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quinta-feira, 29 de março de 2012

Enfim...



Estava viajando, em férias, quando soube da queda de Ricardo Teixeira. Claro que a saída do "todo-poderoso" da CBF não significa, por si só, uma transformação total do futebol brasileiro. Mas sinaliza que mudanças são, sim, possíveis. Aliás, penso que estão em curso, ainda que a passos de tartaruga.

Eis uma vantagem da escolha do Brasil para sediar a Copa de 2014 que cabe ressaltar, uma vez que os comentaristas adoram apontar tão-somente aspectos prejudiciais ao país por acolher o próximo mundial. Ao sediar a Copa, todos os olhos do mundo se voltam ao Brasil, deixando os poderosos locais em evidência. Dessa forma, também se tornam mais vulneráveis a pressões externas e internas. Diminuem seu poder para ocultar malfeitos e para "administrar" nosso futebol ao sabor de negociatas e sem qualquer prestação de contas.

Que a saída de Teixeira seja o primeiro passo para grandes transformações no futebol brasileiro. Que seja o primeiro passo para resgatarmos o orgulho de nos vermos como o "país do futebol". Futebol bem jogado e, oxalá, bem dirigido. 

JFQ  

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A agonia de Ricardo Teixeira

Juca Kfouri


Quanto mais se mexe, mais se confirma que Ricardo Teixeira deve estar vivendo mesmo seus últimos momentos como cartola de futebol.

Na CBF ninguém confirma, mas também ninguém desmente com a vemência que seria de se esperar.

Os amigos dele na entidade torcem para não ser verdade e os inimigos não param de mostrar que o dia final está próximo.

Fontes da Casa Civil do governo federal confirmam que as portas estão fechadas para ele por causa das informações que vieram do ministério da Justiça, que tem sob seu comando a Polícia Federal.

O sonho de presidir a Fifa está encerrado diante do favoritismo de Michel Platini e, principalmente, por causa do documento da Justiça suíça que mais dia menos dia virá a luz e o deixará em péssima situação.

Se não bastasse, as redações dos principais veículos do país já têm preparado o seu, digamos assim, “obituário” como cartola, além de se esperar mais uma reportagem demolidora sobre suas atividades a ser publicada ainda nesta quarta-feira.

Diante disso tudo, e da boa vida que o espera em Miami, Ricardo Teixeira teria chegado à conclusão que o melhor é garantir o que está na mão e submergir.

Aliás, não será a primeira vez.

Em 2000, durante as CPIs do Futebol e da CBF/Nike, ele fez o mesmo, aconselhado pelo então presidente da Federação do Rio, o nada saudoso Caixa D’Água, a dar uma sumida, mas a não renunciar, como estava disposto.

Parece que não há nenhuma outra caixa que possa salvá-lo, a não a ser a dele mesmo.

Pensando bem, quem não gostaria de agonizar assim?

Ah, o poder…

Seja como for, reitero, qual São Tomé, só acredito vendo e se chegar a ver vou me beliscar para confirmar que não estou sonhando.

 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A fase anal do poder

Xico Sá


Amigo torcedor, amigo secador, na minha mania de Freud de botequim, refletia, com os cavalheiros da távola redonda, ainda sobre essa história, repetida ad nauseam, da oratória suja do senhor Ricardo Teixeira, o tutacamon da CBF.

Isso mesmo. Recapitulávamos a oralidade do mandatário, especialmente o episódio do "montão" de dejeto humano que diz despejar sobre a cabeça dos jornalistas que teimam em revelar o óbvio sobre o seu mandato perpétuo.

Não seria, amigo, manifesta confissão de quem não conseguiu ultrapassar a tal fase anal, a que se passa ali entre os dois e os quatro anos de idade?

A diferença, recorrendo à sabedoria do Dr. Sigmund, é que, no caso do cartola, talvez haja noção clara e consciente da sujeira que se pratica dentro de casa. Não existe, porém, a menor possibilidade de evolução para distinguir o sujo do mal-lavado, principalmente quando o assunto é dinheiro.

No pobre diagnóstico de boteco, também concluímos que o apego do dirigente à sujeira evita o famoso "tchau" que o pirralho dá às fezes durante a citada fase freudiana. A pequena criatura se orgulha de fazer cocô no lugar certo, mas se despede da sujeira.

Com o mandatário do futebol verde e amarelo, o desejo manifesto, a tomar pela sua oralidade, é emporcalhar os supostos adversários, como a imprensa que se rebela diante dos seus podres.

Dá para viajar um montão na leitura, com toda licença aos profissionais do divã, da fala ricardiana. Provavelmente outras interpretações bem mais humoradas e inteligentes aparecerão amanhã à tarde na avenida Paulista, local da marcha "Fora Ricardo Teixeira".

Uma coisa que não tem faltado a essa rapaziada que protesta nas ruas é juntar humor e política. Talvez acreditando no velho ditado latim "Ridendo castigat mores", ou seja, rindo corrigimos os costumes.

Tomara que a frase, citada de "O Carapuceiro" -jornal recifense da primeira metade do século XIX- ao grande esculhambador-geral José Simão, faça todo o sentido do mundo nos próximos meses. Só, assim, quem sabe, o alvo da passeata perca a sua garantia até a próxima Copa.

Sonha, meu filho, sonha, como dizia minha santa mãezinha dona Maria do Socorro. Sonha, meu filho, pois sonhar ainda é de graça aqui na serra do Araripe. Motivo é o que não falta para ir às ruas, ainda a mais eficiente das redes sociais da humanidade, e dizer um montão para o cara.

@xicosa
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/08/2011.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Qual a medalha de Ricardo Teixeira?

Editorial da revista Lance!
LANCE! OPINA:


Nada melhor para definir o caráter de uma pessoa do que ouvir o seu próprio discurso. As recentes declarações do presidente da CBF e do COL (Comitê Organizador da Copa de 2014) à revista Piauí deixaram à mostra um Ricardo Teixeira que ninguém seria capaz de descrever. Só ele mesmo. Os maus modos das palavras de baixo calão, a arrogância de se achar dono do futebol e ameaçar os que não comungam de seus interesses e a prepotência de se colocar acima das instituições, da Justiça, da Imprensa, da opinião pública, resumem a personalidade do homem que há mais de duas décadas reina no nosso futebol.

A fome de poder do senhor Teixeira não tem limites. Montou o COL à sua imagem e semelhança. Notória competência, independência, reconhecimento social não foram requisitos para escolha dos membros. Tão somente, precisavam ser amigos ou parentes do rei. Da filha ao advogado, passando pelo assessor de imprensa. Sócio do comitê – uma situação inédita em toda a história das Copas – foi flagrado por este LANCE! que denunciou artifício que lhe permitiria manobrar a seu bel-prazer – inclusive em benefício próprio e privado – eventuais lucros do Mundial. Ao menos nesse ponto, viu-se forçado a recuar.

Ele é assim. Diz que ninguém tem nada a ver com as contas da CBF por ser ela uma empresa privada. Como se o futebol não fosse um patrimônio cultural, um bem do povo brasileiro. Tentou mesmo passar por cima da lei, devolver os incentivos fiscais que o COL terá direito até 2014, como forma de se livrar da fiscalização dos tribunais de contas. Manobra, enfim uma boa notícia, que a Receita Federal promete abortar.

Teixeira diz que exerce controle sobre a política editorial da maior rede de televisão do país. E o mais impressionante é que nenhuma notícia sobre as acusações que vem sofrendo mundo afora – e que o atiram no mar de lama e corrupção que ronda a alta direção da Fifa –, ganha destaque nos noticiários dessa emissora. Em contrapartida, diz que pode retaliar, "fazer maldades" contra os veículos (além deste LANCE!, Folha de S.Paulo, UOL e ESPN ) que não considera aliados. Atitude vingativa. Como vingativa foi a decisão de afastar Romário – o agora deputado que teve a petulância de convidá-lo a depor na Câmara sobre as suspeitas de irregularidades – da solenidade de sorteio das Eliminatórias da Copa.

O Brasil – ou pelo menos um lado do Brasil – está cheio de Ricardo Teixeira. Num país onde governadores beijam-lhe as mãos à caça de um joguinho a mais ou a menos da Seleção, louve-se os deputados do Amazonas que negaram-lhe o direito de receber o título de cidadão amazonense. “Ele merece receber uma medalha do presídio”, resumiu Marcelo Ramos, do PSB local.

Ainda há tempo de reagir. Para ser grande, para atrair investimentos e a admiração do mundo, não basta a um país ter uma economia estável. Não bastam grandes eventos. É preciso dar um sinal de que a moralidade, a defesa do interesse comum, a transparência no trato da coisa pública – que a presidente Dilma tem pregado desde a sua posse – são bens irrefutáveis de toda a Nação.

Manter Ricardo Teixeira no comando da Copa com certeza não é sinal disso. É um mau recado para o mundo. E faz mal ao Brasil.


* Publicada no LANCE PRESS!, em 14/07/2011 às 23:42
Leia mais no LANCENET! http://www.lancenet.com.br/gremio/EDITORIAL-medalha-Ricardo-Teixeira_0_517148530.html#ixzz1SZInvAzR
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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Teixeira por Teixeira

Juca Kfouri


Dá até pena.

As declarações de Ricardo Teixeira, o cartola que comanda o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo no Brasil, à repórter Daniela Pinheiro, da revista "Piauí", são uma saraivada de tiros nos próprios pés.

Fora as balas perdidas em devaneios que os fatos não comprovam, como por exemplo a menção às pesquisas que aprovam seu trabalho na CBF. Fosse assim, por que ele fugiria de qualquer evento público no país? Por que foi vaiado na festa da própria CBF no fim do ano passado, no Theatro Municipal do Rio? Ou por que ouviu o coro que ouviu até da elite que estava na premiação do último Mundial de futebol de areia em Copacabana?

Outro tiro que erra o alvo é o que tenta convencer os leitores de que não foram as manobras protelatórias de seus advogados, pagos pela CBF, que conseguiram levar ao arquivo boa parte das denúncias que teve de responder na Justiça.

Mas nada disso surpreende.

Nem mesmo sua arrogância e o vocabulário destemperado, de baixo calão, típico de quem usa o discurso para esconder o sentimento, embora faça questão de revelar seu indiscutível poder.

Poder, como ele mesmo diz, de fazer maldades, de negar credenciamentos e até de constranger os amigos, ao deixar mal, por exemplo, o jornalismo da Rede Globo que, segundo ele, lhe seria subserviente.

Mas poder que não o faz nem ter credibilidade nem ser querido, apesar de achar que merece pois imagina que ganhou as duas Copas do Mundo conquistadas em sua gestão interminável.

Apesar disso, fica evidente que Teixeira sofre.

Porque quem crê nele? Nem sua pequena filha, que protagoniza episódio delicioso na reportagem, ao se surpreender com a repentina mudança de candidato apoiado por ele na recente eleição da Fifa e levar um beliscão por baixo da mesa para calar-se e deixar de ser inconveniente.

Que o ex-sogro, João Havelange, aos 95 anos, o tenha na conta e diga que ele é a própria definição de malandragem ("no bom sentido, claro") é compreensível. Mas que ele, ainda aos 64, fale que um portal como o UOL dá traço, ou que faz parte, com a Folha, o "Lance!" e a "ESPN", de uma "patota" é digno de internação, porque só Freud explica.

Teixeira imaginou que uma publicação com laços com o banco Itaú, patrocinador da CBF e da Copa, o pouparia. Enganou-se e falou demais.

Deu bom-dia a cavalo.


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/07/2011.

Obs: A entrevista concedida por Ricardo Teixeira à Revista Piauí: http://blogprosecontras.blogspot.com/2011/07/entrevista-de-ricardo-teixeira-revista.html