quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tiranos dos estádios

Antero Greco



Vira e mexe, a tevê mostra torcedores com cartazes singelos, na base do “Mamãe, olha eu aqui”, “Galvão, me filma”, “Amor, te amo!” e coisas do gênero. Não faltam, também, imagens de crianças, senhoras, jovens a tomar sorvete. “As famílias de volta aos estádios”, exultam narradores empolgados. Uma impressão de ambiente descontraído, sereno, alegre e democrático. Certo? Errado.

Os campos de futebol tornaram-se lugar de autoritarismo, arbítrio, repressão. Sem espaço para democracia. Começa pelo clima tenso nos meios de transporte. O sujeito corre risco de linchamento, se cruzar com rivais, no ônibus, no metrô – ou a pé mesmo. Caminhar com camisa da equipe só em grupos, como as organizadas. Caso contrário, é colocar a cabeça a prêmio.

Depois, há a intimidação dos flanelinhas ou a ação escorchante de cambistas. No portão, se o guarda se invocar, o infeliz não entra nem com faixas engraçadas. E, se a fila demora a andar, pode ser atropelado por cavalos, nos sentidos literal e figurado. Lá dentro, arrisca-se a ver o cartaz confiscado, se o árbitro considerar que contenha frase ofensiva. Tem mais: o bolso lhe é tungado, se sentir vontade de comer ou de beber algo. E o nariz é aviltado, se usar o banheiro.

A maior afronta que sofre, no entanto, está na liberdade de torcer, de curtir o espetáculo, de aplaudir os ídolos, de exercer a cidadania pelo lazer. As arquibancadas pertencem a bandos de machistas, truculentos, de tiranetes que determinam como os outros devem comportar-se. E não necessariamente os “inimigos”; impingem regras despóticas para os seguidores de seu próprio time.
 

Os covardes se fortalecem sob a certeza da impunidade, escorados no famoso “não vai dar nada mesmo”, e não têm mais noção de dignidade. Exemplo chocante ocorreu no domingo, após o jogo em que o São Paulo empatou com o Coritiba (1 a 1), no Couto Pereira. O meia-atacante Lucas ouviu os apelos de uma fã, aproximou-se das arquibancadas e lhe atirou a camisa que vestia.

A adolescente Milenna, 13 anos, viveu naquela tarde momento inesquecível, para o bem e para o mal. Assim que agarrou o presente se viu cercada por brucutus irados, por acéfalos que a xingaram e ameaçaram. O pai, assustado, tentava dialogar com os estúpidos, apavorado com a perspectiva de ver sua menina agredida. A camisa tricolor foi jogada no fosso. A PM não interveio e Milenna conheceu a realidade das arquibancadas.

Impressionantes alguns desdobramentos do episódio. Nas redes sociais, não foram poucos os jovens a argumentar que a mocinha e o pai dela “vacilaram”. Postura de certa forma corroborada por Vilson Andrade, presidente do Coritiba. O dirigente afirmou, para a rádio CBN, que iria acionar responsáveis pelo incidente, “inclusive o rapaz (Lucas) que jogou a camisa”, como se no gesto delicado estivesse embutida hostilidade. Voltou atrás.

Fere saber que muitos entendam como lógica e normal a submissão à vontade das quadrilhas de boçais. Envergonha ler comentários de que estavam certo torcedores do Corinthians que exigiram a expulsão de um turista escocês, que no domingo foi ao Pacaembu ver o jogo contra o Sport com camisa do Celtic (verde e branca).

Acham natural que atitudes fascistas esmaguem o direito que temos de nos vestir como queremos, de nos divertirmos num campo de futebol. Pessoas assim também vão dizer que ditaduras são inevitáveis, irão justificar linchamentos, aplaudirão esquadrões da morte. E nem se darão conta de que, assim, vivem presas ao medo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 03/10/2012.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Placar" crucificada

Xico Sá
 
 
 
 
Amigo torcedor, amigo secador, uma ótima ideia a da "Placar", digna dos tempos gloriosos da publicação, foi, mesmo antes de a revista chegar às bancas e ser lida, rebaixada à condição de polêmica santa, cega e sem juízo.
As redes sociais da Internet, tais como algumas pracinhas moralistas e fofoqueiras do interior, pegaram uma capa antológica para Cristo. Nela aparece o genial e genioso Neymar, do Santos FC mais uma vez campeão deste ano, crucificado como Jesus.
Os editores da revista usaram a crucificação como castigo público, talvez a imagem simbólica mais velha e popular do mundo, para discutir as acusações contra o atacante do Peixe e da seleção canarinha.
A capa explica o motivo de pregar o jogador na cruz: "Chamado de 'cai-cai', o craque brasileiro vira bode expiatório em um esporte onde todos jogam sujo". Você pode discordar ou não do pensamento, mas daí a fazer disso uma guerra pentecostal contra a sacada da "Placar", pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para muitos, a revista estava comparando Neymar com o homem de Nazaré. Isso seria um pecado mortal. Os editores foram condenados ao inferno em segundos. Fico espantado com a treva, com a incapacidade de se fazer uma leitura menos religiosa e mais sensata.
Não duvido que alguns exemplares sejam queimados nos templos evangélicos e católicos. Se bem que, como discordam do uso e culto às imagens, algumas igrejas pentecostais não podem condenar por uma simbologia em que não acreditam.
Você pode até acusar a revista de apelativa, sensacionalista e outros adjetivos colados ao exercício do jornalismo desde Gutenberg. Não consigo ver nem mesmo este aspecto. Acho, no máximo, um recurso engraçado para ilustrar a reportagem. No tempo em que nossa imprensa era mais criativa e bem-humorada, tínhamos capas e mais capas, páginas e mais páginas desse naipe.
É certo que não existiam as redes sociais, e apenas umas raras cartinhas, lavrando o protesto moralista, chegavam às redações. Assim como é certeiro que jornalista é um bicho orgulhoso que não gosta muito de ser contestado, tem dificuldade para lidar com as críticas do ombudsman e não gosta de assinar o "B.O." da seção "Erramos".
Bom que o barulho do Facebook e do Twitter, em muitas ocasiões, seja capaz de desconstruir manchetes vendidas como bombásticas e arrasadoras etc. Tudo isso é muito positivo. A confusão com a metáfora da "Placar", porém, não faz sentido. Modestíssima opinião para tentar colaborar com o debate.
Usamos diariamente, até sem perceber, a imagem da crucificação. Fulano pegou alguém para Cristo etc. Sinceramente é muito barulho por nada, minhas caras irmãs Cajazeiras da pracinha do interior chamada Internet.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/09/2012.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Incertezas

Eduardo Maluf





A negociação envolvendo Ganso, Santos e São Paulo finalmente terminou. Não há vencedores nem perdedores nessa história, mas incertezas que só o tempo poderá desfazer. A maior delas é saber qual Ganso jogará no Morumbi. Aquele que brilhou na primeira metade de 2010 e passou a ser rotulado de craque ou o dos últimos dois anos, que pouco produziu.

O São Paulo faz aposta num atleta que vive de altos e baixos, sofre seguidas lesões, mas tem indiscutível talento. A tentativa é válida para um clube que tem dinheiro e vive num marasmo desde 2009, sem títulos e com participações fracas nas principais competições.

Por mais que o valor pago tenha sido expressivo, dificilmente os são-paulinos terão prejuízo. Ganso é jovem (completará 23 anos em outubro) e, mesmo que não se destaque tanto, em breve será negociado com a Europa por quantia no mínimo igual.

O meia estava insatisfeito na Vila Belmiro havia tempo, cenário que pode ter prejudicado seu futebol. Mas não podemos esquecer que ele teve boas chances na seleção e também não foi bem. Fracassou na Copa América de 2011 e saiu apagado da Olimpíada de Londres.

Seu grande momento ocorreu em 2010, quando foi protagonista, ao lado de Neymar, da conquista do Paulistão e da Copa do Brasil pelo Santos. Depois, viveu de lampejos, como na vitoriosa campanha da Libertadores de 2011, em que decidiu alguns jogos e ficou fora de outros por contusão.

Num ambiente novo, e mais motivado, o atleta pode ser importante para o São Paulo. É raro, atualmente, vermos um meia técnico e inteligente como o ex-santista. A posição é carente na equipe tricolor e na maioria dos clubes do Brasil. Caso se acerte com Luis Fabiano, pode ajudar a recolocar o clube no caminho do sucesso, perdido desde o tricampeonato brasileiro (2006, 2007 e 2008).

O torcedor são-paulino, porém, não deve se iludir. Ganso não ganha partidas sozinho como faz Neymar - aliás, o Santos sem Neymar é como a seleção argentina sem Messi. Em 2009 e 2010, muitos levantavam a questão sobre quem era o grande nome do Santos. Hoje a resposta é fácil. O atacante decolou e se tornou o número 1 do País. O meia não se transformou no gênio apontado por tanta gente.

Na pior das hipóteses, a negociação vai mexer um pouco com o clima do Morumbi, deve agitar o elenco. O São Paulo anda num período de dormência, desacostumado a grandes decisões, situação pouco comum em sua história recente. Boa parte do grupo atual parece desprovido de ambição. Se ganhar, ótimo! Se perder, tudo bem... Esse comportamento não combina com a grandeza do clube, tricampeão da Libertadores, tricampeão mundial.

Ganso está longe de ser um Pita, meia habilidoso, ídolo dos anos 80, ou Raí, astro da década de 90, mas certamente vai melhorar a qualidade do insosso meio-campo do São Paulo. Desde que sua condição física deixe de prejudicá-lo tanto.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 21/09/2012.

Hillsborough

Kenneth Maxwell




Em 15 de abril de 1989, a semifinal da FA Cup foi realizada no estádio Hillsborough, em Sheffield (Inglaterra). O Liverpool levou 50 mil de seus torcedores ao estádio para a partida contra o Nottingham Forest. E aquele seria o pior dia na história do futebol inglês.

Tumultos causados pela superlotação da área reservada aos torcedores do Liverpool resultaram na morte de 96 pessoas -homens, mulheres e crianças. Centenas de feridos e milhares de torcedores saíram traumatizados. E foram necessários 23 anos para que a verdade completa sobre o que aconteceu fosse revelada.

Na semana passada, uma comissão independente presidida por James Jones, bispo anglicano de Liverpool, publicou relatório revelando pela primeira vez a extensão do desastre, o acobertamento do acontecido pelas autoridades e o sofrimento das famílias das vítimas, acusadas pela polícia de causarem as próprias mortes.

O relatório descreve a reação caótica e incompetente da polícia e do serviço de ambulâncias, e o acobertamento perpetuado e sustentado pela polícia -até que o relatório revelasse, em todo o seu horror, o acontecido por meio da análise de milhares de documentos até agora sigilosos.

Os anos 80 foram caracterizados pela violência nos estádios de futebol. Ataques de torcedores do Liverpool causaram a morte de torcedores da Juventus em Bruxelas. A então premiê Margaret Thatcher tinha dívidas com a polícia devido às ações de policiais contra a greve dos mineiros.

Mas o relatório desacredita completamente a versão do incidente oferecida pela polícia e pelo jornal "The Sun", que, em artigo sob o título "A verdade", afirmou que os torcedores do Liverpool haviam agredido e urinado nos policiais que estavam tentando salvar os feridos, tinham roubado objetos dos mortos e estavam bêbados. O novo relatório indica que todas essas alegações sobre o comportamento desses torcedores no transcorrer da tragédia eram falsas.

O relatório constatou que 116 dos 164 relatórios policiais sobre o incidente foram adulterados. Demonstrou que não havia provas de violência ou embriaguez de parte dos torcedores do Liverpool. Não há indícios de que tenham roubado objetos dos feridos ou mortos. Na verdade, esses torcedores se esforçaram para remover mortos e feridos com macas improvisadas, e novas provas sugerem que 41 das 96 vítimas fatais poderiam ter sido salvas.

Os torcedores do Liverpool foram vítimas de um acobertamento. Mais ou menos como a polícia britânica reagiu quando da morte de Jean Charles de Menezes, com policiais agindo para se protegerem das consequências de suas ações.

O premiê pediu desculpas. As famílias das vítimas de Hillsborough querem processos criminais contra os responsáveis.


Tradução de PAULO MIGLIACCI
Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/09/2012.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A história pune

Antero Greco


O temor do estudante é repetir de ano. Trata-se de medo atávico de todo sujeito com inteligência mediana que frequentou bancos escolares. Só os gênios riem do perigo de ficar na mesma classe, por outro período, enquanto os colegas avançam, progridem, se aperfeiçoam.

Repetência existe no futebol e vem na forma de Série B. Cair é um pavor que tira o sono de time decente, que causa calafrios em dirigentes zelosos. Exceto clubes com perfil e vocação adequados para a divisão de acesso, como eufemisticamente se chama a passagem pelo purgatório esportivo, os demais se incomodam com rebaixamento. A queda humilha quem tem amor-próprio.

A história mostra que o descenso vira lição inesquecível e encorajadora, desde que saiba aproveitá-la. O Corinthians campeão da América é prova disso. Caiu em 2007, mas depois ganhou Paulista e Copa do Brasil em 2009, Brasileiro em 2011 e a inédita Taça Libertadores em 2012. A história também pune os teimosos e zombeteiros, que encaram a experiência na Segundona como tropeço ocasional e irrepetível, e desdenham a possibilidade de encará-la de novo.

O Palmeiras encaixa-se nessa categoria. Dez anos atrás, viveu o vexame de ser escorraçado da elite, sem um esboço sequer de reação da diretoria. Na época era comandado por mago da administração que havia optado por elenco "bom e barato", virava as costas para a equipe e se preocupava com sede, com indicação de conselheiros vitalícios, com a unidade de sua turma, com a permanência no poder e sabe-se lá com que diabo mais!

O time foi promovido em 2003, voltou para o paraíso em 2004, mas de lá para cá não se livrou das sequelas daquele episódio. O complexo de inferioridade, plantado e regado com esmero pela visão arcaica de seus guias, se consolidou, rendeu, deu frutos - o mais recente pode ser o retorno para a Série B ao final da temporada. O título paulista de 2008 e o da recente Copa do Brasil foram acidentes de percurso, fenômenos passageiros, que iludiram os torcedores e só fizeram reforçar a mentalidade de gente que parou no tempo. E teve ainda assombração que voltou a dar as caras na Turiaçu! Incensado como guru!

O bando de rapazes esforçados (mas, na maioria, tecnicamente limitados) a correr sem rumo, ontem à tarde, no clássico com o Corinthians, é o retrato do Palmeiras, dentro e fora de campo. Um Palmeiras menor, amedrontado. Um Palmeiras sem ousadia, sem equilíbrio. Um Palmeiras espezinhado, maltratado - mais por quem aparentemente veste suas cores do que pelos rivais.

O gesto de Romarinho, ao festejar o primeiro gol com beijo no escudo corintiano e perto da torcida palestrina, não foi ofensivo, como equivocadamente entenderam Luan e companheiros. Aborrece, e não é de hoje, executivo assumir ar blasé diante de catástrofe iminente, fazer galhofa na hora da tensão para mostrar serenidade, apelar para ironia que não escamoteia a incompetência, demitir treinador para livrar a própria pele.

Luan não é o vilão da vez; é vítima do movimento interno para apequenar o Palmeiras. Luan é dos que mais suam a camisa, uma camisa que, em outras épocas, não vestiria. Discussão à parte sobre os amarelos (ambos exagerados) recebidos por ele, o destempero que mostrou nos 26 minutos em que ficou no gramado sintetizou o que passa na mente desse grupo: a perspectiva de cair o apavora.

O torcedor, porém, não deve ver os atletas como traidores. A traição maior comete quem desprezou a história e as lições de 2002/2003.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 17/09/2012.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Recomeçar do três

Antero Greco



Acabou a segunda passagem de Luiz Felipe Scolari pelo Palmeiras. E de maneira melancólica, na forma de demissão na hora errada. Uma ruptura antes inimaginável para técnico com identificação tão grande com o clube, talvez menor só do que aquela de Osvaldo Brandão. (Os torcedores mais veteranos sabem o quanto o antigo mestre foi importante.)

A saída encontrada pela diretoria não fugiu à regra dos momentos de crise, com a equação mais simplória e desgastada do futebol: o time vai mal, a culpa é do treinador. Ele pega o boné, os jogadores ganham motivação, a torcida se acalma, a barra da cartolagem fica limpa, chama-se um substituto para apagar o incêndio e... e seja o que Deus quiser.

Os números não ajudavam e é difícil referendar as 14 derrotas. Contusões, suspensões, erros de arbitragem pesam, mas não justificam integralmente o retrospecto devastador. O time caminha para a segunda experiência na Série B em dez anos e o treinador tem parcela de culpa. Não se pode eximi-lo, assim como é preciso reconhecer-lhe a fidelidade ao clube, ao assumir muitas vezes tarefas dos dirigentes. Felipão tinha cacife para continuar. Errado achar que o Palmeiras virara refém dele. Talvez tenha virado presa de chinelinhos...

Adiantará pouco a dispensa do técnico, se não mudar a mentalidade no Parque. Nos últimos anos, passaram pela Turiaçu nomes consagrados como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, para ficar nos muito badalados, e não satisfizeram. Não tiveram capacidade para devolver à equipe a aura vencedora; de quebra, contaram com menos paciência e respeito do que Scolari. Coincidência o fracasso? Não, só prova de que a raiz do mal é mais profunda do que a eficiência dos métodos do professor do momento.

O Palmeiras sofre de fadiga de ideias que se arrasta há muito tempo. Começou no final dos anos 1970, ainda com o time empolgante (embora frágil) guiado por Telê Santana. Depois, veio a década perdida dos anos 1980. O ressurgimento se deu com o dinheiro da Parmalat, nos anos 1990, para a decadência ser retomada com força neste milênio.

O Palmeiras parou, ficou encalacrado no século 20, perdeu o trem da história em diversas ocasiões e não aprende. Os métodos de sua política de hoje em essência não diferem dos usados pelos antepassados que viviam nas montanhas da Campânia, da Calábria, da Sicília. Antes e agora são movidos por impulsos toscos, com diferenças: os nonnos eram rudes e analfabetos. Porém, leais a seus princípios. Respeitavam a terra de onde tiravam o sustento, amavam a família, eram prósperos. Com essa visão, os imigrantes fundaram o clube.

Os valores bons dos velhinhos do Palestra original foram empurrados para baixo do tapete. Pelo jeito, deles ficaram a prática das vendettas e o gosto pela conspiração e a polêmica. O Palmeiras foi minado pela briga por poder. E o torcedor? Este não quer saber se o comando é da turma da harmônica, do califa, do papaia, do tirano, da bocha. O palmeirense pede respeito por sua paixão e teme que esses grupos, daqui a algum tempo, estejam a disputar só carniça. Tenho pena do aficionado. Numa época em que futebol virou negócio tentador, paixão é sentimento de ingênuos.

Que o time vá para a Segundona, se for inevitável! Que a queda sirva para renovar, e banir quem é palmeirense de fachada. E que o Palestra recomece de três, como o personagem do napolitano Massimo Troisi num filme que não passou nos cinemas daqui. Pois três coisas boas não lhe faltam: torcida, história rica e o novo estádio.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 14/09/2012.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Morre Félix, goleiro da seleção brasileira na Copa de 1970




Félix Miéli Venerando, goleiro da seleção brasileira na Copa de 70, morreu nesta sexta-feira pela manhã aos 74 anos. O ex-jogador lidava com um enfisema pulmonar através de remédios e sessões diárias de oxigênio.
 
O goleiro foi revelado pelo Nacional, de São Paulo, e jogou na Portuguesa e no Fluminense e foi titular na conquista do tricampeonato, ao lado de Pelé, Tostão, Clodoaldo, Gerson e Rivellino.

Fonte: UOL http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2012/08/24/felix-goleiro-da-selecao-brasileira-na-copa-de-1970-morre-aos-74-anos.htm

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Keep Tense and Carry On"

Lúcio Ribeiro


Amanhã o Brasil pega a Suécia em amistoso festivo que serve de despedida do estádio em que ganhamos a Copa de 1958 e onde começamos a assombrar o mundo. Tudo neste noticioso trecho inicial é verdade.

Mas, além da simples notícia, ele é muito irônico. Alegria, tristeza, começos, fins. O clima não é de festa. É de funeral.

A dois anos de uma segunda Copa do Mundo em casa, tal amistoso vem poucos dias depois de o Brasil perder a Olimpíada mais ganha da história, batendo rivais fracos e perdendo a final para o primeiro selecionado médio que enfrentou. Isso com o "time-base" do Mundial-14, sob o comando do técnico "ideal" do Mundial-14, carregado pelo suposto futuro melhor jogador do planeta na projeção para 2014 etc.

O fiasco olímpico veio mostrar que continuamos a assombrar o mundo. Mas, desta vez, do modo negativo. Em 2011, o grito foi forte contra uma certa capa da revista inglesa "Four Four Two". O título da publicação era impiedoso: "A morte do Brasil". E trazia o símbolo da nossa camisa com um "RIP" (descanse em paz, do inglês "rest in peace") em vez de "CBF", a sigla da nossa empresa regente, da qual os ingleses adoram lembrar os escândalos.

Foi um sinal claro de que os gringos, principalmente os ingleses sempre tão apaixonados pelo Brasil, não estavam mais engolindo o "joga bonito" da propaganda. E, sem discutir os (bons) argumentos da reportagem, se ela fosse publicada agora, não ia ter muitas vozes contrárias. O que vai acontecer do pontapé inicial deste Brasil x Suécia de amanhã até o pontapé inicial do primeiro jogo do Brasil na Copa-14 move perfeitamente o mantra que virou título desta coluna, alusão contrária à famosa frase "Mantenha a Calma e Siga a Vida".

O Brasil ainda consegue façanhas. Para citar dois jogadores recém-vendidos e um cobiçado, Lucas e Oscar foram comprados por cifras astronômicas. Neymar é "incomprável". (Mesmo com a bola que vem jogando, continua um produto em alta. Basta ver esta Folha, com dois anúncios gigantes do jogador ao lado de textos sobre seu fracasso na edição de domingo. Neymar, fora do comercial contra a caspa, só apareceu mais quando foi vaiado.)

Vender jogadores por fortunas é um milagre que nosso futebol continua operando. Um caso algo recente, do atacante Keirrison (R$ 41 milhões para o Barcelona, sem nunca ter jogado pelo clube catalão), é exemplo didático-ilustrativo.

Claro que o Brasil fez por merecer ser chamado de "país do futebol" um dia, mas há tempos que o marketing do "joga bonito" é maior do que a realidade. Não faz sentido ver uma placa no Manchester Stadium dizendo que ver o City é como ver o Brasil jogar. Não em tempos de Barcelona e Real Madrid. Continuamos enganando o mundo. Mas eles estão caindo cada vez menos. E daqui a dois anos vêm nos visitar.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/08/2012.

Pras cabeças

Antonio Prata





"Nunca tantos deveram tanto a tão poucos", disse Winston Churchill sobre os pilotos ingleses, na Segunda Guerra Mundial. "Nunca tantos perderam tanto por tão pouco", digo eu, sobre os bravos guerreiros brasileiros que nos representaram nesta Olimpíada.

Foi um tal de ouro virando prata, prata virando bronze e bronze virando nada, na última hora, que é o caso de nos perguntarmos se não há, por trás de todas essas frustrações, um traço comum. Seria apenas azar ou sadismo dos deuses a queda de Diego Hypólito, o vento de Fabiana Murer, o bronze do Cielo, o "apagón" diante do México e a perestroikada que os russos nos deram no vôlei, quando ganhávamos por dois a zero e já tinha brasileiro (eu) gritando "é glas'nós't na fita!"?

Só Nelson explica, meus caros, Nelson Rodrigues e seu imorredouro diagnóstico do nosso complexo de vira-lata.

O patrício pode ser alto, forte, rico, talentoso, pode ter treinado como um chinês e ter médias de americano, mas na hora do vamos ver, quando o juiz apita, quando corre em direção à linha, quando flexiona as pernas para dar o salto, ele se enxerga banguela, desnutrido, desassistido; ele fraqueja.

É por isso que, pensando na Copa de 2014, na Olimpíada de 2016 e no futuro da nação, venho aqui propor ao governo a criação do Ministério da Psicanálise: pois de nada adianta gastarmos bilhões em infraestrutura se não sanearmos os subterrâneos da alma nacional.

O leitor consciente e politizado dirá que não faz sentido abrir mais um ministério, aumentar o funcionalismo e a burocracia, dar mais cargos ao PMDB etc. Concordo. Peguemos então um ministério que já exista e troquemos sua função. O Ministério da Pesca, por exemplo. A Dilma assina um decreto e os funcionários daquela pasta passam, como Simão, depois de encontrar Jesus, a ser "pescadores de homens".

Na chefia, sugiro uma mulher, porque elas não são frouxas, como nós --basta ver de que maneira o time de Neymar digeriu o gol do México e de que forma a equipe de Jaqueline reagiu ao set perdido pros Estados Unidos. Indico, como ministra, a psicanalista e colunista deste jornal, Ana Verônica Mautner, que além de mulher é húngara, povo que pode ser acusado de muitas coisas (não sei quais, essa é só uma frase de efeito), menos de refugar na hora do salto.

O Ministério da Psicanálise vai descobrir as raízes profundas de nossa viralatência. Vai fazer com que o brasileiro e, mais ainda, o atleta brasileiro, que é antes de tudo um forte, enxergue no espelho uma imagem digna de sua grandeza. Ele merece, nós também. Afinal, pode ser doce morrer no mar, Caymmi, mas morrer na praia é amargo pra caramba.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/08/2012.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nada é por acaso

Paulo Calçade




O Brasil conquistou 17 medalhas nos Jogos Olímpicos. O resultado prático disso é que a cada 11,5 milhões de habitantes o País consegue levar um atleta ao pódio. Com um olhar diferenciado para a educação e o esporte, a Austrália deixou Londres com 35, uma a cada 645 mil pessoas. E desta vez sem ser brilhante.

Esses números funcionam como um indicador de competência. Nos últimos 17 dias, falou-se demais por aqui na formação de uma nação olímpica. Simples como se bastasse apenas um decreto presidencial para mobilizá-la. Sem educação, saúde e esporte na escola, não funciona.

A única maneira de aumentar a quantidade de medalhas é investir, mas desde que o filtro de talentos seja melhorado. Não tem mistério nem fórmula mágica.

Entretanto, o que deveria ser visto como uma fonte de boas notícias acabou se transformando em mais uma fissura no duto do dinheiro público. Hoje existe dinheiro para o esporte: do governo, das estatais e das loterias. Mas ele nem sempre chega ao atleta, perde força no caminho e desaparece.

Não seria óbvio e obrigatório exigir auditorias independentes das confederações, para que cada real tivesse sua destinação comprovada? Essas entidades até divulgam balanços, de vergonhosa transparência.

Nem a elite do futebol escapa dos problemas estruturais do esporte brasileiro, que mesmo com a medalha de ouro permaneceriam intactos. A derrota talvez faça a CBF pensar um pouco. Melhor começar agora que esperar pelo resultado do Mundial. Um pouquinho de gestão não faz mal a ninguém.

O México não merecia perder o ouro na decisão do futebol, e a explicação é bem simples: trabalhou mais e melhor que o Brasil para conquistá-lo. O pódio é determinante para a formação do time de 2014 e a cor do metal no pescoço dos jogadores dirá muito sobre o futuro de Mano Menezes.

A prata pode servir para os outros, nunca para o futebol, cada vez mais sem sentido nos Jogos Olímpicos. A seleção teve demasiados problemas defensivos contra os mexicanos, sofreu o primeiro gol aos 28 segundos e teve muita dificuldade para ultrapassar o bloqueio de uma equipe mais bem treinada.

É necessário reconhecer Londres como uma etapa da preparação. O torneio olímpico mostrou que parte do grupo, que será bem diferente daqui a dois anos, ainda necessita de um banho de futebol internacional para aprender a enfrentar as imposições táticas e psicológicas de um tipo de jogo ainda raro por aqui.

Nada acontece por acaso. Nove jogadores mexicanos campeões pan-americanos em Guadalajara no ano passado receberam o ouro em Londres.

O futebol é apenas parte dos Jogos Olímpicos e já faz tempo que está na marca do pênalti. Triste é a maneira como os demais atletas brasileiros são tratados. São 'amarelões', fracassados, incapazes... É muito fácil analisar do sofá de casa e voltar a falar deles daqui a quatro anos.

Nada acontece por caso. Nadinha!


Publicado em O Estado de São Paulo, em 13/08/2012.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Neymar e a história

Juca Kfouri


Neymar jogará onde Pelé jamais jogou --certamente numa pena maior para Wembley do que para o Rei do futebol.
Mas neste sábado, às 15h de Londres, 11h de Brasília, Neymar pisará a grama tão sagrada de Wembley para o futebol como a de Wimbledon para o tênis.
Além do mais, Neymar terá a oportunidade que Romário teve, em 1988, em Seul, na Coreia do Sul, e não aproveitou, ao perder o ouro para a União Soviética, por 2 a 1, na prorrogação. O time brasileiro de então era melhor que o de hoje, a começar pelo goleiro, Taffarel. E tinha Jorginho, Ricardo Gomes, Mazinho, Bebeto, um timaço jovem contra os profissionais soviéticos que se diziam amadores.
Se em 1984 a prata veio numa Olimpíada boicotada pelos países comunistas e mais fortes no futebol olímpico, a de 1988 bateu na trave, mas, novamente, frustrou.
Para chegar à finalíssima deste sábado, Neymar e companhia precisaram vencer exatamente os anfitriões da Olimpíada de 1988, os coreanos do sul, cada vez mais rápidos, cada vez mais altos, cada vez mais fortes e menos bobos.
E que chegaram a perder dois gols em más saídas de Gabriel e patacoadas de Juan, além de terem sofrido um pênalti do zagueiro brasileiro, que quase arrancou a cabeça do bom atacante Ji Dongwon, que joga no Sunderland britânico, no primeiro tempo.
A sorte brasileira foi que o time asiático tem em Lee Bumyoung um goleiro do nível de Gabriel e, de erro em erro dele, além da conhecida visão de jogo e senso coletivo de Oscar, nasceu o gol brasileiro, de Rômulo, que permitiu aos meninos de Mano irem para o intervalo com uma vantagem que, se não fazia justiça, também não ofendia ninguém.
Passou a ofender quando, logo no recomeço do jogo, outro pênalti, desta vez de Sandro, no mesmo Ji, não foi assinalado pelo árbitro tcheco.
Como não demorou para sair o segundo gol, de Leandro Damião, ficou uma sensação de facilidade que, definitivamente, não houve. Daí em diante, a coisa mudou, e em ritmo de samba, Damião fez mais um, ao seu estilo, para manter o aproveitamento de 100% da seleção.
Old Trafford, que esperava ver seus representantes britânicos na semifinal, lotou mais uma vez para ver os brasileiros, agora contra os algozes de seus patrícios. Coreanos que empataram com os finalistas do México sem gols, na primeira fase.
O Rei Pelé deverá torcer pelo novo ídolo santista pela TV, quem sabe ouvindo os comentários de Romário. Que estará nas tribunas para comentar a final, garantia de recorde de audiência da Record. E, caso o ouro venha, com direito a festa da torcida nas ruas, hipótese pouco provável, apesar de o time merecer a comemoração.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/08/2012.

Desafio ao Galo

Lúcio Ribeiro


Faz um tempinho que quero falar aqui sobre o Atlético-MG e sua simpática campanha no Brasileiro, mas sempre vou dando aquela empurrada para frente, firme na filosofia "É o Galo. Vamos esperar mais uma rodada".
Nem sou mineiro para ser tão desconfiado assim. E a culpa disso não é minha, mas sim do próprio Atlético. O time é que é danado para superempolgar e depois megafrustrar na mesma velocidade, na mesma intensidade. Quando parece que vai, não vai. Mas, desta vez, neste ano "estranho", além de em campo a equipe estar convencendo, a conjunção astral indica que a sorte atleticana está mudando. E, se o aspecto místico realmente contar, boto fé no Galo em 2012. Por dois motivos:
1. Dá tempo de o time finalmente ganhar o título, porque o Brasileirão tem sua última rodada (2/12) marcada para algumas semanas antes do tal fim do mundo (21/12).
2. Neste ano apocalíptico, Corinthians foi campeão da Libertadores, o Chelsea eliminou o Barcelona, o Manchester City foi campeão inglês...
É engraçado notar que as últimas cruzadas do Galo têm de alguma forma o rival Cruzeiro no caminho. Na era dos pontos corridos, as duas melhores campanhas do Atlético foram com o Celso Roth, atual treinador "inimigo". Em ambas, ficou em 7º (2003 e 2009).
Em 2003 o Cruzeiro foi o campeão. Em 2009, o Atlético passou o campeonato praticamente todo no G4, chegando a liderar como agora, mas perdeu o fôlego no final e viu a última vaga da Libertadores ir para o Cruzeiro, nos últimos minutos da última rodada.
Desde que o técnico Cuca assumiu, faz exatamente um ano amanhã (olha o Atlético ficando um ano sem mudar treinador!), o Galo ensaia uma recuperação definitiva de autoestima. Do time e do técnico.
O Atlético foi campeão invicto no Mineiro deste ano e fez a arriscadíssima contratação de Ronaldinho Gaúcho. A fase anda tão boa que o Ronaldinho, que já não jogava bem no Flamengo, está jogando menos ainda no Galo, mas consegue ser muito útil. Tudo porque o time joga num 4-2-3-1 e a presença do Danilinho na direita e especialmente do Bernard na esquerda fazem o esquema funcionar. Até o Jô está tendo seus momentos. E, enquanto Ronaldinho chama toda a atenção e Bernard vai fazendo golaços, o low-profile Pierre mineiramente segura a onda lá atrás como um gigante. Um diferencial que o Galo tem para este ano é que, agora, tem um goleiro de nível e boas peças de reposição.
E, fora tudo isso, quando o Atlético consegue se manter líder em uma rodada em que ele nem joga e podia ser ultrapassado, chegou mesmo a hora deste espaço falar do clube mineiro, porque talvez tenha chegado mesmo a hora do Galo.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 07/08/2012.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Moderno e romântico

Paulo Vinicius Coelho


O jornalista argentino Roman Lutch escreveu a biografia de Marcelo Bielsa (La Vida por el Fútbol - O último romântico). No capítulo da chegada do treinador campeão olímpico de 2004 à seleção do Chile, Bielsa define os princípios básicos do futebol moderno em três pontos: pressão, rotação e ataque.

A seleção de Mano Menezes tenta repetir esses princípios, mas sem alcançar resultados tão explícitos quanto os de Bielsa na Argentina campeã olímpica em Atenas. O Brasil joga com bola no pé, marca pressão - mas nenhum de seus 12 gols olímpicos nasceu de bola roubada na frente - e jogou seu melhor futebol quando fez Hulk, Oscar e Neymar mudarem de posição constantemente.

Não aconteceu contra Honduras.

Se não acontecer contra a Coreia do Sul, o Brasil terá problemas. A seleção sul-coreana joga com duas linhas de quatro bem estreitas. É diferente da ofensiva seleção sul-coreana treinada por Guus Hiidink, semifinalista da Copa do Mundo dez anos atrás com Hong escalado como líbero.

Uma das tentativas de Mano Menezes é deslocar Oscar para o lado do campo e jogar com Neymar por dentro, atrás dos volantes, perto do centroavante. Pode ser perfeito contra a Coreia.

Aberto pela esquerda, Neymar tornou-se previsível contra o Egito, em parte do jogo contra a Bielorrússia. Contra Honduras, os dois gols de bola rolando nasceram quando saiu da ponta para o meio, arrastando seu marcador.

Se não há rotação, não há futebol moderno, ensina Bielsa.

Sem pressão, também não. O Brasil precisa ainda acertar o momento de marcar no ataque e tomar a bola lá. O resto é atacar.

As lições de Bielsa levaram a Argentina a sua primeira medalha de ouro, oito anos atrás. Aplicá-las amanhã é a melhor maneira de o Brasil sair da caixa de fósforos com a qual os sul-coreanos tentarão defender-se.


 

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/08/2012.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Sim, hoje tem Brasil nas Olimpíadas!



Para os que têm dificuldade em saber dos acontecimentos do país e do mundo quando não são noticiados pela Rede Globo – um sério problema brasileiro este (ainda) quase monopólio, do qual, confesso, também sou vítima –, vai aqui um lembrete:

HOJE TEM JOGO DA SELEÇÃO BRASILEIRA MASCULINA DE FUTEBOL, PELAS OLIMPÍADAS DE LONDRES. SIM, JOGOS OLÍMPICOS, O PRINCIPAL EVENTO ESPORTIVO DO PLANETA!!!!!!!!!! A PARTIDA BRASIL X EGITO SERÁ TRANSMITIDA PELA RECORD (sim, a TV do Edir Macedo... fazer o quê), ÀS 15H45.

Questiono o seguinte: dizem que a Globo tem um jornalismo de primeira, quiçá o melhor entre os meios de comunicação do país. No entanto, a essência do jornalismo, na minha modesta opinião, é trazer às pessoas informações completas sobre fatos relevantes. Combinemos que, tratando-se de esportes, as OLIMPÍADAS são megarrelevantes. Então, como conceber esse jornalismo, que coloca interesses comerciais – às vezes também políticos, ideológicos, etc. – à frente do princípio de informar, como o suprassumo do jornalismo nacional? Para não falar em notícias enviesadas, matérias em que se escuta um lado e não o outro.

JFQ

Um novo patrono para o Engenhão

Elio Gaspari

A cada dia que passa e o estádio olímpico do Engenhão continua com o nome de João Havelange, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, confirma as palavras dos advogados da Fifa no processo que tratou do capilé de US$ 14 milhões recebidos pelo doutor e por Ricardo Teixeira: "Pagamentos de subornos pertencem ao salário recorrente da maioria da população na América Latina e na África".
Havelange e Teixeira receberam, mas a galera que vai aos estádios e elege prefeitos leva a fama. A exposição da malfeitoria, 13 anos depois das primeiras denúncias, mostra que os subornos, quando rolam no andar de cima, são protegidos por um sistema de salvaguardas especiais.
No caso da dupla, a blindagem funcionou na própria Suiça, pois as principais acusações surgiram em 2006. Havelange foi protegido ao limite do possível. Ele dirigiu a Confederação Brasileira de Desportos de 1956 a 1974 e a Fifa de 1974 a 1998, quando foi aclamado seu presidente honorário, título que ainda mantém.
Afora isso, foi membro do Comitê Olímpico Internacional e fez Ricardo Teixeira, que era seu genro, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Os dois saíram de fininho no ano passado, quando a magistratura suíça já estava atrás de suas contas.
Aos 96 anos, Havelange ensinou: "Difícil na vida não é chegar, é saber sair. Tem que sair bem". Ele construiu seu verbete na história do esporte brasileiro e destruiu-o na saída. Charmeur irresistível e grosseirão inesquecível, "nosso querido Havelange" (nas palavras de Lula), encantou governantes e ajudou atletas colocando-se ora como patriarca onipotente, ora como cortesão maltratado.
Quando Pelé o contrariou, disse: "Dei todas as atenções e fiz gentilezas a esse moço". No ano passado, a doutora Dilma tomou-lhe o passaporte diplomático, e ele lamentou-se: "Eu merecia isso? É isso que dói, este é o meu país".
Havelange e Teixeira encarnaram a transformação do futebol num empreendimento bilionário. Em 1958, quando o ex-sogrão trouxe a primeira Copa do Mundo para o Brasil, o goleiro Gilmar ganhou uma bibicleta e um terno. Hoje os craques pilotam Ferraris.
Há patrocinadores para atletas, clubes, seleções e Copas e se isso ajudou a profissionalizar o esporte, serviu também para montar propinodutos e lavanderias de dinheiro.
A rede de interesses criada pelo progresso deu à cartolagem oportunidades para a delinquência e fez da Fifa uma central de negócios, ramificada em donatarias nacionais.
A presença da empreiteira Delta na construção de estádios para a Copa de 2014 é um solene indicador dos perigos que rondam a festa.
Até bem pouco tempo, Joseph Blatter, presidente da Fifa (secretário-geral ao tempo de Havelange) comportava-se nas negociações com o Brasil como se fosse chefe de Estado, manipulando a síndrome de "vira-latas" dos burocratas com quem tratava.
O ocaso de Havelange deveria levar o prefeito Eduardo Paes a aceitar uma disputa com a Fifa. Ganhará quem chegar primeiro: os cartolas suíços extinguindo a presidência honorária da instituição ou o doutor, trocando o nome do Engenhão.
Se o prefeito entregar a escolha do nome do estádio à galera que o frequenta, mostrará que "pagamentos de subornos" não "pertencem ao salário recorrente da maioria da população" do Rio.
Publicado na Folha de S.Paulo e em O Globo, em 18/07/2012.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Ferrolho

Vinicius Mota


Em sete meses, o futebol brasileiro caiu na real. O time mais habilidoso do país, o Santos de Neymar, foi massacrado em Yokohama pelo Barcelona de Messi, Iniesta e Fabregas.
Já a Copa do Brasil e a Libertadores da América foram vencidas por equipes despojadas de craques, organizadas e retranqueiras: o Palmeiras de Felipão e o Corinthians de Tite. Dois técnicos gaúchos durões que não querem saber de poesia.

Por razão insondável, os estilos de jogo das equipes no Brasil tornaram-se motivo de batalhas entre filósofos do esporte. Quando está em questão a conduta da seleção nacional, o embate vira cruzada.
Inventividade, improviso e ofensividade são marcas do futebol brasileiro das quais não se abre mão, diz um dos lados. Sem cautela, marcação e no mínimo três volantes não se ganha campeonato, afirma o outro.

O fato é que o Brasil já teve equipes competitivas nas duas modalidades. Venceu jogando feio (1994) e batendo o fino da bola (1970). Vale também a recíproca. Perdemos dando baile (1982) e passando vexame (1990).

O pior dos mundos são os momentos em que não há jogadores bons o suficiente seja para pressionar o adversário com eficiência, seja para manter a meta incólume diante do assédio adversário.
Corinthians e Palmeiras indicam que o Brasil, na Copa de 2014, pode ser competitivo se optar pelo resguardo defensivo. Já os craques do Santos mostraram-se anuláveis por sistemas de marcação mais organizados.

Neymar, convenhamos, ainda está longe de ser um demolidor de defesas do porte do Romário de 1994 --ou da dupla Ronaldo e Rivaldo de 2002.

Nem sequer sabemos se o 11 santista vai chegar lá ou se seguirá o destino de ciscadores folclóricos, como Robinho e Denílson (ia citar Cafuringa, mas deixa para lá). Por via das dúvidas, é melhor o Brasil armar a melhor retranca possível, o proverbial ferrolho, para 2014. Técnico gaúcho para isso a seleção já tem.


 
Publicado na Folha de S.Paulo, em 16/07/2012.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A gostosa do câmera

Antonio Prata


Demora uns 15, 20 minutos até ela aparecer. Esse é o tempo, imagino, gasto na minuciosa pesquisa: sempre que a bola sai pela lateral, que um jogador cava uma falta, enquanto o goleiro toma distância para bater o tiro de meta, ele vasculha a arquibancada, um olho no campo e outro no zoom, a procurá-la. Talvez fique em dúvida entre a loira de top na numerada, a morena de piercing junto ao alambrado, a ruiva girando o rabão de cavalo no tobogã. Lá pelo meio da primeira etapa, contudo, já chegou a um veredicto, e, quando o jogo é interrompido por alguma razão e o comentarista, num raro momento de iluminação, emudece, eis que surge, pinçada do meio da massa amorfa e catapultada para as televisões do Brasil: a gostosa do câmera.
Por alguns segundos, todos se esquecem do jogo, do time, da tabela e se concentram na brejeira musa dominical, que, ignorando 80 milhões de olhos, segue enrolando uma mexa de cabelo, cantando "Timão, ê, ô!", roendo a unha do dedinho. Em algum lar, uma mãe estará gritando: "É a Kelly! Nestor, é a Kelly!". Perto dali, talvez, um garoto endireite-se na cadeira de latão: "Aí, Rodriguêra, não é aquela tua prima gostosa?!", e Rodriguêra, surpreso, forçando a vista: "Cara, só é!". Aqui em casa, toda vez que a moça invade a TV, há também um movimento: "Aí está ela!", penso, e sorrio satisfeito.

Se digo "a moça" é porque, entra ano, sai ano, o biótipo da eleita não muda -e a constância de seus traços, ou, mais precisamente, de seus contornos, talvez seja a primeira razão da minha felicidade. Mudam os jogadores, os presidentes, a temperatura global, as alianças dos políticos e o sabor dos sorvetes, mas a gostosa do câmera continua igual: fornida, cabelos longos, unhas pintadas. Vá lá: vulgar, no sentido mais puro da palavra, o que pertence ao vulgo, ao povo, pois é isso que ela é, o paradigma da beleza nacional.

Se a primeira razão da minha alegria é a permanência dos contornos, a segunda é o contorno, em si; essa desbragada voluptuosidade. Pois mesmo com o poderoso lobby da anorexia e seu ossudo ideal de beleza, que bombardeia as meninas desde o berço, a libido brasileira ainda se move em direção à fartura. A natureza, que via nas curvas a reserva de alimento necessária para nutrir os descendentes em épocas de escassez, ainda vence o marketing, com suas mulheres desnatadas. O mundo caminha para uma triste assepsia, um raquitismo carnal e anímico, mas sangue corre nas veias daquela garota, há ali vida e vontade de potência.

Por último, mas não menos importante, me empolgo com a gostosa do câmera simplesmente porque ela é do câmera. Num espetáculo que movimenta milhões de reais, em que há gigantes da propaganda disputando cada segundo e cada centímetro do estádio, este soldado raso do exército televisivo, com um desejo na cabeça e uma câmera nas mãos, é quem elege a Miss Arquibancada, que, por três segundos, provocará milhões de brasileiros.

Ao ver aquela moça ali, saltitando, anacrônica e contente, semana após semana, acredito que nem tudo está dominado. "No pasarán!", penso, enquanto ela passa em minha TV -e me alegro pela existência do futebol e seus contornos.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/07/2012.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Cicatrizes do título

Paulo Vinícius Coelho




No dia seguinte ao jogo da classificação para a final da Copa do Brasil, o goleiro Bruno falou sobre a tensão de levar o primeiro gol do Grêmio e sobre como as derrotas do passado serviram de exemplo para chegar à vitória do presente: "Conversamos muito sobre a semifinal da Copa Sul-Americana de 2010, o 1 a 2 para o Goiás. Não poderíamos correr o risco de perder a vaga na final para o Grêmio, depois de vencer por 2 a 0 no Olímpico. Quando sofremos o gol, olhamos uns para os outros e, naquele instante, tive certeza de que estava tudo sob controle."

O Palmeiras levou só seis minutos para empatar com o Grêmio. O caráter do time campeão da Copa do Brasil formou-se na derrota e nos conflitos. Construiu-se com histórias, como a da bronca do diretor Wlademir Pescarmona, no vestiário do Centro de Treinamento, um dia depois do vexame contra o Goiás. Xingou a todos, de vagabundos para baixo, sob o olhar complacente de Felipão, por isso questionado pelo elenco nos meses seguintes.

Construiu-se também no episódio da saída de Kleber do Palmeiras, briga de foice no vestiário da Academia entre o atacante e o treinador. "Em vinte anos no Palmeiras, nunca vi nada tão grave", disse o então goleiro Marcos.

A discussão evidenciou a necessidade de se contratar um gerente de futebol, um anteparo entre o técnico e o elenco. Em seus melhores trabalhos, Felipão sempre teve esse escudo.

Luís Carlos Silveira Martins, o Cacalo, diretor de futebol, no Grêmio, Paulo Angioni, diretor de esportes da Parmalat, no Palmeiras.

Gente capaz de dividir os problemas e impedir a intervenção do treinador em todos os conflitos, como acontecia antes da chegada de César Sampaio, em novembro de 2011.

"O ambiente e o time melhoraram, também, porque alguns do contra não estão mais aqui", disse Luiz Felipe, na manhã de ontem, no saguão do hotel Pestana, em Curitiba.

O técnico se referia a Kleber, mas também a Lincoln, rival ontem, com a camisa do Coritiba.

Com a área limpa, Felipão pôde reconstruir sua família, como nos seus melhores trabalhos. Até o primeiro jogo das finais contra o Coritiba, houve quem cobrasse do Palmeiras um jogo mais trabalhado, mais bola no chão, menos dependente de bolas paradas.

Cobrava isso quem também dizia que Felipão mudou. Não, não. Ele é o mesmo sujeito teimoso, mas de coração mole e futebol duro, das outras três conquistas de Copa do Brasil.

Prova disso é o estilo rigoroso, sem beleza, sem sabor, com que o Palmeiras avançou. Seu time joga com os mesmos méritos e os defeitos de sempre das equipes montadas à moda Felipão. O gol de Vilmar, do título da Copa do Brasil de 1991, do Criciúma, o de Nildo, da conquista de 1994 pelo Grêmio, o de Oséas, Copa do Brasil 1998 do Palmeiras, todos nasceram de bolas paradas.

Nos doze anos do hiato entre a Libertadores 1999 e a Copa do Brasil 2012, quem mudou para pior foi o Palmeiras. Por isso, a Copa do Brasil, forjada no sofrimento e conquistada ao melhor estilo Scolari, deve ser muito comemorada. Também precisa ser encarada como o primeiro passo para o clube voltar a ser um dos mais vencedores do País.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 12/07/2012.

Avanti, Palestra!

Antero Greco




Os palmeirenses foram dormir de alma lavada e enxaguada na alegria e na emoção. Como os rivais corintianos uma semana atrás, na noite de ontem vibraram, choraram, gritaram, soltaram fogos, se mandaram para a rua num buzinaço atordoante. Não era pra menos. Depois de quase uma década e meia de grandes frustrações e pequenas alegrias, viram o time livrar-se do papel de coadjuvante e reassumir a condição de protagonista. Ora, direis, foi apenas uma Copa do Brasil. É verdade, mas com valor de título mundial, ou o equivalente a faturar sozinho a Mega Sena.

A conquista veio com o elenco mais improvável para o sucesso. E invicto, Nos prognósticos de início de temporada, o Palmeiras aparecia em posição modesta na lista de candidatos ao topo. Vinha atrás de pesos pesados na competição, como Grêmio e Cruzeiro (os maiores campeões), ou de São Paulo e Botafogo, ambos em busca de título inédito. Até o bom Coritiba, vice de 2011, tinha precedência nos palpites preliminares.

O ceticismo em relação ao futuro palestrino no torneio não era preconceito gratuito, como lamentam exaltados e traumatizados. Ao contrário, tinha fundamento - infelizmente. O grupo sob o comando de Felipão era quase o mesmo que colecionou fiascos em 2011, com pequenas novidades e com os problemas costumeiros. O roteiro de outra participação interrompida na metade estava prontinho para ser executado. Questão de tempo, até as etapas mais duras.

Pois as fases complicadas vieram, as dificuldades não abandonaram técnico e seus rapazes, e estes não largaram o osso da Copa do Brasil. Torcedores escaldados ficaram na defensiva, à espera do tropeço, do momento de sair de cena. E era uma forma de blindar-se e não cair em depressão, como tem sido rotineiro na história recente. Até os mais empolgados ficaram com um olho no peixe e outro no gato. O palmeirense sabe o que é chorar de tristeza; mais do que ninguém tem noção do quanto é incômoda a maledetta dor de cotovelo.

Mas voltou a sentir o gosto das lágrimas de alegria e recuperou o ar altivo, bem condizentes com a trajetória de glórias quase centenária. Pois vi marmanjo com os olhos cheios d'água, a acompanhar os minutos finais do jogo no Couto Pereira. O rosto daqueles rapazes em Curitiba resumia a tensão, a expectativa, a euforia contida de milhões de alviverdes espalhados pelo país.

E por um jogo que se desenhava interminável quando Airton fez 1 a 0 para o Coritiba aos 16 do segundo tempo. Parecia que haveria uma avalanche pra cima do Palmeiras. Mas quatro minutos depois, Marcos Assunção e sua bendita "bola parada" resolveram, com a cabeça de Betinho no meio do caminho. Que ironia, Betinho, o que está em experiência, o herói acidental.

O Palmeiras tinha segurado bem a onda no primeiro tempo, empurrou a angústia para o Coritiba e se comportou com dignidade. O grupo sem estrelas se superou, na vontade, na raça, na consciência de sua limitação.

O Palmeiras agora tem outra taça valiosa a colocar em destaque na futura casa nova. Mais do que um pedaço de cobre, o troféu deve servir de inspiração para os dirigentes e indicar-lhes que o time precisa retomar o caminho de grandeza e dar um sonoro bico no complexo de inferioridade que baixou no clube. Chega de bom e barato! Basta com o meia-boca!

Avanti, Palestra! Bom retorno ao grupo dos vencedores! E a Libertadores de 2013 já começa pra lá de especial. Quem sabe, com um Palmeiras x Corinthians na final? Que me diz?


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 12/07/2012.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Bienvenidos

Rodrigo Bueno


O momento do futebol brasileiro faz pensar. O título invicto do Corinthians na Libertadores e a chegada de renomados jogadores internacionais apontam para a força atual dos clubes do país, algo que vai na contramão da seleção brasileira, só a 11ª colocada no ranking da Fifa.

O cenário lembra um pouco o da Espanha de antigamente: clubes poderosos e seleção enfraquecida. Retrato do crescimento da economia nacional, as últimas oito Libertadores tiveram ao menos um time brasileiro na final, e todas essas edições foram concluídas no Brasil (sinal de que um clube do país teve melhor campanha).

O abismo que se viu entre o ótimo Santos de Neymar e o histórico Barça de Messi não deve se repetir no Mundial próximo entre o milionário Chelsea (sexto no mundo em faturamento) em transição e o quase milionário Corinthians (25º no planeta em faturamento) encaixado.

Há quem possa classificar D'Alessandro, Deco, Forlán, Juninho, Loco Abreu, Luis Fabiano, Montillo, Renato, Ronaldinho, Seedorf, Vágner Love, Zé Roberto e alguns outros como decadentes, em fim de carreira ou sem mercado na Europa. Mas é fato que ainda são atletas caros, úteis e que poderiam estar jogando em outras ligas periféricas que pagam bem ou mesmo em clubes de médio porte no velho continente.

Dedé, Fred, Ganso, Leandro Damião, Lucas, Neymar, Paulinho, Ralf, Réver e Victor, entre outros, integram vasta lista de selecionáveis que estão no futebol brasileiro, que tem cobiçado nomes como Beckham, Conca, Del Piero, Diego, Kaká, Lugano, Nilmar e Riquelme. Alguns dos principais técnicos do país estão entre os mais bem pagos do mundo, e a perspectiva é que a injeção de dinheiro no esporte só aumente até 2014, quando haverá Copa aqui e modernos estádios darão uma cara ainda mais europeia ao futebol nacional.

Não acho que tudo seja ouro de tolo (talvez o ouro em Londres seja) e concordo que há um certo exagero no que é gasto hoje no futebol. No entanto, se o Campeonato Brasileiro nunca virar uma NBA, ao menos vive um bacana e singular momento de vitrine mundial.

A CBF, ainda atrasada no tempo, deveria rever o limite de estrangeiros por clube em seus torneios. Aumentar para cinco "gringos" por time (número de "forasteiros" do Inter) me parece algo sensato, que ampliaria a atratividade do Brasileiro e o domínio nacional nas competições sul-americanas (sem grande prejuízo para a seleção).

Pelas festas de apresentação de jogadores que tenho visto no país, milhões aprovam a ideia.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/07/2012.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Vai, Coxa!

Lúcio Ribeiro




Antes de prejulgar o título acima, vale o esclarecimento. Talvez me considere o palmeirense mais palmeirense que eu conheça. Um dos mais que meus amigos próximos conhecem, com certeza.

Não o mais dramático, desses que se descabelam quando o juiz "ladrão" inverte um lateral duvidoso que era "nosso" (sim, uso os pronomes na primeira pessoa do plural). Nem o mais exibicionista, que em épocas de grandes vitórias vai a concerto de música clássica com um paletó por cima de certa camisa verde.

Mas, se um dia eu fosse escrever uma autobiografia, certamente teria que usar o futebol e em particular o Palmeiras como ponto de referência dos meus altos e baixos, da passagem da infância à adolescência e depois à adultescência, pois por exemplo consigo fácil relacionar as namoradas que tive com as fases do time na época delas. Ok? Posso continuar?

Cravei o apelido do Coritiba no título para falar sobre a final de amanhã da Copa do Brasil e a responsabilidade que tem nas mãos o time paranaense diante da história do futebol recente. Da história palmeirense, quero dizer. Dentro da bizarrice tragicômica que é acompanhar as notícias do Palmeiras nos últimos tempos, o time vai a Curitiba levando na bagagem uma enorme vantagem e um cheiro de desastre de mesma medida.

O time, na semana em que o presidente saiu na mão com um conselheiro, que o maior rival alcançou glória inédita e que sua maior esperança de gols teve uma crise de apendicite no dia da primeira final, fez 2 a 0 no jogo de ida. Quando podia ter saído do primeiro tempo com um 0 a 4 desfavorável, mas também terminado o segundo com um favorabilíssimo 3 a 0, não fosse um gol perdido sem goleiro.

Na fila por uma taça que preste, o Palmeiras, suas crises internas e seu elenco mais ou menos rumam a Curitiba sem sua esperança de gol (o do apêndice), sem seu mais hábil jogador (o recém-sequestrado craque que pode nem jogar mais no clube, por medo) e sem talvez sua principal válvula de escape na hora da pressão que vai sofrer (o veloz e amalucado Maikon Leite, machucado domingo na derrota contada no Brasileiro).

E, para jogar no mesmo estádio que perdeu de seis na última visita na mesma Copa do Brasil em 2011, para o mesmo time que talvez devesse ter sido o campeão daquele mesmo torneio. Vai, Coxa! Direciona esse filme palmeirense de amanhã para a prateleira que a ele cabe na locadora do futuro: a das aventuras épicas, a dos dramalhões chorosos ou a da comédia, em que ele na verdade já está.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/07/2012.