quarta-feira, 2 de março de 2011

Lançando na área

Hoje

Quando o dia amanheceu, hoje, 2 de março de 2011, os dissidentes do Clube dos 13 acordaram sob a ameaça de sofrerem sanções do CADE se as negociações (caso a caso) com a Rede Globo, para a transmissão do Brasileirão 2012/2014, ferirem a livre concorrência.

Também hoje o Sport acordou único campeão brasileiro de 1987, por decisão do senhor Francisco Alves (nome de cantor), juiz da 2ª Vara Federal de Pernambuco.

Tudo isso, hoje. Amanhã, ninguém sabe. O futuro a Deus pertence.

Falando nisso, hoje, mais uma vez desde 1989, Ricardo Teixeira acordou presidente da CBF.

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A perda do torcedor ilustre

Diz a lenda que o Cruzeiro tem apenas 18 torcedores. Não me refiro à Raposa de Belo Horizonte, mas ao seu homônimo de Porto Alegre, que, apesar da boa campanha no Gauchão 2011, perdeu a chance de ir à final da Taça Piratini, após derrota por 4 a 2 para o Grêmio. Pior do que isso, perdeu seu torcedor mais ilustre, o escritor Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, falecido no mesmo domingo em que o Cruzeiro foi desclassificado, no Olímpico. Pobre Cruzeiro! Derrotado em campo, desfalcado em sua torcida, já tão escassa. E que desfalque!

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Pais e Filhos


Quem, apesar de boleiro, não caiu na ignorância da discriminação sexual – sim, infelizmente, os fatos mostram que há uma relação –, fica comovido em ouvir a modelo Lea T falar de sua vida e de sua luta para ser quem é. Considerada uma das principais top models do mundo, Lea T nasceu Leandro, um menino. Aos poucos descobriu e assumiu sua condição. Para sua sorte, encontrou no pai, o excepcional Toninho Cerezo, ídolo no Galo, no São Paulo, na Sampdoria e na seleção brasileira, um apoio. Ao não rechaçar o filho, tornada filha, Cerezo prova ser um pai de verdade, um craque dentro de campo e na vida.

Também comove a forma como Ronaldo aceitou a paternidade do garoto Alex, fruto de um relacionamento que tivera no Japão. Mais do que isso, Ronaldo passou a ser visto com freqüência junto a Alex e ao primogênito Ronald. Quem está acostumado à ênfase quase exclusiva na vida de baladas, escândalos e os casamentos desfeitos, é interessante notar esse lado “família” do Fenômeno. Da mesma forma que a aceitação de uma orientação sexual fora dos padrões convencionais, como no caso de Cerezo, a pronta acolhida de um filho – não apenas no âmbito formal, mas, sobretudo, afetivo – também é tarefa para homens fortes, para craques fora dos gramados. Que o diga o maior de todos os craques... dentro de campo.

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Perguntas e mais perguntas

Quem é o campeão brasileiro de 1987? Quem ficará com a Taça das Bolinhas? Qual será o estádio de abertura da Copa de 2014? O Fielzão será construído a tempo? O Morumbi, de fato, não reúne condições para abrigar a partida de abertura do Mundial? Por que vários clubes decidiram sair do Clube dos 13 justo agora, quando está marcada uma concorrência que, em tese, aumentará muito suas receitas? Negociações clube a clube são mais vantajosas a quem? Os valores de referência da licitação são os de mercado ou foram elaborados para forçar a Globo a pagar mais? Até quando Ricardo Teixeira será presidente da CBF? Quando sair, será presidente da FIFA? Teixeira lançaria Andrez Sanchez como seu sucessor? A homologação do título do Flamengo em 87 tem relação com sua possível saída do C13? A saída do Corinthians do C13 facilitará a construção do Fielzão e sua utilização na Copa 2014? Os títulos da Taça Brasil e do Robertão, homologados como títulos brasileiros, também serviram para cooptar clubes junto à CBF? A CBF e/ou a Rede Globo estão oferecendo alguma vantagem para os clubes saírem do C13? Por que a Record e a Rede TV! estão tão quietas? O vice-diretor de comunicação e marketing do São Paulo, Julio Casares, também é diretor de projetos especiais da Record? Por que a Globo não noticia o imbróglio envolvendo o C13 nos seus telejornais esportivos? Afora a ESPN, a TV Cultura e a Gazeta, quem fala do assunto? A quem interessa o quase monopólio exercido pela Rede Globo? Quão fundamental é o futebol para a sustentação do quase monopólio “global”? Ou é o futebol que precisa da Globo para vender todas as marcas e produtos a si associados? A imensa hegemonia da “vênus platinada” não lesa os clubes, os torcedores, os telespectadores, enfim, os brasileiros? Não fere o direito econômico, logo, não deveria ser passível de alguma medida do CADE? Tratando-se de uma concessão pública, a questão não envolve também interesse público, além de interesses comerciais privados? O futebol é uma mercadoria comum ou um bem cultural, logo, passível de tratamento especial, cujos brasileiros têm o direito constitucional ao acesso? No caso da negociação clube a clube, os times menores não tendem a ser prejudicados? Se o negócio for bom apenas aos grandes, o futebol brasileiro, como um todo, não tende a ser prejudicado? Tomando os exemplos norte-americanos, qual seria o melhor modelo de transmissão: o do beisebol, o da NFL, o da NBA? Como melhor conciliar os interesses comerciais da TV, dos clubes e os interesses esportivos do país? Como gerar bons negócios preservando o futebol e os torcedores? Quem está interessado nisso tudo?????

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O horário dos jogos

Independentemente de qual(is) emissora(s) transmita(m) os jogos do Brasileirão no ano que vem, caso haja o mínimo respeito pelos torcedores – e não apenas apreço por retornos comerciais e questões de grade da programação –, deve mudar os horários das partidas. Os jogos noturnos, que há algum tempo ocorriam por volta das 21 h, começam, hoje, às 22h. Desrespeito com o torcedor que vai ao estádio, e enfrenta muitas dificuldades para pegar a condução de volta para casa (em São Paulo, por exemplo, o metrô fecha à meia-noite), chega tarde e precisa trabalhar no dia seguinte. Desrespeito também ao torcedor que assiste à partida pela TV, já que vai dormir tarde e tem que acordar cedo outro dia. Mas, afinal, o que importa isso se o horário se encaixa perfeitamente na sequência dos imperdíveis JN e a novela “das oito”?!

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Por favor, derretam a Taça das Bolinhas

O Flamengo, finalmente – oportunamente, diria Ricardo Teixeira - , pode ser oficialmente considerado campeão brasileiro de 1987. Juntamente com o Sport, que não gostou nada disso. Hoje, como dito acima, recuperou na Justiça o direito de se dizer único campeão de 87. Caso o Mengo reverta isso – o que é bem possível – poderá se considerar o primeiro pentacampeão do campeonato brasileiro. Entenda-se bem: do campeonato brasileiro. Já o primeiro campeão brasileiro é o Santos, desde a homologação dos títulos da Taça Brasil como títulos brasileiros, pela CBF. Quer dizer, isso se considerarmos os campeões de fato, histórica ou cronologicamente tomados. No entanto, caso analisemos o primeiro campeão de direito, este é o São Paulo, já que o Flamengo só ganhou 87 e o Santos, os títulos de 61 a 65 e 68, em 2011. Haja confusão!!! Solução: façam com a famigerada Taça das Bolinhas o que não deveriam ter feito com a Jules Rimet: derretam-na!

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O apito lá e cá

Fico possesso com certos comentaristas que não se cansam de enaltecer a arbitragem na Europa, em comparação à nossa, porque “lá não se para o jogo por qualquer faltinha”. Na verdade, muitas vezes deixam de dar faltas em lances cujo desfecho deveria ser cartão vermelho imediato e abertura de ação judicial por tentativa de homicídio.

Acredito que o “estilo europeu” advenha, em boa medida, não de uma concepção de “deixar o jogo rolar”, mas por serem arbitrados por juízes bananas. Explico: o árbitro fica tímido diante de um jogador que se impõe; logo, tem medo de prejudicar seu time – especialmente quando joga em casa – e, mais ainda, de punir.

Quem assistiu à vitória do Totteinham sobre o Milan, por 1 a 0, em Milão, pela Liga dos Campeões, certamente ficou abismado com o showzinho à parte do “raçudo” (leia-se: destemperado e grosso) Gattuso e com a falta de pulso do árbitro francês Stephane Lannoy. Para quem não se lembra, Lannoy é o mesmo árbitro da partida Brasil 3x1 Costa do Marfim, na Copa 2010, em que: 1) Luis Fabiano marcou um golaço, após matar a bola com o braço; 2) Tioté não foi expulso após quase quebrar a perna de Elano; 3) Kaká foi expulso por cair na encenação de jogador adversário. Precisa falar mais alguma coisa?


Na partida do Milan, Gattuso e Lannoy poderiam formariam uma dupla: a besta fera e a besta quadrada. Enquanto o italiano deu chiliques, nervoso pelo resultado adverso em casa, agredindo dirigentes e jogadores do time adversário, o francês, além de não ter pulso para expulsá-lo, também deixou de mostrar o cartão vermelho a Flamini, do Milan, em entrada violentíssima que tirou o croata Corluka do jogo. De bom na partida, apenas as grandes defesas do brasileiro Gomez, goleiro do Tottheinham.

Em compensação, acompanhei às partidas Cruzeiro x Estudiantes e Fluminense x Nacional, ambas pela Libertadores e ambas apitadas por Carlos Amarilla. O paraguaio praticamente não apareceu; ou seja, fez excelentes arbitragens. Pulso firme e sempre em cima do lance, Amarilla deu aulas de como apitar. Detalhe: quem conhece futebol sabe que numa partida em que um time brasileiro aplica 5 gols em um argentino (ou vice-versa), como ocorreu em Cruzeiro x Estudiantes, tem tudo para descambar em violência. Mas não foi o que aconteceu, graças aos jogadores, mas, ainda, à condução da partida por Carlos Amarilla.

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Violência

Uma cena passou quase incólume no jogo Treze, da Paraíba, versus São Paulo, pela Copa do Brasil. Não que tenha deixado de ser mostrada (veja vídeo abaixo), mas cabe a pergunta: vai ficar por isso mesmo? Outros jogos serão realizados nesse estádio depois do ocorrido? Os protagonistas da lamentável cena serão punidos? Cabe alguma punição ao Treze?

Eis uma mostra da violência na sociedade brasileira. Por sorte, o desfecho não foi trágico, quer dizer, não houve mortos ou feridos. Por sorte...

Violência, aliás, que vitimou o ex-árbitro José Roberto Godói, baleado em tentativa de assalto, em São Paulo. Apesar de ferido, Godói resistiu e já recebeu alta. Por sorte...



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O artista e a celebridade, a bola e a imagem

Quem quiser acreditar, que acredite. Há quem leve muito a sério a estória de que Kaká de fato esteja pensando em vestir a camisa do Corinthians. Há outros, como eu, que pensa ser esse mais um exemplo de mania de grandeza do Timão (ão!, como na propaganda de cerveja). Talvez por influência das pré-temporadas em Itu.

Os que levam a coisa a sério têm como argumento principal o seguinte: Kaká ganharia muito dinheiro voltando ao Brasil. Mas, como? O Corinthians teria condições de lhe oferecer um salário maior que o hoje ganho no Real Madrid? Quem falou em salário?, responderiam: o dinheiro viria da exploração de sua imagem, o tal marketing pessoal.

Sim, eis a novidade destes tempos: o dinheiro da imagem supera o salário, antigamente conhecido como a remuneração do trabalho. A propósito, o próprio trabalho – o que se faz em campo, reflexo de talento aliado a horas e horas de treinamento – perdeu espaço para o que se faz fora, no âmbito particular. Ou melhor, acabou-se o tal âmbito particular: tudo fora do trabalho convencional continua a ser trabalho, o trabalho de venda da imagem. As diferentes mídias viraram a segunda casa – ou o segundo trabalho – de certos jogadores. Privacidade? Esqueçam. E, por favor, não reclamem da invasão!

Mais que jogar bola, driblar, dar assistência ou marcar gols, o negócio é firmar-se como um lucrativo garoto propagada. O negócio é explorar a própria imagem para vender marcas e produtos. De sandálias a cartões de crédito, de produtos de higiene a cervejas. Não é à toa que Ronaldo, ao sair do futebol, entrou direto no ramo do marketing esportivo, no “gerenciamento da imagem” do atleta. Anderson Silva, o lutador, é seu cliente. Kaká também poderia ser?

Nesse processo, ocorre com esportistas o mesmo que já ocorria com outros artistas. Atores e atrizes, por exemplo. Não importa a qualidade da arte demonstrada nas telas ou palcos, mas a repercussão das fotos e vídeos veiculados em revistas e programas de celebridades. Eis a palavra: celebridade. Pessoas tornadas ícones, forçosamente mitificadas, reinando nas várias mídias, cuja presença tem cada a vez menos relação com o talento ou a capacidade artística, esportiva ou seja lá de qual natureza for.

Parafraseando Benito di Paula: seria muito bom, seria muito se legal, se cantor, compositor, ator ou jogador de futebol pudesse ser, acima de tudo, celebridade.

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Ops, caiu de novo


Adilson Batista está em pleno inferno astral. Após a fatídica derrota para o Estudiantes na final da Libertadores 2009, quando deixou o Cruzeiro, após 3 bons anos, Adilson não teve vida longa em nenhum clube. No Corinthians, sua passagem foi associada ao declínio do time no Brasileirão 2010. Mano Menezes deixou o time do Parque São Jorge na liderança do campeonato quando assumiu a seleção brasileira, dando o lugar a Adilson. O que ninguém se lembra é que, nesse mesmo período, vários jogadores titulares ficaram contundidos, obrigando o novo treinador a improvisar em várias partidas.

Já no Santos, Adilson substituiu Dorival Junior – após o comando “tampão” de Marcelo Marttelote, hoje de volta –, que também saíra consagrado do clube, apesar de desacatado por Neymar. As inovações de Adilson não surtiram o efeito desejado. O time caiu no Paulistão e o técnico passou a sofrer críticas da torcida. Especialmente pela insistência em deixar Mailkon Leite e Zé Love na reserva.

As passagens curtas por Corinthians e Santos causam um grande prejuízo na imagem de Adilson, até há pouco visto como um técnico dos mais promissores do futebol brasileiro. Seria o caso de procurar a nova agência de Ronaldo?

JFQ

terça-feira, 1 de março de 2011

Toque de Letras

O escritor gaúcho Moacyr Scliar, morto no último domingo, era torcedor do Cruzeiro de Porto Alegre.
Abaixo, texto de Scliar que o jornal Zero Hora publicou no dia 22 de junho de 2010, após o retorno do Cruzeiro à elite do Gauchão:



Ser membro da Academia Brasileira de Letras é, naturalmente, uma distinção, mas tem os seus inconvenientes, como descobri na semana passada: tendo ido ao Rio para a reunião da ABL, perdi um acontecimento histórico: ao derrotar o Brasil de Farroupilha, o Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre garantiu seu retorno à primeira divisão do futebol gaúcho, após 32 anos de ausência. Lamento que meu falecido pai, José Scliar, cruzeirista fanático (e um dos 18 torcedores que, segundo o folclore porto-alegrense, o Cruzeiro tinha) não haja vivido esse momento glorioso. Foi meu pai quem me introduziu ao futebol: eu tinha a paixão pelo Cruzeiro no genoma.

E tinha de ser uma paixão mesmo. A trajetória do Cruzeiro era um tanto desconcertante. Terceira força do futebol gaúcho, o azar no entanto nos perseguia. Mas, e isso ajuda a entender o “pathos” cruzeirista, não era um azar constante. De vez em quando, e da forma mais inesperada, o time ganhava de goleada, renovando nossa fé. Chegamos ao auge quando o Cruzeiro tornou-se o primeiro time gaúcho a excursionar pelo Velho Mundo, o que aconteceu duas vezes, em 1953 e 1960. Na primeira excursão, o Cruzeiro conseguiu até empatar com o Real Madrid e voltou com o autoatribuído título de Leão da Europa.

E aí vinham as surpresas desagradáveis. A última partida a que assisti, sempre ao lado do meu pai, foi realizada no estádio do time da CEEE, o Força e Luz, na Rua Alcides Cruz. Quem perdesse ficaria em último lugar. Mas, para o Cruzeiro, bastava um empate, e, quando terminou o primeiro tempo, estávamos ganhando de 3 a 0. No fim, perdemos por 4 a 3. Ao Cruzeiro, devo a inspiração para A Colina dos Suspiros, livro destinado a jovens, que foi traduzido em vários países. O título nasceu da localização do estádio do clube, que ficava na Colina Melancólica, ali onde estão os cemitérios porto-alegrenses.

Convenhamos que não era um lugar muito alegre, e o estádio acabou sendo vendido para o Cemitério João XXIII. O clube recebeu parte do pagamento em jazigos perpétuos, que valiam uma soma apreciável e foram usados na compra dos passes de jogadores. Quando ouvi um desses jogadores dizendo, na Rádio Gaúcha, e com muito orgulho, que seu passe havia sido adquirido por seis túmulos, dei-me conta de que aquele era o time ideal para um ficcionista, e a partir daí nasceu a história.

Agora, o Cruzeiro mostra sua bravura, retornando à primeira divisão. Nas palavras de Jayme Sirotsky, presidente emérito da RBS, o time, como a mitológica fênix, renasceu das próprias cinzas. E tenho certeza de que, assim fazendo, inspirou nossa seleção na vitória sobre Costa do Marfim. “Se o Cruzeiro pode, nós também podemos”, deve ter dito Dunga. Viva o Cruzeiro.

Cade determina fim do ágio de 10% da Globo em licitação do Brasileirão



01/03/2011 - 12h17

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) orientou o Clube dos 13 a retirar o ágio de 10% concedido à Globo no edital de licitação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de 2012 a 2014. A informação foi confirmada por Fábio Koff, presidente da entidade ligada aos clubes, em entrevista coletiva em Brasília, que acatou o pedido do Cade.

O ágio representava uma vantagem da emissora carioca, concedida pelo Clube dos 13 e autorizada pelas concorrentes da Globo. Por entender que a atual parceira de TV dos clubes tem um modelo comercial mais consolidado que as rivais, a entidade determinou que, para vencer a Globo, as demais concorrentes teriam de pagar 10% a mais que a emissora carioca.

Essa vantagem, agora, está descartada. Por isso, o valor inicial para a aquisição do contrato de TV aberta volta a ser R$ 500 milhões para todas as TVs interessadas.

A Globo, incomodada com a condução do processo que foi feita pelo Clube dos 13, já divulgou em nota oficial que não vai participar da licitação. Os envelopes serão abertos no dia 11 de março e devem apontar Record ou RedeTv! como vencedoras do processo.

E aí que, como informou o UOL Esporte, a Globo deve entrar em cena. A emissora não tem como fechar com os clubes separadamente sem que eles deixem oficialmente o Clube dos 13. Por isso, deve aguardar a propostas das rivais para tentar seduzir os presidentes com uma proposta maior, antes da assinatura do contrato.

Clube dos 13, vida e agonia

Juca Kfouri


Conto aqui o que vi, e poucas coisas vi tão por dentro em minha vida de jornalista como o nascimento do Clube dos 13 e da Copa União. Como vi o começo lento e gradual de sua decadência.

Curiosa e dramaticamente, sua implosão se dá quando parecia ressurgir, embora, agora, pareça mais que tenha sido aquela famosa melhora do doente antes de morrer.

Eu era diretor da "Placar" à época em que tudo começou, e o apoio da revista foi tão vigoroso que a taça da Copa União foi encomendada e paga por esta ao artista plástico Carlos Fajardo.

E entregue primeiramente ao Flamengo -e depois a Zico, quando ele se despediu do futebol, porque a Copa não resistiu aos conchavos da cartolagem.

A resposta dos 13 maiores clubes do país à falência da CBF, que abdicara de organizar o Campeonato Brasileiro de 1987 por falta de recursos, foi pronta e eficaz: partiu para fazer seu próprio torneio e obteve o apoio da Globo, da Coca-Cola e da Varig.

Registre-se desde logo que o Brasileirão de 1987 não teria o Sport, que não ficara entre os 24 primeiros em 1986, mas em 27º lugar.

Era para ser o embrião da Liga Brasileira de Futebol Profissional. Nasceria cinco anos antes da Liga Inglesa, a famosa Premier League.

Como em toda revolução, houve injustiças e excessos.

As injustiças contra o Guarani e o América, segundo e quarto colocados em 1986.

Verdade que o time campineiro e o carioca não estavam entre os 16 primeiros do ranking nacional, ao contrário dos 13 fundadores do Clube.

Os excessos ficaram por conta de tentar, sem conseguir, porque proibido pela Fifa, pintar marcas de patrocinadores no gramado.

Já o sucesso foi tamanho que a média de público passou de 20.800 torcedores, a segunda maior de todos os tempos, superada apenas pela de 1983, com quase 23 mil pagantes por jogo. Se forem somadas as quantias provenientes dos patrocínios da Copa União, a média praticamente dobra e atinge padrão europeu dos bons tempos.

A conquista do Flamengo foi algo tão indiscutível que o Conselho Nacional dos Desportos, o velho CND, a reconheceu incontinenti, diferentemente do que veio a acontecer mais tarde pelo Tribunal de Justiça Federal em Pernambuco. Sim, a CBF quis mudar as regras com o jogo já em curso.

Mas, para 1988, a situação mudou, fruto de um acordo feito pelo presidente do Clube dos 13 e do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, pelo presidente do CND, Manoel Tubino, e pelo vice-presidente da CBF, mas verdadeiro comandante da entidade, Nabi Abi Chedid, com o aval do presidente do Flamengo, Márcio Braga. E contra o que pensava a direção da Rede Globo.

Por meio de seu diretor de esporte de então, Ciro José Gonzales, de quem divergi muitas vezes, mas que sempre gostou e quis o melhor para o futebol, o número um da emissora, José Bonifácio de Oliveira, o Boni, mandou dizer que a Globo daria respaldo para que a rebeldia dos clubes fosse em frente, sem acordo com a CBF.

Só que prevaleceu o velho espírito conciliatório nacional. E jamais me esquecerei do olhar perplexo de minha filha ao entrar em casa na volta da escola e ver a figura de Chedid na sala, local escolhido pelas partes como neutro e a salvo de assédio.

Ao recuar, o Clube dos 13 começou a esmorecer.

E chegou a ganhar de mão beijada a Copa João Havelange para organizar em 2000, porque a Justiça impediu que a CBF organizasse o Brasileiro sem a presença do Gama, em memorável batalha judicial ganha pelo inexpressivo clube candango.

Ganhou, mas não soube organizá-la com competência, a ponto de o torneio ser decidido em São Januário com superlotação, queda de alambrado e cerca de 160 feridos, o que obrigou a realização de novo jogo, já em 2001, entre Vasco e São Caetano.

De lá para cá, cada vez mais o C13 se transformou apenas em uma agência negociadora de direitos de transmissão, com episódios lastimáveis, como em 1997, quando foi fechado negócio com o SBT, na casa de Sílvio Santos e, em seguida, em meio a rumores desairosos, voltou-se atrás para manter a parceria com a Globo.

Então, o principal executivo do SBT, Luciano Calegari, em entrevista à revista "IstoÉ", chamou a CBF de "máfia" e perguntou: "Quando é que dá para acreditar em presidente de clube?".

Eis que, neste ano de 2011, quando o Cade permitiu as condições para que se inaugurasse uma nova maneira de negociar, com chances claras de se aumentar ponderavelmente as receitas por meio de uma concorrência como nunca houve, tudo rui.

O C13 vai ao Cade amanhã e promete levar documentos que provam compra de votos na eleição que pôs a CBF em choque com Fábio Koff.

Fato é que o racha está posto. E de maneira tão indecorosa para alguns dos protagonistas que o que fica ainda mais claro é que se trata de uma guerra sem mocinhos.

Na qual o futebol brasileiro morre no fim.
 
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/02/2011.

Flamengo vence Boavista com gol de Ronaldinho Gaúcho e é campeão da Taça Guanabara 2011


Postado em O Globo: http://oglobo.globo.com/esportes/carioca2011/mat/2011/02/27/flamengo-vence-boavista-com-gol-de-ronaldinho-gaucho-e-campeao-da-taca-guanabara-2011-923891811.asp  


Foi sofrido e suado. O Boavista valorizou o quanto pôde. Mas novamente, numa decisão entre favorito e azarão, prevaleceu no futebol carioca a tradição. O Flamengo venceu a decisão da Taça Guanabara, num Engenhão lotado, com 41.708 torcedores presentes, e garantiu lugar na final do Campeonato Carioca 2011. Para a festa ser completa e o carnaval começar com uma semana de antecedência, o gol do título e da vitória por 1 a 0 foi do craque Ronaldinho Gaúcho. Numa cobrança de falta com a categoria que sempre marcou seu estilo, ele balançou a rede e tirou o time do sufoco. Porque até aquele momento o jogo estava bastante difícil para os rubro-negros.

O Flamengo comçou a partida com mais volume de jogo. E empurrava o Boavista para sua defesa. Mas Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves não encontravam espaço e pareciam sem inspiração. O primeiro lance de perigo aconteceu aos 11 minutos, quando Thiago Neves cabeceou para defesa do goleiro Thiago. Aos 15, Léo Moura recebeu sozinho na área, mas chutou à esquerda do gol.

Aos 34, a torcida rubro-negra começou a vaiar e a pedir Negueba. O esquema de Vanderlei Luxemburgo, com Ronaldinho como centroavante, não surtia efeito. Aos 39, o último bom momento do Fla na etapa inicial: Egídio cruzou na área e o goleiro Thiago se esticou para desviar a bola antes de Thiago Neves.

No segundo tempo o Boavista voltou mais animado. E o jogo começou a ganhar contornos dramáticos, porque o Flamengo encontrava ainda mais dificuldade para criar oportunidades de gol. Aos 11 minutos, Ronaldinho Gaúcho recebeu cartão amarelo depois de acertar uma canelada em Júlio César.

A estrela do craque brilho enfim aos 28 minutos. Thiago Neves sofreu falta perto da área. Ronaldinho ajeitou com carinho. A expectativa se transformou em explosão de felicidade quando a bola viajou sobre a barreira e morreu na rede, à esquerda do goleiro Thiago, que nem se mexeu. Uma cobrança típica dos melhores momentos da carreira de Ronaldinho: Flamengo 1 a 0. Na comemoração, o jogador rubro-negro puxou a coreografia do "Bonde do Mengão Sem Freio", um sucesso nos treinamentos e entre os torcedores.

Aos 35 minutos, o atacante Frontini perdeu a cabeça. Atingido por Renato Abreu numa disputa de bola em que o jogador do Flamengo ergueu demais os pés, o atacante do Boavista reagiu com um empurrão. O árbitro Marcelo de Lima Henrique deu cartão vermelho para Frontini.

A torcida do Flamengo passou então a gritar "mais um, mais um", pedindo o gol que tranquilizasse de vez o time. Aos 31, Léo Moura deu uma arrancada pela direita, em contra-ataque veloz, mas perdeu a chance de atender o pedido dos torcedores. Ele segurou demais a bola e acabou desarmado. Nada que estragasse a festa e o carnaval antecipado em vermelho e preto. Ronaldinho Gaúcho, que está pronto para cair na folia, cumpriu o dever de casa e agora pode se divertir à vontade. Ele e toda a Nação Rubro-Negra.

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Começo promissor
Renato Maurício Prado

Não foi uma exibição de gala. Nem do Flamengo, nem de Ronaldinho Gaúcho, autor do belo gol de falta que assegurou o título da Taça GB. Mas, como criticar uma campanha invicta, na qual os 100% de aproveitamento só não foram alcançados por conta do empate com o Botafogo, na semifinal? O início da temporada rubro-negra é inegavelmente bem-sucedido.

O time está pronto? Longe disso. Falta um lateral-esquerdo (por que rescindiram com Juan, que tinha a renovação acertada e resolveria, com sobras?) e ainda definir quem será o centroavante (o Dentuço enfiado na área foi uma invenção que não deu certo e nem faz sentido: seu talento não pode ser restrito a jogar de costas, cercado por todos os lados).

O próprio esquema de Vanderlei tem variado a cada rodada e nem a improvisação de Renato Abreu, na ala esquerda, ou a entrada de Ronaldo Angelim, como terceiro zagueiro, foram capazes de produzir atuações que enchessem os olhos. Por mais que seja razoável imaginar eventuais mudanças de acordo com o adversário, é preciso uma armação base. E esta ainda não existe.

Ronaldinho Gaúcho, como a equipe, evolui aos poucos. Tem melhorado a cada partida e se ainda não protagonizou nenhum show à altura de seu passado, já deu bons passes, marcou três gols (um de pênalti, um de cabeça e um de falta) e garantiu a vitória na final. Um começo promissor. No âmbito do Rio, portanto, o Fla sai na frente, com justiça. Mas para sonhar com títulos mais importantes, como o Brasileiro, o da Copa do Brasil ou da Sul-Americana, ainda há um longo caminho a percorrer. O que é até compreensível, por se tratar do início de temporada.

Choque-Rei aquático



Após espera de uma hora, concluiu-se que São Paulo e Palmeiras poderiam jogar futebol sob a chuva que caiu no Morumbi, no último domingo. As imagens dos torcedores nadando – literalmente – nas arquibancadas do estádio são impressionantes. Assim como a ótima drenagem do gramado que, de fato, mostrou sua eficiência.

Valeu a espera. As duas equipes, cada qual com seu estilo, fizeram uma boa partida, muito embora tenham exagerado na “vontade”: neologismo para violência.

O São Paulo veio mais uma vez com a nova formação implantada por Carpegiani: um 3-5-2, que deixa o jogo do tricolor fluir melhor, aproveitando as melhores características de seus jogadores. Atrás, Miranda, Alex Silva e Rodolfo compõem a zaga e dão cobertura para que Jean, pela direita, e Juan, pela esquerda, fiquem mais avançados. Casemiro e Carlinhos Paraíba – este mais solto, aquele mais contido – são os volantes, enquanto Lucas tem a incumbência de fazer a bola girar do meio para o ataque, juntamente com Dagoberto e Fernandinho. No entanto, Felipão, sabedor da importância e da qualidade do jovem talento são-paulino, impôs forte marcação em Lucas, praticamente o anulando na partida. Fernandinho, mais restrito ao lado esquerdo, e Dagoberto, o mais livre para atuar em todas as regiões do campo, acabam de montar o esquema que prescinde de centroavante, mas não o torna menos ofensivo e perigoso.

Já o Verdão tem uma postura mais pesada, porém equilibrada. O Palmeiras cadencia mais a bola, até por não ter jogadores tão leves e, especialmente, tão técnicos como o São Paulo. Aliás, esse é o grande problema do Palmeiras: afora Valdívia – ainda aquém do seu melhor futebol – e de Kleber, é um time de jogadores regulares, esforçados. Dada a movimentação rápida do São Paulo, o Palmeiras se viu obrigado a segurar Cicinho atrás, perdendo uma boa opção de ataque. Além dele, Márcio Araújo, Marcos Assunção e o lateral esquerdo Gabriel Silva também pouco subiram – até pela necessidade de conter o ímpeto ofensivo do adversário –, fazendo voltar a ladainha mais ouvida no Parque Antártica: Kleber fica isolado na frente, precisa de um companheiro de ataque. Luan e Tinga não têm a qualidade necessária para formar um time que amedronte os adversários, e Valdívia, como já dito, vem de longo período de recuperação.

Se o gol de Fernandinho fez com que o Tricolor vislumbrasse um cenário otimista de contra-ataques fulminantes, a reação impulsiva de Alex Silva e sua decorrente expulsão fizeram com que o Palmeiras reequilibrasse as forças, crescendo em campo. Em que pese o São Paulo, durante um bom tempo, ter sido melhor, ainda que com um jogador a menos.

Felipão, antevendo tendência de o árbitro “compensar” a expulsão do zagueiro são-paulino, tirou de campo os jogadores que haviam tomado cartão amarelo. Leandro Amaro entrou no lugar de Danilo e Marcos Assunção deu lugar a João Vitor. No entanto, a substituição mais decisiva foi a de Adriano “Michael Jackson” no lugar de Luan. O jogador deu mais velocidade às chegadas do Palmeiras e se aproximou de Kleber, tornando o ataque mais eficiente. Como se não bastasse, fez o gol de empate, em belo chute cruzado no canto esquerdo de Rogério Ceni.

Carpegiani, por outro lado, promoveu substituições que tornaram seu time mais lento e desarticulado. A entrada de Xandão, para recompor o sistema de três zagueiros, no lugar de Fernandinho, fez o tricolor perder força no ataque. Rivaldo, no lugar de Lucas, e William José, no lugar de Dagoberto, apesar de boas opções, não corresponderam às expectativas.

Final: 1 a 1. Embaixo de tanta água, até que São Paulo e Palmeiras fizeram uma partida, se não brilhante, digna de um verdadeiro Choque-Rei.

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Quem tirará satisfação de Alex Silva?



Parabéns ao árbitro Marcelo Ribeiro de Souza. Apesar das reclamações de parte a parte – na minha opinião, decorrentes muito mais do nervosismo gerado pelas dúvidas sobre a realização da partida após tanta chuva do que, propriamente, por erros de arbitragem –, Souza fez um excelente trabalho. Soube esperar, soube decidir e soube fazer a escolha certa: realizar a partida. Ademais, soube punir Alex Silva por uma atitude que, além de um ímpeto, é uma modinha ridícula oriunda dos “civilizados” gramados europeus: a modinha de tirar satisfação de adversário por suposta simulação.

Sim, a simulação é anti-jogo e deve ser prontamente punida pelo árbitro. Ressalte-se: pelo árbitro! Se um jogador faz as vezes de árbitro ou de “profissional ofendido” pela atitude antiética de outro, também deve ser punido. Simplesmente porque não lhe cabe tal atitude.

Infelizmente, há modas na Europa que são copiadas por nossos jogadores. Em vez de copiarmos o que somente há de bom, copiamos também as bobagens. O “tirar satisfação” é uma delas. Assim como o tal do fair play, em que, quando um jogador aparenta estar machucado, o outro deve jogar a bola para fora de campo para seu atendimento. Sim, está certo. Mais certo, ainda, seria o árbitro parar a partida para o atendimento, já que a responsabilidade por avaliar e decidir é dele, não dos jogadores.

No caso de Alex Silva, sua atitude foi decisiva para o crescimento do Palmeiras na partida, quiçá para o resultado final. Será que seus companheiros, a diretoria ou a torcida são-paulina têm o direito de “tirar satisfação” de Alex por isso?

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Jogar, cair e reclamar

Valdívia é um excelente jogador. Ainda está sem ritmo de jogo, mas, quando o adquirir, promete ser uma das sensações do campeonato. Porém, o chileno precisa perder o vício da catimba. Por mais faltas que sofra, Valdívia a aumenta à enésima potência. Um esbarrão nele tem o mesmo efeito de um cruzado de direta de Mike Tyson no auge da carreira. Além do teatro, seguem-se as reclamações, muitas vezes acintosas, para as quais ganha a companhia de Kleber.

Se o excesso de “civilização à européia” de Alex Silva é criticável, também o é o excesso de “catimba sul-americana”. Talvez o melhor futebol esteja no meio do caminho.

JFQ

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Estupidez coletiva

Paulo Vinicius Coelho


Há três semanas, um executivo do canal esportivo italiano Mediaset telefonou. Perguntou se eram verdadeiros os boatos que escutava na Itália de que o Brasileirão voltaria a ser disputado em mata-mata. Ao ouvir que essa possibilidade era remota, informou: "Se é assim, a Mediaset vai comprar os direitos do Brasileirão".

A estabilidade do futebol brasileiro nos últimos sete anos produz o interesse internacional. É ela também a responsável pela negociação dos direitos de TV partir de uma proposta mínima de R$ 500 milhões. Há 15 anos, a TV pagava R$ 10,6 milhões para transmitir o Brasileirão. Hoje, pode, ou poderia, pagar perto de R$ 1 bilhão.

Andres Sanchez, Patrícia Amorim, Peter Siemsen, Maurício Assumpção e o vice de futebol do Vasco, José Hamilton Mandarino -quem manda no clube é ele-, puseram tudo a perder. Ninguém discute o direito de desafiar a forma de poder do C13. A pergunta é: por que fazer isso na semana do lançamento da licitação para o novo contrato de TV?

Como a Globo teria vantagem de 10% na concorrência, a Record teria de fazer um lance mínimo de R$ 600 milhões para ganhar. A expectativa era que a emissora paulista propusesse mais de R$ 700 milhões. A dúvida é se os executivos continuam dispostos a pagar tudo isso após a incerteza gerada pela crise.

O ponto central não é quem vai ganhar, Globo ou Record. A melhor proposta poderia ser da Globo, mesmo que a Record pagasse mais. Mas tudo isso deveria ser discutido em conjunto. Nesse caso, o novo contrato poderia dar aos clubes dinheiro para diminuir o abismo financeiro para a Europa. Mais dinheiro, mais craques, menos êxodo, melhor campeonato, mais interesse de torcida e patrocinadores.

No futuro, é evidente que Corinthians e Flamengo poderão receber mais negociando sozinhos. Mas a crise faz despencar seus preços.

Com Fluminense e Botafogo, é pior. Hoje, a dupla arrecada R$ 23 milhões por ano. Como é certo que a proposta mínima será de R$ 600 milhões, saltam para R$ 40 milhões anuais só na TV aberta. Sozinhos, arrecadariam menos.

Se Corinthians e Flamengo fechassem o contrato em conjunto com o C13 agora e anunciassem, em agosto, que negociarão sozinhos na próxima vez, veriam um leilão por seus jogos nos próximos três anos. Aí, sim, ganhariam mais.

Hoje, na Mediaset, o comentário é outro. Se o Brasil não consegue consenso para organizar sua Série A, como fará para promover a Copa?

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 27/02/2011.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Globo e Hugo Chavez, tudo a ver

Qual a semelhança entre a Rede Globo e o presidente venezuelano Hugo Chavez? Neste momento, consigo ver duas: a vontade de ocultar a realidade quando esta fere seus interesses e de agir de todas as formas para anular seus concorrentes.

A última do regime bolivariano (esquerdas de todo o mundo, uni-vos para pular deste barco furado) foi enviar “jornalistas” a Trípoli para mostrar, via Telesur, a rede oficial da Venezuela, que a normalidade impera na Líbia. Sim, aquele mesmo país que todos os demais meios de comunicação do mundo revelam estar à beira da guerra civil, cujo presidente, um ditador detestável, está no poder há mais de quarenta anos, que ordenou às suas forças de segurança que abrissem fogo contra a multidão revoltosa (há quem fale em mais de mil mortos) e que mantem com o “socialista” Chavez bons laços de amizade. Não nos surpreendamos se Gaddafi, caso não “morra como mártir”, venha curtir seu exílio no nosso vizinho de cima.

A Globo, por sua vez, não noticia com a relevância merecida o caso do esfacelamento do Clube dos 13. A emissora da venus platinada resolveu que a saída em massa de clubes da organização – o Corinthians puxando a fila – não é um fato jornalisticamente relevante e, pior, não lhe diz respeito. Ou, quem sabe, finge que o fato é irrelevante justamente porque lhe diz respeito. E como! O irônico é que a mesma Globo promoveu uma (quase) total ocultação da cobertura do Mundial da FIFA em 2000, ganho justamente pelo Corinthians, já que os direitos de transmissão daquele torneio ficaram nas mãos da Bandeirantes. Jornalismo, jornalismo, negócios à parte... e acima. Na briga atual, a Globo corre o risco de perder seu monopólio eterno na transmissão de futebol ou de pagar muito mais caro por isso. Para se ter uma ideia, hoje a emissora desembolsa R$ 400 milhões por ano ao Clube dos 13 para TV aberta, TV fechada, paper-view, internet e placas de publicidade. Se vingasse a concorrência a ser promovida pelo C13, para o Brasileirão de 2012 a 2014, a proposta mínima somente para TV aberta seria de R$ 500 milhões! Em tese, seria um aumento substancial de recursos aos clubes. Em contrapartida, um dispêndio bem maior à Globo, que sofreria a concorrência da Record e da RedeTV! Detalhe: sob o pretexto de ser uma emissora que oferece maior exposição às marcas, para vencer a concorrência, a Globo poderia ofertar um preço 10% maior que a da menor proposta. Mas, nem assim...

A propósito, me lembrei de uma outra semelhança entre Globo e Chavez: a disposição em se associar a líderes que não conseguem largar do poder. Chego a sonhar (maldito pendor utópico!) com os torcedores brasileiros, a exemplo de tunisianos, egípcios e líbios, derrubando Ricardo Teixeira. Pelo sim, pelo não, vou já ao Facebook.  

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Em tempo: Juca Kfouri, sua coluna da Folha, em 24/02/11, escreveu o seguinte a respeito do racha no Clube dos 13 (“A implosão”):

O racha se dá porque os que saíram não querem saber de mudanças e preferem a Globo. Eu, aliás, também preferiria, ainda mais que o dinheiro da Record é uma forma de concorrência desleal, porque da Iurd [Igreja Universal do Reino de Deus].”

Pois é. Pode ser que o monopólio da Globo não seja o único senão da sexagenária TV brasileira. É o clássico “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

JFQ

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mais um empate em casa



Libertadores 2011Fluminense 0x0 Nacional-URU

O Fluminense penou contra o Nacional de Montevidéu, ontem, no Engenhão. Com desfalques importantes (Fred, Emerson, Deco) e sem jogadores de qualidade para reposição, o Flu tentou de todas as formas furar a zaga uruguaia. Em vão.

O técnico Muricy Ramalho escolheu uma formação inicial que privilegiava a proteção da defesa e a supremacia no meio-campo. Em compensação, com Araújo, Tartá e Souza no banco, o tricolor carioca perdeu em velocidade.

O time começou com um 3-5-2 que pressupunha o acionamento constante dos laterais (no caso, alas). O problema é que Carlinhos não estava bem – foi, inclusive, hostilizado pela própria torcida durante boa parte do jogo – e Mariano só conseguiu se soltar no segundo tempo. Quando o fez, foi o melhor jogador da partida.

No primeiro tempo, o Flu tinha mais volume de jogo, mas oferecia pouco – ou nenhum – perigo à meta do goleiro Burian. A partir do meio-campo, a bola era sempre levada pelos pés pouco criativos de Diguinho e Valência. Conca, vindo de cirurgia, estava claramente à busca de um melhor ritmo de jogo.

Dos três zagueiros, Gum e Leandro Eusébio permaneceram mais plantados atrás, restando a Digão algumas subidas esporádicas à frente. No ataque, Rafael Moura ficou muito isolado e Marquinhos pouco fez na nova função como um segundo atacante.

Tanto o goleiro do Fluminense, Ricardo Berna, como o do Nacional, Burian, pouco trabalharam no primeiro tempo. Aos poucos, o time uruguaio foi se soltando nos contraataques. Mas não soube se aproveitar de mais um mal dia da equipe carioca e de certo desespero em resolver a partida, já que estava em casa.

No segundo tempo o Fluminense melhorou. Com a entrada de Tartá no lugar de Valência, o time de Muricy ganhou em movimentação. A bola passou a chegar mais a Rafael Moura. O lateral direito Mariano passou a apoiar com perigo.

Aos 26 minutos, porém, veio o susto: o atacante do Nacional, Garcia, aproveitando-se de um contra-ataque, passou por toda a zaga do Flu, mas perdeu o gol “feito”.

Aos 27, Muricy colocou Araújo no lugar de Digão. Além de mudar esquema tático, voltando à formação com 2 zagueiros, o Flu ficou com 3 atacantes: Araújo pela esquerda, Tartá pela direita e Rafael “He Man” Moura como centroavante. O tricolor aumentou a pressão, utilizando-se mais os lados do campo. Praticamente todo o restante da partida se deu na intermediária do Nacional.

Aos 35, veio a última substituição: Souza no lugar de Marquinho. A pressão continuou, mas sem finalizações precisas. O 0 a 0 deixou o Fluminense com apenas dois pontos na classificação do grupo, em dois jogos em casa. Agora, pega o América, do México, fora.

Destaque para mais uma boa arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla.

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Vitória do Internacional


Jogando no Beira-Rio, o Colorado passou pelo Jaguares, do México, por 4 a 0. O nome do jogo foi o volante argentino Mario Bolatti, que marcou dois gols. Além dele, Leandro Damião e o campeão sub-20 Oscar marcaram.

O time gaúcho não contou com D’Alessandro, contundido.

JFQ

Levante contra a FIFA

John Carlin


Oponho-me à ideia de que os americanos interfiram na política de outro país, o que sem dúvida tentarão fazer em meio aos levantes contra as tiranias da África do Norte e do Oriente Médio. Mas, no caso da tirania da Fifa, abro uma exceção.

Um jornalista anunciou ser candidato à presidência da Fifa. Jamais havia ouvido falar dele até a semana passada, mas Grant Wahl, repórter da "Sports Illustrated", pode contar com meu voto. Entre Sepp Blatter e Mohamed Bin Hammam, membro do Comitê Executivo da Fifa, fico com Wahl. Sua proposta essencial, como a de egípcios, tunisianos, líbios e iemenitas que estão se rebelando contra seus governos, é que a Fifa "precisa de mudança".

E certamente precisa. Não sei se as histórias sobre subornos, corrupção e abuso de poder na Fifa procedem, mas tendo recentemente ido ao Qatar (terra de Bin Hammam), suspeito que sejam ao menos parcialmente verdadeiras. Há algo de tão absurdo na decisão de dar a Copa-2022 ao Qatar que se torna obrigatório concluir que existe algo de podre. O conclave que dirige a Fifa se esquece de que, para milhões, o futebol é grande parte da diversão, emoção e consolo que a vida dá.

O Qatar é um lugar árido em todos os aspectos. Os Lamborghinis, Bentleys e Rolls-Royces que percorrem as ruas vazias não mitigam o tédio desértico da capital Doha. O primeiro problema é que as temperaturas em junho atingem 52º C. É possível que, com a fortuna do petróleo e do gás natural, o país crie estádios com ar-condicionado. Mas o que os torcedores farão nas horas sem futebol? Só buscar refúgio em seus hotéis refrigerados.

Quando se espalhar a notícia de que visitar o Qatar no verão é como tirar férias no inferno, é improvável que haja visitantes (ou, no mínimo, o número será pequeno). Quem verá os jogos? Havia preocupação com essa questão antes da Copa da África do Sul, um país de 50 milhões de pessoas, onde metade é louca por futebol. O Qatar, sem tradição esportiva (exceto na falcoaria), tem menos de um milhão de habitantes. A perspectiva para a Copa-22 é de estádios vazios, mas perfeitamente refrigerados. Fora, ruas vazias e igualmente sem vida.

A ideia toda é tola, insana: uma receita para destruir o que resta da magia da Copa. E foi a Fifa que aprovou o plano. Como diz o admirável Wahl e os manifestantes de Egito, Tunísia, Líbia etc. poderiam ter dito, chegou a hora de "curar a infecção”.

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JOHN CARLIN é colunista do diário espanhol "El País"
Tradução de PAULO MIGLIACCI
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 22/02/2011.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ninguém segura a Raposa



Cruzeiro 4x0 Guarani-PAR

O Cruzeiro mostrou mais uma vez que é sério postulante ao título da Libertadores. Não que o adversário – o Guarani, do Paraguai – fosse lá essas coisas, mas a postura da Raposa, repetindo o que já se vira contra o Estudiantes, é de quem está levando o torneio muito a sério.

Além da postura, a equipe mineira também mostrou bom futebol. Principalmente do meio para a frente, desde a coordenação das jogadas por Roger, passando pela ligação de Montillo, até os atacantes. Estes, por sua vez, vivem um bom momento de competição interna. Wallyson, em ótima fase, marcou dois gols. O argentino Farias, que entrou no lugar de Wellington Paulista, também fez o dele. E Thiago Ribeiro, tentando retomar a condição de titular, acertou um belo chute de fora da área. Seja qual for a dupla titular, é certo que Cuca terá boas opções no banco.

A Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, vem se tornando a Bombonera cruzeirense. A torcida em cima não deixa o time se desligar da partida.

Que venha o tão falado Tolima!
JFQ

A morte e a morte anunciada de um craque

Roberto Damatta


Os que reduzem tudo a poder que me perdoem, mas o evento destas semanas não foi "político". Foi a despedida, em pleno meio-dia, do senhor Ronaldo Luís Nazário de Lima, excepcional praticante de futebol, conhecido como Ronaldo Fenômeno ou, em virtude da precocidade típica dos gênios, simplesmente como Ronaldinho.

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Cronistas e jornalistas esportivos, bem como a maioria dos técnicos, são conhecidos pelo nome completo, mas os jogadores são personificados pelo primeiro nome ou por algum apelido de quatro letras: Vavá, Dida, Didi, Lelé, Mané, Cacá e Pelé. São os tais eufemismos que prezamos tanto e que permitem transformar bandidagem em malandragem, assalto em falcatrua, e mensalões em "caixa 2" partidário. Não é que debaixo do Equador não exista pecado, é que há vários tipos de pecado cujo julgamento depende dos pecadores. (Temos igualmente muitas polícias e tribunais, o que é bonança para os criminosos). O jogador de futebol, como um gladiador subversivo, pois luta dentro das regras observado de perto pelas massas injustiçadas que com ele se identificam aclamando o drible que faz cair de "bunda" o brancalhão azedo que todos consideravam racialmente superior, é assim um ser redutível a uma falsa intimidade de quatro letras e duas sílabas. Sua grandeza está em ampliar seu nome tornando-o maior (e melhor) do que o dos riquinhos, dos teóricos do futebol (que confundem sabedoria com memória) e dos filhinhos de papai (que jamais furaram um gol em suas vidas!) que deles falam com desprezo, admiração, ódio e incomensurável inveja. Porque os craques de quatro letras ganham salários de mil e tantos zeros, mas são analfabetos; e - pior que isso as "ronaldinhas" louras e comem todo mundo. Hoje - como pode? cosmopolitas e empresários. Eis as subversões rotineiramente praticadas por esses vingadores sociais que invertem os termos de nossas hierarquias, levando aos estádios um raro e nobre sopro de uma terrível (e temida) igualdade. E de uma poderosa excelência gritantemente ausente do nosso universo administrativo em geral, pautado pela mediocridade contida dos ocupantes de cargos públicos. Como lidar com esses demiurgos que roubaram o "football" dos "adiantados" britânicos e, sem ajuda do Estado, do sorriso hipócrita dos políticos com desculpas até para não fazer oposição, e dos partidos do povo cujos patrões odeiam a igualdade, deram ao povo uma arte fundada no desempenho, capaz de promover a experiência da vitória e da igualdade? Um "futibol" que veio redimir e permitir amar o Brasil?

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Comoveu-me a despedida lúcida e soluçante de Ronaldo. Tanto quanto ele fazia gols pelo selecionado brasileiro. Fiquei impressionado quando ele disse que essa despedida era uma morte.

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Todos nós morremos muitas vezes nesta vida. Na outra, para onde estamos indo, não morremos mais. A morte não existe na morte, eis o grande segredo. Ela só existe no curso de nossas vidas porque no Nada e no Eterno só há o silêncio do apito final.

Mas para quem, em algumas décadas, vive uma eternidade - como é o caso dos que, como você e gente como Charles Chaplin, que passaram aperto para comer, vestir e dormir, a orgulhosa e bela superação da miséria pelo domínio de uma arte - é como saltar por cima do Everest (subir seria pouco) ou ir à Lua nu em pelo. Só quem tem uma imensa capacidade de sublimação consegue virar-se pelo avesso e transformar-se em mestre de alguma coisa.

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Com o seu jogo de corpo, sua força e suas arrancadas, você não passava por pessoas, você saltava a doença que mata; a desesperança que paralisa; o desespero que emperra; o desânimo que não deixa começar; a inveja que impede a admiração e o amor; o ressentimento e a vingança que aprisionam no passado. O seu gol não era só um sinal de vitória, era um grito contra o analfabetismo e a ignorância que você tão bem superou. Era o sinal de que mesmo carregando o não saber formal você descobriu na vida a sabedoria da vida. Aquele jogo de cintura era sua arma contra o mau político, contra o radical que acha que pode resolver o mundo com um regime político de chumbo, o religioso que rouba o crente. Você, Ronaldinho, deu ao povo o que ele mais precisava, pois seu modo de jogar restabelecia a igualdade e, para além dela, a crença na vida e no Brasil.

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Você diz que abandonou o futebol, mas o futebol não vai te abandonar. Você é parte dele. Você é um dos raros jogadores que a ele acrescentaram algo novo. Neste universo de regras fixas e de jogadas esperadas, você inovou. Repetiu no campo o que os seus fãs não podem fazer nas suas vidas: a revolução que permite rir do poderoso, o drible que faz o ricaço arrogante e o político vazio cair de quatro, o vai mas fica que passa por cima da sabedoria dos falsos sábios e vira pelo avesso o sistema que nos fez nascer por baixo. E para terminar - que gozo... - do adversário...

* Publicado no Estado de S.Paulo, em 23/02/2011.

Vingança e homenagem



Corinthians 3x1 Santos

Em tarde de muita chuva no Pacaembu, o Corinthians manteve a invencibilidade no Paulistão – além de mais uma vitória sobre arquirrivais –, aplicando um convincente 3 a 1 sobre o Santos. Sobretudo, foi uma tarde de homenagem a Ronaldo, o ídolo recém-aposentado.

Antes da partida, o Fenômeno, acompanhado dos filhos Ronald e Alex, desceu ao gramado vestindo uma camisa em que afirma amor eterno ao Corinthians. Discursou, agradeceu, recebeu uma placa das mãos do presidente corinthiano e reforçou a condição de “mais um louco no bando de loucos”. Os ex-colegas de clube entraram em campo com uma outra camisa em que se lia “Ronaldo, eternamente em nossos corações”. Além disso, na camisa de jogo, cada jogador tinha o número 9 nas costas.

Tudo muito bom, bela homenagem. Só que o melhor estava por vir. Elenco compenetrado, sabedor da pedreira que era o adversário, o Timão impôs forte marcação e foi implacável nos ataques. Fábio Santos revelou uma qualidade pouco conhecida da sua nova torcida: a de grande batedor de faltas. Marcou um golaço.

Se a qualidade do chute de longa distância de Fábio Santos não era tão conhecida, ninguém poderia alegar desconhecimento quanto à mesma qualidade em Elano. O que não impediu que o ex-titular de Dunga mandasse um tirombaço indefensável no ângulo esquerdo de Júlio César: 1 a 1.

O segundo tempo começou e com ele, a tempestade. Mas quem se adaptou muito bem à água não foi o Peixe, e sim, o Mosqueteiro. À la Robinho, Dentinho entrou na área santista às pedaladas e qual o Rogério da final de 2002, Adriano perdeu o tempo da bola e derrubou o corinthiano. Pênalti convertido por Fábio Santos, o artilheiro do dia. Vingança consolidada.

Só que a partida não tinha acabado. Se Dentinho repetira o Robinho de 2002, Liedson resolveu repetir Ronaldo – o homenageado do dia – na final do Paulistão de 2009. O golaço de Liedson, encobrindo Rafael, foi imediatamente associado àquele de Ronaldo em cima de Fábio Costa, certamente o mais bonito que o Fenômeno fez com a camisa do Timão.

Após a vexatória desclassificação da Libertadores, o Corinthians parece ter começado a engrenar. Destaque para Liedson, uma excepcional – apesar de tardia – contratação. Destaque também para Ralf, que a cada jogo vem provando ser um dos melhores volantes em campos brasileiros.

O Santos, por sua vez, continua bem na tabela e, pelo menos no papel, a ser um grande time, talvez o melhor do país na atualidade. Apesar disso, Adilson Batista começa a ouvir os gritos hostis de parte da insatisfeita torcida santista. Gritos, aliás, parecidos com os que ouviu há pouco tempo justamente no Corinthians. Os próximos jogos serão decisivos para seu futuro no Santos. A insistência em Diogo, no lugar de Zé Love, e em deixar o rápido Maikon Leite no banco, podem abreviar sua passagem pela Vila Belmiro.

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Líder limitado

Mogi Mirim 0x0 Palmeiras


Mesmo permanecendo líder, o Palmeiras vem cada vez mais demonstrando suas fragilidades. Assim como a árdua missão em fazer uma boa campanha com um elenco nitidamente limitado. Kleber merece cada vez mais o apelido de Gladiador, tamanha a luta para vencer zagas adversárias praticamente sozinho. Apesar da volta de Valdívia, ainda longe de sua melhor forma, não é o chileno o atacante capaz de formar boa dupla de ataque com Kleber. Falta um matador, um atacante de peso, com faro de gol. Felipão gostaria de ter Grafite, hoje no futebol alemão, mas a diretoria já sinaliza que a contratação é difícil. Enquanto isso, o Palmeiras vai de Kleber, Valdívia e uma série de jogadores, na melhor das hipóteses, razoáveis.

O goleiro João Paulo, do Mogi, foi o nome da partida. Um verdadeiro paredão diante de tentativas infindáveis do Palmeiras, que, diga-se de passagem, também tomou seus sustos.

O Palmeiras ainda é líder, mas já se pode notar uma queda na empolgação da torcida após série de vitórias sucessivas. E suadas.

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Oito mais oitenta

São Paulo 4x0 Bragantino


Para mim, o São Paulo é o favorito à conquista do título paulista de 2011. Carpegiani parece ter encontrado, finalmente, a fórmula de organização das jogadas de ataque que há muito tentava com Marlos, após a saída de Hernanes. A solução responde pelo nome de Lucas. O garoto resolveu se emancipar e mostrar que não é apenas uma promessa, mas uma realidade. Com Dagoberto e Fernandinho abertos – prescindindo de um centroavante e de organizadores de jogada com característica de cadenciar as jogadas, como Fernandão –, e Lucas vindo de trás, os ataques são-paulinos aumentaram a velocidade e a eficácia. Com triangulações rápidas e bastante objetivas, em poucos toques a bola surge nos pés de algum atacante frente a frente com o goleiro.

Na partida contra o Bragantino, isso foi uma constante. E os gols surgiram, um atrás do outro.

Além de Lucas, Casemiro e William José mostram a força tricolor da garotada. Aliada à experiência de veteranos como Rivaldo e o ídolo maior Rogério Ceni, o São Paulo tem tudo para se fortalecer cada vez mais.

JFQ

Dos pênaltis à final




Flamengo e Boavista disputarão a final da Taça Guanabara no próximo domingo. Coincidentemente, ambos obtiveram a classificação na disputa por pênaltis. O Boavista (zebra?) passou pelo Fluminense, após um 2 a 2 empolgante, em que buscou o placar na maior parte do tempo. Já o Mengo, que mostra um elenco promissor, sem entrosamento, com jogadores em busca de suas posições em campo e sem um esquema tático definido, pode louvar-se de ter passado de um adversário, se não brilhante, bem organizado por Joel Santana.

No Mengo, destaque para o carrapato Williams, para o bravo Léo Moura e para a revelação da Copinha, Negueba.

No Boavista, destaque para a louvável determinação dos jogadores. Se a equipe repetir a postura contra o Nova Iguaçú e contra o Fluminense, a zebra pode dar as caras nessa final.

JFQ

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Enfim, o Flamengo é campeão brasileiro de 1987


A CBF reconheceu, enfim, o título brasileiro de 1987 do Flamengo. Conforme decisão divulgada hoje, dia 21/02/2011, o time carioca dividirá o título com o Sport.

Sobre a Taça das Bolinhas, cuja posse definitiva é destinada ao primeiro pentacampeão brasileiro, o imbróglio continua. A taça foi entregue ao São Paulo no último dia 14. O Flamengo disputa a taça na Justiça.

Ironia das ironias: enquanto São Paulo e Flamengo disputam a taça de primeiro pentacampeão brasileiro – ambos já são hexacampeões –, a CBF, ao homologar os títulos da Taça Brasil e do Robertão como títulos brasileiros, fez com que o Santos e o Palmeiras se tornassem octacampeões.

Certa vez, o então ministro Pedro Malan, ao se referir às decisões judiciais sobre planos econômicos antigos, afirmou que “no Brasil até o passado é incerto”. Que o diga nosso futebol.

JFQ

Uma imagem também diz muito sobre quem a faz e sobre quem a vê

Circulam pela internet fotos de Ronaldo e Roberto Carlos fumando. As fotos foram tiradas por um paparazzi, que conseguiu captar imagens de dentro da casa do Fenômeno, quando dava uma festa para o lutador Anderson Silva.

Também criou frisson – esse é o objetivo dos tais fotógrafos “profissionais” – foto do jogador Piqué, abraçado a um amigo. A foto, tirada em 2006, mas somente agora colocada no fogo eterno da internet, reforça o blá-blá-blá sobre a orientação sexual de Piqué, já insuflado por outra foto, em que foi flagrado em pose “suspeita” com o então colega de Barça Zlatan Ibrahimovic.

Enquanto as fotos de Ronaldo e Roberto Carlos procuram despertar a discussão – a palavra certa seria fofoca ou futrica – em torno do hábito de atletas profissionais fumarem (no caso, Ronaldo sequer é mais jogador), as fotos de Piqué sugerem o questionamento de sua orientação sexual.

Muito se fala e muito se escreve sobre as imagens. Contudo, pouco se fala sobre a criminosa e abjeta prática de invasão da privacidade. Como que, sob a desculpa de se tratarem de “personalidades públicas”, fosse totalmente autorizada a invasão da vida particular desses cidadãos – sim, o fato de serem “públicas”, não as retira a condição de cidadãos, como os direitos e deveres que todos temos. Assim como pouco se fala ou se escreve sobre o costume não menos nojento de tecer juízos de valor a respeito de atletas cujo único âmbito passível de avaliações deveria ser o que fazem dentro de campo. Ou, muito pior, pouco se fala ou se escreve sobre a prática cretina de impor e patrulhar comportamentos alheios.

Eis o óbvio: o tabagismo é ruim para qualquer um, mas cada qual é responsável pela preservação da própria saúde; ser heterossexual ou homossexual é determinação íntima do sujeito, não cabendo a qualquer um fazer juízos a respeito (a propósito, passou da hora da homofobia ser crime no Brasil); tecer juízos de valor sobre o outro ou patrulhar comportamentos são atos dignos de canalhas, e invadir a privacidade alheia, de bandidos.

JFQ

Locomotiva azul



Cruzeiro 5x0 Estudiantes

Desde o início da partida, o Cruzeiro pareceu uma locomotiva desenfreada para cima do Estudiantes. Sabe-se lá o quanto a sede de vingança pela derrota na final da Libertadores 2009, em pleno Mineirão, pesou no empenho de seus jogadores. O fato é que deu pena do craque Verón diante da voracidade da Raposa, em noite inspiradíssima de Roger e Montillo.

A equipe de Cuca impôs um jogo eletrizante. O gol de Wallyson, logo nos primeiros segundos, foi a senha para o sofrimento que acompanharia a equipe argentina. O atacante, aliás, foi até mais participante e perigoso no ataque do que Wellington Paulista, em tese, o matador do time mineiro.

Fábio trabalhou pouco. Não somente pelo ímpeto ofensivo do Cruzeiro, mas pela eficiência defensiva, com destaque para as atuações do zagueiro Gil e do volante Marquinhos Paraná. Gilberto também esteve muito bem na lateral esquerda, posição na qual volta a se acostumar.

Após o primeiro gol, o Cruzeiro recuou e Estudiantes começou a esboçar ataques, sempre iniciados dos pés de Verón. O que o Estudiantes não contavam era com a ineficácia dos manjados lançamentos do carequinha argentino e, especialmente, com a surpreendente eficiência dos contra-ataques cruzeirenses.

Justamente em um contra-ataque, Montillo encontrou Roger na frente, que driblou e acertou um belo chute de direita no canto. Em seguida, o próprio Montillo se encarregou de destroçar seus compatriotas do Estudiantes com dois belos gols: o primeiro, após ótimo passe de Roger; o segundo, em um belíssimo chute de fora da área. Wallyson, por fim, deu números finais ao baile da Raposa.

Roger esbanjou nos lançamentos, quase sempre perfeitos. Já o Estudiantes, mostrou, além da fragilidade na defesa, excessiva dependência de Verón, sempre procurado pelos companheiros.

Não só pelo placar – contra um adversário poderoso, pelo menos no papel –, mas pelo entrosamento e pela vontade demonstrada em campo, o Cruzeiro se credencia como seríssimo postulante ao tricampeonato da Libertadores.

Destaque negativo para a frágil segurança do estádio de Sete Lagoas e positivo para a atuação firme de Carlos Amarilla.

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Burocrático e sonolento

Deportivo Táchira 0x0 Santos

Burocrático e sonolento são os melhores adjetivos para definir a partida de estreia do Santos na Libertadores. Jogando em San Cristóbal, na Venezuela, contra o fraco Deportivo Téchira, o Peixe postou-se em campo sem a ousadia dos seus meninos. A propósito, os santistas deste ano já não são mais tão meninos, a começar pelo principal articulador de jogadas: Elano.

Adilson Batista montou uma equipe cautelosa e mais pesada, mantendo Maikon Leite e Zé Eduardo no banco. Em compensação, escalou os campeões do Sul-Americano sub-20 Neymar e Danilo, e colocou o lateral esquerdo Alex Sandro no segundo tempo, no lugar de Léo.

O Santos, apesar nitidamente superior tecnicamente ao Táchira, foi, digamos, extremamente respeitoso. O goleiro Rafael praticamente só assistiu à partida. Além disso, a dupla sub-20 do Peixe demonstrou o cansaço pela campanha vitoriosa no Peru, especialmente Neymar, sempre muito caçado em campo. Danilo até mostrou boa movimentação na ala direita – o titular Jonathan está contundido –, mas não logrou êxito em produzir jogadas, talvez pela ausência de Maikon Leite, que vem jogando muito bem por aquele setor.

Destaque para Rodrigo Possebon, volante vindo do Manchester United, que mostrou firmeza na marcação, cobrindo as saídas mais à frente de Arouca, ainda fora de forma. Elano abusou dos lançamentos a Neymar e Diogo, sem muito proveito. Diogo, apesar de presente próximo à área do Táchira, não ofereceu qualquer perigo ao goleiro adversário, sendo substituído no segundo tempo por Zé Eduardo. O garoto de Promissão, porém, também não entrou bem no jogo.

Apesar da nítida superioridade técnica do time, o Santos conseguiu apenas chutar uma bola na trave do Táchira – bate-rebate em que a bola sobrou para Danilo, na pequena área –, e ainda tomou um pequeno sufoco no final da partida.

O empate sem gols foi o resultado mais apropriado pela qualidade do futebol demonstrado pelas duas equipes.

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A estreia dos gaúchos

Mantendo a fase do gauchão, o Inter, atual campeão da Libertadores, empatou com o Emelec, no Equador, por 1 a 1. Empate com sabor de derrota, já que o Colorado vencia a partida quando tomou o gol nos acréscimos.

Já o Grêmio passou fácil pelo Oriente Petrolero, da Bolívia, por 3 a 0, no Olímpico.

JFQ

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um herói com caráter

Daniel Piza


Ronaldo ficou muito emocionado e chorou em sua entrevista de despedida, mas o final de sua carreira não foi nada a lamentar. Mais uma vez, ele deu seu recado com elegância, lembrando brevemente seu histórico de lesões e o hipotireoidismo que já tinha sido revelado em 2007, no Milan, e agradeceu até mesmo aos críticos, que lhe deram força para responder em campo. Enquanto ele pôde responder, enquanto as dores e as ausências não o impediram de ser decisivo com a bola, levou a carreira adiante, como raros atletas conseguiriam. No momento em que perdeu as últimas motivações, decidiu antecipar a aposentadoria que já estava anunciada. Isso tudo é, no mínimo, digno - muito mais digno do que tantas acusações feitas a ele desde 1998.

Em dois anos de Corinthians, Ronaldo foi protagonista na conquista de dois títulos, fez 35 gols - alguns que serão lembrados por muito tempo - e ajudou o clube a se modernizar. Melhor que isso, só se tivesse conquistado a Libertadores, que seria a primeira numa história centenária. Mas tratar esse par de anos como algo que mancha ou diminui a biografia do Fenômeno não faz sentido - ainda mais vindo de pessoas que diziam que ele teria no Corinthians o mesmo fim de Garrincha. Ronaldo nunca foi parar no Usbequistão; nunca faltou ao treino ou se escondeu nas decisões; nunca foi parar nem sequer no banco de reservas. Quantos grandes craques não tiveram queda de rendimento nos últimos anos? E quantos saíram imediatamente depois de título importante?

Não se trata de não ver seus defeitos, os momentos de enfado e descuido que poderiam ter sido evitados, a dificuldade de cabecear, etc. Mas se trata de reconhecer que ele escreveu uma bela história, muitas vezes solitário como só um ídolo pode ficar, e mostrou sempre bom caráter. Em 2001, quando se recuperava no Rio e todos o davam como "acabado" - jamais como alguém que voltaria e faria oito gols numa Copa do Mundo -, lá estava ele, dando duro, suportando tudo, tratando todos com simpatia e bom humor. Em 2008, depois de romper o outro tendão patelar, fato inédito na história do futebol, ele poderia ter se aposentado, mas todo dia ia ao Flamengo, treinava em aparelhos defasados, tomava banho frio. À noite, era acordado pelo fisioterapeuta Bruno Mazziotti dobrando sua perna com força para ganhar um grau de ângulo mais.

Ou antes ainda: quantos jogadores suportariam dezenas de milhões de brasileiros decretando que ele tinha "amarelado" diante da França em 1998? Quantos conseguiriam atravessar aquilo sem acusar colegas, técnico ou dirigentes ou sem desistir? Ele nunca pôs a culpa em ninguém. E poderia, afinal havia outros dez atletas em campo, e mesmo o escalado Edmundo entrou depois e nada fez. Ronaldo foi criticado porque quis jogar. Quatro anos depois, fez dois gols na final contra a Alemanha. Cadê o amarelão? Foi para o Real Madrid e fez mais uma centena deles, embora alguns digam que "não jogou nada" depois de 2002. Pela seleção em 2004, no Mineirão, fez três gols na Argentina; o tempo passou e o Brasil ainda não viu nada parecido.

Desde ali, o corpo foi perdendo mobilidade e equilíbrio muscular. De 2005 em diante, ele não conseguiu mais fazer oito partidas seguidas; praticamente jogava um mês e parava outros dois. Dos 18 anos de carreira, aliás, apenas em metade deles conseguiu temporada integral. Uma das consequências foi a alta exposição de sua vida privada, que ele mesmo promoveu em alguns momentos, como ao levar namorada para a concentração, e que em outros o mostrava fumando e bebendo. Já as coisas boas não viram notícia, como o carinho com a família, o apoio aos colegas, a conversa divertida, a curiosidade herdada do pai (embora não tenha se tornado um leitor de livros como ele), as iniciativas sociais como a que anunciou ontem (Fundação Criando Fenômenos).

Amor irrestrito. Também seu amor pelo futebol nem sempre transparecia, como transpareceu num restaurante do Rio, no final de 2008. Ao ver na televisão a torcida do Corinthians gritando "Aqui tem um bando de loucos", Ronaldo comentou: "Essa torcida é incrível".

Hoje, a julgar pelos milhares de comentários e tweets postados desde domingo, é a vez de todas as torcidas dizerem: "Sua carreira é que foi incrível". Ninguém, exceto os chatos, está chorando pelo que ele não fez, mas por saudade do que fez e poucos igualaram.



* Publicado no Estado de S.Paulo, em 15/02/2011.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110215/not_imp679658,0.php

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O título, as vagas, o show


É justo ser otimista quanto ao futuro do futebol brasileiro, a tomar a seleção brasileira sub-20, campeã do Sul-Americano 2011. Com o título também vieram as vagas para o Mundial da Colômbia e para as Olimpíadas de Londres, para não falar do show dado pela meninada do Brasil.

Além das revelações que brilharam em Arequipa, Peru, vale lembrar que Phillipe Coutinho, ex-Vasco, atualmente na Inter de Milão, ficou de fora por conta de uma lesão na coxa.

As partidas da seleção brasileira foram marcadas pelo bom toque de bola e chegadas arrasadoras ao gol adversário. É certo que o time demorava um pouco a engrenar; mas quando o fazia – geralmente no segundo tempo –, era muito difícil de segurar.

As partidas contra a Argentina – derrota por 1 a 0 – e a goleada sobre o Uruguai – 6 a 0 –, foram, a meu ver, os “pontos fora da curva”, para o bem e para o mal. De qualquer forma, servem como alerta para correção de falhas e como amostra do imenso potencial desses meninos.

Casemiro e Fernando, os volantes, demonstraram boa presença na marcação (principalmente Fernando) e boa chegada à frente (especialmente Casemiro). William José – exímio chutador de fora da área – e Oscar, também revelaram-se competentes na articulação no meio e aproximação na área adversária. Lucas e Neymar... bem, estes merecem parágrafos à parte.

Neymar é genial, uma das principais revelações do futebol brasileiro dos últimos tempos. Não é à toa que desde antes da profissionalização já se falava dele. Como também não é sem razão que Neymar seja titularíssimo no ataque da seleção principal. Além de craque da competição, o jovem santista de 19 anos marcou nove gols, sagrando-se o artilheiro deste e o maior artilheiro do Brasil em todos os Sul-Americanos. Fica apenas a impressão de que Neymar abusa um pouco do talento, recorrendo, às vezes, a provocações desnecessárias.

Na minha modesta opinião, porém, a grande revelação do torneio foi Lucas. Não que tenha superado Neymar ou que dele não se esperasse demonstrações de talento, mas o fato é que Lucas foi além das expectativas. Inteligente, arrojado, habilidoso e rápido, o meia são-paulino deu mostras de maturidade futebolística suficiente para fazer Mano Menezes pensar em uma convocação em breve para o time principal do Brasil.

De qualquer forma, mesmo que se precise esperar um pouco mais pelo amadurecimento de Lucas e outros jovens talentos da seleção sub-20, é bom notar que a safra é bastante promissora.

JFQ

O súbito adeus de Roberto Carlos

Considero Roberto Carlos o melhor lateral que já vi jogar. Levando-se em conta a dupla função do ala – marcar atrás e apoiar à frente –, nenhum jogar mostrou futebol à altura desse baixinho parrudo, cuja carreira iniciou-se no singelo União São João de Araras, no princípio dos anos 1990. Junto com Cafu, Roberto Carlos compôs a dupla de laterais titular da seleção por muitos anos.

Às portas dos 40, Roberto mantém uma forma física invejável e, mesmo oscilando de partida a partida, continua a mostrar que é um grande jogador de futebol. Foi dessa forma que o vi, contente, chegar ao Corinthians. Ainda mais por reencontrar no Timão o amigo de longa data, Ronaldo, com quem jogou na seleção e no Real Madrid.

Após curta passagem – que prometia ser longa –, Roberto Carlos deixa o Corinthians, melancolicamente. Em que pese boas partidas por ele protagonizadas no Timão. A melancolia não se deve tanto à partida prematura, mas à forma como sai: imediatamente após mais uma eliminação de Libertadores, quando, de forma obtusa, ausentou-se da partida decisiva e, principalmente, pela retórica dissimulada antes e depois da eliminação.

Depois da péssima partida contra o Tolima, no Pacaembu, Roberto foi o jogador escalado para falar com a imprensa antes do fatídico jogo na Colômbia. Aliou um discurso de desculpas, de esperança e de temor pela possível desclassificação. De forma surpreendente, pouco depois veio a notícia de que não poderia jogar por causa de uma contusão na coxa. Claro, há que se lembrar que o lateral fora substituído por Marcelo Oliveira na primeira partida, o que deduz que tinha – ou poderia ter – problemas físicos. Eliminado do torneio, passou a se dizer ameaçado pela torcida, o que poderia justificar sua saída do Timão. Agora, vem à tona propostas vindas da Rússia e dos EUA para levar o lateral.

Por mais que se diga o contrário, fica difícil não pensar que as propostas já estavam sendo consideradas e que a eliminação, bem como o lamentável “protesto” das “organizadas” veio a calhar para Roberto Carlos.

Apesar do destino provável ser a Rússia, Roberto saiu à francesa, em busca de um negócio da China, com justificativas para inglês ver.

JFQ