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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A dor e a alegria

Luiz Zanin





Amigos, o futebol é esporte coletivo mas, muitas vezes, são as atuações individuais que mais nos chamam a atenção. Este fim de semana foi pródigo na supremacia do indivíduo sobre o conjunto. A começar pelo clássico espanhol, que teve o duelo à parte entre Cristiano Ronaldo e Messi. Imagino que ambos se lixavam para as manifestações separatistas da Catalunha que faziam vibrar as arquibancadas do Camp Nou. Estavam muito mais interessados em sua luta particular para ver quem é o melhor do mundo. E, nessa disputa de egos, empataram, da mesma forma como o jogo empatou. Dois gols para cada lado, duas atuações brilhantes. O lucro foi do público.

Entre nós, houve a atuação emocionante de Ronaldinho no sábado. Iluminado, ele fez três gols, construiu belas jogadas, dominou o jogo. Verdade, foi contra o Figueirense, uma das apostas mais seguras ao rebaixamento. Mesmo assim, houve quem dissesse que Ronaldinho não jogava desse jeito desde 2006, quando era o melhor do mundo, antes de naufragar naquela Copa em que o Brasil era tido como favorito. A bem da justiça, naquela Copa o Gaúcho não foi náufrago solitário. A equipe toda foi ao fundo, do roupeiro ao presidente, como um lamentável Titanic.

Voltemos ao presente: Ronaldinho foi saudado como craque redivivo e não faltaram comentários do tipo "Ah, se ele jogasse sempre assim..." Bem, ninguém joga sempre assim. O mínimo que se pode exigir de um craque é certa regularidade. Mas, mesmo essa qualidade da constância o Ronaldinho vem mantendo em sua fase atleticana. Para quem saiu do Flamengo com o rótulo de "ex-jogador em atividade", a volta por cima é significativa. Ele tem sido decisivo para o time mineiro em suas pretensões a um título que não vê desde 1971.

Não que já não tenhamos visto atuações antológicas do Ronaldinho no Brasil. Lembram daquele mágico Flamengo 5 x 4 Santos na Vila Belmiro, no qual ele ofuscou até mesmo Neymar? Mas este jogo no Independência parecia especial. As câmeras mostraram como ele chorou após marcar o seu primeiro gol, aquele golaço improvável, por cobertura. Por que chorava? Descobriu-se que seu padrasto havia falecido na véspera. A própria mãe do craque parece que está muito doente. Com essa carga sobre os ombros, Ronaldinho tomou-se de emoção e devolveu em futebol a dor que vida lhe causava. Ele, sempre tão lembrado pela vocação boêmia, era turbinado em campo pelo mais elementar sentimento humano - a revolta diante do destino, a angústia da mortalidade, da nossa condição plebeia e perecível. Foi, talvez, esse sentimento confuso da finitude que forneceu ao craque as armas para uma atuação inesquecível.

Que paradoxo, não é verdade? Quando sentimos a morte de perto, na perda de um ente querido, mais vontade temos de nos afirmarmos como vida. O luto do Gaúcho, naquele sábado, terminou numa explosão de alegria da torcida. O futebol só não suporta é a indiferença.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 09/10/2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mais um recomeço

Antero Greco


O senso comum diz que todos merecem segunda oportunidade, se falharem na primeira. Pois entendo que lhes podem ser concedidas terceira, quarta, quinta chances de recuperar-se - ou tantas quantas forem necessárias. Se, afinal, houver resgate, terá valido a pena perseverar. Se o fiasco for inevitável, pelo menos restará como consolo o fato de que se tentou. O ser humano não é um circuito fechado, e ruim é a intolerância.


O Atlético-MG concede a Ronaldinho Gaúcho a terceira ocasião de reviver o exuberante auge da carreira, alcançado nos tempos iniciais de Barcelona e que se esgotou lá por 2006, por coincidência e ironia depois da Copa da Alemanha, aquela em que deveria ter sido protagonista. O time mineiro aposta no talento incomum do ex-melhor do mundo, assim como antes o fizeram Milan e Fla.

O investimento de risco começa, em parte, na noite de hoje, na partida que o Galo faz com o Bahia, no Estádio Independência, na retomada do Campeonato Brasileiro. Ronaldinho não jogará, ao contrário do que pretendia o clube, porque a CBF não tornou oficial a inscrição dele. Mesmo assim, terá contato com o público local, com a gente com a qual vai conviver nos próximos seis meses. Apresentação discreta, bem diferente daquela que encontrou nas chegadas anteriores, desde a época em que desembarcou no Paris Saint-Germain no começo dos anos 2000 vindo de Porto Alegre.

A intenção de ter cerimônia singela é proposital, garantem dirigentes do Atlético. Essa a maneira encontrada para passar o recado de que Ronaldinho chega em Belo Horizonte com status de atleta comum, sem badalações, sem fogos, sem trios elétricos, sinfônicas, fanfarras, grupos de rock ou pagode. Não usará nem a camisa 10, mas a 49, que estava disponível e que servirá como homenagem ao ano de nascimento da mãe, que passa por momento de saúde delicado.

O Atlético não rebaixa Ronaldinho ao agir assim; caso contrário, não teria aceitado a proposta de ser-lhe a boia salva-vidas. Os números dos últimos anos mostram que o astro oferece ao público parte pequena de seu repertório outrora fabuloso. Ele ficou sovina, por razões pessoais, talvez por abrir o foco para interesses fora dos gramados. Daí o rebaixamento de status- se bem que Ronaldinho meia-boca ainda é melhor do que muitos de seus companheiros.

O Atlético foi a opção viável para Ronaldinho, quem lhe abriu portas. Não vai demérito ao tradicional alvinegro mineiro, longe de ser um Caixa Prego FC. Só que não se pode ignorar a perda de valor e de mercado de um craque antes disputado a tapas. Em sua terra natal, não havia possibilidade de reconciliação com o Grêmio e é inconcebível a ideia de atuar pelo Inter. Clubes do Rio e de São Paulo disseram-lhe vá em frente e boa sorte. Centros emergentes do Leste Europeu, China e arredores tampouco se manifestaram.

O caminho é o Atlético-MG. Se Ronaldinho levar a sério, o acordo será benéfico para todos. O time contará com um dos mais criativos boleiros das últimas décadas. O profissional reconstrói imagem vencedora, apaga um pouco a pecha de baladeiro e, quem sabe?, ganha fôlego para voos lucrativos no que lhe resta de carreira, que embicou para a reta de chegada.

A bola está com Ronaldinho. É direito dele mostrar que não acabou e que consegue arrancar aplausos. Por isso, ao escrever a crônica, me vieram em mente versos de Bastidores, uma das obras-primas do Chico. "Cantei, cantei, nem sei como cantava assim. Só sei que todo o cabaré me aplaudiu de pé, quando cheguei ao fim..."

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/06/2012.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O jogo do ano



Fernando Matsumura

O estádio da Vila Belmiro, palco imortalizado pelo nosso Rei Pelé, ficou pequeno diante da genialidade de dois grandes jogadores que protagonizaram o melhor jogo do ano: Ronaldinho, o craque-fênix, e Neymar, o craque-emo.

Com início avassalador, o time do técnico Muricy provou que, completo, pode ser imbatível. Aos 25 minutos do primeiro tempo já massacrava o Mengão com 3 gols, tendo Neymar feito um golaço de placa, após dribles desconcertantes em Willians, Léo Moura e Ronaldo Angelim.

Tudo levava a crer que o último invicto do campeonato cairia diante do atual campeão das Américas de forma trágica.

Os rubro-negros lançaram-se, então, ao ataque e, ainda no primeiro tempo, diminuíram a diferença com gols de Ronaldinho e Thiago Neves.

O Santos ainda desperdiçou uma ótima oportunidade de ampliar o placar, após pênalti sofrido por Neymar, quando o jogador-cebolinha “é Elano que se aplende” deu uma “cavadinha” bisonha jogando a bola de graça nas mãos de Felipe, que ainda tirou uma onda fazendo uma seqüência de embaixadinhas.

Era o combustível que faltava ao Flamengo para, na raça, empatar a partida com o gol de cabeça de Deivid.

O segundo tempo prometia um jogo ainda mais eletrizante. Logo no início, Neymar, que caminhava para se consagrar naquela noite, desempatou com outro belo gol.

Renascia, nesse momento, o craque Ronaldinho! Após sofrer falta perto da grande área, o jogador chutou a bola por debaixo da barreira e fez um gol genial, enganando a todos.

Mas, faltava a vitória para coroar sua belíssima atuação. Em um rápido contra-ataque, Ronaldinho recebeu livre e marcou o seu terceiro gol no jogo (oitavo gol no campeonato, artilheiro absoluto) brindando a todos como uma vitória inesquecível.

Também, quem mandou convidar o craque para a festa?

* Fernando Matsumura, flamenguista, é colaborador do Ludopédicas.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A maldade e o cacoete de Ronaldinho Gaúcho



Na partida entre Flamengo 0x0 Fluminense, realizada no domingo retrasado, um lance foi destaque. Ronaldinho Gaúcho deu um carrinho que atingiu o goleiro tricolor Ricardo Berna. A bola estava muito à frente, mais para o goleiro do que para o flamenguista, que não o impediu de arriscar o carrinho, podendo atingir e machucar Berna. A jogada culminou em falta e cartão amarelo a Ronaldinho, na minha opinião, merecido.

A discussão que se seguiu foi a seguinte: Ronaldinho Gaúcho foi maldoso no lance? Em outras palavras, agiu com dolo ou, no mínimo, com culpa – para usar a terminologia jurídica –, ou seja, com intenção de machucar ou sem qualquer cuidado para evitar o choque? Ou foi um lance casual, um acidente? Bem, neste caso, não deveria sequer ter tomado o cartão.

Pelo que observei, penso que Ronaldinho agiu sem a prudência necessária. Sabia que poderia atingir e machucar Berna, mas não se importou em dar o carrinho. Ademais, complemento: agiu levado por um cacoete ganho nos tempos de Europa. Explico. No Velho Continente, é praxe que jogadores entrem de forma ríspida, muitas vezes levando a lesões, sem que os árbitros considerem faltas ou, quando as marcam, mostrem cartões. Lances que para nós são de uma violência inadmissível, para os europeus são “do jogo”. Quem viu a atuação do lateral Flamini, do Milan, nas duas partidas contra o Totteinham, pelas oitavas de final da Champions League, sabe do que estou falando. O problema é que a coisa pode descambar, chegando a contusões sérias ou à deslealdade, como em outra partida, Roma 2x0 Lazio, pelo campeonato italiano, em que o brasileiro Matusalém pisou na cabeça de Totti. Literalmente! Detalhe: não tomou cartão!

No sentido disciplinar, os campeonatos europeus estão beirando às antigas disputas sul-americanas. Ironia do destino: enquanto nossa Libertadores vem se “europeizando”, cheia de fair play, alguns lances em torneios da Europa nos faz lembrar a velha “garra” uruguaia ou chilena.

Ronaldinho Gaúcho, assim como Roberto Carlos em seus primeiros jogos no Corinthians, não se apercebeu de que a tolerância para determinados lances, no Brasil, é bem menor do que na Europa. Aos poucos, vai se adaptar, assim como se adaptou o lateral. Aprenderá que por aqui a interpretação da arbitragem é bem diferente da europeia. Penso que, neste quesito, melhor para nós.

JFQ