quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Brecando o Barça


José Roberto Torero

Depois da derrota para o Barcelona, os jogadores e a comissão técnica do Santos se reuniram num dos quartos do hotel em que estavam e fizeram um pacto solene: voltaremos ao Mundial em 2012. O Santos quer vingança, desforra, revanche. Mas para isso é bem provável que tenha que enfrentar os grenás de novo. Pois bem, para ajudar Muricy nesta árdua tarefa, pensei em seis maneiras de segurar o Barcelona.

A primeira é o "homem a homem radical". Ou seja, os dez jogadores de linha santista pegariam individualmente os dez do Barça. É claro que o pobre coitado que ficar com o Messi sofrerá um bocado, mas o saudável Adriano não se intimida. Marcação assim é coisa nunca tentada, porém, como o toque do time catalão é novidade, há que se enfrentar invenção com invenção.

"Pressão total" é a segunda tática. Já foi usada em alguns breves momentos por Mourinho. Trata-se de marcar o Barça em seu próprio campo. É claro que para dar certo precisa de um tremendo preparo físico, mas isso é o mínimo se você quer vencer os melhores do planeta.

Uma "barricada defensiva" também pode ser eficaz. Se na final do Mundial o Barça jogou no 3-7-0, o Santos pode jogar no 9-0-1, ou seja, todo mundo atrás e bola para o Neymar correr. É uma tática covarde, mas com o Getafe deu certo.
"UFC neles!" é a quarta possibilidade. Ou seja, a velha e tradicional porrada. O Santos foi muito manso com os adversários. Um pouco da arte de Chicão, Cocito e Márcio Rossini poderia ter intimidado os espanhóis. Ou, pelo menos, aliviaria a frustração do torcedor que sentou ao meu lado no estádio, que gritava: "Acerta um chute neles, só um chutezinho...". Mas os santistas não alcançavam a bola nem as canelas adversárias.

Minha quinta sugestão chama-se "Playstation na cabeça". Ela consiste em marcar não apenas o jogador, mas principalmente o passe, como fazemos quando jogamos o velho Winning Eleven. Para isso, os jogadores de marcação precisam se mexer o tempo todo, em vez de apenas um, aquele que fica correndo atrás da bola feito um bobinho.

E a sexta sugestão é a "Pirataria Já". Ou seja, vamos aprender o que faz o Barcelona e imitá-lo. É curioso que não haja nenhum time do planeta tentando algo assim. Os catalães já fazem sucesso absoluto há dois anos, mas nem um Manchester United, nem um Mogi Mirim, tentam seguir seus passos. Se fosse na Fórmula 1 ou na música popular, já teríamos cópias confiáveis. Porém, até agora, nada. É muita preguiça. E isso aqui, como diz o Muricy, é trabalho.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 24/12/2011.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O dia em que acordei pra viver um sonho



 

30 Anos do Título Mundial do Flamengo

Renato Furtado de Oliveira

Me lembro como se fosse ontem. Meu pai me acordou a meia noite, naquela época com onze anos de idade e com a programação televisiva menos noturna, eu dormia cedo, lá pelas nove e meia, então foi um evento "acordar pra ver o Flamengo jogar".

O sol estava a pino, lá em Tóquio é claro, e o uniforme branco que o Flamengo usava naquele dia, diferente do tradicional vermelho-e-preto, parecia combinar com o dia ensolarado, apesar de que o vermelho-fogo do Liverpool, de uma forma agressiva, também combinava. Veríamos no final qual das duas vestimentas seria a roupagem imortalizada.

E por falar em Liverpool, do lado de cá do mundo a gente pensava: "ai Meu Deus, é o Liverpoool..." não é um Cobreloa ou outro time sul americano é o Liverpool !!! Os "The Reds" ! Enfim a imprensa daquela época, já enchia muito bem a bola do futebol europeu, acontece que tinha um cara aqui, um cabeludão, na dele, que ou por não acompanhar assiduamente esta imprensa ou simplesmente por ninguém ter avisado ele com "quem" iriam jogar, simplesmente tratou os vermelhos com o mesmo respeito que tratava o Vasco, Atlético, Corinthians ou o Olaria: GOL !

Logo no inicio do primeiro tempo, nem tinha chegado aos quinze minutos, ele foi buscar a bola lá no meio de campo, onde, depois de uma tabela, deixou ela de calcanhar para o Mozer, grande zagueiro, inteligente e por isso mesmo passou logo a bola pro Maestro da orquestra rubro-negra, o Galinho de Quintino, isso mesmo ele: Artur...Zico ! Do meio de campo, com um lançamento de precisão cirúrgica, colocou a bola nos pés de Nunes que sem muita firula, com um toque deslocou o goleiro e correu pra galera nipônica que enchia os olhos com aquele futebol.

O segundo gol saiu dos pés do Maestro novamente, na arte que ele dominava como ninguem: cobrança de faltas. O goleirão não conseguiu segurar e no bate rebate Adilio coloca pra dentro.

Nesta altura o meu nervosismo ia se transformando aos poucos em euforia, os músculos da testa relaxando e o das bochechas se esticando, mostrando os dentes, os olhos brilhando, naquela ocasião de admiração e neste momento, que escrevo, de emoção.

Raul (Plasman), Adilio, Andrade, Tita, Nunes, Junior, Mozer, Leandro, só tinha fera naquele time ! O mercado europeu não estava tãããão aquecido ainda e podíamos curtir um pouco mais nossos craques nos nossos times sem ter que torcer para dream-teams multinacionais. Na verdade, era um tempo de transição entre aquele futebol romântico da era Pelé/Garrincha para os contratos comerciais midiáticos de hoje.

Pra fechar a goleada, advinha quem, novamente com um passe raro de see ver hoje em dia, deixou a linha burra dos Reds totalmente confusa e perfurando a defesa, como se já soubesse desde o primeiro momento que Zico tinha pegado na bola onde ela estaria dali poucos segundos, correndo feito um louco novamente o "Artilheiro das Decisões" como era chamado, fez valer sua alcunha. Na entrada da área, acoçado por um zagueiro e outro se aproximando, ele podia ter driblado e chutado de esquerda, ele podia ter chegado mais perto e tocado por cobertura na saída do goleiro, ele podia ter feito um punhado de coisas, inclusive errado, mas ele não fez nada disso. Ele simplesmente chutou, com força, com determinação, com vontade de fazer, sem piedade ou respeito, ele fez o terceiro e fechou a goleada.

Então, eu lembro, caí de joelhos e agradeci aos céus por ter nascido na década de 70, pra ver aquele time dos sonhos da década de 80, naquele dia iniciando de forma tão gloriosa uma década inesquecível !

Lembro ainda, que antes da partida, se exibiam dois carrões "top" da Toyota, marca que nem sonhávamos em ter por aqui: Um seria pro melhor jogador em campo e outro para o artilheiro da partida. Nem isso pode ficar de consolação pros ingleses. Claro, um foi pro cabeludão "sem respeito" e outro pro Maestro.

E até hoje lembro de ir dormir em estado de êxtase e poucas horas depois acordar e ir pro clube onde jogava bola com os colegas, com o peito estufado, vestindo uma linda camisa branca com a insígnia do Flamengo. Sorriso largo na boca, sem precisar falar nada, meus ídolos tinham falado por mim. Minha mente agora só trazia um pensamento: SOU CAMPEÃO DO MUNDO !

 
Renato Furtado de Oliveira,
41 anos, Formado em Engenharia Engenharia Eletrica na Universidade Federal de Uberlândia,
Hoje trabalha como Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo
Flamenguista, colaborou com o Ludopédicas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O sonho, a realidade, o sonho

Barcelona 4x0 Santos
Barcelona campeão mundial 2011

Desde 2010 espera-se com ansiedade por esse jogo. Não apenas a torcida da Baixada e a da Catalunha, mas todos os amantes do futebol bonito, bem jogado: o futebol-arte, enfim. Na equipe cuja camisa já foi vestida por Cruyff, Maradona, Romário e Ronaldo, ora Messi faz as vezes de gênio. Na famosa equipe da não menos famosa Vila, veste a onze o menino Neymar.

Em 2010, o Santos encantara o universo ludopédico com um time de garotos – mais um! –, sob a batuta de Dorival Jr. e a liderança do ex-garoto Robinho. Entre os meninos da nova geração, Wesley, André, Zé Eduardo, PH Ganso e Neymar. Pode-se dizer que este Peixe vinha de um embalo nascido em 2002, com o Brasileirão ganho a pedaladas de Robinho, arrancadas de Diego e broncas de Emerson Leão. Mas, para mim, tornou-se um Santos melhor, mais brincante, mais alegre: tinha o espírito da dancinha. Sob a égide da vaidade, aflorada pelo “não” à cobrança de um pênalti – ainda nos tempos da paradinha –, Neymar xingou e derrubou Dorival. O técnico caiu e, com ele, começou a cair o consenso em torno daquele jeito dançante de se jogar. Veio o consagrado Muricy e houve quem louvasse o equilíbrio trazido pelo professor. Agora, sim, o Santos era um time seguro na defesa e não só (não só?) brilhante na arte de costurar defesas e marcar muitos gols. Prova do acerto: o bicampeonato paulista e, sobretudo, a Libertadores de 2011.
Em 2007, Josep Guardiola, vindo do time B, assumiu o comando do Barcelona. A equipe vinha no embalo da vitoriosa fase do técnico Frank Riijkaard. Contava com craques como Deco, Eto’o e Ronaldinho Gaúcho, e ganhara a Champions de 2006. Surpreendentemente, contudo, fora batido pelo Inter de Porto Alegre no Mundial do mesmo ano. Guardiola assumiu, despachou os figurões e prestigiou as pratas da casa e o estilo coletivo, de muito toque de bola. Um estilo tradicional do próprio Barça e – por que nos esquecemos? – que está no DNA do futebol brasileiro. Insistiu e gerou uma máquina de jogar bola. Assim, Messi, Xavi, Iniesta e companhia levaram o Barça a vários títulos, dentre os quais a Champions de 2009 e 2011, e ao primeiro mundial do clube. Muito além disso, levou a um time histórico, desses que se contam nos dedos e do qual se falará daqui a décadas.
Enfim, chegou o dia do jogo. O encontro do futebol bonito dos meninos do Santos contra o futebol-arte dos meninos do Barcelona. Que pode ser assim resumido: começa com o sonho santista em surpreender o todo-poderoso catalão; passa pela realidade de que o Barça, senão imbatível, é uma das melhores equipes de todos os tempos; e desemboca no sonho de que o futebol-arte, do qual sabíamos tudo e passamos a desprezar, pode ser o modus operandi em busca dos resultados. Como se não valesse a pena só pela beleza.
***
Flamenco de uma nota só
Muitos acordaram sem a ajuda do despertador; a expectativa era grande. Os demais levantaram-se nervosos com o espocar dos rojões. Estes, na maioria, devem ter rogado pragas aos alegres torcedores santistas, empolgados com a possibilidade da terceira estrela mundial. Devem, inclusive, ter se juntado à torcida gringa. Não importa. O fato é que ninguém deveria mesmo ficar à parte do mais esperado acontecimento esportivo dos últimos tempos: o embate entre Santos e Barcelona, entre Neymar e Messi, entre o time do país do futebol versus o melhor time estrangeiro com cara de brasileiro do mundo (e um dos melhores de todos os tempos).
As escalações. Santos: Rafael, Danilo, Edu Dracena, Durval, Bruno Rodrigo (Três zagueiros? Que estranho!) e Léo; Arouca, Henrique, Elano e Ganso; Neymar e Borges. Barcelona: Valdes, Dani Alves, Piquet, Puyol e Abidal; Busquets, Xavi, Messi, Thiago, Fábregas e Iniesta (Sem centroavante? Ah, normal!).
Os times entram em campo e um mau presságio advém por duas razões. Primeiro, o semblante dos santistas é de extremo nervosismo. Segundo: para quem, como eu, esperava pela volta de Léo e por Danilo compondo um meio-campo marcador e, ao mesmo tempo, capaz de gerar contra-ataques, a formação de três zagueiros parece um tremendo tiro no pé. Como assim, professor Muricy? Nunca viu que o Barça toca a bola na boca da área adversária? Não percebe que zagueiros são pesados, que a marcação precisa ser mais leve e, de uma hora para outra, tornar-se ataque fulminante? Bem, talvez tenha sido uma impressão errada.

O juiz apita e começa o massacre, quer dizer, o jogo. Como todos já sabiam, o Barcelona toma conta das ações, não deixa o Santos tocar na bola, e parte para as ofensivas. Fui anotando: a bola sobra para Fábregas e o Peixe toma o primeiro susto; Messi dribla três e Danilo afasta; Daniel Alves cruza e Bruno Rodrigo cabeceia para fora; até os primeiros cinco minutos a câmera não filmou a cara de Valdes; Santos pega na bola pela primeira vez, tenta partir, mas a bola não chega à área adversária; Messi e Dani Alves trocam passes, perdem a bola, sobra para Borges que lança Ganso que lança Neymar que tenta o drible e perde (Danilo estava livre na direita); na volta, Messi e Thiago tabelam, este cai na área, mas o juizão nada apita; Bruno Rodrigo está bem na cobertura, Durval está perdido.
Momento da estatística: aos onze minutos, enquanto o Barça toca, toca, toca – seu belo flamenco de uma nota só – o narrador anuncia que até ali os espanhóis têm 74% de posse de bola. Ah, sério!
De volta à peleja. Fábregas surge novamente perigoso em frente a Rafael; Messi chuta de longe, Rafael rebate, Thiago aproveita, Rafael pega de novo: primeiro risco real; Santos aperta no ataque, Borges sofre falta, mas o Peixe não aproveita; Neymar carrega e é desarmado – Neymar está fominha como sempre, mas sem o mesmo brilho. Aí, o grande lance: numa bola espirrada pela defesa santista, Xavi, como um Zico, reafirmando seu status de craque, mata a bola de chaleira e empurra na medida para a entrada de Messi; o argentino, reafirmando seu status de gênio, dá um tapinha na redonda que cai no gol, perversamente desdenhando da tentativa desesperada e inútil de Bruno Rodrigo em chutá-la para cima. Barça 1 a 0, fora o baile: ducha de água gelada, como a temperatura no Japão.
Borges está a fim de jogo; o problema é o Neymar sem brilho, o Ganso sem bola no pé, os malditos três zagueiros e, claro, esse diabo de time da Catalunha. Vinte e dois minutos: nenhum esboço de reação santista, só toque, toque, toque... E gol! A bola sobra para Xavi que empurra para as redes. 2 a 0. Ainda dá? Nessa hora, o santista busca no mais fundo do seu íntimo extirpar os elementos de racionalidade e trazer à tona a esperança passional. Ora, se dá?! Aqui é Peixe!
E se repete o script. Edu Dracena chega na hora agá para impedir o gol de Messi. Não fossem as chegadas na hora agá, o placar já estaria nas nuvens. O Santos, quando pega, tenta o lançamento: convenceu-se de que não dá para sair no toque, exclusividade do adversário. Novo anúncio do narrador: 76% de posse de bola. Adivinhe para quem? E a marcação santista está embasbacada, estática, acuada, não se adianta para dificultar as ações do Barcelona. Verdadeira judiação! O Barça joga como quem brincasse em uma roda de bobinho.
Aos 44 minutos, um lance de pinball na área do Peixe. Toque de calcanhar de Messi, Dani Alves lança na área, Rafael defende, como Rodolfo Rodrigues defende mais uma, só que Fábregas não entende a analogia e marca no cantinho. 3 a 0. Parece um tsunami. Uma pelada da mais alta qualidade, de complexidade pós-shakespeareana. O Barça esbanja o espírito da dancinha, outrora especialidade dos meninos da Vila, que, caretas, exageram no respeito e o confundem com medo. Pavor!
Intervalo. Ufa! No segundo tempo será diferente, imaginam os santistas, embora já descartem uma virada (seria o maior feito da história do futebol!). Na volta, mais realidade: 40 segundos, o Barça rouba a bola e Fábregas só não marca outro porque Rafael tira com a ponta dos dedos. Reação: Ganso lança Borges na direita, que cruza e Neymar erra a cabeçada. Seis minutos: Messi sai costurando como de costume, como um Pelé nas imagens dos melhores momentos do rei, como Maradona no gol contra a Bélgica em 86 ou na malfadada jogada do gol de Caniggia em 90, e deixa Thiago livrinho para chutar e errar. Nova do Santos: Ganso joga para Elano que toca para Borges que não alcança. Boa notícia: o Santos adiantou a marcação, mudou a postura. Péssima notícia: o Barcelona continua igualzinho no primeiro tempo. Mas o negócio fica mais parelho; quer dizer, menos desigual.
Dez minutos: a intermediária brasileira abre espaço para Xavi – pecado mortal! – que toca para Iniesta que desperdiça. No minuto seguinte, Ganso, o sósia de Sócrates, honra a semelhança e dá um passe primoroso que deixa Neymar na cara de Valdes... bem, não era, definitivamente, o dia de Neymar. Novo contra-ataque santista (agora vai!): bola sobra para Elano que chuta, a pelota desvia para escanteio. Na cobrança, quase Borges aproveita a falha de Valdes. Dezoito minutos, Ganso “maestra” (enfim!) na intermediária adversária, mas erra o último passe.
Depois de um certo descanso, o Barcelona volta ao jogo. Messi sai costurando, é derrubado por Dracena que toma cartão amarelo. Dani Alves surge como um louco e carimba a trave de Rafael. Nessa toada de serial killer, o lateral brasileiro com camisa estrangeira deixa Messi na cara de Rafael, parece que não vai alcançar, mas, imitando o homem-elástico, chega antes para tirar do goleiro e dar o tiro de misericórdia. 4 a 0.

Fim de jogo, fim de pesadelo, fim de show: tudo depende dos olhos de quem vê. O time catalão comemora a conquista, para desgosto dos santistas, dos brasileiros solidários, dos amantes do futebol feio e dos muitos que continuam papagaiando que europeu não liga para essa coisa de mundial de clubes.
Resumo da peleja. Nessa roda de bobinho de um time só, ao ritmo de um belo flamenco de uma nota só – toque, toque, toque –, o resultado moral foi muito pior do que o placar: 4 a 0. Só.
***
O choro e a aula

O momento mais marcante para mim não foi nenhum dos quatro gols do Barça, nem qualquer brilhante jogada de Messi. Foi o choro de Neymar ao ser entrevistado após o término da partida. O choro refletia o choque da expectativa de glória com a realidade da derrota, resultando na sobriedade da lição. Foi um choro de gente que amadurece: triste, mas benéfico.
Com o microfone na boca e a lágrima nos olhos, Neymar afirmou com propriedade que tivera uma aula de futebol. Só que Neymar não aprendeu apenas a arte da bola – nisso, aliás, ele próprio é um dos maiores artistas do mundo –, mas sobre a arte de se tornar homem. O jogo serve a Neymar para aprender a domar a soberba que um dia o fez perder a linha, qual bebê mimado ou como se fosse o arrogante dono da bola, com seu treinador só porque o desautorizou a bater um pênalti. Como sugeriu o grande filósofo Sócrates, o Brasileiro, a vitória nos faz metidos, a derrota nos ensina. E olha que o Doutor se referia à derrota da mítica seleção de 82, o Barcelona da época, da qual fazia parte.
O Barça de Guardiola deu várias lições nessa partida. Ensinou que a base faz diferença. Que futebol é esporte coletivo. Que dá, sim, para vencer jogando bonito – arte e resultado só se excluem na cabeça de técnicos burocrático-bitolados; na dos criativos, complementam-se maravilhosamente. Que o melhor pode, sim, ser também o campeão.
O Barcelona também ensinou que time equilibrado não é necessariamente aquele que cuida do ataque e da defesa de forma compartimentalizada, podendo ser aquele que cuida de todos os setores só fazendo atacar e não deixando o adversário tocar na bola. Aliás, penso que o Santos de Dorival Jr. não era desequilibrado, como fizeram crer alguns comentaristas; só tinha um equilíbrio diferente, mais ousado e mais bonito que o equilíbrio trazido por Muricy. Ponto para reflexão: a maioria dos renomados técnicos brasileiros da atualidade continuam com o princípio de que primeiro se pensa na defesa, depois, no ataque. Como o Barça de Guardiola mostrou, pode-se pensar que ataque e defesa fazem parte de uma única ação – jogar e investir sem parar, ataca-se e não se deixa atacar.
Se aliarmos às lições um olhar sobre nosso próprio passado, veremos ainda que nada do que se assistiu em Yokohama nos é estranho. Para me limitar aos que vi: o Flamengo de Zico jogava assim; o São Paulo e, acima de todos, a seleção brasileira de Telê Santana também. A questão é: por que os técnicos brasileiros se convenceram de que nosso estilo não serve mais? Se gostam tanto de usar a Europa como paradigma, por que não notam que cada vez mais esse estilo vem se impondo, não só em Barcelona ou na Espanha, mas até na Alemanha de Joaqüim Law. Engraçado: até os alemães se convenceram de que é melhor jogar como brasileiros, que, ao longo dos tempos, vêm jogando como alemães.
Na mesma entrevista, Neymar também disse: perdemos para aprender a ganhar no futuro. Discordo em parte. Para mim, perdemos para lembrar como jogávamos e ganhávamos.
Do choro ao aprendizado, do aprendizado à aplicação. Sorriam, santistas: 2012 está aí! Aprendamos, brasileiros! 2014 também não demora.
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O novo Telê


Logo que chegou ao Japão, Muricy concedeu entrevista dizendo que Guardiola era um grande técnico, mas, para prová-lo de verdade, precisaria comandar um time brasileiro. Depois do jogo de ontem – ou mesmo antes –, alguém poderia dizer: Guardiola poderia treinar a seleção brasileira.
Vale lembrar que Muricy só não é o técnico da nossa seleção porque, ainda no Fluminense, ouviu a recusa do presidente do tricolor carioca em liberá-lo. Há poucos dias, renovou seu contrato no Peixe com cláusula que lhe permite a saída em caso de novo convite por parte da CBF.
Ainda que não me empolgue com o trabalho mostrado por Mano Menezes, não me iludo com sua eventual substituição por Muricy. Nem por Luxemburgo, nem por Felipão ou qualquer outro treinador brasileiro. Gostaria, confesso, que o técnico do Barça ou alguém que assuma sua filosofia de jogo tomasse em mãos o Brasil até 2014. Aliás, por ironia, Guardiola é o maior herdeiro de Telê Santana. Mais ainda que o próprio Muricy, que iniciou sua carreira com o mestre, no São Paulo.
Outra ironia: o futebol-arte, que Zico disse ser o maior derrotado no estádio de Sarriá naquela fatídica tarde de 14 de junho de 1982, pela Itália de Paolo Rossi, parece justamente estar renascendo na mesma cidade de Barcelona.
Se há a tristeza pela derrota do Santos, também há um quê de esperança pelo resgate do melhor do nosso futebol brasileiro. Ainda que nasça em terras catalãs sob a batuta de Pep Guardiola, o novo Telê.
JFQ

sábado, 17 de dezembro de 2011

Santos, Santos, Santos

Xico Sá

Amigo torcedor, amigo secador, a beleza aguda e precisa qual peixeira de baiano vai vencer o tédio dos incansáveis posseiros da bola no planeta. Bordadeiras da Baixada Santista, preparem-se para desenhar a terceira estrela na imaculada camisa branca.

A baleia vai triunfar nos mares gelados do Japão com mais ganas e teimosia que Moby Dick. Confio nos nossos defeitos como primordiais na peleja contra a suposta perfeição do Barça. O mundo não é da virtuose. Nunca. A vida é Durval e sua cara de Corisco, o destemido caubói paraibano de Cruz do Espírito Santo.

A virtuose é entediante. Case com uma mulher muito linda e saberá o que digo. O time catalão tocando a bola dá sono. Parece a vida eterna. Quanta repetição, meu Deus, e o prezado locutor todo orgulhoso das estatísticas. Saco.

A menor distância entre dois pontos não é a linha reta e euclidiana de Cristiano Ronaldo. Nem a curva de Einstein e Messi, como diz o amigo Manuel Vicent, cronista do "El País". A menor distância entre o Zé Menino e o mundo, caro Vicent, é o improviso de Neymar Jr., como verás no domingo.

O nó do cafuçu mestiço na retidão da existência e da física. A faísca da foice na pedra de amolar da roça, sempre mais veloz que a luz de estar vivo. "Un toque y me voy", como dizia o venturoso Emílio Brutagueño.

Confio no Muricy, mas a preleção para a final teria que ser do Serginho Chulapa, com quem estive ontem, para minha sorte e recreio d'alma. Ele diria, certamente: "Quem tiver com medo desses branquelos donos da bola que pegue o trem-bala, hoje precisamos de homens".

Somos mais camisa, Santos, somos mais história, o Barcelona é uma invenção holandesa recente. Uma bela invenção, sejamos justos, mas uma invenção confortável, planejada, sem o free style da perifa. Por Mano Brown, Peixe, traga esse título, por Baleiro e todos os amigos fuleiros e lindamente anônimos. Agora, perdão, vou apelar: por Sócrates, que era Santos desde criancinha, vamos botar essa faixa.

Mas, se não der, relaxa, óbvio que a Libertadores é mais dura e importante que esse torneiozinho natalino. Agora quem dá bola é o Santos, mesmo diante do maior favorito de todos os tempos. Corvo Edgar que o diga, desde já no ombro do terno de grife do Pep Guardiola. Porque a vida é jaleco, a vida é mais a cara do Muricy, a vida é zona norte, a vida é pança e uma cerveja na esquina.

xico.folha@uol.com.br
@xicosa
Publicado na Folha de S.Paulo, em 16/12/2011.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Jogo dos sete acertos

Tostão
O Barcelona tem várias particularidades. A primeira é que seus três grandes astros, Messi, Xavi e Iniesta, se comportam como cidadãos comuns. Não vestiram a máscara da celebridade. Iniesta chegou ao Japão, pegou um metrô e, na folga, foi passear, sozinho, sem seguranças. Os japoneses devem ter achado que era um sósia. Não poderia ser um Iniesta.

A segunda particularidade é ter, há três anos, mais posse de bola em todas as partidas. Consegue isso porque os jogadores são bons no passe, vários companheiros se movimentam para receber a bola, recuperam-na com facilidade e não a passam para um jogador marcado.

A terceira é, em um mesmo jogo, mudar o esquema tático sem trocar de jogadores. Guardiola, quando quer ter mais um jogador no ataque, troca a linha de quatro defensores para três. Outras vezes, os jogadores se movimentam tanto, que muitos acham que houve mudança tática.

A quarta é ter apenas um típico volante, marcador, Busquets, que é também ótimo no passe. O time não possui também um meia de ligação. Xavi, Iniesta e Fàbregas são armadores, que marcam, organizam e atacam.

A quinta é não cruzar bola na área apenas para se livrar dela. Ninguém dá um chutão. Nem o goleiro, que, às vezes, erra, já que não é um Rogério Ceni.

A sexta é não ter centroavante. Messi é meia, ponta e atacante. O time possui ainda um jogador de cada lado, que marca e ataca. Contra o Real, Guardiola colocou mais um meia (Fàbregas) no lugar do jogador que atua pelo lado (Villa). A única virtude que falta a Xavi e a Iniesta, a de entrar mais na área para fazer gols, é uma das qualidades de Fàbregas.

A sétima particularidade -há outras- é jogar com os zagueiros mais adiantados. O time fica mais compacto, porém deixa mais espaços nas costas dos defensores. Mesmo assim, o Barcelona leva poucos gols. Isso ocorre porque os zagueiros são muito bons, rápidos, o goleiro sabe jogar adiantado, e o time fica a maior parte do tempo com a bola.

O estilo do Barcelona é uma mistura do Santos de Pelé, do Flamengo de Zico e de outras grandes equipes, de todas as épocas, que privilegiavam a troca de passes, como a do carrossel holandês da Copa de 1974, que marcava por pressão e em que os jogadores não tinham posições fixas.
Os técnicos dizem que só o Barcelona pode jogar dessa forma, por ter criado uma escola. É uma meia-verdade. É também uma boa desculpa para a incapacidade de mudar, de arriscar e de sonhar.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/12/2011.

Fácil, mas dolorido




Barcelona 4x0 Al Saad
Mundial de Clubes 2011



Onze em cada dez comentaristas diziam não haver a menor chance do frágil catariano Al Saad desbancar o quase perfeito Barcelona. A previsão foi confirmada. Porém, a partida não foi um mero cumprimento de tabela, revelando algumas pistas ao Santos e um grande prejuízo ao escrete catalão.

Comecemos pelo fim. A perda de David Villa - que teve confirmada fratura na tíbia - será sentida pelo Barça, não apenas neste Mundial, mas, principalmente, na continuidade do campeonato espanhol. É certo que o atacante - maior artilheiro da história da seleção espanhola - não vive sua melhor fase. Aliás, vem iniciando as últimas partidas no banco, dando lugar ao chileno Alexis Sanchez. Por azar, também o substituto saiu contundido, sentindo dores musculares, e é dúvida para a final de domingo.

Em que pese a má fase de Villa, o atacante não deixa de ser uma “peça” importante no time de Pep Guardiola, que não se resume a onze titulares. Ontem, aliás, isso ficou claro. O jeito do time jogar, o, digamos, “padrão Barça de qualidade” é mantido mesmo com substituições de jogadores que muitos poderiam achar imprescindíveis. Já disse, e repito: o Barça de Guardiola é fenomenal como conjunto, não como soma de ótimas individualidades, ainda que estas, óbvio, existam. Nem mesmo Messi, o melhor do mundo, é imprescindível nesse time. Ontem, inclusive, a equipe esteve desfalcada - de propósito, para preservá-los - de Piquet, Busquets e Xavi, sem que mudasse em uma vírgula na sua excepcional qualidade.

Além de ter opções no elenco capazes de manter o padrão coletivo, foi possível constatar outra vantagem desse time: a capacidade de variar taticamente. O Barcelona não muda sua filosofia de jogo - toques exaustivos, formação compacta e adiantada, supremacia absoluta na posse de bola, não rifar a bola ou dar chutões, fazer a bola girar da direita para a esquerda e da frente para trás, e vice-versa - mas é capaz de variações interessantíssimas. Por exemplo: via de regra, o time joga com uma linha de quatro atrás e seis (quando sobe um lateral, geralmente Dani Alves) do meio para frente, trocando passes até encontrar o espaço para a finalização. Ontem, sabedor da fragilidade do adversário, o time espanhol foi ainda mais ousado: montou uma linha de três atrás (Abidal, Puyol e Mascherano), com todos os demais adiantados: Adriano (na direita), Thiago Alcântara, Keita, Iniesta, Messi, Pedro e Villa.

Em ritmo de treino, o Barça foi se impondo, encurralando cada vez mais o adversário. Erro fatal do Al Saad: não contra-atacar. Não por falta de vontade e instrução do seu técnico, o uruguaio Jorge Fossatti, mas por abismal diferença técnica entre as equipes. Quando o fez – eis a melhor informação para o Santos -, em duas únicas oportunidades, no final do primeiro tempo (Kader Keita, aos 44, e Niang, aos 45 minutos), criou perigo ao gol de Valdes. Ou seja, a grande chance do Peixe sair campeão no domingo está, além da atenção constante na marcação, em montar e não desperdiçar contra-ataques.

***

Independentemente do quão forte ou fraco seja o adversário, é impressionante a forma que o Barcelona sempre joga, encurralando-o. Se o adversário se arvora em jogar de igual para igual, é abatido no primeiro espaço dado. Se monta uma retranca, ainda mais se não tem competência em aproveitar contra-ataques, o Barça toca a bola com paciência de jó, até furar o bloqueio. Também impressionante é a multifuncionalidade dos jogadores nesse esquema: os volantes viram zagueiros e vice-versa, os meias viram atacantes e vice-versa, os laterais viram zagueiros e vice-versa.

Confesso que, juntamente com o São Paulo de 92, o Flamengo de 81 (que está completando 30 anos do título mundial) e a seleção brasileira de 82, o Barcelona de Guardiola é a exceção a todos os times que vi. Já assisti a ótimas equipes, mas sempre com um que de normalidade. Essas foram as únicas “anormais”, excepcionais, fora do comum que tive o prazer de assistir.

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A diferença fundamental entre Barcelona e Santos é que aquele se caracteriza pelo conjunto, este, por individualidades. O toque do Barça se contrasta com o drible do Santos, especialmente de Neymar. Justo por isso, Neymar faz muito mais falta à equipe brasileira do que Messi à espanhola.

No domingo, penso que nem Santos deve jogar como jogou contra o Kashiwa, nem Barça como jogou contra o Al Saad. O Santos porque descobriu a fragilidade de manter Durval improvisado como lateral esquerdo, sobretudo com o retorno de Daniel Alves. Aposto que Danilo atuará como volante, compondo o setor de marcação no meio com Arouca; neste caso, Elano ou Henrique deve ser sacrificado, e Pará deve ocupar a lateral direita. Já o Barcelona deve ser um tanto mais precavido, porém não menos criativo e poderoso. Caso Alexis Sanchez não possa jogar, Fábregas deve substituí-lo. E devem voltar Piquet, Busquets, Xavi e Dani Alves.

JFQ

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Enfrentando o Kashiwa, pensando no Barça


Santos 3x1 Kashiwa Reysol
Mundial de Clubes 2011

Quase todos os que viram o jogo Santos x Kashiwa Reysol, hoje, pelo Mundial de Clubes, tinham na cabeça uma outra equipe. Ou, se preferirem, A equipe: o Barcelona. Com todo o respeito aos Mazembes da vida, penso que nem os mais ferrenhos rivais do clube da Vila Belmiro acreditavam na possibilidade de uma “mazembada” japonesa. Muito menos, em uma “mazembada” do catariano Al Arred, amanhã.



Isto posto, alguns comentários sobre a peleja do dia. Como toda a estreia – ainda mais se tratando de uma estreia eliminatória –, o jogo foi nervoso. Especialmente para os brasileiros, que carregavam o peso do favoritismo. Até os 19 minutos do primeiro tempo, o Santos era confuso e tinha menos posse de bola que o Kashiwa. Além da fase de estudos, que marca o início de partidas decisivas, o Peixe parecia buscar uma postura e uma dinâmica de jogo. Fiquei com a impressão de que Muricy testou uma formação já antevendo a final contra o Barça: laterais fixos atrás, meio campo mais congestionado e dois atacantes rápidos (um deles, genial). No entanto, se a intenção foi boa, o resultado não foi lá tão promissor.

A defesa foi eficiente: o Kashiwa conseguiu trocar passes perigosamente na intermediária santista e o lado esquerdo, onde Durval foi improvisado de lateral, mostrou-se vulnerável por três vezes. Imagine o que pode acontecer quando Messi, Xavi e Iniesta aparecerem trocando passes e quando Daniel Alves surgir no apoio. Bruno Rodrigo foi firme na marcação, mas à zaga peixeira parece ter faltado o entrosamento da dupla Edu Dracena-Durval.  

Também o meio-campo não foi capaz de articular sistematicamente jogadas de ataque. Tanto que os três gols originaram-se de lances isolados de criatividade individual. Paulo Henrique Ganso, ainda que tenha tido uma boa (razoável?) atuação, não desempenhou a contento o papel de maestro, de ditador do ritmo do time. Arouca foi o leão de sempre na marcação e na origem de contra-ataques com suas tradicionais arrancadas. Henrique foi confuso, um tanto perdido na marcação; risco: caberá a ele, primordialmente, marcar Messi. Elano foi mais um meia avançado pela direita do que um articulador ou um marcador; um tanto deslocado, sem função em campo, embora tenha se empenhado no primeiro tempo. Enfim, os quatro do meio se esforçaram, mas não jogaram como um conjunto.

Com efeito, o ataque, embora seja promissor, carece de receber mais a bola. Neymar e Borges não podem voltar tanto para buscar bola. Contra o Barcelona, que joga com os zagueiros mais adiantados, a velocidade de Neymar será fundamental, assim como o oportunismo de Borges e as assistências de Ganso.

Por falar em Neymar, seu gol foi espetacular. Eis o futebol: ainda que o time ou mesmo o craque não esteja jogando bem, um único lance de genialidade é capaz de mudar a história da partida e do campeonato. Está aí o maior trunfo do Santos: ter jogadores – sobretudo Neymar – capazes de protagonizar um lance genial.

Contra o Barça, o Santos não deve ter a pretensão de ser superior em posse de bola. Aliás, nem hoje parecia ter essa ambição. Se essa foi a característica do Peixe dos tempos de Dorival Jr., Robinho, Wesley e André, o “equilíbrio” construído na era Muricy Ramalho deixou isso um pouco de lado. E é bom não forçar a natureza, mormente contra um time expert no assunto.

O Santos deve ter atenção total durante toda a partida – lembrando-se que a equipe de Guardiola troca passes com paciência de Jó – e aproveitar contra-ataques. Também deve ter cuidado extremo com toque de bola na sua intermediária. Razão pela qual, creio, Muricy deva colocar Léo na esquerda e, quiçá, Danilo como volante, no lugar de Elano (neste caso, quem ficaria na lateral direita é a incógnita).

Também deve ter cuidado com a roubadas de bola no meio-campo, principalmente com Neymar, que perde a bola várias vezes em tentativas de dribles; contra o Barça, isso pode significar ataque fulminante.

Por fim, acredito ser uma boa dica ao Santos chutar de longe, arriscar. Cá comigo, tenho que o goleiro Valdes é o calcanhar de Aquiles deste Barcelona, um dos melhores escretes da história.

JFQ

Anticorintianismo

José Roberto Torero


Fiel leitora, traidor leitor, o Corinthians é o mais amado e odiado time do futebol brasileiro. Nem o Flamengo, ainda o time de maior torcida no país, consegue ser tão polarizador como o time do Parque São Jorge. Ou do Itaquerão.

Eu vos pergunto: Por que isso acontece?

E eu vos respondo: Não sei. Mas desconfio de algumas raízes e razões.

Primeiramente, é interessante notar que seus três adversários estaduais têm o Corinthians como maior rival.
No caso do Santos, creio que a adversariedade (como diria Tite) nasceu depois do jejum de 11 anos em que o Corinthians não ganhou do time da Vila no Campeonato Estadual. O clube paulistano foi a maior vítima de Pelé. Logo, quando passou a ganhar do alvinegro praiano, isso soou como uma insubordinação. "Eles não eram nossos fregueses? Que história é essa de ganhar da gente agora?"

Com o São Paulo, a questão é bem mais recente, coisa de uns 20 anos para cá. Quando o Tricolor começou sua ascensão com Telê, tornando-se o melhor time da cidade, passando a ser um assíduo frequentador da Libertadores e ganhando títulos planetários, sua torcida cresceu rapidamente, passando a do Palmeiras. Daí, nada mais natural que a torcida emergente passar a ter por inimiga a torcida majoritária.

Quanto ao alviverde imponente, é uma história mais longa, que começa já na sua fundação, pois vários italianos abandonaram o Corinthians para fundar o Palestra Itália. A oposição deve ter aumentado com a rivalidade entre as colônias italiana e espanhola, e foi fermentada por vários torneios e jogos memoráveis. Já em 1922 e 1923, o Corinthians foi bicampeão paulista, e o Palestra, dolorosamente, bivice. Depois disso, o Corinthians deixou o Palmeiras como vice estadual mais seis vezes, levando o troco outras seis. E houve, é claro, os dois confrontos pela Libertadores decididos nos pênaltis.

Mas acredito num motivo além do esportivo. Numa "culpa" da própria torcida, e não apenas do clube. É que, enquanto os outros torcedores dizem que seus times são os melhores, os corintianos dizem que não apenas têm o melhor time, mas, principalmente, que são eles mesmos os melhores e mais apaixonados torcedores.

Ou seja, não falam: "Meu time é melhor que o seu", mas sim: "Eu amo meu time mais do que você ama o seu".

Não importa, e não sei, se é verdade ou não. O fato é que não há nada que provoque mais ira do que se colocar como superior aos outros. Ainda mais quando não se fala de futebol, mas de amor.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/12/2011.

sábado, 10 de dezembro de 2011

"Ser Campeão é Detalhe", vale a pena assistir



Assista ao filme "Ser Campeão é Detalhe: Democracia Corinthiana":

http://www.youtube.com/watch?v=MNyRGt95cWw&feature=share

O filme é interessante para se ter uma noção do que representou aquele time não apenas para os corinthianos, mas para aqueles que buscavam democracia no Brasil.

JFQ

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Lançamento do filme "Ser Campeão é Detalhe"

Nesta quinta-feira, dia 08/12, o Museu do Futebol será palco do lançamento do filme “Ser Campeão é Detalhe”, que conta os bastidores do movimento Democracia Corinthiana e apresenta depoimentos de personalidades como os dos ex-jogadores Sócrates e Casagrande, do jornalista Juca Kfouri e do publicitário Washington Olivetto.

Serão realizadas três sessões: às 19h, às 19h30 e às 21h. A entrada é gratuita e senhas serão distribuídas 1h antes.

Durante o evento, o Museu do Futebol realizará uma homenagem especial ao craque Sócrates.



Mais informações: (11) 3664-3855 ou eventos@museudofutebol.org.br

www.museudofutebol.org.br

www.facebook.com/museudofutebol

www.twitter.com/_museudofutebol

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Paulista precisa dormir


Danilo Paiva Ramos

Na noite de ontem, o que mais me aterrorizou enquanto era espancado por um PM não identificado na Avenida Paulista não foi a violência dos golpes cada vez mais fortes em minha mão e barriga. “Cuzão!”, “Seu merda!”, “Filho da puta!”, “Quer ser espancado de verdade?” eram as palavras que acompanhavam as pancadas que eu ia recebendo sem ter como me defender. Mas também não foram as ameaças ou as ofensas que mais me aterrorizaram ontem. O que mais me assombrou foi perceber, enquanto era espancado, o sorriso e o olhar do policial que mostravam um prazer maior a cada bofetada. A cada pancada meu medo aumentava. E foi com espanto que vi o prazer e ódio que cresciam nos rostos dos policiais à medida que investiam contra qualquer pessoa que, naquele momento, estivesse com uma camiseta do Corinthians comemorando na calçada, pacificamente, a vitória do campeonato. Indignado, sem saber por que apanhava, perguntei o nome de meu agressor. Mais ofensas e ameaças seguiram-se enquanto ele erguia novamente sua arma contra mim. Afastando-me, perguntei por que me batia. Ele, então, respondeu: “As pessoas da Paulista precisam dormir”.
Essa talvez fosse a fala de um “camisa negra”, grupo fascista que, na Itália, perseguia os operários que faziam greve. Ou talvez a fala de um policial da ditadura que investisse contra estudantes que lutavam pela democracia. Mas estranhei muito que o motivo da violência com que acabaram com a “festa da vitória” que um grupo de pessoas fazia por volta das 23hs na calçada da Paulista fosse o sono dos edifícios de bancos e empresas. Ainda sendo coagido pelos policiais, fui conversar com o sargento que liderava o grupo. Comuniquei a ele que havia sido espancado por um de seus policiais e que queria saber a razão disso e o nome de meu agressor. Ele pediu que eu apontasse o oficial. Identifiquei-o. O 3 Sgt LUIZ disse que não conhecia o policial que continuava a espancar e a coagir as pessoas.
Memorizei a identificação do sargento Luiz e fui a uma delegacia próxima à minha casa. Quando contei ao delegado minha intenção de fazer um boletim de ocorrência, B.O., por ter sido espancado por um PM, ele alterou seu tom de voz. Falando alto e gesticulando fortemente, afirmou que um policial “não batia por nada” e perguntava repetidamente o que eu tinha feito. “Nada, não fiz nada! Estava voltando para casa. Saí do metro Trianon-Masp, após assistir ao jogo com meus amigos, parei durante 5 minutos para ver a festa que o grupo fazia na calçada. Estava um pouco longe do grupo. Um cordão de policiais formou-se atrás de mim sem que eu percebesse. Quando virei meu corpo, já recebi os primeiros golpes. Não fiz nada”. Vítima, machucado e apavorado, tive que perguntar ao delegado se esse era o modo de tratar as vítimas em sua delegacia. Afirmei que iria a outra D.P. fazer minha ocorrência, já que naquela não me sentia seguro. Somente, então, o delegado começou a tratar-me como vítima. Registrei a queixa, fiz exame de corpo de delito e aguardo que consigam identificar o sargento e meu agressor. Por sugestão do delegado, irei à corregedoria da polícia militar para fazer uma queixa.
Antropólogo, pesquisador da USP, venho acompanhando a violência, o prazer e a liberdade com que policiais, soldados e autoridades “competentes” restabelecem a “ordem” na Universidade, na avenida Paulista ou na Amazônia, onde realizo meu trabalho com um povo indígena. Espancar, ofender, perseguir, rir, ameaçar parecem ser modos cada vez mais rotineiros das autoridades que aplicam a coerção física do Estado em estudantes, torcedores, índios, professores, trabalhadores etc. O prazer que vi no rosto de meu agressor me aterrorizou. A dificuldade de identificar meu agressor — causada pela falta de distintivo, pela atitude do sargento que disse não conhecer seus soldados, pelo comportamento do delegado que insistiu que eu devia ter provocado ou pela dificuldade de saber de qual batalhão eram os PMs que atuavam na Paulista àquela hora — me assombra. O riso e o prazer de meu agressor iniciam-se no motivo banal da “Paulista que precisa dormir” e terminam na saciação do sadismo com que golpeava meu corpo que, naquele momento, por acaso — apenas por acaso —, era o corpo de um torcedor corintiano.

Meu ídolo

Quando vejo um garoto de sete anos com brilho nos olhos ao se deparar com o craque Neymar, sou capaz de entendê-lo perfeitamente. Com sete anos eu também tinha um ídolo que entortava os adversários, muito embora não fosse tão rápido.

Os meninos de sete anos da época de Leônidas deviam se orgulhar da jogada que ele criara e operava como ninguém: a bicicleta. Não me lembro de nenhuma bicicleta dada por meu ídolo. Assim como não me lembro de ninguém usar o calcanhar com tamanha habilidade e visão de jogo como ele.

Compreendo os guris de Minas que aos sete anos idolatravam o atleticano Reinaldo e o cruzeirense Tostão. Como aquele, meu ídolo marcava gols e comemorava com o braço esticado para cima e o punho cerrado. Como este, também era doutor e vestia a oito.

Vi crianças de sete anos idolatrando Ronaldo e venerando Romário. Logo surgiram as comparações. Quem era melhor? Quando eu tinha sete anos, meu ídolo era comparado a Zico. Acho até que este era melhor, mas o bom é que estavam juntos na seleção de Telê, a melhor de todas para mim. E, como meu ídolo, Zico também sabia alegrar o povão, brilhando em um clube de massas. Multidões que se entristeceram quando o Galinho saiu do Flamengo, assim como eu e outros tantos milhões lamentamos a despedida do nosso ídolo rumo a campos italianos. Logo a Itália, quanta injustiça!

A propósito, consigo até enxergar os pequenos holandeses de 74 e os garotos húngaros de 54, inconformados por não verem Cruyff e Puskas campeões do mundo. Desde criança, não admito que meu ídolo, capitão do mágico escrete de 82, tenha deixado de levantar o caneco.

Nos anos 90, seu irmão Raí foi idolatrado por pequenos são-paulinos. Também começara em Ribeirão, também jogava de modo elegante. Tinha um físico bem mais atlético, é verdade. E – coisa de família? – também se revelou um cidadão genuíno, participativo, politizado a ponto de apresentar suas demandas, de expor suas opiniões, de buscar um Brasil melhor. Muito embora tivesse o perfil de bom-moço, e não o de intelectual boêmio, como o do meu ídolo. Ainda que não tivesse ajudado a construir uma inusitada democracia em tempos de ditadura.

Meu ídolo tinha nome de filósofo e fama de inteligente, ao contrário do ingênuo e folclórico Garrincha. Mas, como Mané, era PhD da bola. Penso que os meninos com sete anos em 62 jamais aceitariam que a bebida, e não os zagueiros, seria capaz de derrubar seu ídolo. Eu, pelo menos, não consigo aceitar.

Dizem que Pelé não torcia para o Santos aos sete anos. Meu ídolo, sim. Justamente por causa de Pelé. Mas também virou a casaca ao se ver representante eterno de uma torcida, a do Corinthians, o meu time... o nosso time! Imagino meu ídolo aos sete anos, absorto com a maestria do melhor de todos os jogadores, sua competência em ditar o ritmo e a lógica da partida. Volto aos meus sete anos, quando ficava embasbacado ao notar que meu ídolo, a seu modo, também era capaz de majestosas proezas, ainda que não se lhe outorgassem a coroa de um rei.

Ontem foi um dia, ao mesmo tempo, feliz e triste. Ontem, nosso time foi campeão e meu ídolo morreu. Lembrei-me da primeira vez que comemorei um título do nosso time. Meu ídolo jogou, foi o principal responsável pela conquista. E eu tinha sete anos.

JFQ

Futebol, arte e os adjetivos da vida

“Arte, no futebol, nunca foi adjetivo.”

Sócrates Brasileiro

Glauber Piva 
O Sócrates foi um grande ídolo. Uma referência incontornável. Perdê-lo é ver esfumaçar o que dá substância aos nossos sonhos.
Mesmo palmeirense insistente, foi com Sócrates e Zico que aprendi a beleza do futebol. Foi com eles e alguns outros que percebi que futebol e arte compõem a mesma visão de mundo. É por isso que muitos dos que aprenderam a ver futebol no começo dos 80 preferem dizer que têm mais orgulho da seleção de 82, mesmo com a derrota, do que da de 94. O que difere uma da outra não é o título, mas os valores que o futebol de cada uma exibiu.
Mas Sócrates foi maior que todos os seus contemporâneos por ter tido a clara dimensão do que representava o futebol e do que ele próprio representava na árdua tarefa de fazer do Brasil um país melhor, mais inclusivo, justo, minimamente democrático.
Pelo que ele disse e fez, podemos afirmar que Futebol é arte por ser mais que um ambiente de competição: ele é um promotor de valores. Não é a quantidade de troféus que nos permitem gostar mais de alguns jogadores do que de outros, mas é a capacidade que cada um deles tem de nos afetar. E eles nos afetam pela maneira de jogar, de falar, de interagir com a torcida. Sócrates nos afetava!
Líder em campo, fez de sua preguiça um traço de elegância. Líder das massas, fez de seu punho cerrado uma senha de luta. Líder das ruas, fez de suas idéias os sonhos de muitos de nós.
A democracia corintiana nasceu de sua liderança e de seu futebol. Biro Biro não poderia ser o líder daquele sonho. Seu futebol não tinha arte, não tinha idéias. Sócrates, mais brasileiro que os ditadores, sabia que os calcanhares que exibia em campo fortaleceriam nossa luta grega, nossa conquista de Tróia, nossas “diretas já”.
Sócrates Brasileiro nos entregou, com arte, a certeza de que luta e alegria podem estar do mesmo lado do jogo, pois é a ética pública que garante o contorno da beleza democrática. É drible de corpo, é voto na urna, é comida na mesa, é estrela no peito, é bola no gol as coisas que valem. Tudo isso junto; tudo isso misturado.
Hoje, na sua despedida, nos cabe agradecer.
Obrigado, Doutor, por ter nos ensinado que a arte, no futebol e na vida, não pode ser adjetivo. 

* Glauber Piva é colaborador do Ludopédicas
Também postado em www.glauberpiva.blogspot.com

domingo, 4 de dezembro de 2011

Valeu, Sócrates!



Justo no dia em que o Corinthians pode se sagrar pentacampeão brasileiro, acordo com a notícia da morte de meu maior ídolo do Timão. O Doutor é caríssimo a muitos de minha geração, que nos deslumbramos com sua genialidade em campo e aprendemos com sua postura de cidadão, capaz de, em tempos adversos, propagar a democracia. Independentemente de como acabar o Brasileirão 2011, salve o Corinthians, salve a Democracia Corintiana, salve Sócrates Brasileiro! 

JFQ

domingo, 27 de novembro de 2011

Hoje, domingo


Acordou como se fosse um domingo qualquer e iniciou o ritual de sempre. Escovar os dentes, banhar-se, pentear o cabelo, vestir-se, tomar o café, engolir rapidamente o pão com manteiga ao mesmo tempo em que espia as manchetes do jornal. Quer dizer, com especialíssima atenção às notícias do caderno de esportes. Afinal, aos seus olhos e aos de outros milhões e milhões de pessoas, aquele não era um domingo qualquer.

Fingia tranquilidade ao passo em que a ansiedade tomava-lhe conta da alma. Não poderia falar disso a qualquer um, principalmente à esposa. Acharia tudo tão ridículo. Como pode acordar nervoso por causa de uma bobagem dessas!

Bobagem? Este domingo poderia ser decisivo, vitorioso, após um longo ano de batalhas ganhas e vacilos inexplicáveis. Um longo ano de lutas a culminar, quem sabe, em total felicidade justo neste domingo supostamente ordinário, idêntico a tantos outros. Tudo dependeria da famosa combinação de resultados; das nossas próprias forças e do que ocorresse em outro campo. Tão complexo! Tudo podia acontecer: da quase irrecuperável frustração à mais completa glória.

Lembrou-se do ano de 2007, da tristeza arrebatadora que acometeu a si e àqueles tantos e tantos milhões. Lembrou-se da volta e de tudo o mais que ocorrera até este dia de domingo. Sim, não era qualquer domingo. Era o domingo em que o ciclo estaria completo, em que todos veriam que o lugar a ser ocupado é o topo entre os primeiros, não entre os segundos.

Chegou o domingo. É hoje! É hoje? Façamos o nosso. E seja o que Deus quiser.

JFQ

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Péssima troca

Tostão


Um diferencial do Corinthians é o forte laço afetivo entre os torcedores e o time. Na adversidade, os jogadores crescem e viram a partida.

O comprometimento afetivo entre os atletas e Ricardo Gomes, sempre presente, é uma das virtudes do Vasco. Abel Braga é um técnico emotivo. Passa isso aos jogadores do Fluminense.

Não são importantes apenas a qualidade individual, coletiva, e as escalações e substituições dos treinadores. "Quem ganha e decide as partidas é a alma." (Nelson Rodrigues, com seu exagero e sem conhecer quase nada de detalhes técnicos e táticos, nos ensinou muito sobre futebol.)

Um profissional, em qualquer atividade, para fazer bem as coisas, é necessário, além de talento, ter prazer e envolvimento emocional no trabalho.

Como há tantos times no mesmo nível -os detalhes técnicos e os imprevistos colocam um mais à frente ou mais atrás-, não é fracasso um grande time ficar fora da Libertadores.

Se o campeonato começasse hoje, com os mesmos jogadores e treinadores, haveria, no fim, várias trocas de posições na tabela.

Se o Coritiba não tivesse perdido tantos pontos no início, quando só pensava na Copa do Brasil, teria hoje mais chances de conseguir vaga na Libertadores.

Já as possibilidades do Figueirense são grandes. Marcelo Oliveira e Jorginho fizeram excelentes trabalhos.
Muitos times jogam com dois jogadores pelos lados. Como é o esquema da moda, alguns técnicos colocam jogadores nessa posição, sem ter nenhuma característica para isso. É o caso de Wellington Paulista, no Cruzeiro, um típico centroavante.

Outras equipes atuam com três no meio-campo, um meia de ligação e dois atacantes. Há variações. No Fluminense, Marquinho marca no meio e avança como um atacante. Já no Flamengo, os três do meio-campo (Aírton, William e Renato) pouco se misturam com os três da frente (Deivid, Ronaldinho e Thiago Neves). Fica compartimentado, previsível e ineficiente.

Características comuns de todas as equipes são ter sempre zagueiros encostados na grande área -uma postura ultrapassada- e uma grande pressa para chegar ao gol, por meio de lançamentos longos de bolas aéreas. Há poucas trocas de passes. Não adianta também trocar passes se quem passa não avança para receber a bola.

Os times brasileiros jogam hoje como os europeus nos anos 1960, e eles, as principais equipes, atuam como no Brasil da mesma época.

Nessa troca, o Brasil levou uma grande desvantagem.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 23/11/2011.