sexta-feira, 23 de julho de 2010

A merecida vitória da Espanha e o paradigma para 2014

Para fechar a Copa de uma vez – como é difícil nos desvencilharmos desse negócio! –, algumas observações derradeiras sobre a campeã Espanha. Como previsto na enquete, em que metade previu vitória espanhola, metade, vitória holandesa, o jogo foi pau a pau. As duas seleções criaram chances claras de gol – Robben perdeu dois gols feitos, Villa teve uma –, e lutaram bastante. No entanto, ficou clara a diferença de estilo: enquanto a Holanda marca firme e depende das bolas eventualmente metidas por Sneidjer para a velocidade dos atacantes, a Espanha tem jogadores de qualidade que marcam por pressão, e tocam com rapidez. A Espanha, aliás, é mais parecida com a antiga Laranja Mecânica do que a própria Holanda atual.

Há uma tese segundo a qual o campeão da Copa impulsiona uma tendência, um paradigma, a ser copiado pelas seleções e times mundo afora. A marcação dura, muitas vezes violenta, da Holanda, se contrapôs ao jogo de toque de bola da Espanha. Em suma, como esta venceu, fica o paradigma espanhol, e não o holandês. Aliás, até mesmo Cruyff, o maior de todos os jogadores holandeses, criticou a violência com que Van Bommel, De Jong e companhia resolviam as jogadas ofensivas do adversário.

Porém, no cálculo frio do resultado, pode-se esquecer que a Holanda – e seu paradigma – esteve por um fio de sair vencedor. No caso da Espanha, o título pode aumentar qualidades que não são lá tão verdadeiras. O paradigma espanhol, em suma, distingue-se do neo-padrão brasileiro, ou melhor, do padrão dunguista: 2 volantes brucutus e só opção de contra-ataque. Também distingue-se do padrão da moda europeu, o 4-2-3-1. A Espanha marca por pressão, toca a bola intensamente, procura manter a posse de bola com objetividade, verticalizando as jogadas. Para isso, mantem jogadores habilidosos em praticamente todas as posições: tem volantes que saem para jogar (Alonso e Busquets), laterais que marcam e apóiam (Sérgio Ramos e Capdevilla), meias e atacantes de ótima qualidade (Xavi, Iniesta, Villa, Fábregas, Torres). Parece até coisa de escolinha de futebol. A Espanha explora os lados do campo e as penetrações em tabela, com velocidade; até parece coisa de manual, de escolinha de futebol. Mas, para que essas lições sejam executadas a contento, é necessário que se tenha jogadores leves, via de regra, jovens. A Espanha não cadencia o jogo como a Holanda, mas não joga na mera correria, como asiáticos.

Mas a grande novidade – apesar de tudo isso não ser lá tão novo assim – é o meio campo da Espanha. Xavi é um volante que pela qualidade se fez meia armador. É um pouco como Hernanes, do São Paulo, ou Falcão, nos anos 80, para citarmos um craque legítimo. Algo parecido ocorre com a Alemanha, embora Schweinesteiger tenha feito o caminho inverso: um meia armador que recuou e virou volante. De qualquer forma, o modelo espanhol, assim como o alemão segue o princípio de que o meio precisa de jogadores de qualidade, tenham funções de armação ou de contenção. Muito diferente do Brasil de Dunga ou da Holanda.

A Espanha, mesmo se tomarmos o zagueiro Puyol – não tão habilidoso assim –, marca em cima, mas sem apelar para jogadas ríspidas, violentas. Um dos grandes méritos dos espanhóis foi justamente jogar limpo. Gostaria muito de ver Lúcio na função de líbero, como Puyol: uma sobra de qualidade atrás.

O paradigma espanhol, a prevalecer de fato, será bom para o futebol. O Brasil pode tirar lições dele. No entanto, mesmo que haja aqui um resquício nostálgico, não vejo na Espanha de Xavi e Iniesta um time brilhante, encantador. Por mais competentes e habilidosos que sejam.

Para 2014, o Brasil poderia buscar algumas referências da campeã de 2010. Com a vantagem de ter talentos que, quiçá, só existam aqui.

JFQ

***

Sobre o paradigma espanhol, vale a pena ler o artigo de José Geraldo Couto. A seguir:


A Herança Espanhola
José Geraldo Couto

(Folha, 17/07/2010 – p.D-5)


DO PONTO DE VISTA estritamente futebolístico (esquecendo portanto a festa, os negócios, a overdose midiática), o que ficou de herança da Copa do Mundo na África do Sul foi o que podemos chamar de "efeito Espanha".

Só se fala em copiar o modelo espanhol, posse de bola, troca de passes, blá-blá-blá. Ora, para começar, nada disso é novidade. Em seus melhores momentos, os times brasileiros, bem como a seleção nacional, praticaram muito bem esse tipo de jogo.

Além disso, sinto dizer, a Espanha não está com essa bola toda. Sei que soa antipático falar isso de uma seleção que se sagrou campeã mundial com todos os méritos, batendo em campo, de modo limpo e incontestável, oponentes fortes como a Alemanha e a Holanda.

Mas o fato é que, por alguma química insondável, a equipe de Vicente del Bosque não foi na África o time que brilhou dois anos antes, na Eurocopa.

O que faltou? Os pragmáticos dirão que não faltou nada, já que a Espanha foi campeã. Mas não estamos falando de futebol de resultados, e sim de futebol, simplesmente.

Portanto, o que faltou? Diz-se que a seleção espanhola é "o Barcelona sem Messi" e talvez aí esteja uma pista para entender o ponto em que os campeões do mundo deixam em muita gente uma sensação de frustração.

O que faltou à Espanha, a meu ver, foi aquilo que o craque argentino encarna como ninguém (além da imensa destreza técnica): o tesão do gol, a gana de vencer, a ousadia de "partir para cima".

A Espanha tem um belo toque de bola e jogadores do mais alto nível, como Xavi e Iniesta. Mas essa troca constante de passes, essas inversões de jogadas, esse "futebol envolvente", em suma, precisa de momentos agudos de quando em quando para não se tornar monótono.

Em outras palavras, faltou fúria à Fúria, time que fez escassos oito gols em sete jogos. A Alemanha, por contraste, marcou oito em apenas dois, contra dois ex-campeões mundiais (Inglaterra e Argentina) tidos como favoritos na África.

Mas a Espanha venceu não apenas a Alemanha mas também a Copa do Mundo. Isso abafa, de certo modo, a minha voz dissonante. O mundo é dos vencedores.

Encerro com uma fala de Eduardo Knapp, fotógrafo da Folha. "Ah, é futebol de resultados?", pergunta ele. "Então, no dia do jogo vou ao cinema. No dia seguinte, abro o jornal e vejo se meu time ganhou (que bom!) ou se perdeu (que pena!)."

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Minha Seleção da Copa do Mundo 2010

Já fiz e refiz várias vezes minha seleção da Copa 2010. Agora, bato o martelo. Ei-la:


1 – Stekelenburg (Holanda)

2 – Sérgio Ramos (Espanha),

3 – Lúcio (Brasil)

4 – Friedrich (Alemanha)

5 – Xavi (Espanha)

6 – Fábio Coentrão (Portugal)

7 – Schweinsteiger (Alemanha)

8 – Özil (Alemanha)

9 – Davi Villa (Espanha)

10 – Sneijder (Holanda)

11 – Forlán (Uruguai)



Fiquei em dúvida quanto ao volante para jogar ao lado de Schweinesteiger. Pensei em Khedira – seu companheiro de Alemanha –, nos espanhóis Xabi Alonso e Busquets, mas nada me contentava. Lembrei-me, então, que Xavi fora volante no começo da carreira, deslocando-se depois para a armação. Aliás, fez o caminho contrário do próprio Schweinesteiger, que recuou no meio-campo. Por que não colocá-los como dupla de volantes? E que dupla!

Também quebrei a cabeça para encontrar o lateral direito. Potencialmente, nosso Maicon é o melhor do mundo, mas não fez uma grande Copa, como toda a seleção brasileira. Gostei muito de Lahn, da Alemanha, mas me descontentou sua função quase exclusivamente defensiva nos últimos jogos. Optei, então, pelo espanhol Sérgio Ramos.

Quanto ao goleiro, apesar do título, não consigo sentir segurança em Casillas. Fiquei entre Villar (Paraguai), Eduardo (Portugal), Eneyama (Nigéria) e, meu escolhido, Stekelenburg, da Holanda.

Quanto ao técnico, estava entre o alemão Joaquim Löw e o espanhol Vicente Del Bosque, ficando com o primeiro.

No mais, não tive muitas dúvidas. De qualquer forma, eis, abaixo, minha seleção reserva. Daqui a pouco, quem sabe, eu ache que esta deveria ser a titular. Porém, já bati o martelo.

Seleção reserva: 12 – Eduardo (Portugal), 13 – Maicon (Brasil), 14 – Lugano (Uruguai), 15 – Juan (Brasil), 16 – Busquets (Espanha), 17 – Salcido (México), 18 – Khedira (Alemanha), 19 – Iniesta (Espanha), 20 – Suarez (Uruguai), 21 – Messi (Argentina), 22 – Müller (Alemanha).

JFQ

domingo, 11 de julho de 2010

Espanha Campeã da Copa do Mundo 2010

Espanha: pela primeira vez, campeã mundial de futebol.

Parabéns, Fúria!

Afinal...

Afinal, chegou a vez da Holanda ou da Espanha ser campeã mundial. Esta, aliás, jamais fora a uma final de Copa, enquanto a Holanda participou – e perdeu – as finais de 1974 e 78. Assim mesmo, não tendo títulos mundiais, tanto uma quanto outra constavam da lista de favoritas à conquista da Copa 2010 da maioria dos comentaristas. Duas camisas de peso, hoje e no passado.

A propósito, preciso rever um post anterior, em que dizia ser esta a “Copa dos descamisados”. Na verdade, considerando a final, será apenas a “Copa dos sem taça”. Para um deles, inclusive, a busca histórica pelo precioso objeto ainda prosseguirá a partir de 2014.

Confronto de dois ritmos distintos: a Holanda mais cadenciada, a Espanha, mais apressada. Ambas valorizam muito a posse de bola. A Espanha marca mais em cima. Faço um necessário mea culpa: havia dito que, afora Alemanha e Espanha, nenhuma outra seleção tinha um padrão de jogo, um time propriamente, um conjunto. Isso não cabe à Holanda, que tem, sim, um conjunto. Não empolga, mas é eficiente, ou seja, ganha.

No caso da Holanda, o princípio do “quem não faz toma” é quase uma verdade absoluta. Qualquer bobeada pode ser fatal.

No entanto, a Espanha tem mais habilidade, tem mais objetividade no toque de bola e costuma ser mais incisiva nas suas investidas. Se a Holanda tem Sneijder, a Espanha tem Xavi, Iniesta e outros capazes de tocar bem a bola, inclusive reservas como Pedro e Fábregas. Se a Holanda tem a rapidez de Robben, a Espanha tem o oportunismo do matador David Villa.

Penso que a Espanha determinará o vencedor. Se ela jogar como Fúria, tal qual fez contra a Alemanha, vencerá. Porém, a Espanha é instável, ao contrário da Holanda. Esta venceu todas as partidas da Copa, ainda que não tenha encantado em nenhum. Caso a Espanha não jogue como Fúria, a Holanda dificilmente vacilará.

Eis a final inédita, de certo modo facilitada pelo chaveamento. Os grandes feitos de ambas foram as eliminações de Brasil e Alemanha. No restante, enfrentaram equipes inferiores.

Pelo potencial do futebol, aposto na Espanha. Pelo passado, pelo fato de ser a terceira final e por ter revelado o carrossel, seria bom que a Holanda saísse vitoriosa. Pelo fato de o clube dos campeões ganhar mais um integrante, seja lá qual for, será bem-vinda ao clube.

JFQ

O anúncio do futuro promissor e o resgate do passado glorioso


Uruguai 2x3 Alemanha (Disputa do terceiro colocado)

Alemanha e Uruguai fizeram um jogo de muitos gols, apesar da chuva intensa que caiu durante boa parte do jogo. Não havia como evitar um gostinho de “prêmio de consolação” nessa disputa. Para a Alemanha, que também garantira o terceiro lugar em 2006, após surpreender com uma seleção habilidosa, jovial e ofensiva, o que contava mesmo era o título. Tanto que Lahn, o capitão do time alemão, afirmou que não tinha motivação de disputar a terceira colocação, sendo substituído por Jansen. O Uruguai, por sua vez, já tinha garantido uma grande Copa com a inusitada participação nas semifinais. De qualquer forma, foi uma bela partida.

Na Alemanha, estavam presentes as jovens revelações, Özil, Khedira e Müller, além do ótimo Schweinsteiger. Ausentes, além de Lahn, Neuer, Podolsky e Klose, sem chances, portanto, de superar Ronaldo como o maior artilheiro de todas as Copas. Do lado do Uruguai, presença de quase todos, inclusive Lugano e Suárez, além do craque do time: Forlán.

A Alemanha saiu na frente, após forte chute de Schweinsteiger, rebatido por Muslera e aproveitado por Müller – guardem esse nome. O Uruguai empatou com um golaço de Forlán e virou, já no segundo tempo, com .... A Alemanha, no entanto, não se deu por vencida e “revirou”: Jansen marcou o segundo e Khedira, o terceiro. No último lance da partida, Forlán ainda meteu uma bola na trave, em cobrança de falta.

Fim de jogo: Alemanha 3x2 Uruguai. E a impressão de que essa Alemanha, repleta de jovens talentosos, tem um futuro brilhante pela frente, sendo uma grande promessa para 2014. Do lado do Uruguai, a impressão é de que o passado de glórias foi resgatado, e junto com ele o respeito pela camisa celeste, bicampeã mundial.

***

Já confessei antes que, após a eliminação do Brasil, torcia pela Alemanha. Não pelo país – em relação ao qual não tenho nada contra, mas também nenhuma ligação afetiva –, mas pelo estupendo futebol demonstrado durante essa Copa.

Disse e repito: é a melhor Alemanha que já vi (conta-se a partir de 1982), incluindo campeãs e vice-campeãs mundiais.

Não digo que a classificação da Espanha tenha sido injusta, mesmo porque na partida semifinal os espanhóis foram imensamente superiores aos alemães. A constatação que faço é que a Fúria só foi Fúria de fato neste jogo. O suficiente.

Em comparação à Holanda, fico com a impressão que Alemanha fez uma troca histórica com os holandeses. Se em 74 o time de Cruyff encantava, enquanto Beckembauer levantava a taça, em 2010 que encantou foi a equipe de Özil. Quem sabe, um sinal de que Van Bronkhorst levantará a taça logo mais.

Em 2014, cuidado com a Alemanha. Vários desses jovens estarão aqui no Brasil, ainda jovens, e com a experiência de participarem de uma Copa do Mundo. Experiência que, infelizmente, vários jovens talentos brasileiros não tiveram a oportunidade de ter na África do Sul.

JFQ

Nunca antes na história das Copas

Parafraseando o presidente Lula, a Copa 2010 faz jus ao "nunca antes na história".

Afinal, na primeira Copa do Mundo realizada na África, em que pela primeira vez a Itália foi eliminada na fase de grupos e em que a seleção do país-sede não se classificou para as oitavas, pela primeira vez a Espanha ou a Holanda sagrar-se-á campeã. Seja quem for, será o oitavo integrante do seleto grupo de campeões mundiais.

Espanha e Holanda farão a final que, pela primeira vez, não contará com um gigante: Brasil, Alemanha, Itália ou Argentina. Ainda, a final que, pela primeira vez, não contará com um sul-americano, tratando-se de Copa disputada fora da Europa.

O Brasil já não será o único a vencer uma Copa fora de seu continente (Suécia, 1958). Também não será mais o único dos campeões a não ter vencido uma Copa em casa – o que fica mais justo caso a Espanha seja campeã, já que sediou um Mundial (1982), ao contrário da Holanda. Isso vale até 2014, pelo menos, quando poderemos conquistar a Copa no Brasil. Até lá, mantemos a sina de sermos os únicos pentacampeões, os únicos a participar de todas as Copas, contando com o maior artilheiro de todas elas.

JFQ

De volta ao princípio


Alemanha 0x1 Espanha (Semifinal)

Antes de iniciada a Copa, a maioria dos comentaristas apontavam oito seleções como favoritas ao título. As campeãs, com exceção do Uruguai – há muito rebaixado do primeiro time das expectativas gerais –, e duas seleções que sempre prometem, mas nunca chegam aos finalmentes: Holanda e Espanha. Eis que estas duas seleções farão a grande final da Copa do Mundo da África do Sul.

A Alemanha não era tão acreditada, apontada como favorita quase que “por inércia”. Afinal, trata-se de um “gigante”, nos termos “galvão-buênicos”. E jamais houve uma final de Copa sem a presença de um gigante: Brasil, Alemanha, Itália ou Argentina. A Espanha, por outro lado, prometia em campo, mas não na história. A sina de sempre pipocar, de nunca ter chegado a uma final, de certa forma enfraquecia a aura de favorita da Fúria, em que pese o título da última Eurocopa e o futebol bonito e eficiente à la Barcelona.

Iniciada a Copa, as expectativas se inverteram em campo. A Alemanha, apesar do tropeço na segunda partida contra a Sérvia, mostrara um futebol leve, agressivo e bem organizado. Nada parecido com a velha Alemanha: dura, fria, previsível, muito embora eficiente e vencedora. Essa nova Alemanha dos garotos Özil, Khedira e Müller, ganhara, com méritos, o status de sensação da Copa com um estilo mais parecido com a América do Sul do que com a Europa, despachando Inglaterra e Argentina com goleada.

A Espanha, por outro lado, iniciou o Mundial com uma derrota para a Suíça e teve sua classificação para as oitavas colocada em risco, superado por vitórias magras, sempre na dependência de David Villa, sobre as fracas seleções de Honduras e Chile. Em outros jogos sofridos – em determinados momentos, também sofríveis – a Espanha fez o básico 1x0 em Portugal e no Paraguai, para desespero dos fãs de Larissa Riquelme. Detalhe: contra o Paraguai, houve pênaltis perdidos pelas duas equipes, e os nossos vizinhos estiveram muito perto de aprontar uma surpresa histórica. Em suma, a Espanha foi passando as fases, mas esteve longe de fazer valer o apelido de Fúria.

Eis o desenho para o confronto entre Alemanha e Espanha nas semifinais, repetição da final da Eurocopa, conquistada pelos espanhóis. De um lado, a Alemanha que chegara desacreditada, tornada favorita e sensação da Copa. De outro, a Espanha que chegara como a grande Fúria, mas que, nos campos sul-africanos, não amedrontava nenhum adversário. Mas as expectativas iniciais resgatadas justamente na semifinal.

Quem esperava uma Alemanha partindo para cima, sufocando o adversário, como se vira anteriormente, ficou pasmo com o renascimento espanhol. O time de Vicente Del Bosque tomou as rédeas do jogo, e comandou a partida do princípio ao fim. Sufocou a Alemanha na sua saída de bola. Mesmo assim, os alemães recusavam-se a despachar a bola, rifando a jabulani com um chutão para a frente. Só que, apesar dessa tentativa em manter o toque de bola característico, os alemães arriscavam-se em demasia: uma roubada de bola poderia ser fatal.

Dessa forma – tocando à exaustão, fazendo a bola girar de lado a lado, quando da posse da bola, e pressionando a saída alemã, quando sem ela –, a Espanha praticamente anulou os ataques da Alemanha e produziu seguidas chances de gol. Até que aos 27 minutos do segundo tempo, em uma cobrança de escanteio cobrada por Xavi, Puyol surgiu na área para cabecear forte e marcar o gol da classificação. Espanha: 1x0, mas poderia ter sido bem mais.

A Espanha foi soberana. Anulou a má impressão das partidas anteriores e voltou a merecer a alcunha de Fúria. Voltou a mostrar que tem uma equipe excelente, talvez a melhor Espanha de todos os tempos – com todo o respeito à era dos naturalizados Di Stefano e Puskas. Além disso, superou uma equipe que, mesmo não sendo campeã, quiçá também seja a melhor Alemanha dos últimos tempos – com todo o respeito a Rummenigg, Mathaus, Klisman e outros.

A Fúria jamais chegara a uma final, ao contrário de sua próxima adversária, a Holanda: finalista pela terceira vez. Mas, diferentemente da Espanha, não dá para dizer que esta Holanda é melhor que aquela de Cruyff, Resembrink e Neskeens.

JFQ

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Paul x Mick

Pergunta para a final da Copa:
E se o Mick Jagger torcer para o time que Paul, o polvo alemão, escolher: quem ganha?


Paul, um polvo do aquário de Oberhausen, na Alemanha, acertou todos os palpites até agora. Foram 6 resultados! O último contra a própria Alemanha. Entre dois recipientes contendo ração, um com a bandeira da Espanha e outro com a da Alemanha, o polvo escolheu o espanhol. Não deu outra.

A zica do Rolling Stone seria capaz de anular a força profética de Paul ? Eis o paradoxo.

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A propósito do polvo adivinho, abaixo, a ótima charge do cartunista Afonso, sobre a campanha presidencial, publicada na Gazeta do Espírito Santo. Com o perdão do trocadilho infame, neste caso, a escolha é do povo.


JFQ

terça-feira, 6 de julho de 2010

O carrossel e as voltas que o mundo dá


Uruguai 2x3 Holanda (Semifinal)

Holanda e Uruguai fizeram uma partida histórica hoje, na Cidade do Cabo. Histórica em dois sentidos. Primeiro, por ser uma semifinal de Copa do Mundo. E com a possibilidade de levar a vencedora, seja qual for, a uma final da qual há muito não participava: a Holanda, há 32 anos (Copa de 74, na Alemanha), o Uruguai, há 60 anos (Copa de 50, no Brasil). O time sul-americano, inclusive, não participava de uma semifinal desde 1970, no México, quando foi eliminado pelo Brasil. Já a Holanda, não faz tanto tempo: em 1998, coincidentemente, também eliminada pelo Brasil.

A partida de hoje também foi histórica por recolocar essas duas grandes equipes do futebol em seus devidos lugares. Para que se apreenda melhor esse sentido histórico, há que se lembrar a trajetória de ambas desde o dia 15 de junho de 1974, quando os mesmos Uruguai e Holanda se enfrentaram em Hannover, numa partida que marcaria o destino de ambas e do próprio futebol.

O Uruguai, como dito antes, havia sido semifinalista na Copa anterior. Além disso, carregava o peso das conquistas dos primórdios do futebol – medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1924 e 28 e campeão da primeira Copa do Mundo, em 1930, assim como da Copa de 1950. Bicampeã olímpica e bicampeã mundial, portanto. A Holanda, por sua vez, já surpreendera o mundo dois anos antes, em 1972, quando seu time, também comandado pelo técnico Rinus Michels, conquistara a medalha de ouro nas Olimpíadas de Munique, também na Alemanha.

O que aconteceu naquele embate entre Holanda e Uruguai foi simplesmente revolucionário para o futebol. Para quem não viu, é imperdível dar uma olhada no vídeo abaixo, com trechos desse jogo.


Lances de Holanda 2x0 Uruguai (Copa 1974)
Foi a estreia da Holanda no mundial e o marco inicial, por assim dizer, do que ficou conhecido como “carrossel holandês”. É impressionante a surpresa com que os uruguaios se depararam com aqueles loucos de laranja. Ninguém parecia guardar posição fixa, todos se movimentavam por todo o campo, todos marcavam e todos defendiam. Uma verdadeira revolução no futebol promovida por Rinus Michels.

Quem assiste, por exemplo, aos jogos do Brasil na Copa de 1970, anterior a essa, quando nossa seleção também encantou o mundo, percebe a radicalidade da mudança promovida pela Holanda de 74. A partir de então, o futebol mudou bastante: os jogadores passaram a ser “multifuncionais”, não guardando posição fixa e ficando responsáveis por defender e por atacar. O preparo físico passou a ter mais importância, já que a movimentação em campo aumentou sobremaneira. Os toques rápidos tomaram lugar dos lances em que o jogador carrega a bola durante bom trecho do campo. É interessante, por exemplo, comparar a movimentação de Gerson e Pelé em 70 com a de Cruiff em 74. Não se trata de talento, mas de uma mudança no padrão de jogar futebol.

Claro, jamais a “laranja mecânica” teria tido o sucesso que teve não fosse repleta de jogadores fora de série. A inteligência tática revolucionária de Michels só logrou êxito porque encontrou o talento de Cruiff, Neskeens, Resenbrink e Rep, dentre outros.

Para o Uruguai, porém, aquele jogo marca o início de uma profunda derrocada. Segundo Paulo Vinícius Coelho, o PVC, a partida entre Holanda e Uruguai em 74 marca a ascensão daquela ao rol dos melhores do mundo e o rebaixamento desta ao segundo plano das seleções mundiais. De fato, o Uruguai parece ter perdido o melhor de seu futebol, passando mesmo a confundir sua tradicional garra com pura e simples violência. Foram anos como um coadjuvante de luxo – um bicampeão decaído – até que no dia de hoje nossos vizinhos tornassem a pleitear uma nova final de Copa do Mundo.

Aos poucos, todas as equipes adaptaram-se, cada uma a sua forma, ao paradigma holandês. Infelizmente, o principal antídoto para conter essa revolução foi a crescente valorização dos sistemas defensivos, das marcações cada vez mais cerradas, em muitos casos, violentas. De lá para cá, nada de profundamente novo aconteceu no futebol. Apenas variações do mesmo. O que, em alguns casos, pode até ser bom. Por exemplo, a seleção brasileira de 1982 não inovou taticamente, mas Telê promoveu um resgate da essência do futebol brasileiro, sua melhor tradição de futebol-arte, com ênfase na ofensividade, no jogar e deixar que o outro jogue, do aproveitamento total da habilidade, da capacidade de drible, enfim, do talento futebolístico que só o brasileiro tem.

O mesmo Michels foi técnico da Holanda novamente nos anos 80, comandando outra safra de grandes jogadores como Marco Van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaart, campeões da Eurocopa de 1988. Também nos anos 90 outras boas seleções foram montadas pela Holanda, surgindo jogadores como Overmars, Seedorf, Davids, Berkamp, Kluivert e os irmãos De Boer. Todos, sem exceção, excelentes escretes laranjas, mas nada como o “carrossel holandês” de 74. Muito menos a seleção atual, de Robben e Sneidjer, mesmo que se torne campeã mundial no próximo domingo.

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A eficiência é laranja, a garra é celeste



No começo, a partida foi bastante estudada de lado a lado, cada qual das equipes respeitando a outra. No caso da Holanda, todavia, isso é mais que um momento: é seu próprio estilo. O Uruguai, mesmo com os desfalques importantes de Lodeiro, Lugano e Suárez, impôs sua marcação e mostrou que podia ameaçar o adversário. Quanta garra demonstrou a Celeste! A Holanda, por outro lado, com seu toque de bola, passou aos poucos a fazer o que sempre faz: envolver, ditar o ritmo, no mais das vezes cadenciado, do jogo, à espera da melhor oportunidade de ataque. Kuyt pela esquerda e Robben pela direita, eram as melhores opções de infiltração, ainda que Van Persie, como nos demais jogos da Copa, permanecesse apagado. Sneijder, até boa parte da partida, foi bem marcado e não conseguiu organizar as jogadas no meio. Na marcação, Van Bommel foi soberano, desarmando várias jogadas uruguaias. Do lado da Celeste, Cavani esboçou alguma rapidez na frente, mas muito aquém do que vinha fazendo o suspenso Suárez. No entanto, o Uruguai tem um craque: Forlán. Pena que jogue praticamente sozinho.

O jogo foi assim-assim, sem grandes oportunidades, até que Van Bronkhorst resolveu chutar do meio da rua e fez um golaço, sem chances para Muslera. Porém, quando se esperava que o Uruguai se abriria desesperadamente, dando espaço para um chocolate laranja, eis que Forlán responde na mesma moeda: um tirombaço em que a jabulani dançou no ar, escapando das mãos de Stekelenburg: 1x1.

No segundo tempo, a Holanda mostrou a mesma superioridade técnica, os mesmos momentos de sonolência e vacilo, a mesma paciência para vencer na hora certa. Mas também teve sorte e contou com a ajuda da arbitragem. No chute de Sneidjer, Van Persie, em posição irregular, ameaçou ir na bola, que passou por ele e entrou no canto esquerdo de Muslera. Holanda, 2x1. A partir daí, sim, os holandeses realmente dominaram a partida. Robben fez o terceiro, de cabeça, e só não fez o quarto porque titubeou na hora "h". Forlán e Robben foram substituídos e tudo parecia sem volta quando Maxi Pereira marcou o segundo do Uruguai num belo chute da entrada da área. A Holanda, que deixou de matar a partida antes, talvez por achar que já estivesse morta, viu-se em sérios apuros nos momentos finais. Mas não havia tempo para mais nada.

Final: Holanda 3x2. Os holandeses estão em uma final de Copa novamente, depois de 32 anos. Se esse time não tem o brilho revolucionário dos anos 70, ou mesmo a habilidade daquele dos 80 e a rapidez do time dos 90, quiçá seja a Holanda mais eficiente de todos os tempos. Jogando assim, como quem andasse em marcha lenta, com excesso de paciência, o escrete de Van Marwijk não perde há 25 partidas, tendo vencido todas as 6 que disputou nessa Copa. É certo que a Holanda não encantou jogando contra Dinamarca, Camarões, Japão, Eslováquia, Brasil e Uruguai, passado muitos sufocos às vezes. Também é verdade que se vencer a próxima, do mesmo jeitinho, seja contra a Alemanha ou contra a Espanha, terá sido a única de todas as “laranjas mecânicas” a levantar a taça de campeão do mundo.

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Craques inesperados

Quem, nesta Copa, esperava por atuações brilhantes e vitoriosas de Cristiano Ronaldo, Kaká e Messi, para ficarmos nos mais badalados, os últimos ganhadores do título de melhor do mundo, frustrou-se. Porém, quem esperava craques, sem nomes preestabelecidos, pode comemorar. Houve algumas revelações, houve a demonstração de ótimo futebol por jogadores dos quais não se esperava tanto, pelo que mostraram no passado. Müller e Schwanesteiger, ambos da Alemanha, são exemplos de revelação e destaque, respectivamente. Mas, na minha modesta opinião, pode-se dizer que alguns jogadores também revelaram-se craques, cada qual a seu modo. Cito três: Özil (Alemanha), Sneidjer (Holanda) e Forlán (Uruguai). O primeiro, menos conhecido, mostrou que tem um futuro brilhante pela frente. Os outros dois, que têm futebol além dos clubes, liderando equipes bem menos badaladas que as tais “gigantes”.

JFQ

domingo, 4 de julho de 2010

Tinha uma laranja no meio do caminho


A culpa, a culpa! Quem são os culpados? Eis o que se escuta das bocas e do íntimo de cada torcedor tão logo a seleção brasileira é eliminada de uma Copa do Mundo. Não compreendemos – apesar de já o termos aprendido e reaprendido ao infinito – que o futebol não é um esporte afeito a noções genéricas de justiça, em que vencedor é aquele que faz mais e toma menos gols. Simples assim. Ademais, nós, brasileiros, tendemos a “nos achar” no futebol mais do que argentinos para tudo na vida, o futebol incluído: no esporte bretão sempre somos os melhores, sempre somos os favoritos, ninguém pode conosco, vai encarar?! Eis a ideia plantada nos corações e mentes brasileiros em cada Mundial, mesmo que isso não seja verdade. Por isso também nunca nos perguntamos das razões da vitória quando não éramos assim tão bons. Em 82, por exemplo, a derrota foi realmente inexplicável, tamanha a beleza com que jogava o time de Telê, da mesma forma que a vitória em 94 com um time pesado, medíocre, contando com um solitário e baixinho gênio à frente. Isto é o futebol, muito prazer.

Quem não se fez por satisfeito, listemos alguns candidatos a Judas de 2010.

Há os culpados imediatos, diretamente envolvidos no jogo fatal: a jabulani – sempre ela –; as vuvuzelas que não deixaram Felipe Melo ouvir o “deixar pra mim” supostamente gritado por Júlio César no primeiro gol holandês (eis uma hipótese lançada por Galvão Bueno, que também não deve ter ouvido o “cala a boca, Galvão!” por causa das mesmas vuvuzelas); a camisa azul, qual a da França e da Itália; a maldição da Copa das Confederações (vencemo-la em 2005 e perdemos a Copa em 2006, nova conquista em 2009, nova eliminação em 2010); o pé frio do Mick Jagger, que depois de gorar os Estados Unidos e a Inglaterra, inventou de torcer pelo Brasil.

Há também motivos mais razoáveis: o despreparo psicológico dos jogadores para lidar com uma situação adversa, no caso, o empate e a virada da Holanda, após um primeiro tempo quase perfeito da nossa seleção; o despreparo psicológico de Felipe Melo, detentor de um temperamento reconhecidamente explosivo, passível de expulsões em qualquer partida, e que sequer teve a hombridade de assumir a estupidez do pisão dado em Robben, cuja imagem foi fartamente transmitida para todo o planeta; os erros dos jogadores no segundo tempo, especialmente do próprio Felipe Melo – que, tomara, jamais vestirá novamente o uniforme da seleção brasileira; a falta de ousadia de Dunga, que poderia ter deslocado Daniel Alves para a esquerda e colocado Gilberto no meio, quando este entrou no lugar de Michel Bastos, bem como não poderia ter tirado Luis Fabiano, o artilheiro do time, quando colocou Nilmar em campo. Há, ainda, o desfalque de Elano por conta da entrada criminosa de um marfinense na segunda partida. Também, a instabilidade da seleção brasileira, oscilando bons e maus jogos durante todo o mundial: uma verdadeira seleção ioiô, com altos e baixos seguidos. E, lógico, há o mérito do adversário: afinal, enfrentamos a Holanda de Sneidjer, Robben e companhia, invicta há 25 partidas, também ocupante do rol de favoritas ao título. À arbitragem, todavia, apesar de o juizão japonês Yuichi Nishimura marcar falta em tudo o que era tombo, não pode ser creditada qualquer culpa pela derrota brasileira.

Ah, há a clássica teoria da conspiração: o Brasil deixou essa Copa para outro porque já tem garantido para si o título da próxima, quando será o país-sede. Essa, aliás, já era uma aposta feita antes de começado o torneio. Não importa o momento da eliminação e contra qual adversário: está escrito – ou melhor, acordado em conluio – que o Brasil não pode vencer este Mundial. Assim como em 98, em prol de 2002... Êta mundinho mafioso! “Eu já sabia”, conclama o teórico da conspiração.

Também existem as culpas relacionadas à busca gananciosa por dinheiro a todo custo: os interesses financeiros dos empresários, responsáveis pelas convocações dos Afonsos e Hulks da vida, só para valorização e imediata venda para clubes maiores; os interesses financeiros da CBF e da imprensa, especialmente da Globo, que não se preocupa com o recato da concentração, exigindo entrevistas exclusivas ao arrepio do comandante; há os interesses financeiros dos patrocinadores, onipresentes na concentração, nos treinos, nos jogos. Enfim, há os interesses financeiros que sufocam de alguma forma o futebol.

E há a culpa de Dunga, como não. Não apenas de Dunga, mas de sua filosofia de jogo e de vida: o dunguismo. O dunguismo da coerência com um padrão de jogo limitado, que não admite opções aos contra-ataques, marcação cerrada e jogadas aéreas. O dunguismo do comprometimento com jogadores excelentes, jogadores razoáveis e jogadores medíocres, excluindo a oportunidade a jovens talentos por não “pertencerem ao grupo”. O dunguismo do espírito guerreiro, bélico, militar, que não permite entrevista, passeio, sexo ou sorvete, nada que lembre os tempos de Weggis. O dunguismo do apreço à autoajuda e do desprezo à autocrítica, quanto mais da crítica alheia. O dunguismo dos novos atletas de Cristo, reverentes ao Senhor Jesus, ao Senhor Dunga e ao Senhor Ricardo Teixeira, tão distantes da rebeldia dos bad boys e baladeiros de outrora. Enfim, o dunguismo que vê o futebol como trabalho árduo, sofrimento, obrigação e disciplina, jamais como brincadeira e prazer.


Talvez existam outras culpas e culpados a serem lembrados. Mas, por ora, basta os acima citados. Para mim, nada do que foi mencionado, isoladamente, explica a eliminação do Brasil. Assim como também não a explica se somarmos tudo isso. Volto ao começo: o maior culpado é o próprio futebol, sua lógica e sua dinâmica. O futebol é jogo que exige preparo, estratégia, visão de resultados. Exige também talento. Só que jamais deixará de ter o elemento do detalhe – lembrem-se de Parreira: o gol é um detalhe! De fato é! –, da caixinha de surpresas, do imponderável, do sobrenatural de Almeida. A seleção de 2010 não era ruim, também não era brilhante. Era, não se pode negar, pior do que poderia ter sido, dadas as escolhas do próprio Dunga. Poderia ter sido campeã? Sim, poderia.

Da mesma forma que a seleção de 2006 tinha a base da seleção campeã de 2002, mas os jogadores estavam velhos e um tanto descomprometidos. Poderia ter sido campeã? Sim, poderia. Também a seleção de 1982, que era brilhante, jogava maravilhosamente. Poderia ter sido campeã? Até hoje não entendemos como não foi. A seleção de 1994, por outro lado, era extremamente defensiva, lenta e dependente de Romário, só convocado por conta de muita pressão popular. Poderia não ter sido campeã? Sim, poderia. Inclusive, não se pode esquecer que venceu nos pênaltis!

Moral da história: eis o futebol. Quem não tem seus méritos, certamente não conquistará nada. Porém, há quem tenha méritos e também não consiga ser campeão. Até porque há adversários igualmente bons e merecedores de vencer.

Estou triste com a eliminação do Brasil pela Holanda, como qualquer brasileiro deve estar. Mas não fico melancólico, com o mesmo sentimento amargo de outras derrotas. Sou até capaz de concordar com Juca Kfouri: essa seleção tem mais saldo positivo que negativo. O que fica de mais positivo, na minha opinião, é a derrocada do paradigma dunguista do comprometimento e, quiçá, o ressurgimento do paradigma do talento, do futebol arte como fim em si mesmo e como meio para o resultado. Torço para que a Alemanha de Özil e Müller, o Ganso e o Neymar deles, seja campeã; ficará mais fácil argumentar que talento não pode ser desperdiçado e juventude não é ponto fraco.

Por ora, parabéns à Holanda porque mereceu a classificação. Nos aguardem em 2014.

***

Fora o Brasil, torço pelo futebol: torço pela Alemanha

Tenho um defeito. Ou, quem sabe, seja uma qualidade. Depende de quem vê. Quando o Brasil ou o Corinthians, meu time do coração, não estão em campo, tendo a torcer por quem está jogando melhor. Entenda-se: jogando melhor não quer dizer vencendo, mas apresentando um futebol bem jogado. Torço instintivamente pelo futebol-arte, ainda que os protagonistas sejam arquirrivais. Podem me xingar, mas não conseguia admitir que a Argentina – sobretudo, Maradona – não fosse o campeão em 1986. Eu tinha 14 anos e dava risada com os dribles fenomenais daquele hermano parrudo, que vinha costurando a marcação adversária para fazer o gol ou dar uma assistência a um companheiro. Também não consegui torcer contra o São Paulo de Telê nas finais de Mundial em 92 e 93, para o Paulistão do Palmeiras de Luxemburgo em 96 e para o Santos atual. Rivalidades à parte, quem gosta de futebol, de fato, não toma os verdadeiros artistas da bola como inimigos mortais, mas como adversários dignos do maior respeito, no momento do confronto, de grande admiração, no momento da derrota, ou de orgulho e de glória, quando conseguimos vencê-los. Vale para os brasileiros em relação a Maradona, ontem, ou a Messi, hoje; vale para corinthianos perante Pelé, ontem, ou face a Ganso, hoje.

Isto posto, confesso minha torcida pela Alemanha, uma vez eliminada a seleção brasileira. Não me interessa que tenham 3 estrelas e podem conquistar o tetra, aproximando-se do Brasil. Também não torço para a Alemanha porque tiraram a Argentina, outra ótima equipe, com uma goleada histórica. Torço para a Alemanha porque é a seleção que mais me surpreendeu – especialmente por ser a Alemanha! – e que mais me fez sorrir com um futebol bem jogado. Joaquim Löw conseguiu montar uma equipe equilibradíssima, em que defesa e ataque funcionam muito bem, assim como os lados direito e esquerdo. Lahn está perfeito na nova função de lateral direito – era lateral esquerdo em 2006 –, Friedrich é seguro na zaga, Schwanesteiger e Khedira formam a melhor, mas técnica, dupla de volantes desta Copa, Klose caminha firme rumo ao posto de maior artilheiro dos Mundiais, e salve, salve os jovens talentosíssimos Özil e Müller. Notem que os alemães já perderam nesta Copa para a Sérvia, na primeira fase. E podem, sem que se considere o resultado zebra, perder para a Espanha ou para a Holanda mais adiante. Tudo bem. Isso não mudará a sensação que tenho: a Alemanha é a melhor seleção da Copa 2010. Minha utopia: o futebol brasileiro será redimido em 2014 pela referência da Alemanha campeã em 2010.

JFQ

A Vitória de Sarriá


Eu tinha dez anos. Formava com alguns amigos da rua um time, modéstia à parte, praticamente imbatível. Para aumentar ainda mais nosso potencial, estávamos fortemente influenciados pela magnífica seleção brasileira comandada por Telê Santana. O clima de Copa do Mundo era inescapável: verde e amarelo por todos os lados, camisas canarinho ostentadas com orgulho, o pavilhão nacional à mostra, seguindo, contudo, o protocolo patriótico determinado pela liturgia militar, cujo regime ainda imperava; por exemplo: bandeira brasileira pintada na camisa como se fosse uma reles estampa era quase um crime de lesa-pátria. Além disso, tinha o Naranjito, o mascote daquela Copa da Espanha, qual uma entidade onipresente: pintado nos muros, em forma de bonecos, pequenos, médios e grandes. E tinham as músicas: “Voa, canarinho”, cantada pelo Júnior, lateral do Flamengo e da própria seleção, e a do Luiz Ayrão, uma espécie de segundo hino nacional: “Dá-lhe, dá-lhe, bola/Meu canarinho vai deixar a gaiola/Vai pra Espanha de mala e viola/ Vai dar olé à espanhola/ E rola e rola e rola...”.

Em resumo, tudo cheirava a futebol, seleção brasileira e Copa do Mundo. E o escrete de Zico, Sócrates, Falcão & Cia. encantava o mundo, a ponto de não se conceber possibilidade de fracasso naquela tentativa de obter o tetra, primeiro caneco pós-Pelé. Da mesma forma, nosso timinho, cujo campo era o asfalto escaldante da rua da minha casa, também encantava os transeuntes eventuais, sortudos por poderem observar o fino da bola jogada por aqueles meninos, eu incluso.

Detalhe: cada jogador da rua correspondia a um craque da seleção, buscando imitá-lo no estilo futebolístico e nos trejeitos. Uma vez ouvi Chico Buarque dizendo na TV que ainda não jogava tão bem como Pagão, seu ídolo maior, mas já sabia copiar uma cuspidinha que o craque santista dava. Pois é o que fazíamos. As comemorações, por exemplo, fosse gol do Sócrates – o da rua, claro –, comemorava-se com postura ereta, o braço direito estendido ao céu; fosse o Zico, o seu alter ego da rua saia correndo, meio curvado para a frente, e pulava socando o ar.

Daí, quem sabe, a explicação de boa parte da excelência futebolística demonstrada por aqueles meninos. Se não éramos lá muito originais, pelo menos imitávamos gênios da bola. Eu era o Falcão: jogava no meio-campo, articulando as jogadas, chegando às vezes à frente para marcar meus golzinhos. Lembro-me que o Neimar era o Sócrates, ambos altos e esguios, e o Maurinho, salvo engano, era o Cerezo. E o Zico, quem era o Zico mesmo? Bem, o negócio é que tentávamos naquela rua reproduzir os prodígios que víamos de nossos craques em campos espanhóis. A coisa era tão séria, apesar da natureza de brincadeira, que deixávamos de assistir aos jogos, disputando, no mesmo tempo, partidas na rua. Claro que entrávamos correndo em casa para ver o gol, tão logo ouvíamos os rojões espocarem concomitantemente aos gritos que emanavam de todas as casas da vizinhança. Assim, víamos o replay do gol, e já passávamos à tarefa de repeti-lo no asfalto.

Foi assim contra a União Soviética, contra a Escócia – e não importava se saíamos perdendo, pois havia a certeza da virada –, contra a Nova Zelândia. Contra a Argentina, porém, valia o ditado dos benefícios da cautela e da canja de galinha. Afinal, tratava-se do arquirrival e então campeão do mundo, não obstante sermos nós os atuais campeões morais, incontestáveis favoritos. Foi sem perdão. Mal começou o jogo, o juiz marcou falta a uns quarenta metros do gol de Fillol. Não importava a distância, Eder enfiava o pé, e sabíamos – assim como os argentinos – que o negócio era perigoso. Não deu outra: Fillol até conseguiu rebater, mas Serginho e Zico partiram como um foguete para cima da bola, o Galinho chegou primeiro e enfiou a pelota pra dentro. Massacre só: 3 a 1, fora o baile, com direito a expulsão do Maradona. Perdeu a cabeça, coitado, atordoado com o olé brasileiro.

Aí veio a Itália, que também vencera os argentinos, mas por um gol a menos: 2 a 1. Por isso, tínhamos a vantagem do empate. Não sei para quê, se venceríamos mesmo... Foi meu primeiro encontro com os cruéis clichês do futebol: a caixinha de surpresas, o imponderável, a injustiça do jogar melhor e ainda assim perder. Sempre que o Paolo Rossi – jamais esqueceríamos esse nome, eterno vilão – marcava um gol, tínhamos a certeza de que o Brasil iria atrás e faria o redentor gol de empate. Afinal, já conhecíamos o filme, fora assim em jogos anteriores. Era até bom, dava mais emoção sair perdendo e virar o jogo. Oh, inocência de criança, virgem de desilusões! Ao primeiro gol de Rossi, Sócrates respondeu com um toque de gênio no canto de Zoff. Ao segundo, Falcão, numa angustiante espera que durou até metade do segundo tempo, enfiou o pé esquerdo e a bola foi morrer na gaveta direita do veterano goleirão italiano. Pronto, estava cumprido o script. Mas o tal do Paolo Rossi, endiabrado, marcou o terceiro e o tempo já era curto. Tudo bem, quanto mais dramática, mais gostosa a vitória. O problema é que o tempo passou, o Brasil criou algumas chances, mas o Dino Zoff – outro vilão italiano – impediu que a bola entrasse.

Quando o juiz apitou o final do jogo, senti um nó na garganta que jamais sentira por conta de futebol. Foi o primeiro grande desgosto ludopédico, o primeiro de verdade. Olhei para o meu pai e perguntei, como se as imagens da televisão não fossem o bastante: “O Brasil perdeu?” Meu pai, em silêncio – devia estar sofrendo também, do seu jeito adulto –, confirmou balançando a cabeça afirmativamente. Fiquei quieto por uns instantes, olhando a TV, vendo os jogadores da seleção saírem de campo chorando. Não convencido da eliminação, indaguei meu pai novamente: “Então, o Brasil não pode mais ser campeão?” Meu pai, com outro gesto de cabeça, confirmou a melancólica sentença.

Fiquei em silêncio por mais algum tempo. De repente, me deu vontade jogar bola na rua, como fazíamos sempre em dia de Copa. Aliás, por que nós, os meninos da rua, não estávamos jogando na hora da partida do Brasil? Bem, peguei a bola e parti. Ao abrir a porta de casa, não é que os outros já estavam lá! Todo mundo com sorriso amarelo, com um semblante fechado que expressava o constrangimento pela inesperada derrota, enlutados por sabermos que o Brasil, contra todas as nossas certezas de criança, não seria campeão na Espanha. Pior ainda para nós, que jamais víramos o Brasil ganhar uma Copa.

“Chuta a bola aqui”, gritou alguém. E logo estavam formadas as equipes, justamente Brasil x Itália, e partimos para a vingança. Esquecemos da tristeza, o luto se desfez, mas aqueles que assumiram o escrete italiano estavam inspirados pelo feito de há pouco da Azzurra contra a nossa seleção. O moleque que assumiu a condição de Paolo Rossi, coitado, estava se achando. Mas não teve pra eles, não. Fomos com tudo e nos vingamos sem pena, do nosso jeito. Ali na rua não tinha para ninguém. Só deu Brasil.

Findo o jogo da rua, voltamos a sorrir e a nos ver como os melhores do mundo. E, sem que nenhum adulto nos ensinasse, descobrimos algo muito importante: se no futebol o melhor pode perder, mesmo perdendo pode não deixar de ser o melhor. Logo, de uma forma ou de outra, são vitoriosos. O sentimento de derrota, assim, deu lugar novamente ao gosto pela vitória. Se nós, os meninos da rua que imitávamos Zico, Sócrates, Falcão & Cia. éramos imbatíveis, logo, aqueles jogadores mágicos, nossos eternos ídolos, também haviam vencido. Eram, ou melhor, são campeões. Apenas não conquistaram um torneiozinho mixuruca que, como bem disse Garrincha, não tem nem returno.

Venceram, com certeza. Pelo menos, é a lembrança que guardo desde os meus longínquos dez anos.

***

Hoje tenho 37 anos. Depois da Copa da Espanha, já vieram outros sete mundiais, incluído este de 2010. Destes, vi o Brasil ser derrotado em cinco e vencer dois. Apesar da emoção da vitória, jamais uma outra seleção brasileira me encantou como aquela de 1982. Tenho certeza que muitos outros que como eu tinham perto de 10 anos naquela época concebem o escrete de Telê como algo mágico, encantado, quase imbatível... Quase.

Será que é só uma dessas visões hipervalorizadas por virem dos tempos de infância, como os desenhos animados antigos que jamais admitimos serem pior que os de hoje? Não, neste caso, pelo menos, não. É porque aquela seleção era boa mesmo. Se não fosse, não estaria brilhando nas retinas e nas memórias de tanta gente até hoje. A propósito, como os garotos de 10 anos em 2006 ou 2010 levarão na memória de adulto as seleções brasileiras das Copas da Alemanha e da África do Sul? Guardarão o mesmo encanto em relação aos times de Parreira e Dunga que guardam os então meninos, como eu, em relação ao time de Telê? Provavelmente não.
Sem trocadilhos românticos, cuja intenção de fundo é produzir o autoengano: Acredito sinceramente que há derrotas que pairam como vitórias, e vice-versa. A chamada “tragédia de Sarriá” é um exemplo clássico. Como pode um time derrotado ser tão cultuado até hoje? Quem viu, sabe muito bem o porquê. Então, no mínimo, há que se ponderar muito as palavras para sentenciar que aquilo foi uma derrota. É muito pragmatismo numérico. É dar muita importância para números frios constantes de um placar.

Falando nisso, já pensando em 2014, quando a Copa do Mundo será no Brasil, gostaria muito que os dirigentes do nosso futebol não se preocupassem apenas com o número de estrelinhas que ostentamos acima do escudo. Sim, são importantes; são fundamentais mesmo. Mas não menos importante é o encanto que fica em cada brasileiro com o futebol jogado por seus compatriotas em campo. Dependendo da magia com que jogam, o fato de ser penta, hexa, hepta, etc., pode até ficar em segundo plano. E, cá entre nós, do mesmo jeito que jogo feio não é garantia de vitória, podemos muito bem apostar na vitória com um jogo encantador. Como o daquele time de 82, por exemplo.

JFQ

sábado, 3 de julho de 2010

Que dureza!



Paraguai 0x1 Espanha (Quartas de Final)

Quem diria, o cavalo paraguaio galopou cabeça a cabeça com o andaluz espanhol, sendo ultrapassado só a poucos metros do disco final. Quem esperava – como eu – que a disputa entre Espanha e Paraguai seria a maior barbada das quartas de final, dada a disparidade entre as duas equipes, saiu com a impressão de que o Paraguai venceu e a Espanha, senão perdeu – já que está, depois de muito, muito tempo em uma semifinal de Copa do Mundo –, não convenceu que tem forças para superar a mágica Alemanha.

O jogo foi parelho do começo ao fim. Até os 13 minutos do segundo tempo, a bem da verdade, foi feio, amarrado. Pelo Paraguai, inclusive, não se esperava nada muito além disso. Do lado da Espanha, porém, esperava-se uma equipe não apenas vitoriosa, mas envolvente, o que não se viu durante toda a Copa. A impressão que se tem é de que a Espanha foi bastante ajudada pelo chaveamento; a prova de fogo virá na quarta-feira, contra a Alemanha. No entanto, nesta reedição da final da última Eurocopa, a Espanha caiu e a Alemanha assumiu a condição de favorita. O que as torna semelhantes é o fato de terem conjunto, além das boas individualidades. Só que a Alemanha progrediu nesse quesito, enquanto os espanhóis estão indo aos trancos e barrancos, extremamente dependentes dos lampejos de oportunismo de David Villa. Fernando Torres, o outro atacante espanhol, assim como Kaká, Messi e Cristiano Ronaldo, não está fazendo jus às expectativas nessa Copa, embora se deva dar a ele crédito por estar voltando de contusão.

A arbitragem foi crucial para o resultado da partida, em que pese ter tido acertos e não poder ser crucificada nos lances decisivos em que o julgamento correto dependia da visão milimétrica em centésimos de segundos. O primeiro erro foi o gol de Valdez, aos 41 minutos do primeiro tempo: gol legal do atacante paraguaio, anulado pela arbitragem, sob alegação de impedimento. Houve quem também tenha visto um toque quando o paraguaio matou a bola para chutar. Nem um, nem outro. Foi gol mesmo.

Aos 13 do segundo tempo, o árbitro assinalou corretamente pênalti de Piqué em Barreto. O atacante paraguaio Cardozo partiu para a bola com um semblante de medo, chutando fraco, quase no meio do gol. Casillas encaixou a bola. Detalhe: vários espanhóis invadiram a área, mas o guatemalteco Carlos Batres não mandou voltar a cobrança, como faria em seguida, do outro lado.

Dois minutos depois, Alcaraz derrubou Villa na área: pênalti para a Espanha. Xabi Alonso bateu e fez, mas o árbitro da Guatemala fez voltar a cobrança, acertadamente, devido à invasão dos espanhóis. Na nova cobrança, porém, o bom goleiro Villar defendeu.

O jogo continuou no banho-maria, com alguns momentos de emoção em subidas de lado a lado, até que, aos 38 do segundo tempo, Iniesta tocou para Pedro chutar na trave, no rebote David Villa – sempre Villa – bateu na jabulani, que tocou nas duas traves antes de entrar.

Final de jogo: Paraguai 0x1 Espanha. Sensação: o Paraguai chegou a uma fase de quartas de final pela primeira vez em seu história e por pouco não foi além; já a Espanha, que apesar de nunca ter feito uma final de Copa, chegou pela enésima vez apontada como uma das favoritas, está feliz pelo dever cumprido, mas ciente de que jogando assim não passa da Alemanha. A propósito, a Alemanha, para mim, conquistou a condição de favoritíssima ao título. O que é bom, mas perigoso.

JFQ

Bom futebol é jogado por meninos, não por guerreiros




Alemanha 4x0 Argentina (quartas de final)

Antes da partida contra a Argentina, os jogadores alemães Schweinsteiger e Lahn criticaram o temperamento e a suposta deslealdade dos sul-americanos, em geral, e dos argentinos, em particular. Sabe-se lá qual a razão desses pronunciamentos, o fato é que essa Alemanha parece ter se deslocado no mapa, revelando-se ela própria a mais sul-americana das seleções desta Copa e a mais sul-americana das seleções alemãs de todos os tempos. Não apenas pelas provocações, mas sobretudo pelo ótimo futebol demonstrado em campo. Pela primeira vez – e acompanho Copas desde 1982! – vejo uma Alemanha que não é fria, que não prima somente pela marcação forte, pelas jogadas aéreas e chutes de longa distância e, acima de tudo, que toca, tabela e envolve as demais com uma habilidade inédita. Dá gosto de ver.

Os grandes responsáveis por isso são Joachim Löw e seus meninos. Também, o acaso deu sua pequena cota de contribuição. Löw, ex-assistente de Klisman em 2006, tirou Friedrich da lateral direita e o colocou na zaga – para mim, o melhor zagueiro desta Copa depois de Lúcio e Juan –, colocou Lahn, antes lateral esquerdo, na direita. Além disso, recuou Schweinsteiger no meio campo e não teve medo de unir jovens talentos à experiência de Klose, quiçá o maior artilheiro da história das Copas ao final deste Mundial. Ao acaso ficou a incumbência de tirar Ballack por contusão, então “melhor jogador” do time, e passar a vaga para a brilhante revelação Mesut Özil. Além deste, um outro inusitado destaque alemão voou nesta Copa: Müller, 20 anos, a quem Maradona confundira com um gandula quando sua Argentina enfrentou e venceu a Alemanha em um amistoso.

Confesso, estou entusiasmado com essa Alemanha tão diferente daquelas que me acostumei a ver. E estou feliz pelo fato dela poder servir de paradigma, e não a nossa, quer dizer, a de Dunga. Pelo simples fato de que a seleção brasileira eliminada ontem tinha o perfil de um conjunto de soldados, dispostos a vencer uma guerra. Dunga surgia qual um general no comando de seus guerreiros. Esta foi a imagem, dentro e fora do campo. Imagem propositalmente construída, diga-se de passagem, como antagônica àquela da “festa de Weggis”, dos “baladeiros de 2006”. Lição: nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Já o paradigma alemão, no meu entender, é o do talento, do futebol bem jogado, equilibrado, porém alegre. Algo mais parecido com o futebol brasileiro do que com o alemão, mas que, infelizmente, do qual passamos a duvidar, enquanto dele se apropriavam os alemães. Em suma, a Alemanha parecem ter recuperado a essência do futebol: o lúdico, o jogo de meninos, jamais batalha de guerreiros.

Bem, voltemos ao jogo. A Argentina tem ótimos jogadores, tomados individualmente. Talvez seja o melhor elenco (a soma das individualidades), mas não tem um conjunto tão bom como a Alemanha. Aliás, nesta Copa ninguém tem ou, pelo menos, ninguém apresentou até agora. Penso que, além da Alemanha, apenas à Espanha pode se atribuir boa consistência em seu conjunto: um padrão de jogo bem constituído, para além das individualidades. O que não impediu tanto à Alemanha como à Espanha perderem jogos na primeira fase deste Mundial. Argentina, Brasil e Holanda, por outro lado, têm grandes jogadores, mas não um conjunto, um time propriamente dito.

Vale destacar que Maradona tentou corrigir algumas deficiências, tirando Gutierrez e colocando Otamendi na lateral direita, além de ser forçado a colocar Burdisso no lugar do bom zagueiro Samuel, machucado.

Logo no começo da partida, o time de Löw mostrou que faria o mesmo que fizera contra a Inglaterra: não me refiro aos 4 gols, também feitos contra a Austrália, mas partir como um trator para cima do adversário. Uma vez mais deu certo. O gol de Müller logo aos 3 minutos permitiu que a Alemanha jogasse a seu gosto, armando o bote para contra-ataques fatais. E assim foi. Não satisfeita com a vantagem, os alemães marcavam a saída dos argentinos, e Schweinsteiger ficava na cola de Messi. Para não falar da garra impressionante com que os jogadores de Löw devotavam cada jogada. Cadê a frieza alemã?

Somente lá pelos 25 minutos a Argentina começou a criar seus espaços, especialmente com Tevez na armação – ainda mais recuado que nos jogos anteriores – e com Di Maria aberto pela direita. O ímpeto alemão arrefeceu, e até Messi passou a ter algum espaço para a criação. Özil, bastante sumido, não exercia o papel fundamental de outras partidas, sendo Schweinsteiger o principal criador da Alemanha, e Müller e Klose as sempre perigosas referências no ataque.

Iniciado o segundo tempo, logo aos dois minutos Di Maria acertou um tiro de longe que passou perto do gol de Neuer. Seria o prenúncio de uma reviravolta argentina, não fossem os contra-ataques alemães começarem a funcionar. Após sucessão de finalizações sem força, defendidas por Neuer sem dificuldade, aos 22 minutos, Klose marcou o segundo da Alemanha, seu 13º em mundiais, passando Pelé e se igualando a Juste Fontaine.

A partir daí a maionese argentina desandou de vez, e com o terceiro gol, de Friedrich, fechou-se a tampa do caixão argentino. O quarto gol, também de Klose – o 14º, que o fez empatar com Gerd Müller e ficar a um de Ronaldo –, foi a confirmação de uma superioridade incontestável.

Encerro dizendo que torci, sim, pela Alemanha: é a dona do melhor futebol desta Copa, seríssima candidata ao título. Não torci contra a Argentina, uma vez que, muito embora seja difícil esquivar-se por completo das rivalidades com nossos hermanos, sei reconhecer quando eles têm futebol de primeira qualidade. No entanto, não dá para deixar de comemorar o fato de termos nos livrado da ameaça de ver o Maradona nu. Ufa!

***

Diga não ao racismo

Parabéns à FIFA pela iniciativa dos pronunciamentos contra o racismo lidos pelos capitães dos times antes das partidas nestas quartas de final. Na verdade, não se trata de uma medida nova. Mas em plena África do Sul, onde desgraçadamente vicejou o racismo institucionalizado do apartheid por tanto tempo, dizer não ao racismo em um evento internacional tão importante, em várias línguas, dirigidas a tantos povos, tem um significado muito mais profundo.

***

Klose x Messi, Kaká e Cristiano Ronaldo

Badaladíssimos antes da Copa, Kaká, Messi e Cristiano Ronaldo, juntos, fizeram apenas um gol. Foi do português, quase por acaso, nos 7x0 contra a Coréia do Norte.

Enquanto isso, o “veterano” Klose, à mineira, comendo pelas beiradas, já fez 4, está entre os artilheiros desta e prestes a se tornar um dos ou o maior artilheiro de todas as Copas.

Dá-lhe, meninos e veteranos da Alemanha!

JFQ

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Loucuras Celestes

Uruguai (4)1x1(2) Gana (Quartas de Final)

O adversário da Holanda por uma vaga na final da Copa foi decidido em um jogo emocionante, às vezes truncado demais, com muita disputa pela posse de bola e jogadas inusitadas.

Gana era a última esperança do continente africano de colocar seu futebol em uma final de mundial, apesar de não representar aquilo que esperamos de um time da África. Ao contrário da tradicional "irresponsabilidade" tática, de jogadores abusando de jogadas de efeito e muita ofensividade, os ganeses mostraram em campo uma seleção retrancada, forte fisicamente e que joga no erro do adversário. Até seu principal jogador, Gyan, destaca-se mais pela força do que pela técnica.

Já os uruguaios mantiveram a tradição de uma forte defesa, marcação pesada no meio campo e jogadores habilidosos, sendo um time mais equilibrado e perigoso.

A Celeste começou dominando a partida através da alta velocidade de Suárez e Cavani, acionados principalmente por Forlán. Os ganeses arriscavam-se pouco, mais em bolas aéreas e ligações diretas para o ataque. Quando todos já esperavam o apito de encerramento do primeiro tempo, Muntari pôs a Jabulani para enganar o goleiro uruguaio em um chute de mais de 30 metros e marcar 1x0.

Curva da Jabulani lá, curva da Jabulani cá, Forlán mostrou que também sabe por efeito na bola e igualou de falta, aos 9 do segundo tempo. O jogo seguiu muito disputado até o fim do tempo regulamentar, com o nervosismo e os erros de ambas as seleções impedindo mais gols.

Veio a prorrogação e o time africano parecia que iria manter vivo o sonho do continente, o Uruguai já não tinha mais pernas para acompanhar o time de Gana que, mesmo jogando a segunda prorrogação seguida, estava bem mais inteiro.
Os ganeses pressionavam mas o gol não acontecia, sempre tinha um pé de um zagueiro uruguaio que aparecia em cima da hora. Pé que virou mão no último minuto do segundo tempo da prorrogação. Bola levantada na área, bate-rebate e Suárez, herói da classificação frente a Coreia do Sul, evitou de soco o gol da vitória africana. Pênalti assinalado e cartão vermelho para o atacante, que já saindo de campo, mudou do choro do desespero para o da alegria ao ver a cobrança de Gyan explodir no travessão. A decisão ia para os pênaltis.

Os uruguaios erraram apenas uma cobrança e venceram a série por 4x2. Destaques para Gyan, que mesmo com o erro anterior foi lá e converteu o primeiro da série para os ganeses, Muslera com duas defesas e Abreu, dando total justiça ao apelido de "El Loco" ao garantir a classificação com uma cavadinha.
Arnaldo

Coerência

Brasil 1x2 Holanda (Quartas de final)

Não é fácil. O jogo acabou agora, estou escrevendo e vendo a entrevista do Júlio Cesar, emocionado. O Galvão, hipócrita, falando que o trailer já havia passado, que todo mundo sabia que o Felipe Melo poderia ser expulso e que não havia qualidade no banco de reservas. É verdade, mas ele mesmo fez parte do "essa é a seleção", "nosso esporte é torcer pelo Brasil".

Bom, como não sou jornalista e nem tenho compromissos comerciais ou editoriais, aqui vai a minha opinião. Tenho certeza que o João, idealizador e alma deste blog, concordando ou não, colocará a dele nos comentários.
A história começou em 2006, um time de estrelas, atual campeão do mundo, craques em todas as posições e que não tiveram comando da CBF e de Parreira, caindo do próprio salto nas quartas, contra a França.

Como reação foi feito o oposto, sai o estratégico e entra o novato, com garra e força para montar um time de guerreiros. E, como em 2006, passamos da primeira fase devendo futebol, fomos para as quartas devido à fragilidade do adversário e tombamos frente ao primeiro time de real valor. Mudou-se o comportamento, não a eficiência.

O sentimento é diferente hoje, é menos raivoso, é mais angústia do que ira, pois perdemos por limitações e erros de comando, não por vaidade e preguiça. Dói mesmo assim. Machuca por vermos jogadores, que não tem culpa de nada, ralarem para conquistarem os objetivos, superarem lesões, pressão e tudo mais para acabar nas quartas.

Galvão e a Globo já escolheram os culpados, Dunga e Felipe Melo. Será? Eles fizeram algo de diferente do que se esperava deles? Alguém imaginava que Dunga tornaria-se, do nada, grande técnico? Felipe Melo fez o que fez em toda sua carreira, mesclou grandes lances como o passe de hoje e o gol contra a Itália ano passado com o destempero emocional e expulsões imbecis. É a corência que Dunga sempre prometeu.

Os verdadeiros culpados continuam no comando, buscando dinheiro público para o Brasil não passar vergonha na organização de 2014. O que farão agora? Qual vai ser a resposta? Vai-se fazer novamente tudo para respoder as críticas e acalmar a revolta popular? Buscar o oposto de Dunga? Utopicamente espero que não.

No jogo de hoje vimos um primeiro tempo muito bom do Brasil, não caindo na malandragem que a Holanda quis trazer para o jogo, marcando perfeitamente Robben e Sneijder e não deixando os laranjas trocarem passes com facilidade. O gol aconteceu cedo e deu ainda mais moral para o time.

Já o segundo tempo parecia uma tormenta astral, o time começou nervoso e a Holanda conseguiu empatar sem criar nenhuma chance de gol na partida. Na primeira, em um escanteio, fez o 2x1 e, aí sim, mostrou porque venceu todos os seus jogos até aqui desde as eliminatórias.

Aconteceu a justa expulsão de Felipe Melo e não tivemos mais como reagir. Tivemos luta, mas não tivemos time.

Estamos eliminados e não gostaria de ver a carreira de nenhum jogador marcada por isso, vários eu acredito que não deveriam estar lá, mas a culpa não é deles. Gilberto Silva, por exemplo, não estava na seleção de ninguém e jogou uma barbaridade nessa Copa, foi perfeito em todas as partidas, assim com Júlio, Maicon, Lúcio e Juan, melhores do mundo em suas posições.

As críticas podem mirar Kaká, mas também o defendo, pois encarou de frente adversidades físicas e do esquema tático que o isolava, tentando de tudo, dando seu máximo.

O Brasil não tem obrigação de ganhar todos os mundiais, mas tem o dever de ser o exemplo do bom futebol, do espetáculo. Mostrar garra e vontade não é contrário a isso, é complementar.

Fora de campo, desejo que em 2014 façamos uma Copa como esta, com o espírito de congregação entre nações, com veneração às maravilhas que o ser humano pode realizar dentro e fora das quatro linhas. E que dentro de campo vença o melhor, quaisquer que sejam suas cores.

Arnaldo

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dunga em um dia de fúria

Divertidíssima a série que o mineiro Pablo Peixoto lançou no You Tube, intitulada “Dunga em um dia de fúria”. Já é um baita sucesso. Trata-se de uma sátira do filme “Um Dia de Fúria”, em que o personagem de Michael Douglas é transformado no técnico da seleção brasileira. Quer dizer, virou o Michael Dunga.

Vale a pena conferir. E rir.

JFQ

Comendo a bola

Costuma-se dizer que um jogador está comendo a bola quando está jogando muito bem. Craques como Messi, da Argentina, e Özil, da Alemanha, já andaram jantando a jabulani neste Mundial.

Pelo jeito, isso não é mais exclusividade de jogador. Também os técnicos andam pleiteando esse “prato”. A tomar pela barriga, Maradona, que já comeu muito a bola quando jogador, parece fazê-lo ainda como treinador. Para não falar do técnico da Alemanha, Joaquim Löw, que comeu a bola, literalmente, como mostra o vídeo abaixo. Mais especificamente, Löw, que é considerado pela mulherada como um dos mais bonitos técnicos da Copa, comeu a bolinha... Bonito, hein!

JFQ

Enquanto isso, no país do futebol


Enquanto rola a Copa na África do Sul, o mercado da bola continua agitado no Brasil com vistas ao retorno do principal campeonato nacional. O Internacional anunciou a volta de Rafael Sobis e o Atlético Mineiro acertou com o ex-palmeirense Diego Souza.

Por outro lado, o São Paulo deve perder Cicinho, requisitado de volta pela Roma. O Tricolor negocia com o clube italiano a permanência do lateral, pelo menos, até o fim das semifinais da Libertadores e já busca para o lugar um outro velho conhecido: Ilsinho, hoje no Shaktar Donetsky. Já o Flamengo, não bastasse o caso policial envolvendo o goleiro Bruno, confirmou o retorno de Vágner Love para o CSKA, após várias tentativas de segurar o jogador.

Outras novidades que podem ser confirmadas em breve são Deco, que iria para o Fluminense, Keirrison, para o Santos, e Valdívia, pretendido por Palmeiras e Corinthians.

JFQ

Dá-lhe, Paraguai!

Após Maradona, Riquelme também prometeu tirar a roupa. Calma, não me refiro ao craque do Boca Juniors, Juan Román Riquelme, mas à bela modelo paraguaia Larissa Riquelme, já considerada a musa da Copa.

Se o técnico argentino Diego Maradona prometera ficar nu em Buenos Aires caso sua seleção seja campeã da Copa, Larissa, que faz dos seios um original “porta-celular”, resolveu pagar na mesma moeda. E o Paraguai nem precisa ser campeão; basta passar pela Espanha (fácil, né?!) no próximo sábado para que Larissa tire a roupa.


Ou seja, se o Paraguai tem um time bastante limitado – talvez o mais fraco entre os classificados para as quartas de final –, também é fato que a torcida paraguaia deve ter aumentado exponencialmente nos últimos dias. Eis um 12º jogador de muito res... peito.

JFQ

Resultado da Enquete

Melhora expressiva na avaliação do Brasil. A nota média para nossa seleção no jogo contra o Chile, segundo enquete do blog, subiu para 7,67, sendo a nota mais frequente (moda) 7.

O gráfico evidencia uma oscilação entre “jogo bom” e “jogo ruim”, mas com uma tendência ascendente se tomarmos todas as partidas.