coices e relinchando imponentemente, a zebra não cavalgou no Morumbi. O São Paulo classificou-se para as quartas e deve pegar, provavelmente, o Cruzeiro, seu algoz em 2009. Aguenta, coração!

Do susto Tricolor, vale dizer, fica uma lição importantíssima, inclusive para mim. Eu, que até ontem estava convicto de que um brasileiro será o campeão da Libertadores e que o vitorioso na disputa de hoje entre Corinthians e Flamengo estará na final do torneio – especialmente porque o Velez, até então, um possível e o mais difícil adversário antes da final, foi eliminado pelo Chivas –, precisei rever meus conceitos. Há que se entender que Libertadores é Libertadores, que não há nada fácil, assim como nada perdido. O Universitário, do Peru, fez lembrar, não apenas ao São Paulo, mas a todos os brasileiros, que os Banfields, Libertads e Universidads da vida não são favas contadas em termos de classificação. Aliás, isso não é novo, apesar de termos – eu, pelo menos, faço o mea culpa – dificuldade em aprender. Afinal, o Once Caldas não foi campeão em 2004? A LDU não venceu o Fluminense, que eliminara São Paulo e Boca Juniors, em 2008? Agora, também me lembro do brioso Santo André, que por muito pouco não tirou a taça das mãos do todo-poderoso Santos. Penso na Copa e já começo a respeitar a Coréia do Norte...

Enfim, para se vencer uma Libertadores, assim como, por que não dizer, as incontáveis adversidades da vida, é fundamental que se tenha eficiência e muita garra. Mas, além disso, é imprescindível um outro ingrediente: humildade.

JFQ

terça-feira, 4 de maio de 2010

Espetacular



Jogo nervoso, bem jogado, cheio de firulas, nervosismo, emoção até o último instante. Pareceu um filme digno de Oscar.

Roteiro: 1) o Santo André, que precisa ganhar por dois gols de diferença, faz logo um aos 30 segundos de partida; 2) o Peixe empata com um golaço de Neymar, após passe de letra de Robinho; 3) Em jogada rápida, Rodriguinho cabeceia para as redes de Felipe, mas a bandeirinha assinala um impedimento que não houve e para todo o sempre será lembrado pelos torcedores do Ramalhão; 4) De novo, o Santo André acerta um cruzamento e Alê cabeceia para o gol, só que esta valeu; 5) Neymar tenta cavar (mais) uma falta e é repreendido por Alê, qual um xerifão (outra moda trazida da Europa: indignar-se com a falta de fair play do adversário); após o imbróglio gerado, o árbitro Salvio Spinola, perigando perder o controle do jogo, expulsa Nunes e Léo; 6) Em outra jogada inspirada em Pelé e Coutinho, o Santos tabela na entrada da área, Ganso, diria, à la Sócrates, dá um passe de calcanhar que deixa Neymar na cara do gol: 2x2; 7) O bom veterano Marquinhos, em lapso de jogador inexperiente, faz falta dura e deixa o Santos com um jogador a menos; 8) O irrefreável Santo André, que não se dá por vencido jamais, também faz das suas tabelas e a bola chega a Branquinho e ao gol santista: 3x2; 8) Começa o segundo tempo, o jogo segue no toma lá da cá, e as “peças” vão sendo trocadas: saem Robinho, Neymar, Alê, Branquinho; 9) O Santos está tenso – não pode tomar mais um gol e tem um jogador a menos – recua e o Santo André parte para cima: Dorival Jr. parece perdido, enquanto Sérgio Soares mande seu time para a frente; 10) Roberto Brum, que acabara de entrar, também é expulso e o Santos fica com dois a menos; 11) Surge um monstro: Paulo Henrique Ganso, genial, segura a bola, tenta gol do meio de campo, cobra escanteio para ninguém, dá chapéu, recusa-se a ser substituído, enfim, vira o dono da partida; 12) 44 minutos do segundo tempo: o Santo André parte para o ataque, Rodriguinho está na cara do gol, tira de Felipe, mas a bola bate na trave (sabe-se lá quantos santistas sofreram enfarte nesse exato instante); 13) Sálvio Spinolla apita e o Santos, por fim, pode comemorar seu 18º título paulista. Fim.

Melhor impossível. Isso é futebol! Somando a beleza das jogadas, o talento dos tantos jogadores, a quantidade de gols, a aplicação das equipes, a emoção, foi uma das melhores finais dos últimos tempos.

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O campeão da base e do futebol-arte

O Santos deu show nesse paulistão. Não bastasse a enxurrada de gols durante o certame, as verdadeiras aulas de futebol-arte e o talento dos seus meninos, o Santos ainda corroborou duas teses bastante questionadas: é possível vencer jogando bonito e é possível montar uma equipe vencedora investindo na base. Saliente-se: uma coisa está diretamente ligada à outra.

Aliás, essa é uma constante na história do Santos Futebol Clube. Para chegar a este momento de ouro para Neymar e Ganso, outras meninos vitoriosos passaram pelo clube praiano. A geração de Pelé, a de Clodoaldo, a de Pita, João Paulo e Juary, a de Robinho e Diego.

Muito embora tenha trazido jogadores de fora – Marquinhos, Arouca (em troca com o São Paulo, envolvendo Rodrigo Souto), Edu Dracena, Durval –, a equipe estava alicerçada em jogadores feitos em casa: além de Neymar e Paulo Henrique, Felipe, André e Wesley fizeram parte do time titular na maior parte do campeonato. Vale lembrar que até os consagrados Léo e Robinho, apesar de terem vindo há pouco de Portugal e da Inglaterra, respectivamente, também foram formados no Santos.

A propósito, quem viu o Peixe na Taça São Paulo de Juniors – o time sagrou-se vice-campeão, perdendo para o São Paulo a final –, sabe que ainda tem outra fornada de meninos saindo, tais como Alan Patrick e Nikão.

A partir de agora, o Santos precisa provar uma terceira tese: a de que é possível manter esse elenco, evitando o desmanche quando se abrir a chamada “janela” na Europa. O presidente Luís Álvaro de Oliveira aposta nessa tese, confiando que os investidores irão arcar não só com os lucros da venda futura, mas também com os custos da permanência dos jovens craques.

Torço, sinceramente, para que esteja certo.

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O vice que vale por título

O Santo André, sem demagogia, pode se considerar tão vitorioso quanto o Santos. Muito menos badalado, zebra em que pouquíssimos acreditavam poder resistir ao ímpeto santista, o Ramalhão foi um adversário à altura do Peixe. Quem disse que a semifinal entre Santos e São Paulo era uma final antecipada, deve rever a tese. A final de verdade – de fato e de direito – foi mesmo entre Santos e Santo André, desde a fase de classificação, os dois melhores times do campeonato.

Parabéns ao professor Sérgio Soares e a seus ótimos pupilos: Júlio César, Cicinho, Halisson, Cesinha, Carlinhos, Alê, Gil, Branquinho, Bruno César, Rodriguinho e Nunes.

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A irrupção de um gênio?

Posso estar exagerando, mas a sensação que tenho quando vejo Paulo Henrique jogar é a de testemunhar um cracaço, um gênio florescendo. Quiçá, daqui a alguns tempos será considerado um dos grandes jogadores da história do futebol. Às vezes me faz lembrar Falcão, às vezes, Sócrates, às vezes, Zidane. Só gênio.

Exagero? Talvez. Mas não pelo futebol demonstrado, e sim pelo pouco tempo que o fez. O fato é que estou realmente encantado com o futebol desse menino. Sou fã incondicional do seu talento. Dá gosto de ver seu futebol e sua personalidade.

Na final contra o Santo André, Ganso foi imenso, incomensurável. Com dois jogadores a menos, e não mais contando com Robinho e Neymar em campo, Paulo Henrique (21 anos!), chamou a responsabilidade para si, recusou-se a ser substituído, amarrou a bola com brilhantismo durante os 10 ou 15 minutos derradeiros da partida, foi crucial. De lambuja, deu chapéu, tentou um gol do meio de campo e deu um passe fantástico de calcanhar para o segundo gol do seu time. Diga-se de passagem, este lance é uma verdadeira demonstração do conceito de craque de Armando Nogueira: “o bom jogador vê a jogada, o craque antevê”. Ganso, meia hora antes da bola chegar a ele, já sabia que Neymar estaria no lugar certo para receber a pelota e que os zagueiros pensariam que o passe seria para Robinho, que corria para o lado oposto. Genial!

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