quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Rumo certo

Antero Greco




O Corinthians passou a maior parte da temporada em busca de patrocínio para a camisa. No início, fincou o pé em R$ 50 milhões. Diante de mercado conservador, topou negociar por valores menos ambiciosos. Até que, semanas antes da disputa do Mundial de Clubes, conseguiu fechar acordo – e com a Caixa Econômica Federal -, anunciado anteontem. Bateu o martelo por R$ 30 milhões, uma soma nada desprezível.

Apareceu o parceiro e se alastraram comentários pouco elogiosos ao compromisso assumido pelas partes. Muitos já colocam em dúvida a lisura da transação, interpretada como nova ajuda estatal ao clube. Não faltaram ligações com as benesses, indesmentíveis, recebidas para a construção do estádio, assim como se enxergou a mão do ex-presidente Lula, que dá sua forcinha. Sim, o Corinthians tem proximidade com o poder...

Viramos gente desconfiada, quando se trata de atuação de entidades públicas no esporte. Por tantas situações obscuras, há tendência para se detectar maracutaia na mais singela ação. Da mesma forma, não se deve descartar dose aguda de dor de cotovelo, sentimento tão antigo quanto o homem. O sucesso alheio incomoda, e nada melhor do que desmerecê-lo, para aplacar a inveja.

Até prova em contrário, Corinthians e Caixa selaram contrato comercial como ocorre todos os dias, em qualquer área. O clube aceitou a oferta, por considerá-la ajustada a necessidades financeiras dele. O banco viu oportunidade de expansão de negócios com esse meio de divulgação da marca. E é disso que se trata: estratégia publicitária. A Caixa tem concorrentes fortes que descobriram a importância do futebol, e partiu para o contragolpe no mesmo terreno.

O ensaio começou meses atrás, com pactos semelhantes, embora mais baratos, com Avaí, Atlético-PR e Figueirense, até chegar ao Corinthians, com ou sem padrinho influente. A diferença de investimento é compreensível, e não há comparação entre o apelo dos times do Sul em relação ao do paulista. Por mais que simpatizantes de outras agremiações se sintam incomodados, é incontestável a expansão alvinegra. E, pelas regras capitalistas, normal que ele receba mais.

O Corinthians está em evidência, também, pelo desempenho em campo. Logo mais estará no Japão, em evento de alcance global; em 2013, disputará outra vez a Taça Libertadores, fora as competições nacionais de praxe. Como dá audiência, aparecerá muito na televisão aberta. Ou seja, vive um círculo virtuoso que o favorece. Maré mansa que naturalmente atrai interessados em convênios.

O Corinthians tem uma interessante atividade de marketing, isso é inegável. Muitas vezes exagerada, com mais barulho do que resultados. Já foram vários os tiros n’água, e embarcou neles quem quis. Mas, melhor atrever-se, com risco de errar, do que acomodar-se e perder o trem da história. Com esse ajuste, o campeão da América dá salto de qualidade e mais um passo para amarrar o burro na sombra. Bem nutrido e saciado.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 21/11/2012.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Na rota do iceberg

Luiz Zanin


Dizem os especialistas que uma falha apenas não basta para derrubar um avião ou afundar um navio. É preciso que várias delas aconteçam ao mesmo tempo e se aliem a erros humanos. Também acredito que uma só causa, por forte que seja, não explique o descenso de um dos gigantes do futebol. Estamos falando do Palmeiras, afinal um octocampeão brasileiro, time de passado invejável. Caiu. Pela segunda vez em dez anos.

Todos já falaram sobre o assunto e mesmo eu quando a queda era provável mas não consumada. E todos fomos unânimes em apontar a incúria administrativa como responsável pelo péssimo desempenho do time, que acabou por levá-lo ao buraco.

Não tenho a mínima intenção de livrar a cara dos dirigentes. São mesmo ineptos a mais não poder – e não apenas no Palmeiras. Além disso, mais usam os clubes (por motivos políticos, vaidade ou razões inconfessáveis) do que o servem. No Palmeiras, o caso fica pior pela interminável disputa interna, o que só agrava as incompetências. E não deixa que os competentes trabalhem, o que parece ter acontecido com Luiz Gonzaga Belluzzo, economista brilhante que simplesmente não conseguiu impor suas ideias no Parque Antártica.

A minha dúvida é se, por ineptos que sejam, esses dirigentes conseguiriam, sozinhos, derrubar um gigante. A minha impressão é que não. Embora sejam os principais responsáveis, pois afinal estão no “comando”, tiveram o auxílio de vários outros fatores para conseguirem levar o Palestra ao abismo.

É possível, também, que parte da torcida tenha dado a sua inestimável contribuição. Foi responsável pela perda de mandos na etapa crucial da decisão. Fazer ameaças num momento desses equivale a jogar um balde de gasolina para apagar o incêndio. Nada a ver com a torcida de verdade, essa que acompanhou e sofreu com o time, lágrima por lágrima. Esta estará lá, na série B, incentivando os jogadores para que o time esteja de volta à série A em 2014.

Há também o aspecto psicológico, aquele lance do “vamos fazer os pontos quando quisermos, etc”, depois da conquista da Copa do Brasil que garantiu a vaga na Libertadores. Esse otimismo simplório deve ter contaminado o elenco – que já não é dos melhores. Como se sabe, a pior coisa do mundo é aliar incapacidade a ego inflado. Essa mistura explosiva pode ter contribuído para o resultado final. Talvez a diretoria tenha imaginado um elenco que não existia na realidade. Os técnicos podem ter se enganado. E pode ser que o próprio elenco tenha participado dessa ilusão coletiva.

Há um aspecto perverso nessa valorização excessiva da Libertadores da América. Adoro o torneio e o acho o mais difícil do mundo, além de ter o nome mais bonito. Mas, que diabos, não é tudo na vida. O Palmeiras, com a vaga assegurada, deu o ano por ganho. Esqueceu do compromisso no Campeonato Brasileiro. Quando acordou, era tarde. Pior: pensou que, como já tinha a Libertadores, não havia nada a temer. Time que está na Libertadores não cai.

É aquela história de que também falam os entendidos: se não achassem o Titanic insubmergível, talvez ele tivesse chegado a Nova York.



Publicado em O Estado de S.Paulo, em 20/11/2012.

Paixão rebaixada

Escrevi o texto abaixo quando o Palmeiras caiu pela primeira vez, em 2002. Mutatis mutandis, serve para o momento atual. Aos amigos palestrinos.
JFQ

* * *

Paixão rebaixada


“Me diga sinceramente uma coisa, Mr.Buster:/ O senhor sabe lá o que é um choro de Pixinguinha ?/ O senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal ?/ O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo ?”. Assim termina o poema “Olhe Aqui, Mr.Buster...” em que Vinícius de Moraes tenta explicar a um americano podre de rico como ele, o “poetinha”, então residente nos Estados Unidos, poderia voltar à “Latin America", mesmo com grande prejuízo financeiro. Vinícius, como bom brasileiro, apontava ao americano as nossas delícias, as nossas belezas e, sobretudo, as nossas paixões. Uma delas, talvez a maior de todas, a paixão pelo futebol. Como diria outro gigante da literatura nacional, Nelson Rodrigues, em crônica ao Jornal dos Sports: “Fala-se que o amor é a mais sombria, a mais violenta, a mais cruel paixão do homem. Mentira: é o futebol”. Provavelmente o é, em se tratando de um país cujo maior orgulho é dizer-se pentacampeão. Aqui, mais que em qualquer outro lugar, o futebol é fonte eterna de inspiração, alegrias, risos, mas também de choro, frustração, angústia, dor. É uma paixão, enfim.

Pode até parecer crime de lesa-pátria aos mais fanáticos torcedores do meu time, o Corinthians, mas não fiquei exatamente feliz com o rebaixamento do Palmeiras. Não compartilho da cruel felicidade assentada na desgraça alheia, nem que seja a do pior inimigo. Tenho velhos e bons amigos palestrinos, sei o que é a paixão por uma camisa, que a chateação por tamanha derrota não é das menores. Ademais, o mundo dá voltas e prudência não faz mal a ninguém. Há porém uma outra razão para não ficar contente: na qualidade de corintiano, sei que o arqui-rival cumpre uma função de suma importância. O freqüente combate entre os dois escretes fortifica também a minha paixão futebolística, especialmente a paixão pelo Timão.

Comecei a gostar de futebol pelos idos de 1979. Dois anos após o título de 77 que tirara o Corinthians do sofrido jejum de quase 23 anos, repetia-se a vitória contra a Ponte Preta. Logo após veio o bicampeonato paulista de 1982/83 com a chamada “democracia corintiana”, um time comandado por Sócrates, Casagrande e companhia, senão brilhante, bastante combativo. Lembro-me de que nessa época o Palmeiras estava abatido, desanimado, até certo ponto frágil. Passava pela fila que durou dezessete anos e tinha-se a impressão (pelo menos eu a tinha convictamente), de que estava fadado a sempre nadar, nadar e morrer na praia. Talvez fosse uma impressão parecida, guardadas as devidas proporções, à dos palmeirenses que acompanharam o calvário do “faz-me-rir corintiano” na época em que Ademir da Guia, Leivinha e outros encantavam com sua “academia”.

O fato é que, dada a fraqueza do adversário, não tinha ainda a noção exata do que era um Corinthians x Palmeiras. Só a tive quando este, fortalecido pelo dinheiro da Parmalat, montou uma equipe quase imbatível, tendo-lhe rendido vários títulos. Nesse período, clássicos inesquecíveis foram jogados entre ambos. Como esquecer as finais dos paulistas de 1993, ganha pelo Palmeiras, e de 1995, ganha pelo Corinthians ? Como esquecer daquelas decisões por pênaltis na Libertadores, dois anos seguidos, 1999 e 2000, em que (infelizmente para mim) o goleiro do Verdão fez mais que jus ao apelido de “São Marcos”. Como esquecer, afinal, de tantos embates entre dois clubes cujas torcidas mantêm um espírito inigualável de concorrência, alicerçado pela força de seus times dentro de campo. E vale lembrar que nesse período os dois foram bicampeões brasileiros, um ganhou a Libertadores, o outro, o Mundial da FIFA. Em suma, o fortalecimento do Palmeiras pós-Parmalat proporcionou o retorno da rivalidade frente ao Corinthians, assim como o fortalecimento da paixão das duas torcidas. Se o rebaixamento do clube de Parque Antártica arrefecer a paixão de sua torcida, temo que em alguma medida rebaixem-se também os ânimos da paixão corintiana.

Por fim, envio aos meus cabisbaixos amigos palmeirenses uma mensagem de alento: não há desgraça que dure para sempre. Deixe estar. Não me resta dúvida de que o Palmeiras, qual Fênix, renascerá das cinzas mais cedo ou mais tarde. O mesmo vale aos torcedores dos outros rebaixados. A propósito, “se esse negócio de espiritismo funciona”, como diria o supracitado botafoguense Vinícius de Moraes, o próprio poetinha está neste instante amargando a vergonha de ver seu clube da estrela solitária na segundona. O mesmo Botafogo de Nilton Santos, Didi e Garrincha, quem diria ! No entanto, também é certo que o tricolor Nelson Rodrigues o estará consolando, sabedor que é das agruras do descenso; afinal de contas, seu Fluminense, ora classificado, há pouco caiu não só à segunda, mas também à terceira divisão. Nelson dirá a Vinícius em seu consolo o mesmo que escrevera sobre as derrotas em uma crônica no Jornal da Tarde: “Sem elas, meu clube não seria tão grande”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Crônica da queda anunciada: o Palmeiras está rebaixado! De quem é a culpa?

Roberto Avallone





Agora, procura-se o mordomo. Quem é o culpado pelo rebaixamento do Palmeiras para a Série B do Campeonato Brasileiro, a popular Segundona? Aliás, e o que é mais grave, a segunda queda em 10 anos, pois a primeira aconteceu em 2002, na última rodada.

Desta vez, antecipadamente, ao empatar com o Flamengo (1 a 1) e ver vitoriosos Bahia e Sport, o Palmeiras teve consumado o infeliz destino neste Campeonato-matematicamente- com o empate da Portuguesa com o Grêmio em 2 a 2.

Mas quem é o mordomo?

Em minha opinião, foram várias as causas, não apenas um culpado. E lembrando que o Palmeiras já flertou com o rebaixamento no ano passado, escapando de um risco maior graças a maestria nas bolas paradas de Marcos Assunção. Mas não podia uma equipe com ambições maiores viver basicamente das bolas paradas.

Entre as causas, destaco algumas delas:

1- As velhas brigas políticas, sem a pacificação que há muito tempo se deseja para que o clube tenha um único objetivo.

2- A falta de um estádio definido para os jogos.

3- A falta de um parceiro ideal para Barcos, que fez 28 gols no Campeonato e poderia ter feito muito mais se tivesse companhia ideal.

4- A ausência em vários jogos de Marcos Assunção. Jogador fundamental para um time limitado.

5- O insucesso de Felipão em encontrar uma formação ideal para o Campeonato Brasileiro, embora com os méritos de ter conquistado, de maneira invicta, a Copa do Brasil. E com Gilson Kleina até que começou bem. Depois, voltou à rotina.

6- A ilusão da Copa do Brasil. Tudo bem, classificou o Palmeiras para a Libertadores, mas pode ter causado a falsa impressão de que “quando bem entendesse”, a equipe reagiria no Campeonato Brasileiro. O que, como se sabe, não aconteceu.

7- A não evolução de alguns jogadores, dos quais se esperava muito mais: um exemplo, sei lá a razão, é Juninho, ótimo no Figueirense e extremamente discreto no Palmeiras.

Na verdade- e devem existir muito mais causas- só matematicamente o Palmeiras caiu neste domingo. Porque foi mal durante o Campeonato inteiro, com performance pífia e trajetória desastrosa. O Palmeiras já tinha caído. Até que não se houve mal no empate com o Flamengo, com o time todo remendado, cedendo o empate no fim. Era tarde demais.

Foi a crônica da queda anunciada.


Palmeiras, confesso que te traí, mas o culpado é você, que murchou e ficou feio

Clóvis Rossi






Confesso, Palmeiras, eu tenho outro. Mas não espere um pedido de perdão nem arrependimento. Você mereceu a traição.

Relaxou, ficou murcho, feio, de quinta (categoria) ou de segunda (divisão).

Quando nos apaixonamos, faz uns bons 60 anos, você estava sempre entre os primeiros da classe.

A cada início de ano, sonhávamos sempre com um título, qualquer que fosse o torneio em disputa, a Taça Rio (lembra?), o Rio-São Paulo, o Paulistão, que nem era Paulistão à época, os torneios nacionais com seus diversos nomes ao longo do tempo que passamos juntos e em que éramos felizes --e sabíamos.

Nos últimos muitos anos, o sonho mais brilhante que podemos ter é o de ficar não no topo, mas entre os quatro primeiros, para disputar a tal Libertadores.

Não me casei com você, Palmeiras, para ser classe média apenas.

Pior: em vez de brigarmos para ficar entre os quatro primeiros, neste campeonato, brigamos para não ficar entre os quatro últimos.

Dá vergonha sair por aí de braço dado com você.

E dá mais raiva ainda verificar que nem merecemos a gozação dos casais inimigos.

Não tenho visto no meu Facebook brincadeiras de corintianos, são-paulinos e santistas, como se eles todos estivessem é com dó da gente.

Ou, pior, tristes por saberem que vão perder o saco de pancadas em que transformamos nosso lar.

Aliás, nem lar temos, destruído que foi o Parque Antarctica para a construção de uma arena, nome pomposo à beça para receber jogos da segunda divisão.

Eu até te perdoaria pelas poucas oportunidades que você me oferece do orgasmo de um gol.

Mas, caramba, na maioria dos jogos você não me dá nem o direito sagrado de gritar o "uuuh" do quase-gol, da bola que passou raspando.

Nosso amor cresceu nos tempos em que os companheiros de farra chamavam-se Ademir da Guia ou Luís Pereira.

Que interesse posso ter em sair com Maurício Ramos e Valdívia, que, aliás, mais sai do que entra em campo?

Fico olhando os casais vizinhos e vejo que reimportam um Fred, um Luis Fabiano, um Ronaldinho.

Nós reimportamos um Daniel Carvalho, que teria dificuldades em jogar no time dos casados na pelada da fábrica Matarazzo, se ainda há uma fábrica Matarazzo.

Aproveito para dar o nome do "outro": F.C. Barcelona.

É mais bonito, continua na primeira divisão (da Espanha), disputa a Libertadores deles, fornece um punhado de craques para a seleção campeã do mundo e ainda por cima tem um certo Lionel Messi, um deleite para a vista e para os sentidos.

Vou ser feliz com eles.

Ciao, bello!


Aconteceu de novo

Juca Kfouri





O Palmeiras caiu novamente.

Time grande cai sim.

Até mais de uma vez.

Mas só quando seus cartolas são pequenos.

A segunda vez em dez anos!

É muito.

Não há o que console o palmeirense, mas não há mais o que fazer.

Aliás, há sim.

Mudar de cima abaixo, de baixo para cima.

Já que nem na hora da agonia as facções se uniram em torno da salvação nesta verdadeira faixa de Gaza que habita o Parque Antarctica, chegou a hora de botar para fora os responsáveis pela nova humilhação.

No voto, não na pancadaria, nem botando fogo em coisa alguma, quebrando ou pichando nada. No voto!

Porque 2013 pode ser, apesar de tudo, um ano inesquecível na vida do Palmeiras, seu centésimo ano e em casa nova.

Ser bi da Série B não acrescenta nada, além de mais gozação, embora seja obrigatório buscar o título.

Mas ser bicampeão da Libertadores pode salvar tudo, pode tornar a segunda divisão brasileira apenas um acidente, um roteiro turístico diferente do habitual, domingos liberados para a família.

Para tanto, no entanto, será preciso que a eleição em janeiro tenha o efeito de uma revolução.

Não pode ser fruto de acordos espúrios, acomodação entre gente que não se dá, que tão logo assuma o poder passe a brigar entre si em lutas fraticidas.

Ou o Palmeiras acorda para uma nova fase em sua existência centenária, ou corre o risco de mais do mesmo, para voltar a sucumbir adiante.

E se uma vez já é muito e duas é demais, três será insuportável.

Até fatal.


Parte da coluna de hoje na “Folha de S.Paulo” e comentário para o “Jornal da CBN” desta segunda-feira, 19 de novembro de 2012.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Alex Alves, ex-Palmeiras e Cruzeiro, morre no interior de São Paulo





Morreu, na manhã desta quarta-feira, o ex-atacante Alex Alves, de 37 anos, que passou com sucesso por equipes como Vitória, Palmeiras e Cruzeiro. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do hospital Amaral Carvalho, de Jaú, onde ele estava internado há alguns meses para tratar uma leucemia. Alex Alves deixa uma filha, fruto do relacionamento dele com a empresária Nádia França.

Fonte: UOL

http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2012/11/14/alex-alves-ex-palmeiras-e-cruzeiro-morre-no-interior-de-sao-paulo.htm  

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Flu, sem dúvida

Luiz Zanin


Um time com mais de 72% de aproveitamento dos pontos disputados e com apenas três derrotas ao longo de um campeonato difícil precisa de alguma justificativa de mérito? Claro que não. No caso do Fluminense, grande campeão brasileiro de 2012, os números falam por si. Não há qualquer contestação possível e foi um título obtido rodada após rodada, quando o time de Abel mostrou fôlego, ao passo que seu principal concorrente, o Atlético-MG, começava a botar a língua de fora ao subir a ladeira da reta final. Questão de timing.

É verdade que, enquanto jogou, o Atlético encantou mais que o Fluminense. Bem montado por Cuca, com um Ronaldinho Gaúcho redivivo e o talento da revelação do ano, Bernard, o Atlético parecia a reencarnação do bom e velho futebol brasileiro, aquele que une arte e eficácia. Mas depois vimos que estávamos longe disso. E o Galo foi se distanciando, a ponto de ser superado até mesmo pelo Grêmio, do professor Luxemburgo. A segunda colocação do campeonato ainda está em aberto, e essa disputa entre mineiros e gaúchos é um dos últimos focos de interesse de uma competição que já tem seu vencedor.

Os amantes do futebol-arte talvez preferissem o Atlético campeão, mas e daí? Se o Fluminense não encanta, o Corinthians, campeão do ano passado, também não encantou, assim como o Flamengo, vencedor em 2009. Foram campeões indiscutíveis e fizeram a alegria de suas torcidas. Mas deixaram os apreciadores do futebol um pouco decepcionados. A pergunta que se faz, a esta altura, é a seguinte: poderia ser diferente? Até que poderia, haja vista a ótima campanha inicial do Atlético. Mas o que prevalece, no atual futebol brasileiro, é o cálculo, o pragmatismo, a capacidade de se mostrar regular, sem grandes oscilações. E, nesse ponto, o Fluminense foi absoluto. Basta olhar os números, mais uma vez.

Claro que o futebol é um ente indefinido, que muda segundo a perspectiva de quem o vê. Daí as discussões intermináveis. Daí, também, a infinidade de donos da verdade, gente que se acha o último copo d’água gelada no deserto quando o assunto é tática, técnica e previsões de resultados. Por isso, convém lembrar que o Flu é campeão porque contou com alguns jogadores em estado de graça, e nos momentos certos. Não teria vencido com três rodadas de antecedência não fossem as atuações de Fred e Diego Cavalieri, com certeza. Ou a velocidade de Wellington Nem. Ou seja, o Fluminense não é essa entidade puramente coletiva (como se supunha fosse o Corinthians de 2011), da qual seria impossível eleger destaques individuais. O time tem seus craques, e eles foram fundamentais. Ainda assim, faltou aquele futebol sedutor, que faz a delícia da própria torcida e empolga mesmo a dos outros times.

Quantos desses times sedutores surgiram nos anos mais recentes? O Santos de 2002 e do primeiro semestre de 2010, o Cruzeiro de 2003, e quantos mais? É muito pouco para um futebol que gostava de se definir como o melhor do mundo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 13/11/2012.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Perdoe-nos, Abelão!

André Barcinsky
 
 
Depois de comemorar o título, todo torcedor do Fluminense tem uma missão: pedir desculpas a Abel Braga. Ele é o verdadeiro herói desse time. Ninguém foi tão criticado e soube, com a fidalguia que prega o hino do Flu, trazer esse título para as Laranjeiras.
Perdoe-nos, Abelão, pelas tantas vezes em que o xingamos e amaldiçoamos a sua teimosia. Em que reclamamos da retranca do time e de escalações que consideramos absurdas.
Que torcedor não chiou quando você insistiu com Bruno na lateral direita? Ou quando escalou Edinho, apesar de toda a gritaria por Valencia? Ou quando pôs Anderson na zaga? Ou quando manteve Thiago Neves no time titular, contrariando a torcida e os comentaristas?
Muitos esquecem que alguns dos destaques do time só o foram por insistência sua. Ou não foi você que promoveu Diego Cavalieri a titular? Que pediu tranquilidade e paciência na época em que Fred ameaçou sair das Laranjeiras? Que insistiu com a diretoria para renovar com Rafael Sóbis? Que não chiou quando perdeu Conca e deu força para os que ficaram? Que promoveu, com serenidade e paciência, a subida de uma geração de ouro dos juniores, como Marcos Junior, Samuel e Higor.
Demorou, Abel, mas hoje todos os tricolores sabem: você estava certo. Seus números dizem tudo: melhor campanha do segundo turno do Brasileirão de 2011; campeão carioca, melhor campanha na Libertadores (que perdemos por detalhe e azar, tendo jogado com o Boca sem meio time); melhor campanha da história dos Brasileiros de pontos corridos em 2012.
Ao longo desse tempo, aprendemos a lidar com suas idiossincrasias: se estamos ganhando, sabemos que você vai tirar o Wellington Nem e botar mais um volante. Muitos reclamam, mas, no fundo, confiamos em você. Afinal, ninguém ganha Libertadores e Mundial de Clubes, como você fez pelo Inter, enfrentando o favoritíssimo Barcelona, sem sabedoria.
O Fluminense de 2012 aprendeu com o Corinthians de 2011 que não é preciso dar show para empolgar. Uma defesa sólida e um contra-ataque mortal são armas poderosas. É um time traiçoeiro e seguro, que ganhou a confiança da torcida.
Desde o time tricampeão carioca (1983 a 85) e campeão brasileiro (1984), não confiamos tanto num time.
Ontem, em Presidente Prudente, ninguém se abalou quando cedemos o empate. Sabíamos que a vitória era questão de tempo.
E, Abel, as perspectivas para 2013 são as melhores: mais uma Libertadores, um novo CT, a recente mudança de estatuto que criou o sócio-futebol. Muita coisa boa junta.
Para completar, vibramos quando você gritou "Eu vou ficar!" para a torcida, acabando com rumores de uma saída. O Flu sem você não faz sentido. De quem vamos reclamar no ano que vem?
 
ANDRÉ BARCINSKY é torcedor do Fluminense.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/11/2012.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vale trave

Denise Fraga



 
Sou flamenguista de nascença, mas palmeirense pelo coração. Gosto de futebol. Meu marido é palmeirense roxo e meus filhos ainda ostentam com orgulho a camisa do Palestra. Não tivemos muitas alegrias na última década, mas, neste ano, nosso time nos deu a Copa do Brasil e garantiu nossa vaga na Libertadores.

Fazia tempo que não nos inflamávamos tanto na arquibancada nem víamos nosso time jogar bonito assim. Estava um ano quente.

Mas, por incrível que pareça, corremos o perigo de passar o Natal amargando 2013 na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O time até brilhou, mas a bola simplesmente não entrou.

Um poderoso sentimento de injustiça cresce em meu peito quando penso nas inúmeras bolas na trave que presenciei. Em minha relativista visão feminina do mundo pão, pão, queijo, queijo do futebol já tentei tecer várias teses a respeito da importância da bola na trave, mas sempre me olham como se eu fosse mulherzinha.

É óbvio que é muito mais difícil acertar nas traves e no travessão do que no vão de sete metros. Não valendo mais do que um gol, deveria, no mínimo, aumentar o número de pontos de times como o meu, à beira do precipício. Mas bola na trave não é gol. Bola na trave é intenção. E, como dizia minha avó, de boa intenção o inferno está cheio.

Futebol se mede por gols, audiência, pelo Ibope, o valor das coisas, por seu preço e meu filho, mesmo devorando livros, só passa de ano se tirar boas notas. São regras e parâmetros aos quais fomos nos acostumando para tentar ter a vida nos trilhos.

Da última vez, saí do estádio pensando em um texto que li de Maria Rita Kehl no qual ela dizia que nossa biografia não deveria se basear somente em nossos feitos. Às vezes, nossos desejos e intenções nos configuram de forma muito mais plena. Seria nossa "biografia em baixo-relevo". Mas como exigir desse mundo objetivo em que vivemos tamanha delicadeza?

Continuamos por aí nos afogando em números e perdendo nossos "quases" que tanto têm a dizer. Nosso time talvez caia para a segunda divisão pela segunda vez.

Na primeira vez, os meninos eram pequenos e se firmaram palmeirenses gritando muitos gols, sem saber que torciam para um time rebaixado. Agora não poderemos mais enganá-los: já sabem que a vida é feita de números. Mas, mesmo na segunda, continuaremos na arquibancada contando nossos gols, aos quais eu, eterna e secretamente, agregarei as bolas na trave e os passes perfeitos.

 

DENISE FRAGA é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo)

Publicado na Folha de S.Paulo, em 30/10/2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Justamente ilegal

Juca Kfouri
 
O cúmulo do desespero revela-se nas reclamações quanto ao gol anulado de Barcos, o pirata da cara de pau.

Só faltava, para acabar de desmoralizar a arbitragem deste Brasileirão do impedimento tríplice carpado, a validação do gol do argentino que, em vez de reconhecer a farsa, fingiu indignação.

Pior que ele só o tal Piraci, do jurídico alviverde, falar em anulação do jogo. Baseado em quê? No que jamais se provará?

Quem sabe o pirado causídico não anule a decisão da Copa de 2006, quando também se alegou auxílio externo para expulsar Zidane, autor da cabeçada em Materazzi, tão escandalosa como a cortada de Barcos.

Ora, com um mínimo de espírito ético e esportivo, os responsáveis pelas tradições palmeirenses deveriam se calar diante da insânia que seria a validação do gol.

Que o árbitro vacilou é inegável e sua má consciência foi tal que nem cartão mostrou ao autor da farsa --deveria ter mostrado o amarelo duas vezes, o primeiro pela mão, o segundo pela falsa indignação.

Mas, vá lá, do jogador de sangue quente admite-se as piores vilanias, assim como não se espera equilíbrio do torcedor que aplaude Joaquim Barbosa, mas quer que seu time ganhe com gol de mão, em impedimento depois dos acréscimos.

Ainda mais do torcedor torturado pela pífia direção que Piraci representa.

Daí a mergulhar a instituição nas profundidades do ridículo vai enorme distância, para gozo dos rivais.

Já se disse aqui, e deve ser repetido, o que ensinou o uruguaio, este sim, jurista, Eduardo Couture, em seus Mandamentos do Advogado: "Teu dever é lutar pelo Direito, mas no dia em que encontrares em conflito o direito e a justiça, luta pela Justiça".

Alguma dúvida sobre o que tinha de prevalecer no caso da mão de Barcos?
Publicado na Folha de S.Paulo, em 29/10/2012.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Negócios à parte, torcedores

Paula Cesarino Costa
 
Nem centenas de milhões de reais foram capazes de separá-los. Em defesa de um mesmo objetivo, estão lado a lado personagens de uma disputa milionária: Rodolfo Landim, ex-executivo do grupo de Eike Batista --que reivindica na Justiça cerca R$ 500 milhões, referentes a 1% da holding que Eike teria lhe prometido--, e Flávio Godinho, do conselho de administração do grupo EBX.
"O Flamengo tem capacidade de unir até quem disputa milhões", diz Wallim Vasconcellos, candidato a presidente do clube rubro-negro.
Foi com um telefonema de Godinho para Landim que começou a crescer o movimento para criar a chapa que reúne empresários e executivos --como os presidentes da Sky, da Visa e da Cielo, o ex-presidente do BC Carlos Langoni e o ex-presidente da ANP David Zylbersztajn. Nesta semana, reuniram-se na casa do humorista Cláudio Manoel, do Casseta & Planeta, para acertos finais.
Ainda faltam estudos acadêmicos e/ou científicos que expliquem o comportamento do torcedor. Impressiona o que a paixão por um time é capaz de fazer com o ser humano.
Torcedores são capazes de tudo. Da irracionalidade flagrada durante uma partida, que faz homens civilizados agirem de maneira quase selvagem, à capacidade de fazer qualquer coisa pelo time que torce --ultrapassar divergências ideológicas, pessoais e disputas comerciais.
Como torcedores, esses executivos apostam numa receita moderna: profissionalizar a gestão contratando diretoria executiva, equacionar as dívidas, eliminar as ambições políticas e explorar melhor a marca valiosa. São quase 40 milhões de torcedores que não compram outro produto.
Mas eles disputam com várias chapas, entre elas a da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Num ambiente em que a incompetência alimenta a má-fé, e vice-versa, pode vir a ser só mais uma ilusão de torcedor.
 Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/10/2012.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A dor e a alegria

Luiz Zanin





Amigos, o futebol é esporte coletivo mas, muitas vezes, são as atuações individuais que mais nos chamam a atenção. Este fim de semana foi pródigo na supremacia do indivíduo sobre o conjunto. A começar pelo clássico espanhol, que teve o duelo à parte entre Cristiano Ronaldo e Messi. Imagino que ambos se lixavam para as manifestações separatistas da Catalunha que faziam vibrar as arquibancadas do Camp Nou. Estavam muito mais interessados em sua luta particular para ver quem é o melhor do mundo. E, nessa disputa de egos, empataram, da mesma forma como o jogo empatou. Dois gols para cada lado, duas atuações brilhantes. O lucro foi do público.

Entre nós, houve a atuação emocionante de Ronaldinho no sábado. Iluminado, ele fez três gols, construiu belas jogadas, dominou o jogo. Verdade, foi contra o Figueirense, uma das apostas mais seguras ao rebaixamento. Mesmo assim, houve quem dissesse que Ronaldinho não jogava desse jeito desde 2006, quando era o melhor do mundo, antes de naufragar naquela Copa em que o Brasil era tido como favorito. A bem da justiça, naquela Copa o Gaúcho não foi náufrago solitário. A equipe toda foi ao fundo, do roupeiro ao presidente, como um lamentável Titanic.

Voltemos ao presente: Ronaldinho foi saudado como craque redivivo e não faltaram comentários do tipo "Ah, se ele jogasse sempre assim..." Bem, ninguém joga sempre assim. O mínimo que se pode exigir de um craque é certa regularidade. Mas, mesmo essa qualidade da constância o Ronaldinho vem mantendo em sua fase atleticana. Para quem saiu do Flamengo com o rótulo de "ex-jogador em atividade", a volta por cima é significativa. Ele tem sido decisivo para o time mineiro em suas pretensões a um título que não vê desde 1971.

Não que já não tenhamos visto atuações antológicas do Ronaldinho no Brasil. Lembram daquele mágico Flamengo 5 x 4 Santos na Vila Belmiro, no qual ele ofuscou até mesmo Neymar? Mas este jogo no Independência parecia especial. As câmeras mostraram como ele chorou após marcar o seu primeiro gol, aquele golaço improvável, por cobertura. Por que chorava? Descobriu-se que seu padrasto havia falecido na véspera. A própria mãe do craque parece que está muito doente. Com essa carga sobre os ombros, Ronaldinho tomou-se de emoção e devolveu em futebol a dor que vida lhe causava. Ele, sempre tão lembrado pela vocação boêmia, era turbinado em campo pelo mais elementar sentimento humano - a revolta diante do destino, a angústia da mortalidade, da nossa condição plebeia e perecível. Foi, talvez, esse sentimento confuso da finitude que forneceu ao craque as armas para uma atuação inesquecível.

Que paradoxo, não é verdade? Quando sentimos a morte de perto, na perda de um ente querido, mais vontade temos de nos afirmarmos como vida. O luto do Gaúcho, naquele sábado, terminou numa explosão de alegria da torcida. O futebol só não suporta é a indiferença.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 09/10/2012.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nem na várzea

Antero Greco




Brasil x Argentina, o maior duelo mundial de seleções, está escangalhado desde 2011, quando inventaram o Superclássico das Américas. A série de confrontos entre as duas escolas que mais astros revelaram para o futebol em todos os tempos não passa de deslavado caça-níquel para forrar os bolsos das respectivas confederações e seus parceiros comerciais. Por uns cobres, banalizaram rivalidade centenária e tentaram tapear torcedor e jogadores com a conversa de que tem taça em disputa. Até ai, nenhuma novidade; nos antigos festivais da várzea sempre havia um trofeuzinho como prêmio, e que era levado a sério.

Não é o que aconteceu com esses tira-teimas com os argentinos. Os responsáveis pelos confrontos deram tanta importância ao peso histórico da amarelinha e da celeste que decidiram mandá-las a campo numa cidade de fronteira. Quem conhece Resistencia garante tratar-se de lugar simpático, agradável e sossegado, de comida farta e de gente atenciosa. Acredito, e espero um dia desses ter o privilégio de visitá-la.

Mas, muito obrigado, por nada. Águas de Lindoia também é acolhedora, tem clima espetacular e paisagem repousante; vale a pena a viagem. Nem por isso, recebe jogos da seleção brasileira. Nem que tivesse um estádio moderninho como o Centenário, onde, se presumia, as equipes nacionais iriam encontrar-se na noite de anteontem para definir o campeão da versão 2012 do Superclássico. Não teve jogo por causa de black out, ou apagão mesmo, como usamos de uns tempos para cá, para ressaltar uma falta de luz que beira à esculhambação.

Não gosto de recorrer à expressão deuses do futebol, pois a considero batida e tremenda lorota. Mas que foi uma ironia do destino, não há dúvida. Parece que a natureza quis pregar uma peça na cartolagem ao desligar a torre central de iluminação. Recado para aprenderem a não brincar mais com tradição. Não respeitaram a majestade dessas seleções e entraram pelo cano. Tomaram prejuízo e ainda têm de indenizar o público. Se eu tivesse comprado ingresso, faria um barulho e tanto para ter o dinheiro de volta. No mínimo.

Falei em várzea, e peço desculpas aos varzeanos. Lá isso não aconteceria. Evidente que incidentes como esse podem ocorrer em qualquer cidade - na quarta-feira mesmo alguns estados no Brasil sofreram com queda de energia. A questão, maior, está no fato de que clássico de tamanha envergadura (mesmo que jogado só com atletas que atuem nos dois países) não pode ser marcado para cidade com estrutura modesta. Os nossos vizinhos têm Córdoba, Mendoza, Rosario, para citar alguns centros importantes, fora Buenos Aires. Seriam mais adequados e talvez contassem com mais recursos para os reparos. Porém, sabe-se lá por quais razões políticas, foram para Resistencia...

Deu pena das delegações. Os rapazes convocados treinaram, se concentraram, viajaram, chacoalharam em avião, alguns sonharam com a possibilidade de agradar aos técnicos e serem chamados mais vezes. Voltaram para casa frustrados. Como decepcionados também ficaram os fãs. Fora jornais, rádios.

O grotesco deu as caras até após o anúncio do cancelamento da partida. Um repórter levantou a dúvida a respeito do destino da taça - e ouviu do diretor de seleções da CBF que o certo seria considerar o Brasil "campeão", por ter vencido por 2 a 1 em Goiânia. Vixi! A situação era tão constrangedora que a questão do troféu não importava nada no momento. Tinha cabimento pensar nisso? Chato.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 05/10/2012.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tiranos dos estádios

Antero Greco



Vira e mexe, a tevê mostra torcedores com cartazes singelos, na base do “Mamãe, olha eu aqui”, “Galvão, me filma”, “Amor, te amo!” e coisas do gênero. Não faltam, também, imagens de crianças, senhoras, jovens a tomar sorvete. “As famílias de volta aos estádios”, exultam narradores empolgados. Uma impressão de ambiente descontraído, sereno, alegre e democrático. Certo? Errado.

Os campos de futebol tornaram-se lugar de autoritarismo, arbítrio, repressão. Sem espaço para democracia. Começa pelo clima tenso nos meios de transporte. O sujeito corre risco de linchamento, se cruzar com rivais, no ônibus, no metrô – ou a pé mesmo. Caminhar com camisa da equipe só em grupos, como as organizadas. Caso contrário, é colocar a cabeça a prêmio.

Depois, há a intimidação dos flanelinhas ou a ação escorchante de cambistas. No portão, se o guarda se invocar, o infeliz não entra nem com faixas engraçadas. E, se a fila demora a andar, pode ser atropelado por cavalos, nos sentidos literal e figurado. Lá dentro, arrisca-se a ver o cartaz confiscado, se o árbitro considerar que contenha frase ofensiva. Tem mais: o bolso lhe é tungado, se sentir vontade de comer ou de beber algo. E o nariz é aviltado, se usar o banheiro.

A maior afronta que sofre, no entanto, está na liberdade de torcer, de curtir o espetáculo, de aplaudir os ídolos, de exercer a cidadania pelo lazer. As arquibancadas pertencem a bandos de machistas, truculentos, de tiranetes que determinam como os outros devem comportar-se. E não necessariamente os “inimigos”; impingem regras despóticas para os seguidores de seu próprio time.
 

Os covardes se fortalecem sob a certeza da impunidade, escorados no famoso “não vai dar nada mesmo”, e não têm mais noção de dignidade. Exemplo chocante ocorreu no domingo, após o jogo em que o São Paulo empatou com o Coritiba (1 a 1), no Couto Pereira. O meia-atacante Lucas ouviu os apelos de uma fã, aproximou-se das arquibancadas e lhe atirou a camisa que vestia.

A adolescente Milenna, 13 anos, viveu naquela tarde momento inesquecível, para o bem e para o mal. Assim que agarrou o presente se viu cercada por brucutus irados, por acéfalos que a xingaram e ameaçaram. O pai, assustado, tentava dialogar com os estúpidos, apavorado com a perspectiva de ver sua menina agredida. A camisa tricolor foi jogada no fosso. A PM não interveio e Milenna conheceu a realidade das arquibancadas.

Impressionantes alguns desdobramentos do episódio. Nas redes sociais, não foram poucos os jovens a argumentar que a mocinha e o pai dela “vacilaram”. Postura de certa forma corroborada por Vilson Andrade, presidente do Coritiba. O dirigente afirmou, para a rádio CBN, que iria acionar responsáveis pelo incidente, “inclusive o rapaz (Lucas) que jogou a camisa”, como se no gesto delicado estivesse embutida hostilidade. Voltou atrás.

Fere saber que muitos entendam como lógica e normal a submissão à vontade das quadrilhas de boçais. Envergonha ler comentários de que estavam certo torcedores do Corinthians que exigiram a expulsão de um turista escocês, que no domingo foi ao Pacaembu ver o jogo contra o Sport com camisa do Celtic (verde e branca).

Acham natural que atitudes fascistas esmaguem o direito que temos de nos vestir como queremos, de nos divertirmos num campo de futebol. Pessoas assim também vão dizer que ditaduras são inevitáveis, irão justificar linchamentos, aplaudirão esquadrões da morte. E nem se darão conta de que, assim, vivem presas ao medo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 03/10/2012.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Placar" crucificada

Xico Sá
 
 
 
 
Amigo torcedor, amigo secador, uma ótima ideia a da "Placar", digna dos tempos gloriosos da publicação, foi, mesmo antes de a revista chegar às bancas e ser lida, rebaixada à condição de polêmica santa, cega e sem juízo.
As redes sociais da Internet, tais como algumas pracinhas moralistas e fofoqueiras do interior, pegaram uma capa antológica para Cristo. Nela aparece o genial e genioso Neymar, do Santos FC mais uma vez campeão deste ano, crucificado como Jesus.
Os editores da revista usaram a crucificação como castigo público, talvez a imagem simbólica mais velha e popular do mundo, para discutir as acusações contra o atacante do Peixe e da seleção canarinha.
A capa explica o motivo de pregar o jogador na cruz: "Chamado de 'cai-cai', o craque brasileiro vira bode expiatório em um esporte onde todos jogam sujo". Você pode discordar ou não do pensamento, mas daí a fazer disso uma guerra pentecostal contra a sacada da "Placar", pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para muitos, a revista estava comparando Neymar com o homem de Nazaré. Isso seria um pecado mortal. Os editores foram condenados ao inferno em segundos. Fico espantado com a treva, com a incapacidade de se fazer uma leitura menos religiosa e mais sensata.
Não duvido que alguns exemplares sejam queimados nos templos evangélicos e católicos. Se bem que, como discordam do uso e culto às imagens, algumas igrejas pentecostais não podem condenar por uma simbologia em que não acreditam.
Você pode até acusar a revista de apelativa, sensacionalista e outros adjetivos colados ao exercício do jornalismo desde Gutenberg. Não consigo ver nem mesmo este aspecto. Acho, no máximo, um recurso engraçado para ilustrar a reportagem. No tempo em que nossa imprensa era mais criativa e bem-humorada, tínhamos capas e mais capas, páginas e mais páginas desse naipe.
É certo que não existiam as redes sociais, e apenas umas raras cartinhas, lavrando o protesto moralista, chegavam às redações. Assim como é certeiro que jornalista é um bicho orgulhoso que não gosta muito de ser contestado, tem dificuldade para lidar com as críticas do ombudsman e não gosta de assinar o "B.O." da seção "Erramos".
Bom que o barulho do Facebook e do Twitter, em muitas ocasiões, seja capaz de desconstruir manchetes vendidas como bombásticas e arrasadoras etc. Tudo isso é muito positivo. A confusão com a metáfora da "Placar", porém, não faz sentido. Modestíssima opinião para tentar colaborar com o debate.
Usamos diariamente, até sem perceber, a imagem da crucificação. Fulano pegou alguém para Cristo etc. Sinceramente é muito barulho por nada, minhas caras irmãs Cajazeiras da pracinha do interior chamada Internet.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/09/2012.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Incertezas

Eduardo Maluf





A negociação envolvendo Ganso, Santos e São Paulo finalmente terminou. Não há vencedores nem perdedores nessa história, mas incertezas que só o tempo poderá desfazer. A maior delas é saber qual Ganso jogará no Morumbi. Aquele que brilhou na primeira metade de 2010 e passou a ser rotulado de craque ou o dos últimos dois anos, que pouco produziu.

O São Paulo faz aposta num atleta que vive de altos e baixos, sofre seguidas lesões, mas tem indiscutível talento. A tentativa é válida para um clube que tem dinheiro e vive num marasmo desde 2009, sem títulos e com participações fracas nas principais competições.

Por mais que o valor pago tenha sido expressivo, dificilmente os são-paulinos terão prejuízo. Ganso é jovem (completará 23 anos em outubro) e, mesmo que não se destaque tanto, em breve será negociado com a Europa por quantia no mínimo igual.

O meia estava insatisfeito na Vila Belmiro havia tempo, cenário que pode ter prejudicado seu futebol. Mas não podemos esquecer que ele teve boas chances na seleção e também não foi bem. Fracassou na Copa América de 2011 e saiu apagado da Olimpíada de Londres.

Seu grande momento ocorreu em 2010, quando foi protagonista, ao lado de Neymar, da conquista do Paulistão e da Copa do Brasil pelo Santos. Depois, viveu de lampejos, como na vitoriosa campanha da Libertadores de 2011, em que decidiu alguns jogos e ficou fora de outros por contusão.

Num ambiente novo, e mais motivado, o atleta pode ser importante para o São Paulo. É raro, atualmente, vermos um meia técnico e inteligente como o ex-santista. A posição é carente na equipe tricolor e na maioria dos clubes do Brasil. Caso se acerte com Luis Fabiano, pode ajudar a recolocar o clube no caminho do sucesso, perdido desde o tricampeonato brasileiro (2006, 2007 e 2008).

O torcedor são-paulino, porém, não deve se iludir. Ganso não ganha partidas sozinho como faz Neymar - aliás, o Santos sem Neymar é como a seleção argentina sem Messi. Em 2009 e 2010, muitos levantavam a questão sobre quem era o grande nome do Santos. Hoje a resposta é fácil. O atacante decolou e se tornou o número 1 do País. O meia não se transformou no gênio apontado por tanta gente.

Na pior das hipóteses, a negociação vai mexer um pouco com o clima do Morumbi, deve agitar o elenco. O São Paulo anda num período de dormência, desacostumado a grandes decisões, situação pouco comum em sua história recente. Boa parte do grupo atual parece desprovido de ambição. Se ganhar, ótimo! Se perder, tudo bem... Esse comportamento não combina com a grandeza do clube, tricampeão da Libertadores, tricampeão mundial.

Ganso está longe de ser um Pita, meia habilidoso, ídolo dos anos 80, ou Raí, astro da década de 90, mas certamente vai melhorar a qualidade do insosso meio-campo do São Paulo. Desde que sua condição física deixe de prejudicá-lo tanto.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 21/09/2012.

Hillsborough

Kenneth Maxwell




Em 15 de abril de 1989, a semifinal da FA Cup foi realizada no estádio Hillsborough, em Sheffield (Inglaterra). O Liverpool levou 50 mil de seus torcedores ao estádio para a partida contra o Nottingham Forest. E aquele seria o pior dia na história do futebol inglês.

Tumultos causados pela superlotação da área reservada aos torcedores do Liverpool resultaram na morte de 96 pessoas -homens, mulheres e crianças. Centenas de feridos e milhares de torcedores saíram traumatizados. E foram necessários 23 anos para que a verdade completa sobre o que aconteceu fosse revelada.

Na semana passada, uma comissão independente presidida por James Jones, bispo anglicano de Liverpool, publicou relatório revelando pela primeira vez a extensão do desastre, o acobertamento do acontecido pelas autoridades e o sofrimento das famílias das vítimas, acusadas pela polícia de causarem as próprias mortes.

O relatório descreve a reação caótica e incompetente da polícia e do serviço de ambulâncias, e o acobertamento perpetuado e sustentado pela polícia -até que o relatório revelasse, em todo o seu horror, o acontecido por meio da análise de milhares de documentos até agora sigilosos.

Os anos 80 foram caracterizados pela violência nos estádios de futebol. Ataques de torcedores do Liverpool causaram a morte de torcedores da Juventus em Bruxelas. A então premiê Margaret Thatcher tinha dívidas com a polícia devido às ações de policiais contra a greve dos mineiros.

Mas o relatório desacredita completamente a versão do incidente oferecida pela polícia e pelo jornal "The Sun", que, em artigo sob o título "A verdade", afirmou que os torcedores do Liverpool haviam agredido e urinado nos policiais que estavam tentando salvar os feridos, tinham roubado objetos dos mortos e estavam bêbados. O novo relatório indica que todas essas alegações sobre o comportamento desses torcedores no transcorrer da tragédia eram falsas.

O relatório constatou que 116 dos 164 relatórios policiais sobre o incidente foram adulterados. Demonstrou que não havia provas de violência ou embriaguez de parte dos torcedores do Liverpool. Não há indícios de que tenham roubado objetos dos feridos ou mortos. Na verdade, esses torcedores se esforçaram para remover mortos e feridos com macas improvisadas, e novas provas sugerem que 41 das 96 vítimas fatais poderiam ter sido salvas.

Os torcedores do Liverpool foram vítimas de um acobertamento. Mais ou menos como a polícia britânica reagiu quando da morte de Jean Charles de Menezes, com policiais agindo para se protegerem das consequências de suas ações.

O premiê pediu desculpas. As famílias das vítimas de Hillsborough querem processos criminais contra os responsáveis.


Tradução de PAULO MIGLIACCI
Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/09/2012.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A história pune

Antero Greco


O temor do estudante é repetir de ano. Trata-se de medo atávico de todo sujeito com inteligência mediana que frequentou bancos escolares. Só os gênios riem do perigo de ficar na mesma classe, por outro período, enquanto os colegas avançam, progridem, se aperfeiçoam.

Repetência existe no futebol e vem na forma de Série B. Cair é um pavor que tira o sono de time decente, que causa calafrios em dirigentes zelosos. Exceto clubes com perfil e vocação adequados para a divisão de acesso, como eufemisticamente se chama a passagem pelo purgatório esportivo, os demais se incomodam com rebaixamento. A queda humilha quem tem amor-próprio.

A história mostra que o descenso vira lição inesquecível e encorajadora, desde que saiba aproveitá-la. O Corinthians campeão da América é prova disso. Caiu em 2007, mas depois ganhou Paulista e Copa do Brasil em 2009, Brasileiro em 2011 e a inédita Taça Libertadores em 2012. A história também pune os teimosos e zombeteiros, que encaram a experiência na Segundona como tropeço ocasional e irrepetível, e desdenham a possibilidade de encará-la de novo.

O Palmeiras encaixa-se nessa categoria. Dez anos atrás, viveu o vexame de ser escorraçado da elite, sem um esboço sequer de reação da diretoria. Na época era comandado por mago da administração que havia optado por elenco "bom e barato", virava as costas para a equipe e se preocupava com sede, com indicação de conselheiros vitalícios, com a unidade de sua turma, com a permanência no poder e sabe-se lá com que diabo mais!

O time foi promovido em 2003, voltou para o paraíso em 2004, mas de lá para cá não se livrou das sequelas daquele episódio. O complexo de inferioridade, plantado e regado com esmero pela visão arcaica de seus guias, se consolidou, rendeu, deu frutos - o mais recente pode ser o retorno para a Série B ao final da temporada. O título paulista de 2008 e o da recente Copa do Brasil foram acidentes de percurso, fenômenos passageiros, que iludiram os torcedores e só fizeram reforçar a mentalidade de gente que parou no tempo. E teve ainda assombração que voltou a dar as caras na Turiaçu! Incensado como guru!

O bando de rapazes esforçados (mas, na maioria, tecnicamente limitados) a correr sem rumo, ontem à tarde, no clássico com o Corinthians, é o retrato do Palmeiras, dentro e fora de campo. Um Palmeiras menor, amedrontado. Um Palmeiras sem ousadia, sem equilíbrio. Um Palmeiras espezinhado, maltratado - mais por quem aparentemente veste suas cores do que pelos rivais.

O gesto de Romarinho, ao festejar o primeiro gol com beijo no escudo corintiano e perto da torcida palestrina, não foi ofensivo, como equivocadamente entenderam Luan e companheiros. Aborrece, e não é de hoje, executivo assumir ar blasé diante de catástrofe iminente, fazer galhofa na hora da tensão para mostrar serenidade, apelar para ironia que não escamoteia a incompetência, demitir treinador para livrar a própria pele.

Luan não é o vilão da vez; é vítima do movimento interno para apequenar o Palmeiras. Luan é dos que mais suam a camisa, uma camisa que, em outras épocas, não vestiria. Discussão à parte sobre os amarelos (ambos exagerados) recebidos por ele, o destempero que mostrou nos 26 minutos em que ficou no gramado sintetizou o que passa na mente desse grupo: a perspectiva de cair o apavora.

O torcedor, porém, não deve ver os atletas como traidores. A traição maior comete quem desprezou a história e as lições de 2002/2003.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 17/09/2012.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Recomeçar do três

Antero Greco



Acabou a segunda passagem de Luiz Felipe Scolari pelo Palmeiras. E de maneira melancólica, na forma de demissão na hora errada. Uma ruptura antes inimaginável para técnico com identificação tão grande com o clube, talvez menor só do que aquela de Osvaldo Brandão. (Os torcedores mais veteranos sabem o quanto o antigo mestre foi importante.)

A saída encontrada pela diretoria não fugiu à regra dos momentos de crise, com a equação mais simplória e desgastada do futebol: o time vai mal, a culpa é do treinador. Ele pega o boné, os jogadores ganham motivação, a torcida se acalma, a barra da cartolagem fica limpa, chama-se um substituto para apagar o incêndio e... e seja o que Deus quiser.

Os números não ajudavam e é difícil referendar as 14 derrotas. Contusões, suspensões, erros de arbitragem pesam, mas não justificam integralmente o retrospecto devastador. O time caminha para a segunda experiência na Série B em dez anos e o treinador tem parcela de culpa. Não se pode eximi-lo, assim como é preciso reconhecer-lhe a fidelidade ao clube, ao assumir muitas vezes tarefas dos dirigentes. Felipão tinha cacife para continuar. Errado achar que o Palmeiras virara refém dele. Talvez tenha virado presa de chinelinhos...

Adiantará pouco a dispensa do técnico, se não mudar a mentalidade no Parque. Nos últimos anos, passaram pela Turiaçu nomes consagrados como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, para ficar nos muito badalados, e não satisfizeram. Não tiveram capacidade para devolver à equipe a aura vencedora; de quebra, contaram com menos paciência e respeito do que Scolari. Coincidência o fracasso? Não, só prova de que a raiz do mal é mais profunda do que a eficiência dos métodos do professor do momento.

O Palmeiras sofre de fadiga de ideias que se arrasta há muito tempo. Começou no final dos anos 1970, ainda com o time empolgante (embora frágil) guiado por Telê Santana. Depois, veio a década perdida dos anos 1980. O ressurgimento se deu com o dinheiro da Parmalat, nos anos 1990, para a decadência ser retomada com força neste milênio.

O Palmeiras parou, ficou encalacrado no século 20, perdeu o trem da história em diversas ocasiões e não aprende. Os métodos de sua política de hoje em essência não diferem dos usados pelos antepassados que viviam nas montanhas da Campânia, da Calábria, da Sicília. Antes e agora são movidos por impulsos toscos, com diferenças: os nonnos eram rudes e analfabetos. Porém, leais a seus princípios. Respeitavam a terra de onde tiravam o sustento, amavam a família, eram prósperos. Com essa visão, os imigrantes fundaram o clube.

Os valores bons dos velhinhos do Palestra original foram empurrados para baixo do tapete. Pelo jeito, deles ficaram a prática das vendettas e o gosto pela conspiração e a polêmica. O Palmeiras foi minado pela briga por poder. E o torcedor? Este não quer saber se o comando é da turma da harmônica, do califa, do papaia, do tirano, da bocha. O palmeirense pede respeito por sua paixão e teme que esses grupos, daqui a algum tempo, estejam a disputar só carniça. Tenho pena do aficionado. Numa época em que futebol virou negócio tentador, paixão é sentimento de ingênuos.

Que o time vá para a Segundona, se for inevitável! Que a queda sirva para renovar, e banir quem é palmeirense de fachada. E que o Palestra recomece de três, como o personagem do napolitano Massimo Troisi num filme que não passou nos cinemas daqui. Pois três coisas boas não lhe faltam: torcida, história rica e o novo estádio.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 14/09/2012.