quinta-feira, 31 de março de 2011

Quanta diferença!


De acordo com enquete realizada pelo blog, 66% dos votantes preferiam não ter Adriano no seu time. A enquete foi realizada antes do atacante fechar com o Corinthians. Como não se especificou para qual time o votante torcia, não é possível saber quantos daqueles 66% eram corinthianos. Por intuição, acredito que era a maioria.

A propósito, é gritante o contraste da recepção de Luis Fabiano pelos são-paulinos e a manifestação dos corinthianos em relação a Adriano (fotos acima).


Nada que não possa ser revertido quando o Fabuloso e o Imperador estiverem em campo. Falando nisso, é bom lembrar que Mano Menezes procura um centroavante para a seleção.

A conferir.

JFQ

Ah, é Pernambuco!

Santa Cruz 1x0 São Paulo


Quem esperava uma apresentação de gala do São Paulo, após o jogo histórico de domingo, contra o Corinthians, foi surpreendido pela força pernambucana que tomou o Mundão do Arruda, em Recife. Apesar da superioridade técnica dos jogadores são-paulinos, o ex-lateral do time paulista e hoje técnico do Santa Cruz, Zé Teodoro, foi brilhante na armação do seu escrete.

O Santa, que vem muito bem no campeonato estadual, simplesmente não deixou o Tricolor atacar. Lucas, quiçá pela primeira vez depois de ser taxado como grande “promessa” do futebol brasileiro, sofreu marcação à altura de seu novo status. Everton Sena foi um carrapato em Lucas durante os 90 minutos de jogo (fora os acréscimos). Ótima leitura de Zé Teodoro, que, ao perceber o relevante papel de Lucas no ataque são-paulino, anulando-o, prejudicando sobremaneira as investidas do adversário. O trabalho defensivo foi completado por uma zaga compacta, um verdadeiro muro contra o qual Dagoberto e Fernandinho pelejaram para transpor, em vão.

Rivaldo, que foi vaiado e aplaudido pela torcida do seu ex-clube, apesar de não ter jogado mal, também não foi decisivo. Carpegiani – mesmo depois de ter um jogador a mais, após expulsão de Leandro Souza – não abdicou da formação com três zagueiros e dois volantes.

Do lado do Santa, destaque para o meia-atacante Gilberto. Habilidoso e criativo, Gilberto importunou a zaga tricolor várias vezes, dando bons passes ou investindo ele próprio contra o gol de Rogério Ceni.

O Santa Cruz foi superior e mereceu o resultado. Apesar do gol da vitória ter sido contra, oriundo de uma infelicidade de Rodrigo Souto que, ao tentar jogar a bola para escanteio, empurrou-a para as próprias redes.

Na partida de volta, o time pernambucano pega o São Paulo podendo empatar ou até perder por um gol de diferença, desde que também marque. Outra tarefa duríssima para a equipe do Morumbi.

Na partida de ontem, destaque também para a torcida do Santa Cruz, que incentivou o time do começo ao fim. Pulando e gritando “ah, é Pernambuco!”, a torcida foi um espetáculo à parte. Fez uma merecida festa pela atuação do Santa, enfim, em boa fase, após longo período de declínio.

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Cruzeiro e Inter bem na Libertadores

Pela Libertadores, Cruzeiro e Internacional asseguraram a liderança – no caso do time mineiro, também a classificação antecipada para a segunda fase – dos respectivos grupos.

O Inter bateu o boliviano Jorge Wilstermann, no Beira Rio, por 3 a 0. Já o Cruzeiro, passou pelo paraguaio Guaraní, por 2 a 0, em Assunção.

JFQ

terça-feira, 29 de março de 2011

Seleção bem encaminhada



Brasil 2x0 Escócia

Se não foi tão testada, dada a fragilidade do adversário, a seleção brasileira mostrou contra a Escócia que está no caminho certo. O esquema de Mano Menezes, aos poucos, vai sendo montado. Assim como os jogadores de sua confiança começam a ser conhecidos, levando a cada vez menos espaço para novos testes.

A defesa, o setor mais consolidado do time, já mostra robustez, com Júlio César no gol, Daniel Alves e André Santos nas laterais, Thiago Silva e Lúcio na zaga. Além deles, outros jogadores disputam posição, não podendo sequer ser considerados taxativamente como reservas. É o caso da ótima revelação David Luiz, zagueiro, e do lateral Marcelo, em grande fase no Real Madrid. Maicon só não entra na mesma condição porque Dani Alves está em fase esplendorosa, tanto no Barcelona como na própria seleção.

No meio, Ramirez – na minha opinião, o melhor jogador em campo contra a Escócia – parece ter confirmado a condição de titular, movimentando-se por todos os lados do campo, impondo rapidez ao jogo da seleção. Ramirez deve formar com Lucas (do Liverpool), homem de confiança de Mano, a dupla de volantes. Correm por fora Sandro, Elias e Hernanes.

Na armação ou na ligação do meio para frente, enquanto se espera o retorno de Paulo Henrique Ganso (quase uma unanimidade nacional como o 10 da seleção), o jovem Lucas (do São Paulo) pode ter convencido o treinador de que será imprescindível, apesar do pouco tempo em campo e de “apenas” ter protagonizado duas arrancadas fulminantes contra a defesa escocesa. Elano, mesmo se reserva, deve ser presença constante na seleção. Quem pode ter perdido a chance de se firmar é Jadson, pouco participativo na partida.

O ataque, por fim, é Neymar mais um. Se bem que, pelo que jogou o craque santista, Neymar já vale por dois. O centroavante, o tal matador, parece ser, hoje, o grande problema da seleção. Alexandre Pato não convence e outras opções potenciais, como Luis Fabiano, não jogam há algum tempo. Nilmar, do Villarreal, é uma boa opção na reserva como segundo atacante.

O grande dilema de Mano será como conciliar – e se é possível fazê-lo – o passado com o presente/futuro. Para ser mais específico: como (e se deve) colocar os “consagrados” Robinho, Kaká e, quem sabe, Ronaldinho Gaúcho na seleção.

JFQ

Cem gols. Sem tabus



É claro que houve planos táticos, desenhos de jogadas ofensivas e defensivas bem ou mal executadas, de lado a lado. Mas o jogo entre São Paulo e Corinthians - que fez jus ao apelido de Majestoso –, disputado e Barueri, foi marcado mesmo pela emoção. Não foi uma partida para se analisar, para se ver com imparcialidade, mas para torcer. O embate teve espírito de batalha, de disputa aguerrida, muito mais do que disciplina tática. Apesar de não gostar do termo, os jogadores foram muito mais “guerreiros” em busca da gloriosa vitória de seu brasão do que “peças” supostamente posicionadas e movimentadas pelos técnicos-professores.

Além de tudo, foi uma partida histórica. Tanto pela queda do tabu – ou, se me permitem o neologismo tosco, o “retabu”, já que se tratava de uma reversão de tabu, primeiro favorável ao Tricolor, depois, ao Timão – como pela espetacular marca de 100 gols alcançada pelo, por que não dizer, lendário Rogério Ceni.

O São Paulo dominou a partida durante o primeiro tempo. Teve mais ímpeto, buscou seus objetivos, apesar de também ter sofrido boas investidas mosqueteiras. Dagoberto movimentou-se muito, criando opções no ataque. Fernandinho, em tarde inspirada, promoveu suas velozes arrancadas pela esquerda. Ah, quando a essa dupla juntarem-se Lucas e Luís Fabiano! Do lado corinthiano, Dentinho era o mais perigoso, apesar de mostrar, desde o começo, que o ímpeto por revidar a marcação implacável o trairia a qualquer momento.

Os jogadores não se avexaram em arriscar chutes de longe. Na sua segunda tentativa, Dagoberto, inexplicavelmente desmarcado, acertou um tirombaço no canto esquerdo de Júlio César. São Paulo, 1 a 0. O jogo que estava relativamente equilibrado passou a pender para o lado são-paulino. E o grande ídolo da história do clube, Rogério Ceni, começou a brilhar. No final do primeiro tempo, mostrou um reflexo incrível ao defender bola desviada na área por Jorge Henrique.

Iniciado o segundo tempo, empurrado pela torcida que dominava a Arena Barueri, o São Paulo chegou logo ao segundo, ou, dependendo do ponto de vista, ao centésimo. Fernandinho fintou Ralf, que tirou o pé para evitar a falta na entrada da área. Em seguida, o atacante tricolor repetiu a finta em Alessandro, que caiu na armadilha: falta, na medida para o gol histórico de Ceni. Qual o milésimo de Pelé ou o de Romário, ambos de pênalti, o lance de bola parada permitiu às câmeras que se posicionassem para registrar a história do melhor ângulo. E assim se fez: bola no ângulo esquerdo (direito do goleiro Júlio César), o alvo preferido de Rogério. São Paulo, 2 a 0 e merecidíssima parada para a festa dos 100 gols. Com direito a tirar a camisa e ao consequente cartão amarelo ao goleiro-artilheiro-lenda, sem qualquer reclamação.


Como se não bastasse, logo em seguida, Dagoberto partiu pela esquerda e tomou uma dura entrada de Alessandro. Cartão vermelho direito – e merecido – e pinta de goleada tricolor. Não obstante, como clássico é clássico e este tinha algo de mágico, eis que o próprio Dagoberto também foi expulso – e também com méritos – e Dentinho diminui o placar, também com um tirombaço de fora da área: 2 a 1, com pinta de reviravolta corinthiana.

Mas, como que para provar que o dia era mesmo tricolor, o mesmo Dentinho, estupidamente, revidou uma entrada de Rodrigo Souto com um chute (de leve) em lugar para lá de sensível nos homens, se é que me entendem. Dentinho foi expulso e o Corinthians se viu mais uma vez com um a menos em campo.

Mas a inferioridade numérica não impediu que o Timão insistisse até o último minuto. E, destaque-se, a segunda etapa foi até os 51 minutos, muito bem acrescidos pelo bom árbitro Guilherme Ceretta de Lima, em irrepreensível atuação, que sopesou muito bem as expulsões, as substituições e a cera são-paulina. No finalzinho, quase o Corinthians manteve o tabu com um golaço de bicicleta do até então apagado Liedson, defendida magistralmente pelo encantado Rogério Ceni.

Final da história: São Paulo 2x1 Corinthians. No dia do centésimo gol do maior goleiro-artilheiro da história do futebol, o centenário Timão ainda viu cair por terra a invencibilidade que sustentava há quase quatro anos.

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Adeus, freguesia

Além das vitórias e, especialmente, das vitórias em final de campeonato, o tabu é outro meio de se manter acessa a rivalidade entre os times de futebol e seus torcedores. Muitas vezes, o tabu pesa até mais do que a própria conquista do título. O corinthiano Juca Kfouri, por exemplo, já declarou que o tabu contra o Santos, que durou 11 anos, incomodava-lhe muito mais do que a “fila” sem títulos, os 23 anos que o Timão passou sem levantar uma taça. Vale dizer, após o Corinthians encerrar o incômodo jejum contra o time da Vila Belmiro, que durou de 1957 até 1968, de 1976 a 1983 foi ele o invencível contra o Santos. Aliás, parece haver uma tendência de reviravoltas de tabus, como que um time, antes achincalhado pelo adversário, reunisse todos os esforços para a vingança.

Outros tabus ocorreram entre São Paulo e Corinthians. Só que no caso deste encerrado no domingo, há algo especialmente interessante: a reviravolta automática. De 13 jogos sem perder, o Tricolor amargou 11 sem ganhar (obs: há uma dupla contagem no empate entre a última vitória tricolor e a primeira vitória mosqueteira).

A angústia de quem não vence é terrível e a sensação de desforra contra quem passou longo tempo tirando sarro é maravilhosa. É o feitiço que se volta contra o feiticeiro. Eu, particularmente, admito: como corinthiano, preferia a permanência do tabu ao próprio título paulista deste ano. Após ficar quatro anos ouvindo as gozações dos amigos são-paulinos, caiu como uma benção a sequência de onze partidas sem derrotas. Mas, como não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe, um dia finda a alegria arrogante dos supostos invencíveis e o amargura dos que não conseguiam sentir o gosto da vitória.

Parabéns aos são-paulinos, tomados pela sensação de alívio que há quase quatro anos, em outubro de 2007, com um gol de Betão, eu também senti.

Em tempo: no mesmo domingo, também acabou o tabu de 8 anos entre Vila Nova e Atlético, ambos de Goiás (1x0). Parabéns, também, à torcida do Vila.

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Parabéns à arbitragem

Guilherme Ceretta de Lima fez um trabalho irrepreensível no Majestoso disputado em Barueri. Há que se destacar que não se tratava de um jogo fácil. Muito pelo contrário! E Ceretta não amarelou em momento algum, tomando decisões no ato, com convicção e correção. Ressalto as três expulsões e os 6 minutos de acréscimo, muito bem justificados pela tempo gasto nas substituições, após mostrar o cartão vermelho e em vários momentos em que a equipe tricolor recorreu à tradicional cera. A propósito, o próprio Rogério Ceni, antes de cobrar um tiro de meta, admitiu a um repórter de campo da Globo que gastaria 30 segundos.

Tudo somado, não há o que reclamar da atuação do árbitro na partida que marcou, enfim, a vitória do São Paulo sobre o Corinthians.

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Muito além dos 100 gols


O goleiro Rogério Ceni atingiu a impressionante marca de 100 gols. Para se ter uma ideia, imediatamente atrás dele estão o paraguaio Chilavert, com 62 gols, o colombiano Higuita, com 41, o mexicano Jorge Campos e o búlgaro Ivankov, ambos com 40 gols.

Os goleiros-artilheiros marcam praticamente todos os seus gols ou de falta ou de pênalti. A maioria deles, mais desta do que daquela forma. Ceni e Campos são exceções: fizeram mais gols de falta de que de pênalti.

No caso de Rogério, foram 56 de falta contra 44 de pênalti, em que pese alguns comentaristas contabilizarem um dos gols de falta como sendo de bola rolando (em cobrança de falta na partida entre São Paulo e Cruzeiro, em 2006, Ceni rolou a bola, que foi parada pelo companheiro e chutada pelo goleiro às redes adversárias).

O mais impressionante é que Rogério, 18º maior artilheiro do São Paulo, ao lado de Renato “Pé Murcho”, também é o maior artilheiro do time na Libertadores da América, com 11 gols. Detalhe: considerando os dois anos que o goleiro são-paulino ainda pretende jogar, pode-se esperar um aumento razoável na sua estatística de gols.

No entanto, a importância de Ceni vai muito além dos gols. Desde 1997, quando assumiu a condição de goleiro titular do Tricolor – a qual nunca mais perdeu –, Rogério participou decisivamente de diversas conquistas, com destaque para os Brasileiros de 2006 a 2008, a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2005. Para não falar das Copas de 2002 e 2006, em que Ceni participou na reserva.

Não apenas como artilheiro, mas também como um exímio arqueiro e, sobretudo, como uma liderança inconteste, Rogério Ceni transformou-se em um jogador lendário na história do São Paulo e do futebol brasileiro e mundial.

Os 100 gols de Rogério Ceni

JFQ

sexta-feira, 25 de março de 2011

Até prova em contrário, só o São Paulo tem o que comemorar



Luís Fabiano chega ao São Paulo na próxima terça. De acordo com a Folha de S.Paulo de hoje, para a mesma data – certamente com a intenção de obscurecer a chegada do Fabuloso –, o presidente do Corinthians pretende anunciar a contratação de Adriano.

Sinceramente, não sei se o anúncio no Parque São Jorge causará aborrecimento ou contentamento no Morumbi. Se Luís Fabiano, apesar de ora contundido, tem tudo para formar uma linha de ataque infernal no Tricolor, juntamente com Fernandinho, Dagoberto e o jovem talentoso Lucas, Adriano deve causar problemas para a escalação do ataque corinthiano. Afinal, quem ficará no banco: Dentinho, Jorge Henrique ou Liedson? O problema do Corinthians, diga-se de passagem, não é o ataque – que melhorou depois da chegada do “levezinho” Liedson –, mas a articulação no meio-campo e, sobretudo, as laterais.

Isso para não falar dos fatores extra-campo, que, como sabem muito bem a Internazionale, o Flamengo e a Roma, Adriano é especialista em produzir um verdadeiro império de problemas.

JFQ

quinta-feira, 24 de março de 2011

O triplo sonho dominical do Tricolor


Mesmo com a derrota são-paulina para o Paulista de Jundiaí (3x2) e com a vitória corinthiana sobre o Oeste de Itápolis (3x0), ontem, a expectativa do tricolor paulista deve ser maior que a do alvinegro para o clássico que travarão no próximo domingo, em Barueri. Explica-se: no próximo Majestoso, como é chamada a peleja entre São Paulo e Corinthians, o time do Morumbi sonha em obter três conquistas marcantes, ao mesmo tempo. Se o São Paulo vencer, acabará com um incômodo tabu que terá durado, aproximadamente, três anos e meio ou 11 jogos sem vencer o arquirrival (7 vitórias corinthianas e 4 empates).

De quebra, o São Paulo tirará o Corinthians da liderança e, caso o Palmeiras não vença o Bragantino, no próximo sábado, retornará à ponta do Paulistão. Por fim, se Rogério Ceni marcar um gol, será o centésimo de sua carreira, número para lá de simbólico em se tratando de um goleiro. Aliás, Ceni já é o goleiro com mais gols na história do futebol, seguido pelo paraguaio Chilavert, já aposentado, que conta “apenas” 62 gols no currículo. Vale lembrar que a FIFA reconhece 97 gols do goleiro são-paulino, deixando de somar dois deles, marcados em amistosos.

Sobre o tabu atual, o interessante é que o Timão reverteu a “freguesia”, isto é, a sina de resultados favoráveis sobre o rival, já que de março de 2003 a outubro de 2007 foi ele, Corinthians, que não conseguiu vencer o Tricolor (13 jogos, com 8 derrotas e 5 empates). Detalhe: o empate de 1 a 1 em partida pelo Brasileirão, ocorrida em 14/07/2007, é considerada tanto por são-paulinos como por corinthianos como pertencente ao “seu” tabu. Isto porque tal partida está justamente entre a última vitória do São Paulo (3 a 1, em 11/02/2007) e a primeira vitória do Corinthians (1 a 0, em 14/10/2007, com o famoso gol de Betão). Portanto, são-paulinos e corinthianos podem colocá-la na “sua” sequência de partidas em que permaneceu invicto diante do outro (ver quadro abaixo).

Uma curiosidade: a “reversão de tabus” parece uma tradição do mosqueteiro, que passou 11 anos sem vencer o Santos e, em seguida, ficou 7 sem derrotas para o time da Vila Belmiro. Outra curiosidade: a última vez que o Corinthians venceu o São Paulo antes do tabu pró-Tricolor foi no dia 22/03/2003, na final do Paulistão desse ano, quando, assim como hoje, Ceni defendia o gol do time do Morumbi e Liedson era o principal atacante do Timão.


JFQ

Guerreiros em seu “Dia D”



Sofrido, dramático. São os melhores adjetivos para qualificar a partida do Fluminense, ontem, no Engenhão, contra o mexicano América. Caso não vencesse – até mesmo um empate seria considerado um resultado desastroso –, o Tricolor carioca estaria praticamente eliminado da Libertadores, logo na primeira fase. No entanto, apesar dos tropeços e da angústia, eis que os guerreiros das Laranjeiras mostraram sua força. Pode-se dizer que foi o “Dia “D do Flu na Libertadores: “D” de Digão e de Deco, os principais nomes da partida, por uma razão ou por outra.

O Flu, comandado pelo técnico interino Ederson Moreira, foi sempre ofensivo, mas sem muita eficiência, além de deixar buracos na defesa. Buracos, diga-se de passagem, muito bem aproveitados pelo América, perigosíssimo nos contra-ataques. Além disso, nomes de peso do Fluminense como Fred, Emerson e Conca, apesar de estarem em campo, notadamente jogaram aquém de sua melhor forma física e técnica. E Mariano, responsável por bons ataques pelo lado direito, foi substituído no decorrer da partida, após sentir o joelho esquerdo. Seria mais um caso da falta de “estrutura” das Laranjeiras?

Em meio ao desespero – e à tentativa vã de mostrar capacidade de evitá-lo – o time do Flu partiu para cima de forma atabalhoada. Em um desses ataques, a bola foi interceptada por defensor mexicano, que deu um chutão de cinquenta metros à frente, culminando na trombada coletiva entre o zagueiro Digão, o goleiro Ricardo Berna e o atacante Sanchez. Berna não conseguiu segurar a bola, que sobrou livre para Sanchez marcar o primeiro.

Na iminência de terminar a etapa inicial atrás no placar, o Fluminense foi para cima com mais afoiteza ainda. Mas deu resultado: após bola alçada na área, Gum acertou a cabeçada e empatou a partida.

A tônica do segundo tempo não foi muito diferente: o Fluminense partido para a pressão e o América aproveitando os contra-ataques. Deco entrou no lugar de Mariano, machucado, e Souza passou à lateral direita. Moreira ainda promoveu as entradas de Araújo e Rafael Moura, nos lugares de Julio César e Emerson.

Aos 27, em mais uma infelicidade de Digão, o zagueiro tricolor empurrou a bola para dentro ao tentar interceptar chute de Sanchez, o algoz tricolor da noite. Para fazer justiça ao zagueiro, pelo que tudo indica, a bola entraria com ou sem a sua participação.

O Tricolor teria aproximadamente quinze minutos para virar a partida. Tarefa para verdadeiros guerreiros. E eles se apresentaram.

Foi quando brilhou a estrela de Deco. O “luso-brasileiro”, após boa jogada pela direita, cruzou a bola na medida para a cabeçada de Araújo: 2 a 2. Aos 42, ele próprio, aproveitando-se de vacilo do arqueiro Novarrete, que saiu mal, marcou o gol com um toquinho por cobertura, dando números finais à partida: Fluminense 3x2 América.

Com 5 pontos, o Tricolor, que começara a rodada sob a ameaça de eliminação precoce, agora é o esperançoso terceiro colocado do Grupo 3, com um ponto a menos que o segundo, o próprio América, e dois atrás do líder Argentino Juniors. Restando duas partidas para terminar a primeira fase – ambas a serem jogadas fora de casa, contra Nacional e Argentino Juniors – não se pode dizer que seja uma situação privilegiada. Porém, perto do vexame que se desenhava, está para lá de bom.

JFQ

O “fico”, o “fui” e o “onde estou?” de Muricy

Muricy Ramalho recusou proposta da seleção brasileira em um momento especialíssimo da histórica futebolística nacional: a preparação para a Copa do Mundo que será realizada no país. Muricy – que já não era a primeira opção da CBF, no caso, Felipão – deixou de assumir a seleção por estar compromissado com seu clube, o Fluminense, em relação ao qual, em conformidade com o perfil ético que procura demonstrar, deveria cumprir suas obrigações até o fim. Assim o fez. E reafirmou sua conhecida competência, levando o Tricolor das Laranjeiras a um título brasileiro que não conquistava desde 1984.

Neste ano, porém, priorizando a Libertadores, o Fluminense começou a passar por maus bocados no principal torneio sul-americano. Apesar do favoritismo, o time não conseguiu somar mais do que dois míseros pontinhos em três jogos, contra Nacional do Uruguai, Argentino Juniors e América do México, sendo dois em casa. Os maus resultados foram debitados, não a Muricy ou ao desempenho dos jogadores em campo, mas aos muitos e constantes desfalques. Jogadores fundamentais como Fred, Emerson, Conca e Deco passaram a frequentar mais o departamento médico do que os gramados. O motivo, se puxarmos o fio da meada, da revolta do treinador, seria a falta de “estrutura” do clube. Desde os funcionários – Fred chegou a responsabilizar o médico do clube pelas dificuldades em sua recuperação – até o gramado duro, que levaria às lesões. Em protesto contra a tal falta de estrutura, Muricy, que permaneceu no Fluminense quando chamado por Ricardo Teixeira para comandar a seleção, pediu o boné e abandonou o barco tricolor.

Pergunta: será que Muricy não poderia ter aproveitado a oportunidade do convite da CBF para, de uma cajadada só, manifestar seu descontentamento com a “estrutura” do Flu e se tornar técnico da seleção? Ou o treinador, naquele momento, ainda não tinha total conhecimento das reais condições da “estrutura”? Claro que tinha. A hipótese mais plausível é a de que a direção do clube estaria comprometida com investimentos, mas, com a eleição de Peter Siemsen para a presidência do Flu, no final de 2010, os mesmos investimentos não vieram, o que provocou a decisão de Muricy.

Agora, “em férias”, Muricy Ramalho desconversa sobre o assédio declarado do Santos e se mantém em off, longe das câmeras e do futebol. Mas, até quando? Aliás, estaria o treinador ansioso pelo resultado de Brasil x Escócia, no domingo, e pelo que isso possa causar à continuidade do trabalho de Mano Menezes?

JFQ

quarta-feira, 23 de março de 2011

Raí se diz arrependido de jogo na Chechênia

O ex-jogador Raí, que há poucos dias disputou uma partida na Chechênia, juntamente com outros ex-jogadores da seleção brasileira, se disse arrependido. Em carta aberta, publicada no seu site pessoal e reproduzida abaixo, Raí apontou que apenas tardiamente percebeu que participava de um evento para promoção política do governo local, sobre o qual recai acusações de violação dos direitos humanos.

JFQ

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Chechênia, o dia em que me traí

23.03.2011
Quando o descuido e a ingenuidade podem se transformar em um ato inconsequente

Por Raí Souza Vieira de Oliveira

Há pouco mais de um mês, recebi um convite de agentes intermediários para participar de um jogo na Rússia, país sede da Copa de 2018. O evento marcaria a inauguração de um estádio e jogaríamos contra a equipe local, que tem Gullit, ex-jogador holandês, como treinador.

No meio da minha correria, e com meu sócio (que é responsável por conduzir estas negociações) em férias, aceitei a proposta, se tudo estivesse confirmado e pagamento realizado 10 dias antes da viagem. Confesso que a falta de informação e cuidados, confirmam minha imprudência nesta operação.

Meu ingênuo raciocínio foi o seguinte: já estaria na Europa, onde participei do Global Sports Forum em Barcelona. Então, daria um pulo na Rússia, faria um joguinho, encontraria antigos amigos e ainda ganharia uma graninha.

Sinceramente, minha decisão não foi motivada pelo ganho financeiro. O que recebi não muda em nada a minha situação econômica. É o equivalente a pouco mais do que cobro para ministrar uma palestra de 2 horas na cidade de São Paulo. É também menos do que doo, com certa frequência, para projetos orientados pelo respeito aos direitos humanos.

Alguns dias antes da viagem, ainda na correria, recebi a notícia da mudança do jogo da Rússia para Chechênia, o que me causou estranheza. Sabia de uma terrível guerra entre separatistas chechenos e as forças armadas russas. Mas, segundo informações, a situação já estava menos violenta há algum tempo.

Tentei me informar um pouco mais sobre o presidente daquela república. Talvez não tenha buscado com a profundidade que deveria. Porém, optei por ir e honrar o compromisso assumido.

O que aconteceu, no entanto, foi que fiz parte de umas das coisas que mais condeno na vida e com a qual mais tenho cuidado: participei de um evento escancaradamente político, populista, em um contexto desconhecido, sem saber as possíveis consequências e intenções.

Tenho certeza, e os movimentos atuais no mundo árabe mostram, que hoje um jogo de futebol com alguns ídolos não mudará convicções ideológicas, mas, o resultado dessa escolha está em mim. Me senti mal por ter sido inconsequente, e não criterioso como sempre costumo ser. Quando percebi o tamanho do risco, após o jogo, minha vontade foi de esconder-me de tudo e todos, inclusive de mim mesmo.

Até então, do encontro no aeroporto até a chegada em Grozny, capital da Chechênia, tudo era uma grande alegria, pois o time de amigos estava novamente reunido. De imediato, vieram lembranças de tudo que passamos para chegar às grandes vitórias.

Mas o fato é que em Grozny o clima era militar: fotos gigantes dos homens que estão no poder, pouquíssima gente na rua. Algo muito estranho pra mim. Só depois, fiquei sabendo pela intérprete russa que 98% da cidade havia sido destruída durante a guerra. Imaginem as lembranças daquelas batalhas ainda vivas por ali. Ouvi também que algumas ONGs, acusam o governo de violação dos direitos humanos. Pelo que vi por lá, não me surpreenderia. Mas é muito difícil avaliar em um lugar tão traumatizado e ainda em extremo estado de alerta.

Chegamos em Grozny já no começo da tarde. Comemos e fomos ao teatro, em um dos prédios reconstruídos, para uma apresentação de danças típicas e música, também com uma atração internacional. Fomos recebidos de forma muito gentil por todos. Foi o único momento que me aproximei da população, que parecia bem. O público era, na maioria, formado por mulheres, em comemoração ao dia internacional da mulher, 8 de março. Muitas com seus celulares filmando tudo. Posso dizer que foi um momento agradável, pude sentir, mesmo que pouco, o lado humano daquela cidade que tenta se reconstruir.

Ficamos em um hotel com condições razoáveis, praticamente dentro do estádio do time da casa (que conta com vários jogadores brasileiros). No estádio, lotação máxima, com cerca de 15 mil pessoas, que cantavam o tempo todo.

Poucas horas antes do jogo, soube que o presidente e seus companheiros seriam nossos adversários. A única notícia boa era a duração do jogo: apenas 2 tempos de 25 minutos.

Os agentes pediram para “aliviar” um pouco, já que era apenas uma “brincadeira”. Realmente, apesar de Gullit e Matthäus estarem no time adversário, não tinha a mínima condição de fazermos um jogo competitivo. Além do presidente, havia outros que nunca tinham sido atletas de futebol. Foi uma pelada de quintal, mas o público parecia vibrante.

Placar a parte, desta imbecilidade (assim que me senti) cometida, ficam duas grandes lições: acompanharei de perto o processo político na Rússia/Chechênia; e estarei muito mais alerta a esses possíveis deslizes de avaliação (mesmo já sendo e tendo uma equipe muito criteriosa). Posso dizer que essa experiência serviu, ao menos, como um importante aprendizado.

Escrevo, porque da mesma forma e com a mesma intensidade que queria me esconder após o evento, necessito me expor e expor minhas fraquezas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Roberto Carlos é alvo de racismo na Rússia



Roberto Carlos, ex-Corinthians, foi alvo de manifestação racista na Rússia. Na derrota de seu time, o Anzhi Makhachkala, para o Zenit São Petersburgo, por 2 a 0, um torcedor chegou a oferecer banana ao lateral brasileiro (foto).

A torcida do Zenit é conhecida pelas manifestações racistas. Seus dirigentes, inclusive, evitam a contratação de jogadores negros para evitar problemas com seus torcedores. O clube já foi ameaçada pela UEFA e pela federação russa de ser eliminada de competições, o que acabou não acontecendo.

Além de Roberto Carlos, também jogam no Anzhi o ex-corinthiano Jucilei e o ex-atleticano Diego Tardelli.


segunda-feira, 21 de março de 2011

“Basco” 2x0 “Botafugo”, e outros jogos



No dia em que Obama discursou no Teatro Municipal do Rio, citando a partida Vasco x Botafogo – nas palavras do presidente americano, “Basco” e “Botafugo” –, após ter ganho uma camisa do Flamengo de Patrícia Amorim, o futebol brasileiro não lhe prestou a devida homenagem. A não ser pelo citado clássico alvinegro carioca, que teve, sim, emoções e gols (destaque para a atuação do goleiro botafoguense Jefferson e para o golaço do vascaíno Eder Luís), os grandes do Rio e de São Paulo judiaram da bola.

O Flamengo não passou do 0 a 0 contra o fraco Cabofriense, resultado ruim, mesmo se considerarmos as ausências de Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho. O Palmeiras também não conseguiu passar pelo não menos fraco São Caetano: 1 a 1. Mesmo o Corinthians e o São Paulo, que venceram por 1 golzinhos seus “poderosos” adversários – respectivamente, o Americana e o Grêmio Prudente –, ficaram longe de um desempenho digno do esporte bretão.

Que seja apenas uma nhaca trazida por Obama. Que a leve consigo para o Chile e além.

JFQ

A maldade e o cacoete de Ronaldinho Gaúcho



Na partida entre Flamengo 0x0 Fluminense, realizada no domingo retrasado, um lance foi destaque. Ronaldinho Gaúcho deu um carrinho que atingiu o goleiro tricolor Ricardo Berna. A bola estava muito à frente, mais para o goleiro do que para o flamenguista, que não o impediu de arriscar o carrinho, podendo atingir e machucar Berna. A jogada culminou em falta e cartão amarelo a Ronaldinho, na minha opinião, merecido.

A discussão que se seguiu foi a seguinte: Ronaldinho Gaúcho foi maldoso no lance? Em outras palavras, agiu com dolo ou, no mínimo, com culpa – para usar a terminologia jurídica –, ou seja, com intenção de machucar ou sem qualquer cuidado para evitar o choque? Ou foi um lance casual, um acidente? Bem, neste caso, não deveria sequer ter tomado o cartão.

Pelo que observei, penso que Ronaldinho agiu sem a prudência necessária. Sabia que poderia atingir e machucar Berna, mas não se importou em dar o carrinho. Ademais, complemento: agiu levado por um cacoete ganho nos tempos de Europa. Explico. No Velho Continente, é praxe que jogadores entrem de forma ríspida, muitas vezes levando a lesões, sem que os árbitros considerem faltas ou, quando as marcam, mostrem cartões. Lances que para nós são de uma violência inadmissível, para os europeus são “do jogo”. Quem viu a atuação do lateral Flamini, do Milan, nas duas partidas contra o Totteinham, pelas oitavas de final da Champions League, sabe do que estou falando. O problema é que a coisa pode descambar, chegando a contusões sérias ou à deslealdade, como em outra partida, Roma 2x0 Lazio, pelo campeonato italiano, em que o brasileiro Matusalém pisou na cabeça de Totti. Literalmente! Detalhe: não tomou cartão!

No sentido disciplinar, os campeonatos europeus estão beirando às antigas disputas sul-americanas. Ironia do destino: enquanto nossa Libertadores vem se “europeizando”, cheia de fair play, alguns lances em torneios da Europa nos faz lembrar a velha “garra” uruguaia ou chilena.

Ronaldinho Gaúcho, assim como Roberto Carlos em seus primeiros jogos no Corinthians, não se apercebeu de que a tolerância para determinados lances, no Brasil, é bem menor do que na Europa. Aos poucos, vai se adaptar, assim como se adaptou o lateral. Aprenderá que por aqui a interpretação da arbitragem é bem diferente da europeia. Penso que, neste quesito, melhor para nós.

JFQ

quinta-feira, 17 de março de 2011

Os donos da bola

Rita Siza


Pode ser que eu tenha estado distraída, mas ainda não ouvi o mundo do futebol exaltar-se, indignado pelos favores prestados ao clã Gaddafi ou por ver o seu bom nome manchado pela associação ao vergonhoso regime líbio.

O presidente da London School of Economics, pressionado pelos alunos daquela prestigiada universidade britânica, demitiu-se para proteger a reputação da instituição, que montara um programa de estudos com o dinheiro que lhe chegava da Líbia.

Várias superestrelas da música, como Beyoncé, Mariah Carey, Nelly Furtado e Jon Bon Jovi, envergonhadas e arrependidas de aceitar cachês milionários para atuar para os amigos do ditador, devolveram o dinheiro, sob a forma de donativos, para organizações de defesa dos direitos humanos.

Pode-se argumentar que não foi só agora, de repente, que o regime de Gaddafi se tornou insuportável, e que toda esta gente deveria ter consciência da sua brutalidade. Mas, apesar de mais tarde do que mais cedo, esta dor na consciência fica-lhes bem, ainda mais porque vai beneficiar milhares de vítimas inocentes e indefesas, na Líbia e noutras regiões deste mundo.

Mas a gente do futebol permanece calada e quieta. Aqui, o dinheiro do regime líbio não escalda ninguém.

Compreende-se: é um meio habituado a lidar com dinheiro proveniente dos carácteres e das fontes mais duvidosas sem o mínimo prurido moral. Um porta-voz da Juventus até considerou que os Gaddafi eram uns "investidores exemplares". Desde 2002 que a Líbia tem comprado acções do clube. Atualmente, é detentora de uma participação de 7,5% do capital e de um lugar na administração.

Mas não só a Juventus se beneficiou do dinheiro do regime: quatro outras equipas da Série A, Lazio, Perugia, Udinese e Sampdoria, foram pagas pela Líbia para ter Saadi al-Gaddafi, o terceiro filho do coronel Muammar, a treinar com os seus times. E, na Itália, o fundo soberano da Líbia é ainda um dos accionistas de referência do Unicredit, o maior banco do país, que é dono da AC Roma.

As organizações que gerem o futebol, particularmente a Uefa, continuam alegremente a ignorar o assunto, ao mesmo tempo em que a Líbia continua a bombardear suas cidades e a matar sua população. É inadmissível e mais um triste sinal de que esta gente habita um universo paralelo.

Se as instituições do futebol não se juntarem aos líderes internacionais que condenam a atuação do governo da Líbia e exigem a saída de Gaddafi, serão para sempre coniventes com os crimes contra a humanidade em curso no país africano.
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/03/2011.

A conta das migalhas

Paulo Vinicius Coelho


O Coritiba é um dos clubes que pretendem negociar separadamente os direitos de transmissão do Brasileirão, triênio 2012/2014. Surpreendentemente, o presidente Jair Cirino estava no Clube dos 13 na abertura do envelope da licitação, sexta-feira.

O Coritiba recebe atualmente R$ 13 milhões por ano. A Globo oferece R$ 27 milhões, mas a projeção é que arrecade R$ 34,5 milhões, pelos valores mínimos estipulados pelo Clube dos 13. A diferença é de R$ 7,5 milhões.

Um dos bons argumentos para assinar com a Globo é que ela dá mais visibilidade aos patrocinadores. Hoje, o Coritiba vende o patrocínio de sua camisa por R$ 6 milhões, menos do que a diferença entre o que a Globo se dispõe a pagar e o que o Coritiba arrecadaria negociando em conjunto.

Ainda há quem aposte que a guerra dos direitos terminará quando a Rede TV! depositar a primeira parcela, em um mês. Serão R$ 300 milhões, o equivalente a 20% do total a ser pago pelos três anos de contrato. Jair Cirino não estava na sede do Clube dos 13, na sexta, por causa da cor dos olhos de Fábio Koff. Estava pela cor do dinheiro.

Seu clube tem dívidas bancárias com vencimento na segunda-feira. Não há dinheiro em caixa, e seu avalista é o Clube dos 13.

Contas desse tipo existem em quase todos os clubes. O Botafogo deve R$ 61 milhões ao Clube dos 13 e já recebeu todo o dinheiro a que tinha direito pelo contrato de TV até outubro. O presidente Maurício Assumpção alega que decidiu sair da negociação conjunta por não conseguir se livrar de uma divisão de receitas que faz com que arrecade 40% a menos do que o Flamengo.

Hoje, o Botafogo recebe R$ 22 milhões. "Vou dobrar esse valor negociando sozinho", diz Assumpção. Em conjunto, a projeção é que o Botafogo saltaria para R$ 53,5 milhões.

Clubes de torcida média, como Coritiba e Botafogo, podem perder negociando sozinhos. Flamengo e Corinthians podem ganhar mais.

O Botafogo também considera a visibilidade de seus parceiros na Globo. O clube avalia o patrocínio de sua camisa em R$ 10 milhões -a diferença entre negociar sozinho ou em conjunto, R$ 9,5 milhões-, mas jogou a maior parte da Taça Guanabara sem patrocinador.

Esse dinheiro faz diferença. Ou não seria necessário receber empréstimo de R$ 8 milhões da CBF, seis dias antes da eleição do Clube dos 13. Maurício Assumpção votou no candidato que agradava Ricardo Teixeira.


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/03/2011.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Resultado da Enquete


Corinthians, em 2000, e Atlético de Madrid, em 1974, conquistaram o título mundial sem levantarem a taça continental


O blog lançou a seguinte pergunta: O Corinthians é o único clube campeão mundial que não venceu torneio continental: verdadeiro ou falso? 71% responderam que a afirmação era verdadeira e 28%, que era falsa.

A resposta – cara aos corinthianos, sempre criticados por terem ganho o Mundial sem ter levantar antes a Libertadores – é afirmativa. Além do Timão, que jamais venceu o principal torneio sul-americano, a Libertadores da América, o Atlético de Madrid, campeão mundial de 1974, jamais venceu a Liga dos Campeões da Europa.

Nem sempre o campeão da Champions League aceitou participar da disputa, em geral, alegando problemas de agenda. Nesses casos, o vice-campeão europeu representou o continente: o Ajax, da Holanda, deixou de participar em 1971 e 73, cedendo o lugar ao Panathinaikos, da Grécia (71) e à Junvetus, da Itália (73); o alemão Bayern de Munique cedeu o lugar ao Atlético de Madrid, em 1974; o Liverpool, da Inglaterra, cedeu a vaga ao alemão Borussia Mochengladbach, em 1977; o também inglês Nottingham Forrest cedeu o lugar ao sueco Mälmo FF, em 1979. Nos anos de 1976 e 1978 sequer houve a disputa. Em 1993, o vice europeu, Milan, ocupou o lugar do campeão, Olympique Marseille, na disputa do mundial, por conta de um escândalo de compra de jogos no campeonato francês. Destaque-se que, até 1979, o título mundial era disputado em duas ou três partidas, nas casas dos adversários.

Com exceção do Atlético de Madrid, em 74, sempre o campeão da Libertadores ou o da Champions League faturou o título mundial. O que também ocorreu com o advento da Copa do Mundo de Clubes, com exceção do Corinthians, em 2000, que participou como campeão nacional do país-sede. Detalhe: no mesmo ano de 2000, também foi realizado o mundial “de Tóquio”, com vitória do Boca Juniors, da Argentina. Ou seja, há dois campeões mundiais em 2000.

Outra curiosidade: todos os títulos foram disputados por um europeu contra um sul-americano, com duas exceções: em 2000, jogado entre os brasileiros Corinthians e Vasco da Gama, e em 2010, quando a italiana Internazionale enfrentou o africano Mazembe, da República Democrática do Congo.

Algumas ponderações devem ser feitas. O que se considera mundial de clubes, na verdade, divide-se em três torneios diferentes: a Copa Intercontinental (disputada de 1960 a 1979), a Copa Toyota (disputada em partida única, no Japão, de 1980 a 2004) e o Copa do Mundo de Clubes da FIFA (disputado em 2000 e de 2005 em diante). Os dois primeiros reuniam apenas o campeão sul-americano (Libertadores da América) e o campeão europeu (Liga dos Campeões da Europa). Somente com a Copa do Mundo da FIFA todos os continentes passaram a ser representados, bem como o campeão nacional do país-sede. Até hoje, o Mundial da FIFA foi realizado apenas no Brasil (2000), no Japão (2005 a 2008) e nos Emirados Árabes Unidos (2009 e 2010).

De 2001 a 2004, o torneio foi cancelado por problemas envolvendo a FIFA e a então organizadora, a empresa suíça ISL. Em 2001, o Mundial seria realizado na Espanha, e teria a presença dos seguintes clubes: Al-Hilal (Arábia Saudita), Boca Juniors (Argentina), Palmeiras (Brasil), Hearts of Oak (Gana), Los Angeles Galaxy (EUA), Jubilo Iwata (Japão), Wollongong Wolves (Austrália), Zamalek (Egito), Galatassaray (Turquia), Real Madrid (Espanha), Deportivo La Coruña (Espanha) e CD Olimpia (Honduras).

O Mundial deste ano retornará ao Japão. Pelo menos, é a informação de momento, antes que qualquer avaliação tenha sido feita sobre a possibilidade do país abrigar o evento após os incidentes que vêm ocorrendo nos últimos dias.

JFQ

sexta-feira, 4 de março de 2011

O legado da Copa do Mundo da Alemanha

Rodrigo Bueno


O país-sede da Copa de 2006 tem muito a ensinar ao país-sede da Copa de 2014.

Não me refiro à organização do Mundial em si, mas sim ao fortalecimento do futebol nacional. Se a inglesa Premier League hoje é o sonho, a alemã Bundesliga é algo que caminha nesse sentido e que está ao alcance.

Com estádios novos, mercado aquecido e venda coletiva de direitos de TV, a liga alemã é a de maior média de público, superando a casa dos 40 mil torcedores/jogo.

Os ingressos não são caros, e a distribuição de renda entre os clubes equilibra a disputa, nos moldes do que acontece na Inglaterra (50% dos direitos de TV são divididos igualmente entre os times, 25% decorrem da classificação e 25% ficam por conta da audiência).

Foi assim que a liga alemã superou o tradicional Italiano no ranking da Uefa e parte para cima do Espanhol, que já decidiu rever o privilégio absurdo de Barcelona e Real Madrid na distribuição do dinheiro da TV.

Na temporada passada, o campeão Bayern foi o clube alemão que mais arrecadou da TV (€ 28,1 milhões), porém não muito mais que o lanterna no quesito, o Hoffenheim (€ 13,3 milhões).

O Borussia Dortmund sairá da fila com média superior a 78 mil pessoas/jogo. Festa justa para sua fiel torcida, mas a Alemanha celebra mais, coletivamente.

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PÚBLICO ALEMÃO

2010/ 2011 (24 rodadas)

Total 9,02 mi Média 41.805

2009/2010

Total 13,00 mi Média 42.490

2008/2009

Total 13,01 mi Média 42.519

2007/2008

Total 12,07 mi Média 39.457

2006/2007

Total 12,23 mi Média 39.972

2005/2006

Total 12,47 mi Média 40.766

2004/2005

Total 11,56 mi Média 37.794

2003/2004

Total 11,46 mi Média 37.474

2002/2003

Total 10,46 mi Média 34.198

2001/2002

Total 10,10 mi Média 33.039

2000/2001

Total 9,45 mi Média 30.913


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 03/03/2011.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mano convoca seleção para amistoso contra Escócia

Saiu há pouco a lista dos convocados da seleção brasileira para enfrentar a Escócia, em Londres, no próximo dia 27 de março. São eles:

Alexandre Pato – Milan

André Santos – Fenerbahce

Daniel Alves – Barcelona

David Luiz – Chelsea

Elano – Santos

Elias – Atlético de Madri

Henrique – Cruzeiro

Jadson – Shakthar Donetsk

Jeferson – Botafogo

Jonas – Valencia

Julio César – Inter de Milão

Lucas - Liverpool

Lucas – São Paulo

Lúcio – Inter de Milão

Luisão – Benfica

Maicon – Inter de Milão

Marcelo – Real Madrid

Neymar - Santos

Nilmar – Villarreal

Ramires - Chelsea

Renato Augusto – Bayer Leverkusen

Sandro – Tottenham

Thiago Silva - Milan

Victor - Grêmio

quarta-feira, 2 de março de 2011

Lançando na área

Hoje

Quando o dia amanheceu, hoje, 2 de março de 2011, os dissidentes do Clube dos 13 acordaram sob a ameaça de sofrerem sanções do CADE se as negociações (caso a caso) com a Rede Globo, para a transmissão do Brasileirão 2012/2014, ferirem a livre concorrência.

Também hoje o Sport acordou único campeão brasileiro de 1987, por decisão do senhor Francisco Alves (nome de cantor), juiz da 2ª Vara Federal de Pernambuco.

Tudo isso, hoje. Amanhã, ninguém sabe. O futuro a Deus pertence.

Falando nisso, hoje, mais uma vez desde 1989, Ricardo Teixeira acordou presidente da CBF.

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A perda do torcedor ilustre

Diz a lenda que o Cruzeiro tem apenas 18 torcedores. Não me refiro à Raposa de Belo Horizonte, mas ao seu homônimo de Porto Alegre, que, apesar da boa campanha no Gauchão 2011, perdeu a chance de ir à final da Taça Piratini, após derrota por 4 a 2 para o Grêmio. Pior do que isso, perdeu seu torcedor mais ilustre, o escritor Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, falecido no mesmo domingo em que o Cruzeiro foi desclassificado, no Olímpico. Pobre Cruzeiro! Derrotado em campo, desfalcado em sua torcida, já tão escassa. E que desfalque!

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Pais e Filhos


Quem, apesar de boleiro, não caiu na ignorância da discriminação sexual – sim, infelizmente, os fatos mostram que há uma relação –, fica comovido em ouvir a modelo Lea T falar de sua vida e de sua luta para ser quem é. Considerada uma das principais top models do mundo, Lea T nasceu Leandro, um menino. Aos poucos descobriu e assumiu sua condição. Para sua sorte, encontrou no pai, o excepcional Toninho Cerezo, ídolo no Galo, no São Paulo, na Sampdoria e na seleção brasileira, um apoio. Ao não rechaçar o filho, tornada filha, Cerezo prova ser um pai de verdade, um craque dentro de campo e na vida.

Também comove a forma como Ronaldo aceitou a paternidade do garoto Alex, fruto de um relacionamento que tivera no Japão. Mais do que isso, Ronaldo passou a ser visto com freqüência junto a Alex e ao primogênito Ronald. Quem está acostumado à ênfase quase exclusiva na vida de baladas, escândalos e os casamentos desfeitos, é interessante notar esse lado “família” do Fenômeno. Da mesma forma que a aceitação de uma orientação sexual fora dos padrões convencionais, como no caso de Cerezo, a pronta acolhida de um filho – não apenas no âmbito formal, mas, sobretudo, afetivo – também é tarefa para homens fortes, para craques fora dos gramados. Que o diga o maior de todos os craques... dentro de campo.

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Perguntas e mais perguntas

Quem é o campeão brasileiro de 1987? Quem ficará com a Taça das Bolinhas? Qual será o estádio de abertura da Copa de 2014? O Fielzão será construído a tempo? O Morumbi, de fato, não reúne condições para abrigar a partida de abertura do Mundial? Por que vários clubes decidiram sair do Clube dos 13 justo agora, quando está marcada uma concorrência que, em tese, aumentará muito suas receitas? Negociações clube a clube são mais vantajosas a quem? Os valores de referência da licitação são os de mercado ou foram elaborados para forçar a Globo a pagar mais? Até quando Ricardo Teixeira será presidente da CBF? Quando sair, será presidente da FIFA? Teixeira lançaria Andrez Sanchez como seu sucessor? A homologação do título do Flamengo em 87 tem relação com sua possível saída do C13? A saída do Corinthians do C13 facilitará a construção do Fielzão e sua utilização na Copa 2014? Os títulos da Taça Brasil e do Robertão, homologados como títulos brasileiros, também serviram para cooptar clubes junto à CBF? A CBF e/ou a Rede Globo estão oferecendo alguma vantagem para os clubes saírem do C13? Por que a Record e a Rede TV! estão tão quietas? O vice-diretor de comunicação e marketing do São Paulo, Julio Casares, também é diretor de projetos especiais da Record? Por que a Globo não noticia o imbróglio envolvendo o C13 nos seus telejornais esportivos? Afora a ESPN, a TV Cultura e a Gazeta, quem fala do assunto? A quem interessa o quase monopólio exercido pela Rede Globo? Quão fundamental é o futebol para a sustentação do quase monopólio “global”? Ou é o futebol que precisa da Globo para vender todas as marcas e produtos a si associados? A imensa hegemonia da “vênus platinada” não lesa os clubes, os torcedores, os telespectadores, enfim, os brasileiros? Não fere o direito econômico, logo, não deveria ser passível de alguma medida do CADE? Tratando-se de uma concessão pública, a questão não envolve também interesse público, além de interesses comerciais privados? O futebol é uma mercadoria comum ou um bem cultural, logo, passível de tratamento especial, cujos brasileiros têm o direito constitucional ao acesso? No caso da negociação clube a clube, os times menores não tendem a ser prejudicados? Se o negócio for bom apenas aos grandes, o futebol brasileiro, como um todo, não tende a ser prejudicado? Tomando os exemplos norte-americanos, qual seria o melhor modelo de transmissão: o do beisebol, o da NFL, o da NBA? Como melhor conciliar os interesses comerciais da TV, dos clubes e os interesses esportivos do país? Como gerar bons negócios preservando o futebol e os torcedores? Quem está interessado nisso tudo?????

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O horário dos jogos

Independentemente de qual(is) emissora(s) transmita(m) os jogos do Brasileirão no ano que vem, caso haja o mínimo respeito pelos torcedores – e não apenas apreço por retornos comerciais e questões de grade da programação –, deve mudar os horários das partidas. Os jogos noturnos, que há algum tempo ocorriam por volta das 21 h, começam, hoje, às 22h. Desrespeito com o torcedor que vai ao estádio, e enfrenta muitas dificuldades para pegar a condução de volta para casa (em São Paulo, por exemplo, o metrô fecha à meia-noite), chega tarde e precisa trabalhar no dia seguinte. Desrespeito também ao torcedor que assiste à partida pela TV, já que vai dormir tarde e tem que acordar cedo outro dia. Mas, afinal, o que importa isso se o horário se encaixa perfeitamente na sequência dos imperdíveis JN e a novela “das oito”?!

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Por favor, derretam a Taça das Bolinhas

O Flamengo, finalmente – oportunamente, diria Ricardo Teixeira - , pode ser oficialmente considerado campeão brasileiro de 1987. Juntamente com o Sport, que não gostou nada disso. Hoje, como dito acima, recuperou na Justiça o direito de se dizer único campeão de 87. Caso o Mengo reverta isso – o que é bem possível – poderá se considerar o primeiro pentacampeão do campeonato brasileiro. Entenda-se bem: do campeonato brasileiro. Já o primeiro campeão brasileiro é o Santos, desde a homologação dos títulos da Taça Brasil como títulos brasileiros, pela CBF. Quer dizer, isso se considerarmos os campeões de fato, histórica ou cronologicamente tomados. No entanto, caso analisemos o primeiro campeão de direito, este é o São Paulo, já que o Flamengo só ganhou 87 e o Santos, os títulos de 61 a 65 e 68, em 2011. Haja confusão!!! Solução: façam com a famigerada Taça das Bolinhas o que não deveriam ter feito com a Jules Rimet: derretam-na!

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O apito lá e cá

Fico possesso com certos comentaristas que não se cansam de enaltecer a arbitragem na Europa, em comparação à nossa, porque “lá não se para o jogo por qualquer faltinha”. Na verdade, muitas vezes deixam de dar faltas em lances cujo desfecho deveria ser cartão vermelho imediato e abertura de ação judicial por tentativa de homicídio.

Acredito que o “estilo europeu” advenha, em boa medida, não de uma concepção de “deixar o jogo rolar”, mas por serem arbitrados por juízes bananas. Explico: o árbitro fica tímido diante de um jogador que se impõe; logo, tem medo de prejudicar seu time – especialmente quando joga em casa – e, mais ainda, de punir.

Quem assistiu à vitória do Totteinham sobre o Milan, por 1 a 0, em Milão, pela Liga dos Campeões, certamente ficou abismado com o showzinho à parte do “raçudo” (leia-se: destemperado e grosso) Gattuso e com a falta de pulso do árbitro francês Stephane Lannoy. Para quem não se lembra, Lannoy é o mesmo árbitro da partida Brasil 3x1 Costa do Marfim, na Copa 2010, em que: 1) Luis Fabiano marcou um golaço, após matar a bola com o braço; 2) Tioté não foi expulso após quase quebrar a perna de Elano; 3) Kaká foi expulso por cair na encenação de jogador adversário. Precisa falar mais alguma coisa?


Na partida do Milan, Gattuso e Lannoy poderiam formariam uma dupla: a besta fera e a besta quadrada. Enquanto o italiano deu chiliques, nervoso pelo resultado adverso em casa, agredindo dirigentes e jogadores do time adversário, o francês, além de não ter pulso para expulsá-lo, também deixou de mostrar o cartão vermelho a Flamini, do Milan, em entrada violentíssima que tirou o croata Corluka do jogo. De bom na partida, apenas as grandes defesas do brasileiro Gomez, goleiro do Tottheinham.

Em compensação, acompanhei às partidas Cruzeiro x Estudiantes e Fluminense x Nacional, ambas pela Libertadores e ambas apitadas por Carlos Amarilla. O paraguaio praticamente não apareceu; ou seja, fez excelentes arbitragens. Pulso firme e sempre em cima do lance, Amarilla deu aulas de como apitar. Detalhe: quem conhece futebol sabe que numa partida em que um time brasileiro aplica 5 gols em um argentino (ou vice-versa), como ocorreu em Cruzeiro x Estudiantes, tem tudo para descambar em violência. Mas não foi o que aconteceu, graças aos jogadores, mas, ainda, à condução da partida por Carlos Amarilla.

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Violência

Uma cena passou quase incólume no jogo Treze, da Paraíba, versus São Paulo, pela Copa do Brasil. Não que tenha deixado de ser mostrada (veja vídeo abaixo), mas cabe a pergunta: vai ficar por isso mesmo? Outros jogos serão realizados nesse estádio depois do ocorrido? Os protagonistas da lamentável cena serão punidos? Cabe alguma punição ao Treze?

Eis uma mostra da violência na sociedade brasileira. Por sorte, o desfecho não foi trágico, quer dizer, não houve mortos ou feridos. Por sorte...

Violência, aliás, que vitimou o ex-árbitro José Roberto Godói, baleado em tentativa de assalto, em São Paulo. Apesar de ferido, Godói resistiu e já recebeu alta. Por sorte...



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O artista e a celebridade, a bola e a imagem

Quem quiser acreditar, que acredite. Há quem leve muito a sério a estória de que Kaká de fato esteja pensando em vestir a camisa do Corinthians. Há outros, como eu, que pensa ser esse mais um exemplo de mania de grandeza do Timão (ão!, como na propaganda de cerveja). Talvez por influência das pré-temporadas em Itu.

Os que levam a coisa a sério têm como argumento principal o seguinte: Kaká ganharia muito dinheiro voltando ao Brasil. Mas, como? O Corinthians teria condições de lhe oferecer um salário maior que o hoje ganho no Real Madrid? Quem falou em salário?, responderiam: o dinheiro viria da exploração de sua imagem, o tal marketing pessoal.

Sim, eis a novidade destes tempos: o dinheiro da imagem supera o salário, antigamente conhecido como a remuneração do trabalho. A propósito, o próprio trabalho – o que se faz em campo, reflexo de talento aliado a horas e horas de treinamento – perdeu espaço para o que se faz fora, no âmbito particular. Ou melhor, acabou-se o tal âmbito particular: tudo fora do trabalho convencional continua a ser trabalho, o trabalho de venda da imagem. As diferentes mídias viraram a segunda casa – ou o segundo trabalho – de certos jogadores. Privacidade? Esqueçam. E, por favor, não reclamem da invasão!

Mais que jogar bola, driblar, dar assistência ou marcar gols, o negócio é firmar-se como um lucrativo garoto propagada. O negócio é explorar a própria imagem para vender marcas e produtos. De sandálias a cartões de crédito, de produtos de higiene a cervejas. Não é à toa que Ronaldo, ao sair do futebol, entrou direto no ramo do marketing esportivo, no “gerenciamento da imagem” do atleta. Anderson Silva, o lutador, é seu cliente. Kaká também poderia ser?

Nesse processo, ocorre com esportistas o mesmo que já ocorria com outros artistas. Atores e atrizes, por exemplo. Não importa a qualidade da arte demonstrada nas telas ou palcos, mas a repercussão das fotos e vídeos veiculados em revistas e programas de celebridades. Eis a palavra: celebridade. Pessoas tornadas ícones, forçosamente mitificadas, reinando nas várias mídias, cuja presença tem cada a vez menos relação com o talento ou a capacidade artística, esportiva ou seja lá de qual natureza for.

Parafraseando Benito di Paula: seria muito bom, seria muito se legal, se cantor, compositor, ator ou jogador de futebol pudesse ser, acima de tudo, celebridade.

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Ops, caiu de novo


Adilson Batista está em pleno inferno astral. Após a fatídica derrota para o Estudiantes na final da Libertadores 2009, quando deixou o Cruzeiro, após 3 bons anos, Adilson não teve vida longa em nenhum clube. No Corinthians, sua passagem foi associada ao declínio do time no Brasileirão 2010. Mano Menezes deixou o time do Parque São Jorge na liderança do campeonato quando assumiu a seleção brasileira, dando o lugar a Adilson. O que ninguém se lembra é que, nesse mesmo período, vários jogadores titulares ficaram contundidos, obrigando o novo treinador a improvisar em várias partidas.

Já no Santos, Adilson substituiu Dorival Junior – após o comando “tampão” de Marcelo Marttelote, hoje de volta –, que também saíra consagrado do clube, apesar de desacatado por Neymar. As inovações de Adilson não surtiram o efeito desejado. O time caiu no Paulistão e o técnico passou a sofrer críticas da torcida. Especialmente pela insistência em deixar Mailkon Leite e Zé Love na reserva.

As passagens curtas por Corinthians e Santos causam um grande prejuízo na imagem de Adilson, até há pouco visto como um técnico dos mais promissores do futebol brasileiro. Seria o caso de procurar a nova agência de Ronaldo?

JFQ

terça-feira, 1 de março de 2011

Toque de Letras

O escritor gaúcho Moacyr Scliar, morto no último domingo, era torcedor do Cruzeiro de Porto Alegre.
Abaixo, texto de Scliar que o jornal Zero Hora publicou no dia 22 de junho de 2010, após o retorno do Cruzeiro à elite do Gauchão:



Ser membro da Academia Brasileira de Letras é, naturalmente, uma distinção, mas tem os seus inconvenientes, como descobri na semana passada: tendo ido ao Rio para a reunião da ABL, perdi um acontecimento histórico: ao derrotar o Brasil de Farroupilha, o Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre garantiu seu retorno à primeira divisão do futebol gaúcho, após 32 anos de ausência. Lamento que meu falecido pai, José Scliar, cruzeirista fanático (e um dos 18 torcedores que, segundo o folclore porto-alegrense, o Cruzeiro tinha) não haja vivido esse momento glorioso. Foi meu pai quem me introduziu ao futebol: eu tinha a paixão pelo Cruzeiro no genoma.

E tinha de ser uma paixão mesmo. A trajetória do Cruzeiro era um tanto desconcertante. Terceira força do futebol gaúcho, o azar no entanto nos perseguia. Mas, e isso ajuda a entender o “pathos” cruzeirista, não era um azar constante. De vez em quando, e da forma mais inesperada, o time ganhava de goleada, renovando nossa fé. Chegamos ao auge quando o Cruzeiro tornou-se o primeiro time gaúcho a excursionar pelo Velho Mundo, o que aconteceu duas vezes, em 1953 e 1960. Na primeira excursão, o Cruzeiro conseguiu até empatar com o Real Madrid e voltou com o autoatribuído título de Leão da Europa.

E aí vinham as surpresas desagradáveis. A última partida a que assisti, sempre ao lado do meu pai, foi realizada no estádio do time da CEEE, o Força e Luz, na Rua Alcides Cruz. Quem perdesse ficaria em último lugar. Mas, para o Cruzeiro, bastava um empate, e, quando terminou o primeiro tempo, estávamos ganhando de 3 a 0. No fim, perdemos por 4 a 3. Ao Cruzeiro, devo a inspiração para A Colina dos Suspiros, livro destinado a jovens, que foi traduzido em vários países. O título nasceu da localização do estádio do clube, que ficava na Colina Melancólica, ali onde estão os cemitérios porto-alegrenses.

Convenhamos que não era um lugar muito alegre, e o estádio acabou sendo vendido para o Cemitério João XXIII. O clube recebeu parte do pagamento em jazigos perpétuos, que valiam uma soma apreciável e foram usados na compra dos passes de jogadores. Quando ouvi um desses jogadores dizendo, na Rádio Gaúcha, e com muito orgulho, que seu passe havia sido adquirido por seis túmulos, dei-me conta de que aquele era o time ideal para um ficcionista, e a partir daí nasceu a história.

Agora, o Cruzeiro mostra sua bravura, retornando à primeira divisão. Nas palavras de Jayme Sirotsky, presidente emérito da RBS, o time, como a mitológica fênix, renasceu das próprias cinzas. E tenho certeza de que, assim fazendo, inspirou nossa seleção na vitória sobre Costa do Marfim. “Se o Cruzeiro pode, nós também podemos”, deve ter dito Dunga. Viva o Cruzeiro.

Cade determina fim do ágio de 10% da Globo em licitação do Brasileirão



01/03/2011 - 12h17

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) orientou o Clube dos 13 a retirar o ágio de 10% concedido à Globo no edital de licitação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de 2012 a 2014. A informação foi confirmada por Fábio Koff, presidente da entidade ligada aos clubes, em entrevista coletiva em Brasília, que acatou o pedido do Cade.

O ágio representava uma vantagem da emissora carioca, concedida pelo Clube dos 13 e autorizada pelas concorrentes da Globo. Por entender que a atual parceira de TV dos clubes tem um modelo comercial mais consolidado que as rivais, a entidade determinou que, para vencer a Globo, as demais concorrentes teriam de pagar 10% a mais que a emissora carioca.

Essa vantagem, agora, está descartada. Por isso, o valor inicial para a aquisição do contrato de TV aberta volta a ser R$ 500 milhões para todas as TVs interessadas.

A Globo, incomodada com a condução do processo que foi feita pelo Clube dos 13, já divulgou em nota oficial que não vai participar da licitação. Os envelopes serão abertos no dia 11 de março e devem apontar Record ou RedeTv! como vencedoras do processo.

E aí que, como informou o UOL Esporte, a Globo deve entrar em cena. A emissora não tem como fechar com os clubes separadamente sem que eles deixem oficialmente o Clube dos 13. Por isso, deve aguardar a propostas das rivais para tentar seduzir os presidentes com uma proposta maior, antes da assinatura do contrato.

Clube dos 13, vida e agonia

Juca Kfouri


Conto aqui o que vi, e poucas coisas vi tão por dentro em minha vida de jornalista como o nascimento do Clube dos 13 e da Copa União. Como vi o começo lento e gradual de sua decadência.

Curiosa e dramaticamente, sua implosão se dá quando parecia ressurgir, embora, agora, pareça mais que tenha sido aquela famosa melhora do doente antes de morrer.

Eu era diretor da "Placar" à época em que tudo começou, e o apoio da revista foi tão vigoroso que a taça da Copa União foi encomendada e paga por esta ao artista plástico Carlos Fajardo.

E entregue primeiramente ao Flamengo -e depois a Zico, quando ele se despediu do futebol, porque a Copa não resistiu aos conchavos da cartolagem.

A resposta dos 13 maiores clubes do país à falência da CBF, que abdicara de organizar o Campeonato Brasileiro de 1987 por falta de recursos, foi pronta e eficaz: partiu para fazer seu próprio torneio e obteve o apoio da Globo, da Coca-Cola e da Varig.

Registre-se desde logo que o Brasileirão de 1987 não teria o Sport, que não ficara entre os 24 primeiros em 1986, mas em 27º lugar.

Era para ser o embrião da Liga Brasileira de Futebol Profissional. Nasceria cinco anos antes da Liga Inglesa, a famosa Premier League.

Como em toda revolução, houve injustiças e excessos.

As injustiças contra o Guarani e o América, segundo e quarto colocados em 1986.

Verdade que o time campineiro e o carioca não estavam entre os 16 primeiros do ranking nacional, ao contrário dos 13 fundadores do Clube.

Os excessos ficaram por conta de tentar, sem conseguir, porque proibido pela Fifa, pintar marcas de patrocinadores no gramado.

Já o sucesso foi tamanho que a média de público passou de 20.800 torcedores, a segunda maior de todos os tempos, superada apenas pela de 1983, com quase 23 mil pagantes por jogo. Se forem somadas as quantias provenientes dos patrocínios da Copa União, a média praticamente dobra e atinge padrão europeu dos bons tempos.

A conquista do Flamengo foi algo tão indiscutível que o Conselho Nacional dos Desportos, o velho CND, a reconheceu incontinenti, diferentemente do que veio a acontecer mais tarde pelo Tribunal de Justiça Federal em Pernambuco. Sim, a CBF quis mudar as regras com o jogo já em curso.

Mas, para 1988, a situação mudou, fruto de um acordo feito pelo presidente do Clube dos 13 e do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, pelo presidente do CND, Manoel Tubino, e pelo vice-presidente da CBF, mas verdadeiro comandante da entidade, Nabi Abi Chedid, com o aval do presidente do Flamengo, Márcio Braga. E contra o que pensava a direção da Rede Globo.

Por meio de seu diretor de esporte de então, Ciro José Gonzales, de quem divergi muitas vezes, mas que sempre gostou e quis o melhor para o futebol, o número um da emissora, José Bonifácio de Oliveira, o Boni, mandou dizer que a Globo daria respaldo para que a rebeldia dos clubes fosse em frente, sem acordo com a CBF.

Só que prevaleceu o velho espírito conciliatório nacional. E jamais me esquecerei do olhar perplexo de minha filha ao entrar em casa na volta da escola e ver a figura de Chedid na sala, local escolhido pelas partes como neutro e a salvo de assédio.

Ao recuar, o Clube dos 13 começou a esmorecer.

E chegou a ganhar de mão beijada a Copa João Havelange para organizar em 2000, porque a Justiça impediu que a CBF organizasse o Brasileiro sem a presença do Gama, em memorável batalha judicial ganha pelo inexpressivo clube candango.

Ganhou, mas não soube organizá-la com competência, a ponto de o torneio ser decidido em São Januário com superlotação, queda de alambrado e cerca de 160 feridos, o que obrigou a realização de novo jogo, já em 2001, entre Vasco e São Caetano.

De lá para cá, cada vez mais o C13 se transformou apenas em uma agência negociadora de direitos de transmissão, com episódios lastimáveis, como em 1997, quando foi fechado negócio com o SBT, na casa de Sílvio Santos e, em seguida, em meio a rumores desairosos, voltou-se atrás para manter a parceria com a Globo.

Então, o principal executivo do SBT, Luciano Calegari, em entrevista à revista "IstoÉ", chamou a CBF de "máfia" e perguntou: "Quando é que dá para acreditar em presidente de clube?".

Eis que, neste ano de 2011, quando o Cade permitiu as condições para que se inaugurasse uma nova maneira de negociar, com chances claras de se aumentar ponderavelmente as receitas por meio de uma concorrência como nunca houve, tudo rui.

O C13 vai ao Cade amanhã e promete levar documentos que provam compra de votos na eleição que pôs a CBF em choque com Fábio Koff.

Fato é que o racha está posto. E de maneira tão indecorosa para alguns dos protagonistas que o que fica ainda mais claro é que se trata de uma guerra sem mocinhos.

Na qual o futebol brasileiro morre no fim.
 
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/02/2011.