quinta-feira, 9 de junho de 2011

Despedida do Fenômeno


Segunda-feira, no final da tarde, tive um estalo: se não for ao Pacaembu, jamais verei Ronaldo novamente em campo. O estalo me removeu os obstáculos que o mau tempo e o bolso impunham. Cento e quarenta reais, no Tobogã, com boas chances de assistir à partida sob chuva eram fatores que pesavam muito contra a decisão de ir ao estádio. Mas, enfim, não poderia faltar à despedida deste fenomenal artilheiro que me trouxe tantas alegrias como brasileiro e corinthiano. De mais a mais, duas ou três vezes que eu deixasse de ir a um boteco seriam suficientes para compensar o gasto. E, como diria nosso eterno Vicente Mateus, quem sai na chuva é para se queimar... (?)

Decisão tomada, vamos à execução. Um dia todo gasto em deslocamento para buscar o ingresso, ir ao trabalho, tomar o metrô (meia hora para passar a catraca da estação Sé!) e voltar ao Pacaembu, onde, dali a somente três horas, a seleção brasileira entraria em campo para enfrentar a Romênia. Ah, e o Fenômeno jogaria apenas 15 minutos. E daí?



A presença de Ronaldo nos campos foi fundamental para que torcedores como eu, que não vimos a geração de Pelé e há muitos anos deixamos de ver a geração de Zico e Sócrates, reavivássemos o amor pelo futebol e pela camisa da seleção brasileira.

Valeu, Fenômeno!

JFQ

O 10, o 9 e o penta

Daniel Piza

Quem viu o jogo da seleção contra a Holanda no sábado e algum da rodada do Brasileirão no domingo, como Flamengo x Corinthians, sentiu falta de dois personagens que fizeram a glória do futebol brasileiro no passado: grandes jogadores com as camisas 10 e 9. A carência de um meia e um centroavante criativos – a carência de criatividade em geral – é tão grande que todas as esperanças de um craque com a 10 recaem sobre Paulo Henrique Ganso, ainda se recuperando de lesão, e as de um craque com a 9 se dividem timidamente entre nomes como Pato, também ausente da seleção por lesão, e outros que estão igualmente longe de inspirar a confiança que Ganso inspira.

A seleção, como boa parte dos times nacionais, vive de volantes que sabem apoiar com velocidade, como Ramires (ou Hernanes, que merece ser chamado de volta), e jogadores de ataque que assumem apenas parcialmente a responsabilidade do último passe, como um Robinho mais e mais burocrático, ou do gol decisivo, como Neymar tem assumido no Santos. Agora pense na seleção campeã de 2002: a 10 era de Rivaldo, que passava e finalizava bem, e a 9 era de Ronaldo, que dispensa sínteses – e ainda por cima tinha Ronaldinho Gaúcho para ligar meio e ataque. Ganso e Neymar podem chegar a esse patamar, mas não sei se Pato ou Damião vão estar à altura. Fred raramente brilha.

Há um equívoco reinante a respeito do que é ser um 10. Hoje muita gente parece pensar que é o jogador que cadencia e organiza, como um Douglas ou o Alex ex-Palmeiras ou o próprio Ganso. Mas os grandes portadores do número gostavam de fazer gols, como Pelé, um ponta de lança que entrava sempre na área e fazia gol em quase todo jogo. Mesmo Maradona, mais lento e recuado que Pelé, tinha média superior a 0,5 gol por jogo e fez alguns antológicos, como se sabe. Messi é um 10 mais parecido com Pelé, por sinal, tanto que o Barcelona abre os outros dois atacantes, Villa e Pedro, para dar espaço para ele ziguezaguear entre os zagueiros e definir o placar. Zico era assim também.

Ganso sabe fazer gols, mas não faz muitos; como não tem muita velocidade, joga mais como um Zidane, atrás da linha de atacantes, distribuindo o jogo com sua visão e classe privilegiadas. Neymar não é nem um 10 nem um 9. Está mais para um segundo atacante, que tem gostado cada vez de atuar mais pela esquerda, de onde pode entortar os zagueiros e trazer para a finalização cruzada de direita, e se tornado cada vez mais conciso nessa execução, à la Romário. Já Lucas, que aposta mais ainda no arranque com bola dominada, precisa evoluir como finalizador e passador.

Então temos de entender que, apesar de não ter os típicos 10 e 9 que fizeram a lenda do nosso futebol, o Brasil não pode reclamar do time potencial que tem no momento. Mas muito trabalho será necessário para ter – se for o caso – um “losango”, como se diz, formado por Ganso, Lucas, Neymar e Pato, sem deixar o time fraco na marcação. A Copa América, em julho, será o primeiro grande ensaio para Mano Menezes mostrar que isso é possível, desde que cada um desses jovens talentos se comprometa a dialogar com os outros.

FENÒMENO

Quando Rivaldo voltou ao futebol brasileiro, muitos disseram que ele estava “magrinho” e portanto teria tudo para mandar muito bem. Quando Ronaldinho voltou, lembraram que com apenas 30 anos e uma torcida como a do Flamengo ele também teria tudo para voltar a ser um craque. Descendo um degrau, houve muita gente que disse que Liédson, o “levinho”, faria os gols decisivos do time. O alvo desses comentários, claro, era Ronaldo e seu peso.

Bem, dois anos depois de ele dar ao Corinthians dois títulos em três meses, como protagonista e autor de belos gols, cadê a comparação? Rivaldo e Ronaldinho não fizeram nem um décimo por seus times do que o “gordo” fez pelo Corinthians. Ontem foi sua festa de despedida, contra a Romênia, e todo esse vácuo ficou mais claro do que nunca. Ele desperdiçou três finalizações, mas isso bastou para todo mundo lembrar como fazia a diferença. Adeus, Fenômeno!

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 08/06/2011.

O time, o gênio, a história



Confesso nutrir certo preconceito de exaltar o futebol europeu como sendo o bambambã, bem como de propagar a falácia de que a bola jogada por aqui, no “país do futebol”, seria decadente. Com indisfarçável coração verde-amarelo – mas não destituído de alguma razão crítica, recuso colocar o mais singelo XV de Jaú versus XV de Piracicaba abaixo de um Fulham x West Ham qualquer. Claro, faço minhas ponderações: com os grandes, a coisa é diferente. Mas, no geral, o nosso campeonato é, sim, muito mais competitivo e – heresia das heresias! – emocionante e belo, enfim, melhor, que o campeonato espanhol ou o inglês ou o português ou o alemão ou o inglês...

Só que nacionalismo – inclusive ludopédico – tem limite. Não dá para negar a qualidade gigantesca do Barcelona em jogar bola.

Detalhe: não falo “apenas” de Messi, obviamente um gênio dos gramados, mas do conjunto Barcelona, do qual o argentino é um dos onze: um escrete que joga por música. Se é possível falar de Messi como um dos melhores de todos os tempos, é mais possível ainda tratar este Barça, a equipe, sem salvadores da pátria individuais, como um dos melhores times já vistos na história do esporte bretão.

Outro detalhe: ainda que não tenha superado o melhor de todos os times que vi – a seleção canarinho de 1982 –, tenho que dar o braço a torcer e colocar este Barça ao lado dos dois “dream teams” que me encantaram desde que me entendo por gente e apaixonado por futebol, do alto de meus incompletos 39 anos: o Flamengo de 1980/83 e o São Paulo de 1992/93. Sim, Telê parece ter feito escola, e Pepe Guardiola parece ser um excelente aluno.

Derradeiro detalhe: após a longa Era Dunga, que vai da Copa de 1990 até a de 2010, quando o referido zangado mestre da nossa nanica seleção de 2010 não deixou ninguém lá muito feliz (com licença da Disney), ainda que tenha levantado o caneco em 1994, ao vociferar de palavrões, este Barça e seu “quase-espelho”, a seleção da Espanha, mostram-se como grandes vencedores de títulos. Excelente notícia, pois servirão de paradigma aos clubes e seleções mundo afora. Paradigma este que, negando o “dunguismo”, afirma que arte e resultado não são incompatíveis, que é possível – e desejável! – vencer jogando bonito.

Ou seja, não estamos falando de um simples time em seu momento de conquistas. Estamos falando de um marco na história do futebol.

***

Aula de futebol: o jeito Barça

Muito se fala da postura tática do Barcelona. De fato, a equipe de Guardiola ocupa os espaços do campo da maneira ousada e extremamente ofensiva. Mais que a distribuição em campo, a postura do time é o que encanta. Não renuncia, em momento algum do jogo, de ficar com a bola nos pés. A posse da bola e a troca exaustiva de passes – sem errar! – é sua fórmula mágica. Derivada disso, vem a compactação no campo adversário, ao contrário do “comum”, de recuar os jogadores ao campo de defesa para marcar apenas quando o adversário passa o meio campo. Tem apenas um volante, Busquets, que não é brucutu! Não joga com um centroavante de referência, mas ataca com cinco ou seis, dependendo das subidas e Daniel Alves (observação: não tem a mesma qualidade do lado esquerdo, o que o torna um tanto torto). O Barça, além disso, não é dependente de um único craque, muito embora Messi seja o mais temido, posto que considerado o melhor jogador do mundo – com justiça! – atualmente. Neste time os atacantes marcam saída adversária e os zagueiros se adiantam, não jogam tão perto da área, e sabem sair jogando, distribuindo o jogo no meio. Para que tudo isso funcione, é bom que se ressalte que o preparo físico é fundamental, pois o jogo não é cadenciado, mas veloz e o ímpeto ofensivo perdura os 90 minutos. O Barça, enfim, é extremamente ofensivo, ainda que seu jogo não seja tão verticalizado, mas em espiral: troca passes exaustivamente, até que surja o momento de um passe a encontrar um jogador desmarcado, via de regra, na cara do gol adversário.

No entanto, esse jeito de jogar exige dois requisitos que não podem ser simplesmente copiados por outros times: 1) um elenco talentoso, que saiba jogar, repleto de craques, incluindo zagueiros e volantes (considero não apenas Messi, Xavi e Iniesta craques, como também Piqué); 2) um padrão de jogo desenvolvido ao longo de muito tempo, com muito entrosamento.

***

Dream teams e estilo sul-americano


Da mesma forma que a seleção de 82, o São Paulo de 92 – ambos formados pelo grande Telê Santana –, ou o Flamengo de 82/83, o Barça foi evoluindo de bom elenco e ótimo escrete a time histórico. Sempre mantendo a base de craques e a filosofia de jogar bonito. A propósito, apesar de o Flamengo de Zico, Andrade e Adílio e o São Paulo de Raí, Palhinha e Cafu serem mais objetivos, usando as triangulações de modo vertical, rumo ao gol, enquanto o Barça de Messi, Iniesta e Xavi gasta mais tempo trocando passes, com paciência de jô (chega a irritar, às vezes), até que o adversário abra espaço para ser abatido, esses times têm em comum o talento, a arte, a criatividade: enfim, um quê sul-americano.

Aliás, isso é o que mais surpreende: como este time fantástico surgiu na Europa? Hipótese: enquanto nós bobamente imitávamos uma certa prosa européia, erroneamente convencidos de que as conquistas viriam assim – e a Copa de 94, vencida nos pênaltis, deu ainda mais argumentos à tese “dunguista” –, os europeus resolveram investir na poesia sul-americana. Não me refiro apenas à Espanha, última campeã mundial, mas até à Alemanha, referência de “jogo feio, mas competitivo”.

Que nos sirva de exemplo para, doravante, passarmos a imitá-los. Na verdade, estaremos a imitar a nós mesmos, retomando algo que é nosso e que havíamos abandonado.

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Sim, um dos melhores de todos os tempos


Apesar de não entender que o Barcelona se resuma a Messi, concordo que o argentino seja, disparado, o melhor jogador da atualidade. Mais do que isso, também concordo com aqueles que já o colocam na conta de um dos grandes jogadores de todos os tempos.

No que diz respeito à dependência do time catalão pelo jogador, maior prova de que o Barcelona vai além da excepcional capacidade de Messi é o fato de a Espanha – praticamente um Barcelona sem Messi – ter sido campeã da última Eurocopa e do último Mundial. Uma boa ideia do que digo veio de um comentário de Vitor Birner e Sócrates, no programa Cartão Verde, quando, em raro momento de concordância, afirmarem que o Barcelona é capaz de vencer sem Messi, mas a Argentina de 86 ou o Nápoli de 89 não teriam sido campeões sem Maradona. Aliás, considero até hoje Dieguito o melhor que vi jogar (obs: não vi Pelé).

Quanto à inescapável questão botequinesca sobre quem é o melhor argentino (faz de conta que esquecemos Di Stéfano...), Maradona é colocado acima, dentre outras coisas, porque venceu uma Copa do Mundo. Mesmo que Messi vença uma Copa, talvez continue achando Maradona melhor. Não levo em conta o fato de ganhar Copas como prova necessária de que se é um gênio dos gramados. Aliás, não foram campeões mundiais e estão no panteão ludopédico jogadores como Zico, Sócrates, Di Stefano, Puskas, Eusébio, Cruyff, Platini...

Messi ainda pode ganhar o seu mundial, mas, independentemente disso, já está entre os melhores.

JFQ

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Chega de conversa

Antero Greco


O noticiário desta semana sobre Fifa e Copa do Mundo foi de provocar indignação em espíritos sensatos. As reportagens do Jamil Chade, na Suíça, deram enjoo em estômagos mais sensíveis. A cartolagem internacional emporcalha-se na lama de suspeitas de corrupção e, pelo jeito, nem liga pra isso, não está nem aí para a opinião pública.

Os conchavos e o jogo sujo na briga pelo poder não me surpreenderam – e, suponho, nem a você. Faz tempo que vira e mexe aparece um escândalo a envolver a casa suprema do futebol, que se auto-protege para evitar destruição. Que famiglia! Embora, como qualquer império, um dia venha a acabar, apodrecido, como de praxe. É lei da vida, é da História, não escapa. Uma hora acontece.

Mas teve um detalhe que me chamou a atenção. A reportagem de capa de ontem deste caderno de Esportes, assinada pelo Jamil, trouxe indiscrições preocupantes de pessoas ligadas à Fifa. Fontes do bravo repórter garantiram que os entraves às pretensões de São Paulo e do São Paulo para o Mundial programado para estas bandas são consequência de postura do Comitê Organizador Local. Em resumo: o interesse de azucrinar a cidade e o time que leva seu nome é coisa doméstica e não da Fifa.

Não é à toa que há um ano e meio o São Paulo tomava bordoada ao apresentar seu projeto de reforma do Morumbi. A turma da Fifa se aferrava a cada vírgula para fazer cara feia e pedir revisão. Nova versão, com os ajustes pedidos, e mais restrições, mais broncas, mais ar entediado. Sinais claros de que se preparava terreno para a exclusão, confirmada pelo Estado três meses antes de tornar-se oficial. A desfaçatez veio mais tarde, quando a mesma Fifa aprovou, sem sequer conhecer, o plano alternativo paulistano representado pelo estádio a ser erguido pelo Corinthians. Estava visível a mão do gato nessa lengalenga.

Superada a fase da arena, vieram as cobranças por obras em São Paulo. Pessoal ligado à Copa se meteu a botar banca, como se fosse dono da cidade, como se aqui fosse a casa da Mãe Joana. Porque em São Paulo não tem isto, porque falta aquilo, porque o aeroporto é ruim, porque as obras estão atrasadas, porque não haverá Copa das Confederações, porque a abertura pode ir para outra cidade, porque São Paulo pode ser banida de vez da festa. É ministro que reclama; governador e prefeito pressionados.

Ei, que história é essa?! O cronograma para a Copa de 14 escoou ralo abaixo faz tempo, e isso não se discute. Se a Fifa levasse a sério suas exigências, teria mandado o Brasil cantar em outra freguesia e repassava adiante a organização do evento. Mas a bagunça é geral, não se limita à cidade de São Paulo. Não que isso sirva de consolo; ao contrário, é lamentável. O brasileiro médio já pressente o festival de improviso, dentro de três anos. E com uma fatura monstruosa, que já se sabe quem vai pagar: eu, você, nós…

Enche a paciência pintar São Paulo como fútil, indolente, desinteressada. Parece que no restante das sedes vai tudo no melhor dos mundos. Não é assim, a Fifa sabe, a presidente Dilma sabe, o Comitê Organizador Local está careca de saber. Só que agora, após a reportagem de ontem, surgiu uma luz. Sempre segundo a Fifa, é briga política, de caráter pessoal, de gente daqui com o São Paulo e com os governantes paulistas. Ficou tudo mais claro…

São Paulo precisa, de fato, de aeroportos modernos, como tem necessidade de escolas públicas boas, de transporte decente, de melhor qualidade de ar, de mais segurança, de menos agressão à sua paisagem. De mais verde. Não por causa da Copa, mas por direito das pessoas que vivem aqui. Os governantes deveriam se coçar por respeito aos cidadãos e não por meia dúzia de jogos de futebol.

Se a Fifa (ou CBF ou Comitê Local ou o Zé das Couves) não vê São Paulo em condições de receber partidas do Mundial, que a risque do mapa e fim de papo. Só não fique com conversa fiada. Não venha incomodar quem está quieto e trabalha. São Paulo não é a sede mais bonita – provavelmente seja até a mais feia. E daí? Mesmo assim, é das cidades mais importantes.

São Paulo não precisa da Copa, mas o inverso é verdadeiro. Os cartolas sabem que aqui estão muitos dos melhores hotéis, dos hospitais mais modernos, os grandes centros de venda. É o grande mercado do País. Chega de jogo de cena, que soa a chantagem. E está na hora de os políticos daqui darem um basta nessa esculhambação

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 03/06/2011, e no blog do autor: http://blogs.estadao.com.br/antero-greco/2011/06/03/chega-de-conversa/ 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Na final, Peixe deve se cuidar para não morrer na praia



Cerro Porteño 3x3 Santos
Copa Libertadores da América


O Santos classificou-se, mais uma vez, para a final da Libertadores. Com o empate obtido (após desnecessário sufoco) sobre o Cerro Porteño, por 3 a 3, o time da Vila pegará na final Vélez Sarsfield ou Peñarol, que se enfrentam hoje. Caso o adversário seja a equipe uruguaia, a final da Libertadores de 2011 repetirá o embate de 1962, quando o Peixe, contando com Pelé e um dos melhores elencos já vistos na história do futebol, faturou seu primeiro título sul-americano.

Embora o Santos esteja fazendo uma campanha inegavelmente vitoriosa, a impressão para muitos comentaristas é de que as coisas não andam lá essas coisas. Em outras palavras: vitórias obtidas no sufoco podem vir a desabar em frustrações futuras. Quiçá, na finalíssima (toc,toc,toc!).

Alguns comentaristas – como Caio Ribeiro e Carlos Alberto Torres – defendem que o time santista de agora, comandado por Muricy, em comparação com aquele empolgante escrete de 2010, é mais... equilibrado. Ou seja, muito embora pareça uma equipe mais defensiva, na verdade, o Santos de agora passa menos... sufoco (?), justamente por ter equilibrado defesa, meio e ataque. Por lógica, podemos supor que o Santos de 2010 era excessivamente ofensivo.

Outros comentaristas, como Vladir Lemos – participo desta corrente –, não veem tanto equilíbrio, mas uma postura excessivamente defensiva, mesmo. Completo o argumento com uma pergunta: o Barcelona, equipe à qual se comparava o Santos de 2010, é um time desequilibrado? Na minha modesta opinião, não. O Barça prima por um outro equilíbrio, em que a ênfase se dá na posse da bola e na ofensividade; tanto os defensores, como os articuladores atuam sob a égide dessa premissa, sem tornar o todo menos... equilibrado. Vale lembrar, claro, que o Peixe perdeu jogadores importantes, como André e Wesley, para não falar das ausências seguidas de Ganso, por conta de lesões.

Não obstante, pelo que se viu ontem, mesmo o equilíbrio à Muricy pode ser questionado. Se o time já passa por uma grande “Neymar-dependência”, na partida de Assunção, a equipe foi ainda mais dependente de Rafael, o goleiro. E por falar em equilíbrio, faltou o dito cujo, só que de natureza emocional, ao capitão Edu Dracena: bateu boca com Elano e, no fim da partida, acabou expulso por reclamação.

Ademais, coisas estranhas (algumas lamentáveis) marcaram o jogo: o técnico Muricy Ramalho foi atingido por uma pedra, atirada pela torcida; Barreto, o goleirão paraguaio (sem trocadilho), cometeu o frango mais bisonho dos últimos tempos; Zé Eduardo desencantou; a maldita luzinha, vista até na final da Champions League, em Wembley, também esteve presente no estádio General Pablo Rojas. No mais, foi uma partida emocionante, sem violência (só em campo, já que nas arquibancadas o pau comeu!) e com ótima arbitragem do colombiano Wilmar Roldán. O 3 a 3 ficou de bom tamanho, sopesando o empenho do brioso Cerro com a superioridade técnica mesclada com defensivismo do Santos.

Última observação. Muricy vem armando sua equipe com três volantes – Arouca, Danilo e Adriano – e Elano (volante de origem), um pouco mais à frente, na ligação do meio com os atacantes Neymar e Zé Eduardo. Em parte, essa opção foi determinada pela contusão de Paulo Henrique Ganso. Em parte, pela filosofia do professor, já que o “batedor” Adriano poderia dar lugar a Alan Patrick, deixando o meio com mais articulação, ou ainda com a colocação de um terceiro atacante (Maikon Leite ou Keirrisson), que poderia tornar as investidas santistas ainda mais perigosas.

De qualquer forma, vale a opção do treinador que, inclusive, tem o argumento da vitória: do seu jeito, o Peixe chegou onde chegou. Detalhe: ainda não se sagrou campeão. E, que pode morrer na praia, isso pode.

JFQ

quarta-feira, 1 de junho de 2011

É o Pet!


Fernando Matsumura

Ano de 2001. Final do campeonato carioca entre Flamengo e Vasco. Falta na entrada da área do Vasco. O tempo para aos 43 minutos do segundo tempo. O Flamengo vencia naquele momento por 2x1 e aquele gol poderia dar-lhe o tão sonhado tri. Todos os olhos se paralisam diante do camisa 10 rubro-negro. Ele pega a bola e carinhosamente a ajeita sobre o gramado. Daquela distância, nos tempos áureos de Zico, a torcida comemorava antecipadamente o gol. O jogador corre para a bola e....PAUSA.

A conquista do campeonato estadual de 1999 e 2000, credenciava o Mengão à disputa do tricampeonato carioca. A possibilidade de sagrar-se tricampeão sobre o arquirrival Vasco da Gama aumentava a ansiedade de todos. Talvez não muito para um jogador gringo (nasceu na Sérvia), de temperamento calmo, fala engraçada e nome de garrafa plástica: PETKOVIC.

Sob a veste do manto sagrado, Pet foi o jogador que mais honrou a camisa 10, após a Era Zico. Seus lançamentos perfeitos, as arrancadas em direção ao gol, a força do chute, tanto com o pé direito como o esquerdo, os golaços olímpicos, mas, principalmente, a maneira como batia uma falta faziam os torcedores mais nostálgicos se arrepiarem. No entanto, sua bela passagem pelo Flamengo só durou até 2002.

Em 2009, aos 36 anos, desacreditado no meio futebolístico, o ídolo rubro-negro regressou ao clube e protagonizou uma das conquistas mais marcantes da história do Flamengo. Após 17 anos, a torcida rubro-negra pode, enfim, soltar o grito e comemorar o sexto campeonato brasileiro. Graças a seu talento, foi o eleito, com justiça, o Craque do Brasileirão 2009 de melhor meia-esquerda.

Porém, como tantos outros ídolos do passado, chegou a vez do gringo encerrar sua carreira. Sob o comando de Vanderley Luxemburgo, Pet, reintegrado ao elenco após um período de afastamento, fará sua despedida, não jogando um simples amistoso, mas uma partida oficial pelo Flamengo contra o Corinthians pelo campeonato brasileiro. Será encerrado mais um ciclo da Camisa 10 na Gávea.


PLAY...caprichosamente ela voa em direção ao ângulo esquerdo do goleiro Helton e entra. GOOOOLLLLLLLLLL. É o Pet, é o Pet, é o Pet!!!

* Fernando Matsumura, torcedor do Flamengo, é colaborador do Ludopédicas.

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Barça e o futebol como deveria ser


Paulo Calçade

O mundo do futebol ficou a semana passada inteira discutindo como o Manchester United deveria jogar para deter o Barcelona na final da Uefa Champions League. Noventa minutos depois, com mais um espetáculo individual de Messi e um extraordinário jogo coletivo, só restava aplaudir. Até uma lenda como sir Alex Ferguson admitiu o show de bola. Os números confirmam o massacre: 12 finalizações corretas contra apenas uma e 63% de posse de bola.

Há 25 anos no banco de reservas dos ingleses, Ferguson pode fazer o que quiser, até imaginar que Carrick e Giggs vão dar conta de Xavi e Iniesta. Para agravar a situação, Busquets, normalmente o primeiro homem acima da defesa, também deveria ter sido acompanhado. Estacionado na área de Van der Sar, aos 24 minutos do segundo tempo, foi dele o passe para Villa fazer 3 a 1.

A decisão da Champions ajuda a explicar José Mourinho nas duas partidas semifinais. Ao colocar Pepe sobre Messi, o treinador português buscou um recheio para suas linhas de marcação, e impedir o argentino de jogar no vazio, como fez no sábado.

Ferguson foi corajoso ou ingênuo demais ao idealizar o Manchester com um gigantesco déficit de marcação. Veja: o time catalão joga com Villa e Pedro pelos lados, abrindo a defesa contrária e a mantendo no fundo do campo. Para os zagueiros Ferdinand e Vidic, o melhor negócio seria ter Messi como centroavante. Assim um deles marcaria e o outro atuaria na sobra.

Mas o futebol do argentino começa muito antes, no meio de campo, setor inexplicavelmente abandonado por Ferguson, que teve Carrick, Giggs, Park e Valencia na marcação a Iniesta, Xavi, Daniel Alves e Busquets. O resultado foi uma enorme superioridade técnica, numérica e vida mansa para o gênio.

Messi conseguiu permanecer fora das duas linhas de marcação. Rompeu a primeira com dribles e desestabilizou a segunda, pois Ferdinand e Vidic passaram o tempo entre a tentação de deixar o posto para pressioná-lo e a observação das falhas no meio-campo. Por isso Mourinho colocou recheio na bolacha das semis. Até ser expulso, Pepe foi um problema, depois...

O futebol coletivo do Barcelona irrita a turma acostumada ao jogo virtual, amamentada com replays demais. A mobilidade construída sobre o talento, o treinamento e o passe deram ao Manchester apenas oito minutos para sonhar. Com bolas curtas, o grupo de Guardiola parece jogar num gramado menor que o do adversário.

O Barça ataca e defende com a mesma intensidade. São tarefas coletivas, inclusive para o craque. Messi participa de tudo, principalmente do jogo efetivado sobre triângulos, criado para jamais faltar o passe. É simples: quando Busquets receber a bola, preste atenção no comportamento de Xavi e Iniesta.

Uma final contém responsabilidade demais, além do nível suportado pelo bom senso. Com tantos fatos e teses em jogo, alguns enfrentamentos são vistos como se o futuro do esporte dependesse deles.

Todo mundo com alguma intimidade com a bola é capaz de identificar o jogo mais bonito, o que não significa torcer por ele. Nem sempre a beleza sensibiliza o coração. Foi o caso da partida de sábado, no mítico e renovado Wembley.

Perde-se muito tempo pensando em como parar o Barça e quase nada em como imitá-lo. Pode ser utópico, mas entender o funcionamento do time catalão é mais útil que agredi-lo. Messi, Xavi e Iniesta são únicos, mas o estilo pode ser universal, não foi inventado por Pep Guardiola.

O Barcelona joga o futebol total. É técnico, tático, quase sem faltas. Wembley viu uma das maiores finais da Uefa Champions League que se tem notícia. Ferguson só poderia aplaudir.


* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 30/05/2011.

O estilo Barcelona

Paulo Vinicius Coelho

 

Uma enquete do diário Marca, na Espanha, apontou que 89% julgam o Barcelona o melhor time da história. Mesmo sem valor científico, a pesquisa impressiona. Ainda mais porque o jornal é conhecido por sua ligação com o Real Madrid. A melhor resposta sobre esse assunto foi de Josep Guardiola: "Houve outras grandes equipes, algumas que não vi jogar, como o Milan de Sacchi, o Real de Di Stéfano, o Santos de Pelé. Fico feliz por saber que daqui a vinte anos, este Barcelona será lembrado assim".

Troque uma palavra. Em vez de melhor, único. O estilo do Barcelona não está apenas na posse de bola, nem na troca constante de passes. Está no jeito de marcar. Dos times citados por Guardiola, nenhum marcava por pressão por tanto tempo. Só o Milan de Sacchi, a Holanda de Michels, o Ajax de Kovacs avançaram a marcação, mas não havia preparo físico para jogar dois terços das partidas assim, como o Barça faz.

O jogo do Barça é arte, porque o time tem força. Não se tem a bola por tanto tempo sem retomá-la. E não se retoma no campo de ataque se não houver preparo físico para fazer isso. "Um jogador da seleção me disse que os adversários correm tanto atrás do Barcelona que, quando têm a bola, não conseguem chegar na grande área", disse Mano Menezes.

E ainda tem Messi! O melhor do mundo é único e joga numa posição exclusiva. Centralizado no ataque, recebe sempre às costas dos volantes. Quando Carrick voltava para bloqueá-lo, Iniesta ficava livre. Quando Giggs tentava acompanhá-lo, Xavi se liberava. Se Park tentava persegui-lo, esquecia Daniel Alves.

Na mesma medida em que os marcadores procuram por Messi, os observadores buscam adjetivos. O mais brilhante foi o ex-auxiliar de Alex Ferguson, Brian Kidd: "O Barcelona é a melhor coisa do futebol desde a invenção da bola".



JOGADA ENSAIADA

Recuo estratégico. Na sequência de clássicos com o Real Madrid, o Barcelona só foi parado na pancada. Mas é de se lembrar como José Mourinho marcou Messi. Tirou Pepe da zaga e colocou-o à frente dos beques, atrás dos volantes. Lembre-se que, antes da expulsão do luso-brasileiro na semifinal, o Barça empatava por 0 a 0. Depois do cartão vermelho, Messi marcou duas vezes.

Pressão de Muricy. O atual técnico da seleção brasileira, Mano Menezes, conta que costumava treinar maneiras de sair da marcação pressão quando enfrentava o São Paulo de Muricy Ramalho. Não há milagre, claro. Mas o treino consistia em jogar nas costas da pressão.

Ou seja, com passes curtos, criar triangulações que façam a bola chegar atrás do jogador que avança na marcação. Na derrota do Barcelona para o Arsenal, nesta Liga dos Campeões, o segundo gol inglês nasceu de uma jogada assim. Saiu da pressão e chegou ao campo de ataque livre.


* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 30/05/2011.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Competitivo e banal

Tostão


Hoje, o Santos deve ter dificuldades para vencer o Cerro Porteño. Muricy Ramalho precisa criar opções de ataque. O time não pode depender tanto de Neymar.

Mudo de assunto.

Jogar de contra-ataque não significa, necessariamente, formar uma retranca. Sempre que a bola é recuperada, inicia-se o contragolpe. A equipe que toma a bola mais à frente é ofensiva e contra-ataca bastante.

Paulo César Carpegiani mostrou, contra o Fluminense, que sabe armar um time para jogar de contra-ataque e na defesa, com oito jogadores bem posicionados, marcando no próprio campo. Qualquer bom técnico sabe fazer isso, ainda mais quando tem dois atacantes rápidos e hábeis, como Dagoberto e Lucas. Dagoberto evoluiu bastante e aprendeu a finalizar. Lucas é um atacante. Não é jogador de meio-campo.

Mas Carpegiani não quer só isso. É um treinador inquieto, que gosta de futebol bonito e de criar variações. O que deveria ser virtude passa a ser deficiência quando não se consegue vitórias. O lugar- -comum conspira contra o treinador. O futebol, espelho da sociedade, só pensa em resultados. É o mundo competitivo e banal.

O Barcelona, por conseguir unir eficiência com beleza e qualidade, passou a ser símbolo da resistência contra o senso comum. O time catalão possui as principais virtudes dos grandes times do passado e do presente. Mas não foi fácil chegar a esse ponto. Os operatórios são cada dia mais numerosos.

O Barcelona é a única equipe do mundo que costuma marcar por pressão na maior parte do tempo, que atua com apenas um volante (Busquets), que não faz lançamentos longos nem cruzamentos para a área, para se livrar da bola e contar com a sorte, e que, em qualquer estádio, gosta de ficar com a bola. Por isso e por tomá-la com facilidade, tem, em todas as partidas, desde maio de 2008, maior posse de bola que o adversário.

Já o Manchester United, além de ter ótimos jogadores, é o maior representante do futebol equilibrado, organizado e regular. Raramente erra e perde. Mas é um time comum. Faz o que outros grandes fazem. A diferença está em executar melhor o que foi planejado.

Não será surpresa se o Manchester for campeão da Europa. Não será por um jogo que vou mudar meus conceitos. Se o Barcelona vencer, o que é mais provável, quem sabe surjam outros técnicos preocupados não somente com a vitória, mas também com a qualidade e a beleza do espetáculo.


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/05/2011.

Nomes imortais

Ruy Castro


Houve um tempo em que, ao andar pela rua, você entreouvia pelo radinho de pilha dos porteiros a narração do jogo daquela tarde ou noite e, se saísse um gol ou jogada importante, era fácil saber o que estava acontecendo. Afinal, os jogadores se chamavam Boiadeiro, Beijoca, Bobô, Biro-Biro, Dinamite, Fio Maravilha, Chulapa, Alfinete, Grapete, Caçapava, e só havia um de cada com esses nomes.

Hoje, não é mais assim. Mesmo assistindo ao Brasileirão pela TV e ligando os nomes às figuras, você pode se confundir. E não estou me referindo aos dois Deivids, três Lucas, três Douglas e três Gabrieis que jogam nos times em disputa. Nem aos cinco Renans -dos quais três, espantosamente, são goleiros. Nem mesmo aos cinco Evertons (um deles, Heverton), oito Williams (incluindo os Wilians e Willians) e oito Felipes ou Felippes, dos quais só um é Filipe.

Estou pensando mais nos nove Thiagos (que compreendem os Tiagos, com ou sem sobrenome, e um Thiego), 11 Leandros (contando um Eliandro) e na profusão de rapazes chamados Alex, Aleks, Alex Silva, Alessandro (vários), D'Alessandro, Alec Sandro e Alex Sandro. Sem falar nos sete Diegos e quatro Diogos (o nome é o mesmo) e nos nada menos que 11 Rafaeis. Daí, vários terem de usar o sobrenome.

Mas meus favoritos continuam a ser os sons: Acleisson, Adilson, Anailson, Demerson, Emerson (dois), Gilson, Glaydson, Jackson (dois), Jefferson, Jobson, Joilson, Keirrison, Kleberson, Liedson, Madson, Maylson, Richarlyson, Vilson, Wallyson e, pode crer, seis Andersons, com ou sem chapeuzinho no a. Além de um Wallace, um Wendel, um Werley, um Wesley e cinco Wellingtons, com um ou dois eles e com ou sem gê.

Pensando bem, de que estou me queixando? Em que outra época teríamos Avine, Fransergio, George Lucas, Maicon, Maicossuel, Robston, Sheslon e Tressor?
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/05/2011.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ascensão e queda dos “menudos do Morumbi”

Müller e Silas surgiram como dupla inseparável, qual Neymar e Ganso, nos anos 80. Eram os principais integrantes dos “menudos do Morumbi”, equipe do São Paulo Futebol Clube, comandada por Cilinho, repleta de jovens talentos, além de craques mais experientes, como Dario Pereira, Oscar, Pita, Careca e Falcão.

Os dois passaram pela seleção brasileira, pela Europa e encerraram suas carreiras em 2004. Os dois iniciaram carreira de técnico, sendo que Müller tentou, ainda, os ofícios de comentarista esportivo e pastor evangélico.

Neste momento, ambos estão novamente em evidência, mas por razões bastante distintas. Silas comanda o Avaí nas semifinais da Copa do Brasil, em surpreendente campanha que pode culminar no título inédito e na vaga para a Libertadores de 2012. Müller, por sua vez, é objeto de matérias televisivas dando conta de sua sofrível situação financeira, vítima da própria prodigalidade em lidar com o muito dinheiro que amealhou ao longo da carreira.

Para saber um pouco mais das trajetórias desses dois grandes boleiros, indico o ótimo texto postado no Futepoca, “Dois craques, dois amigos e dois destinos distintos”:


JFQ

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Time equilibrado

Muricy, após fase problemática nos últimos jogos à frente do Fluminense, assumiu o Santos mostrando toda sua competência. Conquistou o título paulista e avançou às semifinais da Libertadores, após despachar, ontem, o bem montado Once Caldas.

O principal elogio que se ouve em relação a Muricy é que o time do Santos está mais equilibrado. Em outras palavras, a equipe da Vila, que já tinha um ataque competente, passou também a ter uma defesa menos vulnerável. Considerando os números, após a vinda de Muricy, caiu a média de gols marcados e despencou a de gols sofridos. Exagerando, o Santos deixou de ser uma equipe que vence de 10 a 9, para se tornar uma equipe que vence de meio a zero. O resultado é o mesmo: vitória. Aliás, o Santos de 2010 faturou o Paulista e a Copa do Brasil, enquanto o Santos de 2011 já conquistou o mesmo Paulista e está bem encaminhado na Libertadores. Segue a sina de campeão.

Questiono, apenas, esse conceito de “equilíbrio”. Equilíbrio supõe uma equipe competente não apenas no ataque, mas também na defesa e no meio, na direita e na esquerda, jogando sem a bola e com a bola, etc. Todavia, como um economista keynesiano, no caso, analisando os assuntos da bola, aponto: há vários equilíbrios possíveis, não apenas o que corresponde a uma organização tática que priorize a segurança da defesa. Pode haver, inclusive, uma equipe que busca seu equilíbrio na ofensividade ostensiva. Como o próprio Santos, inclusive, em 2010. Em suma, para mim, o Santos não é um time mais equilibrado com Muricy, mas um time cujo equilíbrio se fundamenta na defesa mais bem composta, ainda que isso piore sua força de ataque. Marca registrada do São Paulo tricampeão brasileiro (2006/08), sob o comando do mesmo Muricy. Trata-se, portanto, de um outro equilíbrio, a partir de uma opção do treinador, mas também capaz de fazer do Peixe um time campeão. Muito embora, como se viu ontem, no Pacaembu, as vitórias, agora, sejam acompanhadas de um pouco mais de sufoco.

Ainda sobre equilíbrios, vejamos o exemplo do, quiçá, melhor escrete do planeta no momento: o badalado Barcelona. Sabe-se que o Barça prima por ter a posse da bola, mantendo-a nos pés de seus jogadores por mais de 60% da partida, em média. Para isso, o time joga compactado, no campo do adversário, o que implica que seus atacantes marquem as saídas do rival, bem como que seus defensores iniciem a articulação das jogadas, e troquem passes à exaustão, sem errar. Para isso, é imperativo que todos os onze jogadores sejam qualificados tecnicamente; eis um equilíbrio tático que não suporta pernas de pau! Aliás, acredito que para “desequilibrar” o Barça seja necessário impedi-lo de manter tamanha posse de bola; para fazê-lo, talvez seja o caso de não marcar Messi individualmente, mas, para começar, de marcar muito bem Piqué e Puyol.

JFQ

Mano convoca seleção para amistosos


O técnico Mano Menezes convocou 28 jogadores para os amistosos contra a Holanda, no dia 4 de junho, no Serra Dourada, em Goiânia, e diante da Romênia, quatro dias depois, no Pacaembu, em São Paulo. As principais novidades da lista do treinador são o goleiro Fábio, do Cruzeiro, Thiago Neves, do Flamengo, e Fred, do Fluminense.

Ronaldo Fenômeno será o 29º atleta chamado pelo treinador para a despedida no confronto na capital paulista.

Após a partida diante da Romênia, no dia 7 de junho, Mano Menezes cortará seis atletas e divulgará a lista de convocados para a Copa América no Pacaembu, em São Paulo. A estreia da Seleção será no dia 3 de julho, contra a Venezuela, em La Plata.

Lista de Convocados

Goleiros

Julio César (Inter de Milão)
Jefferson (Botafogo)
Victor (Grêmio)
Fábio (Cruzeiro)

Laterais

Daniel Alves (Barcelona)
Maicon (Inter de Milão)
André Santos (Fenerbahçe)
Adriano (Barcelona)

Zagueiros

Lúcio (Inter de Milão)
Thiago Silva (Milan)
David Luiz (Chelsea)
Luisão (Benfica)

Volantes

Lucas Leiva (Liverpool)
Ramires (Chelsea)
Sandro (Tottenham)
Henrique (Cruzeiro)
Anderson (Manchester United)

Meias

Elano (Santos)
Elias (Atlético de Madri)
Lucas (São Paulo)
Thiago Neves (Flamengo)
Jadson (Shakhtar Donetsk)

Atacantes

Robinho (Milan)
Neymar (Santos)
Alexandre Pato (Milan)
Nilmar (Villarreal)
Leandro Damião (Internacional)
Fred (Fluminense)

* Notícia extraída de http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2011/05/fred-thiago-neves-e-fabio-sao-novidades-de-mano-na-selecao.html

terça-feira, 17 de maio de 2011

O mundo do futebol e suas (des) lições


Pasquale Cipro Neto

Nelson Rodrigues dizia que o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes. Concordo, mas, parodiando o grande L. Babo, eu teria um desgosto profundo se faltasse o futebol no mundo.

Para mim, o futebol é beleza, estratégia, magia. Como torço para o Juventus, ou seja, para ninguém, fico livre para ver o que me interessa nos jogos: o talento e a capacidade dos atletas de articular as jogadas e de seguir a estratégia estabelecida.

Beleza e talento à parte, o futebol é também território de hipocrisia e de pouca inteligência. Quer coisa mais burra que a suspensão automática, imposta a um jogador que é expulso? Só no futebol alguém é culpado até que se prove o contrário… O árbitro acha que um atleta simulou uma falta (que houve), não marca a tal falta e dá ao jogador cartão amarelo -ou vermelho, se ele já tiver levado o amarelo. Depois do jogo, as imagens mostram à exaustão que o árbitro errou, mas a burra “regra” se mantém: o jogador está fora do jogo seguinte. O futebol é mesmo “burro, muito burro demais”.

O pior é ter de ler/ouvir a defesa da suspensão automática, sob o argumento de que, “se ela não existir, vira bagunça”. Tão ruim quanto essa “tese” é a de que condenar a suspensão automática é defender a impunidade. Condenar a suspensão automática é simplesmente condenar a impossibilidade de defesa, é condenar a condenação prévia, é condenar a pressuposição de culpa do atleta e a infalibilidade do árbitro. Só isso, nada mais do que isso.

O exemplo da suspensão automática é pretexto para um assunto “mais alto”: a capacidade de leitura, de interpretação (dos fatos, dos textos, do mundo). Quem entende, por exemplo, que a condenação da suspensão automática equivale à defesa da impunidade demonstra incapacidade de ler um texto e/ou fértil capacidade de tirar conclusões absurdas do que se diz/escreve. Paulo Freire dizia que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O futebol e suas belezas e mazelas estão no mundo, portanto…

Outro raciocínio genial que ouvimos no futebol é este: “Se o juiz dá aquele pênalti, era um a zero pra nós”. Diz-se isso onde quer que haja uma partida de futebol e, muitas vezes, também no rádio ou na TV.

Santo Deus! Será que ninguém é capaz de pensar que a consecutividade dos fatos gera entre eles uma relação tal que impede que se afirme que, “se o juiz dá aquele pênalti…”? É simples: o árbitro não marcou o tal pênalti; se o tivesse marcado, nada do que aconteceu depois do lance teria acontecido, porque a sequência seria outra, de modo que é simplesmente impossível afirmar qual teria sido o placar do jogo. Há outra aberração na tal afirmação (”Se o juiz dá aquele pênalti…”): por acaso pênalti é sinônimo de gol?

Na semana passada, houve mais “lições”. Terminado o jogo em que o Once Caldas eliminou o Cruzeiro da Libertadores, foi um tal de ouvir esta ladainha: “O time de pior campanha da primeira fase eliminou o de melhor campanha”. Elaiá! Como se pode dizer que a campanha do Cruzeiro, que na fase anterior estava no grupo X e, por isso, só enfrentou os times do grupo X, é melhor do que a do Once Caldas, que estava no grupo Y e, por isso, só enfrentou os times do grupo Y? A campanha do Cruzeiro só foi melhor que a dos integrantes do seu grupo, caro leitor.

Não se pode absolutizar o que é relativo, do contrário tudo pode dar errado: projetam-se pontes e prédios que caem, matam-se pacientes porque não se levam em conta os efeitos colaterais que determinados medicamentos podem provocar, tomam-se decisões que não seriam tomadas, arruínam-se relações que poderiam ter outro rumo. É isso.
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/05/2011.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Caiu na rede, é bi!



Em um jogo morno (para dizer o mínimo), ainda mais se tratando de uma final, o Santos conquistou o bicampeonato paulista. O Peixe não foi brilhante, mas jogou para o gasto contra um Corinthians nada inspirado, incapaz de furar a sólida defesa formada por Muricy. Além do mais, o Timão mostrou falhas na defesa e incompetência na ligação entre o meio e o ataque. Aliás, não fossem os frangos tomados por Júlio César e Rafael, os goleiros passariam despercebidos na partida. Enfim, a peleja vista ontem, na Vila, ficou muito aquém daqueles emocionantes jogos finais do ano passado, contra um forte Santo André, ironicamente, um dos rebaixados em 2011.

À parte o ruim jogo final, o Santos mereceu o título pelo que fez durante o campeonato. Ou melhor, pela ótima equipe que vem montando, a bem da verdade, com a mente mais voltada à Libertadores do que ao Paulista.

São Paulo e Palmeiras foram as equipes que mais levaram a sério o campeonato, talvez por serem as que levantaram a taça há mais tempo, chegando nas duas primeiras posições ao fim da primeira fase. Mas, considerando o regulamento – tardiamente criticado – e a competência dos adversários nos jogos decisivos, nem um, nem outro estiveram presentes na final.

O Santos, que primou em 2010 pela força ofensiva, aplicando várias goleadas, na era Muricy vem se mostrando um time mais “equilibrado” – para usar um jargão da moda. Na minha modesta opinião, trata-se de um time mais preocupado com a defesa do que propriamente equilibrado, já que, não necessariamente, a melhora nos números defensivos deveria recair na queda do número de gols marcados. O fato é que o Peixe está vencendo, conquistando títulos e seguindo na busca por outros.

Hegemonia santista nos anos 2000

Após vencer do mesmo Corinthians em 1984, com o famoso gol de Serginho Chulapa, o Santos ficou 22 anos sem faturar um campeonato paulista. Antes de voltar às conquistas estaduais, banais na era Pelé, o Peixe faturou dois brasileiros: em 2002 (contra o Corinthians, de novo) e em 2004.

Aberta a porteira, contudo, passou uma boiada de conquistas santistas no Paulistão: dois bicampeonatos, em 2006/2007 e em 2010/2011. E só não esteve na final em 2008, disputada entre Palmeiras e Ponte Preta, já que tem 2009 foi vice-campeão, para variar, contra o Corinthians.

Enfim, com 5 títulos em 11 disputados, ninguém venceu mais campeonatos paulistas no século XXI do que o Santos. Ou seja, neste momento, é mais do que verdadeira a frase inicial do hino: “agora quem dá bola é o Santos”.

JFQ

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Opinião de Torcedor



O Santos será o campeão paulista de 2011, simplesmente porque "agora quem dá bola é o Santos" ou, se preferir, porque só ele tem os melhores jogadores do Brassssiiiiillllllllllllll.

Sandra Regina Ignácio, santista.

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O Corinthians será campeão porque estamos num ano ímpar.

Wlademir Corazzari Jr, corinthiano.

***
Depois da era Pelé, está voltando o ciclo do Santos campeão.

Fernando Miyadaira, santista.

***

O Corinthians é sempre forte na final. Além disso, o Santos está cansado pelo excesso de viagens e jogos.

Mário Borges, corinthiano.

Não é só cansaço

Daniel Piza


A derrocada dos brasileiros na Libertadores, com exceção do Santos, e alguns outros resultados surpreenderam muita gente, a começar pelos "especialistas" (se é que há especialista em futebol). A maioria das explicações apontou para o cansaço decorrente do calendário brasileiro, que é o que menos tempo oferece de férias e pré-temporada aos atletas. Mas o fator qualidade não pode ser menosprezado. Tal como os times, os comentários parecem sofrer do complexo de superioridade: nunca perdemos para um adversário melhor... Isso vale para clubes grandes do sudeste também. Se um Palmeiras toma seis do Coritiba, é porque estava ainda sob efeito da desclassificação para o Corinthians no Paulistão; se ganhasse, as mesmas pessoas diriam que foi porque o time agora podia apostar num torneio só.

Sim, já falei muito aqui sobre a necessidade de ter campeonatos estaduais mais curtos, que deem mais descanso aos jogadores e não encavalem na fase final com a de Libertadores e Copa do Brasil. As lesões estão aí para demonstrar a dificuldade. Hoje o Santos pega o Once Caldas sem Ganso e Arouca, ausências sérias, e com isso o Brasil corre o risco de ficar sem representante nas semifinais. Mas nada disso significa que a rodada passada foi uma manada de zebras, já que Cruzeiro, Internacional, Fluminense e Grêmio foram "saídos". Mesmo o Cruzeiro, que vinha jogando o futebol mais vistoso entre os brasileiros, com meias como Roger e Montillo e a revelação Wallyson, em nenhum momento foi brilhante. Admiro alguns recursos de Roger, mas um time depender tanto dele não podia ser bom sinal.

A realidade do futebol brasileiro é que sofreu uma entressafra considerável nos últimos anos, tanto que os melhores do campeonato de pontos corridos foram argentinos, volantes ou goleiros (salvo Adriano, que nem jogou nada demais em 2009 pelo Flamengo). Apesar do retorno de alguns craques, ou de ex-craques como Ronaldinho Gaúcho, o nível médio ainda não faz jus à história do futebol brasileiro. Desde o Cruzeiro de Alex em 2003, não se vê um time realmente memorável. E mesmo com o formidável surgimento de alguns nomes do ano passado para este, como os citados Ganso e Wallyson e mais Neymar e Lucas, entre outros, eles ainda são poucos e novos. Que bom que o Brasil ganhou os últimos mundiais sub-17 e sub-20, mas, claro, ainda é preciso que essa geração amadureça.

Esse engano sobre a real qualidade geral do futebol jogado hoje em gramados brasileiros foi visto também na reação a jogos como o primeiro da final entre Corinthians e Santos, domingo passado, no Pacaembu. Por ter tido três bolas na trave e algumas chances reais de gol, como a bola de Danilo encobrindo Júlio César que Chicão afastou, o empate por 0 a 0 foi considerado emocionante, um "jogão", etc. Não foi nada disso, embora não tenha sido monótono. Os dois times atacavam com poucos jogadores, de forma desarticulada, com número impressionante de erros de passes e chutes. Os laterais subiam pouco, os meio-campistas se concentravam na marcação, ninguém mostrava visão de jogo. Ambos os treinadores pensaram antes em anular do que em açular o outro. Fora algumas jogadas de Neymar, quase nada se via de criativo ou inteligente.

Felizmente o jogo não seguiu a rotina vigente no futebol nacional, a de uma quantidade de faltas de dar inveja a retrancas italianas. Pois não dá para refletir sobre o assunto sem considerar este dado. Tido e pranteado como um futebol "técnico", ele é cada vez marcado por trombadas, por desprezo à posse de bola, por jogadas aéreas. Jogadores como Neymar e Lucas vão na contramão. Precisamos recriar uma cultura que dê ênfase a esse estilo, brasileiro por excelência, que não confunde futebol-arte com malabarismo nem futebol-ciência com burocracia, que combina a invenção com a maestria. Como Pelé, que antecipava jogadas como um enxadrista e desconcertava zagueiros como um ilusionista, precisamos abandonar as dicotomias. Só aí deixaremos de viver apenas de quase aposentados e pseudo revelações.

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 11/05/2011.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Invictus


Fernando Matsumura

Esse filme a torcida do Flamengo conhece bem: nos últimos 05 anos, conquistou nada menos do que 04 campeonatos estaduais (2007, 2008, 2009, 2011). E mais uma vez a torcida rubro-negra soltou o grito de campeão. Assim como em 2009, quando ergueu a taça de campeão brasileiro e teve como um dos protagonistas uma figura controvertida – Adriano, o Imperador – em 2011, o expoente desse novo Flamengo se chama Ronaldinho. Não o Gaúcho, aquele que tanto nos encantou com seu futebol freestyle, mas o Carioca, aquele que sob a veste do manto sagrado, jogou pragmaticamente ao longo de todo o campeonato para se consagrar em sua 1ª temporada como campeão carioca invicto.

Dirigido pelo técnico Wanderley Luxemburgo, o time rubro-negro, que ainda não sofreu uma derrota nessa temporada, manteve a regularidade durante toda a competição, apesar dos números: conquistou a Taça Guanabara (1º turno) atropelando seus adversários, jogando um total de 09 partidas, com 08 vitórias. No entanto, apesar da conquista da Taça Rio (2º turno), o time obteve apenas 04 vitórias, em 10 partidas disputadas. Embora a queda de rendimento se justificasse pela presença já garantida na final, após vencer a Taça Guanabara, bem como pela disputa em paralelo da Copa do Brasil, o time vem apresentando dificuldades de criação e sem padrão de jogo definido, o que pode complicá-lo na reta final da Copa do Brasil. Se Luxembrugo pretende repetir o feito do Cruzeiro em 2003 quando conquistou a Tríplice Coroa, precisará mais do que Morgan Freeman (como Mandela) fez para motivar seus jogadores.

* Fernando Matsumura, torcedor do Flamengo, é colaborador do Ludopédicas.

Vitória do futebol

Tostão

Começaram os decisivos clássicos estaduais. Ontem, o Santos venceu por 2 a 0. O São Paulo criou várias chances de gol, mas finalizou mal. Foi a vitória do time que tem o melhor técnico e os dois melhores jogadores do Brasil. No segundo tempo, o Santos melhorou depois que Muricy trocou o centroavante Zé Love, amigo do Neymar, por um terceiro zagueiro (Bruno Aguiar) e adiantou os laterais, Elano e Ganso. Os técnicos estão descobrindo que um time não precisa, obrigatoriamente, ter um típico centroavante.

Hoje, Palmeiras e Corinthians têm as mesmas chances, embora o Palmeiras seja mais organizado. Discordo que seja um time de operários. Além de Valdivia e Kleber, que estão no nível de quase todos os melhores jogadores que atuam no Brasil, vários outros têm as mesmas condições técnicas que a maioria dos que jogam nas principais equipes brasileiras.

No Rio, outro clássico sem favorito. Parte da mídia e dos torcedores, por convicção, por não gostar de Luxemburgo ou pelos dois motivos, critica o Flamengo, mesmo invicto há 24 jogos, por não encantar, como se tivesse craques para isso. O time é igual aos outros. Ronaldinho, há muito tempo, é apenas um bom jogador.

Mudo de assunto. Ganso foi muito criticado por dizer que quer jogar na Europa, e Juninho Pernambucano, muito elogiado por voltar e jogar de graça pelo Vasco. Penso diferente. Ganso foi sincero, disse quase o óbvio, e isso não significa que não tenha afeição pelo Santos nem que não vá se esforçar para jogar bem.

Juninho, e qualquer atleta, mesmo rico e agradecido ao clube, precisa ser profissional, cumprir obrigações e exigir direitos, a não ser que volte somente para receber homenagens e encerrar a carreira. Quem não ganha não pode ser cobrado. Isso prejudica sua atuação. As relações têm de ser profissionais. O que precisa ser criticado é o profissionalismo ganancioso e irresponsável.

Do Brasil, viajo para a Espanha. Bastou o Real Madrid empatar com o Barcelona, graças a um pênalti inexistente, e ganhar por 1 a 0 na prorrogação para os adoradores de Mourinho ficarem eufóricos e dizerem que foi uma vitória da tática e que o Real passou a ser o favorito na Copa dos Campeões. Gostam mais de Mourinho do que de Messi.

Mesmo depois dos 2 a 0, nada está decidido. O Real ainda tem chances porque possui um excelente técnico, apesar de querer ser mais importante que o futebol, e, principalmente, porque tem vários excepcionais jogadores, ainda mais livre do violento Pepe, merecidamente expulso.
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 01/05/2011.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

"The Busby Babes"

Kenneth Maxwell 


Em 6 de fevereiro de 1958, o voo da British European Airways que transportava o time do Manchester United para a disputa das semifinais da Copa Europeia de Futebol contra o Estrela Vermelha de Belgrado caiu em sua terceira tentativa de decolagem, depois de um pouso para reabastecimento em Munique.

A queda teve 28 vítimas fatais, entre as quais oito jogadores e três dirigentes do Manchester United. Matt Busby, o lendário técnico da equipe, sofreu sérios ferimentos. Ele só voltaria a Manchester de trem e via balsa, 71 dias depois.

Matt Busby assumiu o comando do Manchester United em 1945, depois de servir na Segunda Guerra. Recrutou Jimmy Murphy como seu assistente técnico depois de ouvi-lo fazer uma preleção a um time de futebol formado por soldados ingleses na Itália.

Na década de 50, Busby e Murphy montaram um time de adolescentes, conhecidos afetuosamente como "Busby Babes". Em 1956-57, o Manchester United chegou à semifinal da Copa Europeia, e foi derrotado pelo Real Madrid.

Após o desastre em Munique, Jimmy Murphy, que não havia acompanhado a equipe porque estava dirigindo a seleção do País de Gales em uma partida contra Israel pela classificação à Copa do Mundo, em Cardiff, convenceu a diretoria do Manchester United a não suspender temporariamente as atividades do clube.

Ele escalou uma equipe improvisada com dois sobreviventes da queda, sete reservas e dois jogadores contratados às pressas e, em 19 de fevereiro, derrotou o Sheffield United por três a zero em uma partida pela quinta rodada da FA Cup (Copa da Inglaterra).

Em 3 de maio, 85 dias depois do desastre em Munique, o Manchester United superou todas as adversidades e chegou à final da FA Cup, em Wembley, perdendo por dois a zero para o Bolton Wanderers.

Bobby Charlton, um dos "Busby Babes" e sobrevivente da queda em Munique, descreveu Jimmy Murphy como "o maior professor de futebol que conheci". O Brasil, então campeão mundial, tentou, sem sucesso, contratá-lo.

Nesta semana, a BBC contou a história daquele período heroico num filme evocativo, intitulado "United", recordando uma época em que os garotos locais de classe operária se davam bem no Old Trafford.

Hoje, o Manchester United é controlado pelo empresário americano Malcom Glaser. O futebol está a anos-luz de distância dos dias difíceis da década de 50 e se tornou um grande negócio internacional.

A Argentina tem 1,8 mil jogadores na Europa; o Brasil tem 1,44 mil. No Manchester United, atual líder da Premier League, há jogadores de 11 nacionalidades. Sir Alex Ferguson, o escocês que treina o Manchester United, é o técnico de maior sucesso na história do futebol britânico.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/04/2011.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A funcionalidade do chute no vácuo

Jogasse nos tempos de hoje, Garrincha não seria considerado um artista, mas um expoente da falta de fair play, a ética futebolística segundo a cartilha civilizatória dos campos do Velho Continente e dos velhos cartolas da FIFA. Os joões, por sua vez, seriam o supra-sumo dos operadores da bola, carregadores de piano incapazes de tocá-lo com maestria.

Passada a patrulha sobre Neymar, recaem as acusações dos idólatras do futebol Dunga – ou, se quiserem algo mais “moderno”, do futebol Felipe Melo – sobre o “mago” Valdívia. Na falta dos pênaltis com paradinha ou dos rebolados de Edmundo, o principal exemplo de falta de fair play agora é o “chute no vácuo”. A finta, executada de sobejo pelo chileno do Palmeiras, caracteriza-se por fazer que se vai chutar a bola, chutando o vento. O joão, ou seja, o adversário a marcar Valdívia, é induzido a sair do lugar para interceptar uma bola que permanecerá inerte. Passa por bobo, é certo, mas cumpre a função essencial de vítima, necessária ao futebol arte. Exatamente igual ao adversário de Mané Garrincha quando este ameaçava correr, deixando a bola parada.

A principal acusação que recai sobre o “chute no vácuo” é que não seria objetivo, servindo tão-somente para desdenhar, humilhar, esculachar, enfim, o pobrezinho do companheiro de profissão (oh, dó!). Não obstante, mesmo se considerássemos que tudo no jogo de bola é ou deva ser objetivo, a acusação, ainda assim, é injusta. Tratando-se de objetividade, o lance de Valdívia satisfaz, pelo que contei, três funções claras e próprias do futebol.

A primeira função é tática: como em outra finta ou drible, Valdívia desvencilha-se do marcardor, ganha espaços para avançar, dar assistência a um companheiro ou mesmo chutar a gol. Mexe uma peça adversária e faz com que as peças palmeirenses abram vantagem na distribuição dos espaços no gramado.

A segunda função é psicológica: retomando – pela enésima vez – a tese do doutor Sócrates, segundo a qual o futebol é sobretudo um jogo psicológico, não comportando peças, consoante a perspectiva anterior, mas homens e suas emoções, o “chute no vácuo” faz com que o marcador, em particular, e todo o escrete adversário, em geral, perca a cabeça. Saindo do eixo, desequilibrando-se emocionalmente, é claro que a equipe de Valdívia tenderá a envolver o adversário que, ademais, tenderá a apelar para a violência e ficar com jogador(es) a menos em campo (que o diga Anderson, do Santo André).

A terceira e última função é estética: com respeito aos carregadores de piano, mas se não houvesse quem tocasse o instrumento com a primazia de um craque, o futebol seria tão empolgante quanto o rugby e Domingos, da Portuguesa, deporia Pelé do trono, assumindo ele a condição de rei.

Pelo exposto, salve o chute no vácuo, as dancinhas, os chapéus, os elásticos, os carretéis (viram o lance de Leandro Damião na partida entre Internacional e Juventude?!) e toda a sorte de demonstrações do talento ludopédico.

Termino com um pedido aos apologistas da ética do talento como inimigo do fair play: deixem o “chute no vácuo” em paz ou, se quiserem, passem a aplaudi-lo como fazem os que realmente amam o bom futebol. Sob pena de, não o fazendo, tornarem o futebol atual, já tão diminuto de grandes talentos, num verdadeiro “chute no saco”.

JFQ

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Santos, 99


Juca Kfouri

A vitória santista sobre o Cerro Porteño veio na hora e no dia certos: na data do 99º aniversário do clube que teve o melhor time da história do futebol em fins dos anos 50 e princípios dos 60 do século 20.

Ao começar seu centésimo ano de vida, o Santos, mesmo com três desfalques tão importantes, fruto de uma noite insana em que fez tudo errado na Vila Belmiro, superou as melhores expectativas e se impôs em Assunção do Paraguai.

Como em seus melhores tempos.

Tempos que os sessentões viveram intensamente, fossem ou não santistas por opção, mas obrigatoriamente santistas por amor ao futebol.

Aquelas camisas brancas, aqueles calções brancos e aquelas meias brancas, que sobressaíam principalmente nos jogos noturnos e iluminados pelo lusco-fusco que nem de longe lembra as iluminações feéricas de hoje em dia, só eram menos mágicos que aqueles negros que se confundiam, tamanha a arte que desfilavam pelos gramados do mundo, para encantá-lo.

Era Dorval, era Coutinho, era Pelé, quem era?

Sim, teve ainda Gylmar dos Santos Neves, Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos de Oliveira, Calvet, como Ramiro e Álvaro, Jair, Zito, Mengálvio, Pepe, Pagão, Toninho Guerreiro, Almir Pernambuquinho, Lima, Haroldo, Rildo quantos!

Só craques, acredite.

Não, Pelé não pode ser citado apenas entre tantos jogadores admiráveis, alguns geniais mesmo. Mas sempre é bom destacar que se Ele participou dos famosos 5 a 2 no Benfica (o melhor jogo de que participou em sua carreira, segundo o próprio), no estádio da Luz, em Lisboa, na decisão do Mundial de Clubes de 1962, em 1963 Ele não estava quando veio o bicampeonato em duas batalhas memoráveis contra o Milan, no Maracanã lotado.

A primeira delas, sob chuva torrencial, é dos jogos que marcam uma vida.

Porque os italianos, liderados pelo brasileiro e ex-botafoguense Amarildo, o Possesso da Copa do Mundo de 1962, no Chile, saíram com 2 a 0 no placar no primeiro tempo, depois de terem vencido em Milão por 4 a 2.

Já eram os campeões mundiais quando São Pedro integrou-se ao time do, é claro, Santos, e Pepe, Mengálvio, Lima e Pepe de novo viraram para 4 a 2, forçando o terceiro jogo, então chamado de "negra", que os praianos venceram com pênalti cobrado por Dalmo, o patinho feio que virou cisne.

Desculpe, meninos, mas eu vi.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 17/04/2011.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os machões dançaram

Xico Sá

Amigo torcedor, amigo secador, de repente todos viraram Bolsonaros no ginásio do Riacho, em Contagem, Minas Gerais. Crianças, seguindo a fúria de pais e mestres, vestiram a máscara de Bolsonarinhos. Respeitáveis senhoras da sociedade também bolsonarizaram. Os machões, nem se fala, arrotaram testosterona com bílis verde-oliva.

O bolsonarismo homofóbico tinha como alvo Michael, jogador do Vôlei Futuro, de Araçatuba, que enfrentava o Cruzeiro. O atleta não deixou barato. Com o apoio de seu time e de dirigentes, reagiu publicamente, lavrou protesto e assumiu que era gay mesmo, e daí, qual é o problema, exigiu respeito.

Foi muito mais macho, aqui em um sentido de bravura, do que a massa covarde embalada pelo bolsonarismo latente. "Fiquei constrangido. Já tinha acontecido antes, com grupos menores. Mas foi a primeira vez que vi um ginásio inteiro gritando alto e bom som "gay, bicha". Foi por isso que me manifestei", contou Michael à Folha.

Ninguém é obrigado a se declarar gay e sair do armário. Seja no mundo esportivo, mais conservador e machista do que o pátio dos caminhoneiros, seja na repartição pública. Mas Michael, ao assumir a homossexualidade, deu uma bela contribuição contra o preconceito.

Lá na cidade de Goianinha, a 54 km de Natal (RN), o goleiro Messi, 24, do Palmeira local, aplaudiu a decisão do voleibolista. Ele é um caso raro de jogador de futebol que assume publicamente a orientação sexual. E recomenda o mesmo comportamento aos colegas de bola.

"Depois que assumi [há quatro anos], até mesmo as pequenas manifestações desapareceram. Agora, no máximo, surgem umas brincadeiras", conta o número 1 do Verdão do Agreste. "Além do respeito, me tratam com carinho, dengo, sou o xodó da torcida, como dizem por aqui."

Messi foi o principal responsável pela subida do seu time para a primeira divisão do Campeonato Potiguar. Herói em Goianinha, cidade de 20 mil habitantes, diz que, ao sair do armário, ganhou liberdade também fora de campo. Vai para os forrós, namora, aproveita a vida em público sem constrangimentos.

Os machões dançaram, velho Norman Mailer. Michael e Messi (Jamerson na pia batismal) ficam como exemplos contra a barbárie bolsonarística. Que pode se manifestar em qualquer local e hora. Em Minas ou nas gangues homofóbicas da avenida Paulista.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/04/2011.