terça-feira, 13 de novembro de 2012

Flu, sem dúvida

Luiz Zanin


Um time com mais de 72% de aproveitamento dos pontos disputados e com apenas três derrotas ao longo de um campeonato difícil precisa de alguma justificativa de mérito? Claro que não. No caso do Fluminense, grande campeão brasileiro de 2012, os números falam por si. Não há qualquer contestação possível e foi um título obtido rodada após rodada, quando o time de Abel mostrou fôlego, ao passo que seu principal concorrente, o Atlético-MG, começava a botar a língua de fora ao subir a ladeira da reta final. Questão de timing.

É verdade que, enquanto jogou, o Atlético encantou mais que o Fluminense. Bem montado por Cuca, com um Ronaldinho Gaúcho redivivo e o talento da revelação do ano, Bernard, o Atlético parecia a reencarnação do bom e velho futebol brasileiro, aquele que une arte e eficácia. Mas depois vimos que estávamos longe disso. E o Galo foi se distanciando, a ponto de ser superado até mesmo pelo Grêmio, do professor Luxemburgo. A segunda colocação do campeonato ainda está em aberto, e essa disputa entre mineiros e gaúchos é um dos últimos focos de interesse de uma competição que já tem seu vencedor.

Os amantes do futebol-arte talvez preferissem o Atlético campeão, mas e daí? Se o Fluminense não encanta, o Corinthians, campeão do ano passado, também não encantou, assim como o Flamengo, vencedor em 2009. Foram campeões indiscutíveis e fizeram a alegria de suas torcidas. Mas deixaram os apreciadores do futebol um pouco decepcionados. A pergunta que se faz, a esta altura, é a seguinte: poderia ser diferente? Até que poderia, haja vista a ótima campanha inicial do Atlético. Mas o que prevalece, no atual futebol brasileiro, é o cálculo, o pragmatismo, a capacidade de se mostrar regular, sem grandes oscilações. E, nesse ponto, o Fluminense foi absoluto. Basta olhar os números, mais uma vez.

Claro que o futebol é um ente indefinido, que muda segundo a perspectiva de quem o vê. Daí as discussões intermináveis. Daí, também, a infinidade de donos da verdade, gente que se acha o último copo d’água gelada no deserto quando o assunto é tática, técnica e previsões de resultados. Por isso, convém lembrar que o Flu é campeão porque contou com alguns jogadores em estado de graça, e nos momentos certos. Não teria vencido com três rodadas de antecedência não fossem as atuações de Fred e Diego Cavalieri, com certeza. Ou a velocidade de Wellington Nem. Ou seja, o Fluminense não é essa entidade puramente coletiva (como se supunha fosse o Corinthians de 2011), da qual seria impossível eleger destaques individuais. O time tem seus craques, e eles foram fundamentais. Ainda assim, faltou aquele futebol sedutor, que faz a delícia da própria torcida e empolga mesmo a dos outros times.

Quantos desses times sedutores surgiram nos anos mais recentes? O Santos de 2002 e do primeiro semestre de 2010, o Cruzeiro de 2003, e quantos mais? É muito pouco para um futebol que gostava de se definir como o melhor do mundo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 13/11/2012.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Perdoe-nos, Abelão!

André Barcinsky
 
 
Depois de comemorar o título, todo torcedor do Fluminense tem uma missão: pedir desculpas a Abel Braga. Ele é o verdadeiro herói desse time. Ninguém foi tão criticado e soube, com a fidalguia que prega o hino do Flu, trazer esse título para as Laranjeiras.
Perdoe-nos, Abelão, pelas tantas vezes em que o xingamos e amaldiçoamos a sua teimosia. Em que reclamamos da retranca do time e de escalações que consideramos absurdas.
Que torcedor não chiou quando você insistiu com Bruno na lateral direita? Ou quando escalou Edinho, apesar de toda a gritaria por Valencia? Ou quando pôs Anderson na zaga? Ou quando manteve Thiago Neves no time titular, contrariando a torcida e os comentaristas?
Muitos esquecem que alguns dos destaques do time só o foram por insistência sua. Ou não foi você que promoveu Diego Cavalieri a titular? Que pediu tranquilidade e paciência na época em que Fred ameaçou sair das Laranjeiras? Que insistiu com a diretoria para renovar com Rafael Sóbis? Que não chiou quando perdeu Conca e deu força para os que ficaram? Que promoveu, com serenidade e paciência, a subida de uma geração de ouro dos juniores, como Marcos Junior, Samuel e Higor.
Demorou, Abel, mas hoje todos os tricolores sabem: você estava certo. Seus números dizem tudo: melhor campanha do segundo turno do Brasileirão de 2011; campeão carioca, melhor campanha na Libertadores (que perdemos por detalhe e azar, tendo jogado com o Boca sem meio time); melhor campanha da história dos Brasileiros de pontos corridos em 2012.
Ao longo desse tempo, aprendemos a lidar com suas idiossincrasias: se estamos ganhando, sabemos que você vai tirar o Wellington Nem e botar mais um volante. Muitos reclamam, mas, no fundo, confiamos em você. Afinal, ninguém ganha Libertadores e Mundial de Clubes, como você fez pelo Inter, enfrentando o favoritíssimo Barcelona, sem sabedoria.
O Fluminense de 2012 aprendeu com o Corinthians de 2011 que não é preciso dar show para empolgar. Uma defesa sólida e um contra-ataque mortal são armas poderosas. É um time traiçoeiro e seguro, que ganhou a confiança da torcida.
Desde o time tricampeão carioca (1983 a 85) e campeão brasileiro (1984), não confiamos tanto num time.
Ontem, em Presidente Prudente, ninguém se abalou quando cedemos o empate. Sabíamos que a vitória era questão de tempo.
E, Abel, as perspectivas para 2013 são as melhores: mais uma Libertadores, um novo CT, a recente mudança de estatuto que criou o sócio-futebol. Muita coisa boa junta.
Para completar, vibramos quando você gritou "Eu vou ficar!" para a torcida, acabando com rumores de uma saída. O Flu sem você não faz sentido. De quem vamos reclamar no ano que vem?
 
ANDRÉ BARCINSKY é torcedor do Fluminense.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/11/2012.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vale trave

Denise Fraga



 
Sou flamenguista de nascença, mas palmeirense pelo coração. Gosto de futebol. Meu marido é palmeirense roxo e meus filhos ainda ostentam com orgulho a camisa do Palestra. Não tivemos muitas alegrias na última década, mas, neste ano, nosso time nos deu a Copa do Brasil e garantiu nossa vaga na Libertadores.

Fazia tempo que não nos inflamávamos tanto na arquibancada nem víamos nosso time jogar bonito assim. Estava um ano quente.

Mas, por incrível que pareça, corremos o perigo de passar o Natal amargando 2013 na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O time até brilhou, mas a bola simplesmente não entrou.

Um poderoso sentimento de injustiça cresce em meu peito quando penso nas inúmeras bolas na trave que presenciei. Em minha relativista visão feminina do mundo pão, pão, queijo, queijo do futebol já tentei tecer várias teses a respeito da importância da bola na trave, mas sempre me olham como se eu fosse mulherzinha.

É óbvio que é muito mais difícil acertar nas traves e no travessão do que no vão de sete metros. Não valendo mais do que um gol, deveria, no mínimo, aumentar o número de pontos de times como o meu, à beira do precipício. Mas bola na trave não é gol. Bola na trave é intenção. E, como dizia minha avó, de boa intenção o inferno está cheio.

Futebol se mede por gols, audiência, pelo Ibope, o valor das coisas, por seu preço e meu filho, mesmo devorando livros, só passa de ano se tirar boas notas. São regras e parâmetros aos quais fomos nos acostumando para tentar ter a vida nos trilhos.

Da última vez, saí do estádio pensando em um texto que li de Maria Rita Kehl no qual ela dizia que nossa biografia não deveria se basear somente em nossos feitos. Às vezes, nossos desejos e intenções nos configuram de forma muito mais plena. Seria nossa "biografia em baixo-relevo". Mas como exigir desse mundo objetivo em que vivemos tamanha delicadeza?

Continuamos por aí nos afogando em números e perdendo nossos "quases" que tanto têm a dizer. Nosso time talvez caia para a segunda divisão pela segunda vez.

Na primeira vez, os meninos eram pequenos e se firmaram palmeirenses gritando muitos gols, sem saber que torciam para um time rebaixado. Agora não poderemos mais enganá-los: já sabem que a vida é feita de números. Mas, mesmo na segunda, continuaremos na arquibancada contando nossos gols, aos quais eu, eterna e secretamente, agregarei as bolas na trave e os passes perfeitos.

 

DENISE FRAGA é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo)

Publicado na Folha de S.Paulo, em 30/10/2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Justamente ilegal

Juca Kfouri
 
O cúmulo do desespero revela-se nas reclamações quanto ao gol anulado de Barcos, o pirata da cara de pau.

Só faltava, para acabar de desmoralizar a arbitragem deste Brasileirão do impedimento tríplice carpado, a validação do gol do argentino que, em vez de reconhecer a farsa, fingiu indignação.

Pior que ele só o tal Piraci, do jurídico alviverde, falar em anulação do jogo. Baseado em quê? No que jamais se provará?

Quem sabe o pirado causídico não anule a decisão da Copa de 2006, quando também se alegou auxílio externo para expulsar Zidane, autor da cabeçada em Materazzi, tão escandalosa como a cortada de Barcos.

Ora, com um mínimo de espírito ético e esportivo, os responsáveis pelas tradições palmeirenses deveriam se calar diante da insânia que seria a validação do gol.

Que o árbitro vacilou é inegável e sua má consciência foi tal que nem cartão mostrou ao autor da farsa --deveria ter mostrado o amarelo duas vezes, o primeiro pela mão, o segundo pela falsa indignação.

Mas, vá lá, do jogador de sangue quente admite-se as piores vilanias, assim como não se espera equilíbrio do torcedor que aplaude Joaquim Barbosa, mas quer que seu time ganhe com gol de mão, em impedimento depois dos acréscimos.

Ainda mais do torcedor torturado pela pífia direção que Piraci representa.

Daí a mergulhar a instituição nas profundidades do ridículo vai enorme distância, para gozo dos rivais.

Já se disse aqui, e deve ser repetido, o que ensinou o uruguaio, este sim, jurista, Eduardo Couture, em seus Mandamentos do Advogado: "Teu dever é lutar pelo Direito, mas no dia em que encontrares em conflito o direito e a justiça, luta pela Justiça".

Alguma dúvida sobre o que tinha de prevalecer no caso da mão de Barcos?
Publicado na Folha de S.Paulo, em 29/10/2012.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Negócios à parte, torcedores

Paula Cesarino Costa
 
Nem centenas de milhões de reais foram capazes de separá-los. Em defesa de um mesmo objetivo, estão lado a lado personagens de uma disputa milionária: Rodolfo Landim, ex-executivo do grupo de Eike Batista --que reivindica na Justiça cerca R$ 500 milhões, referentes a 1% da holding que Eike teria lhe prometido--, e Flávio Godinho, do conselho de administração do grupo EBX.
"O Flamengo tem capacidade de unir até quem disputa milhões", diz Wallim Vasconcellos, candidato a presidente do clube rubro-negro.
Foi com um telefonema de Godinho para Landim que começou a crescer o movimento para criar a chapa que reúne empresários e executivos --como os presidentes da Sky, da Visa e da Cielo, o ex-presidente do BC Carlos Langoni e o ex-presidente da ANP David Zylbersztajn. Nesta semana, reuniram-se na casa do humorista Cláudio Manoel, do Casseta & Planeta, para acertos finais.
Ainda faltam estudos acadêmicos e/ou científicos que expliquem o comportamento do torcedor. Impressiona o que a paixão por um time é capaz de fazer com o ser humano.
Torcedores são capazes de tudo. Da irracionalidade flagrada durante uma partida, que faz homens civilizados agirem de maneira quase selvagem, à capacidade de fazer qualquer coisa pelo time que torce --ultrapassar divergências ideológicas, pessoais e disputas comerciais.
Como torcedores, esses executivos apostam numa receita moderna: profissionalizar a gestão contratando diretoria executiva, equacionar as dívidas, eliminar as ambições políticas e explorar melhor a marca valiosa. São quase 40 milhões de torcedores que não compram outro produto.
Mas eles disputam com várias chapas, entre elas a da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Num ambiente em que a incompetência alimenta a má-fé, e vice-versa, pode vir a ser só mais uma ilusão de torcedor.
 Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/10/2012.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A dor e a alegria

Luiz Zanin





Amigos, o futebol é esporte coletivo mas, muitas vezes, são as atuações individuais que mais nos chamam a atenção. Este fim de semana foi pródigo na supremacia do indivíduo sobre o conjunto. A começar pelo clássico espanhol, que teve o duelo à parte entre Cristiano Ronaldo e Messi. Imagino que ambos se lixavam para as manifestações separatistas da Catalunha que faziam vibrar as arquibancadas do Camp Nou. Estavam muito mais interessados em sua luta particular para ver quem é o melhor do mundo. E, nessa disputa de egos, empataram, da mesma forma como o jogo empatou. Dois gols para cada lado, duas atuações brilhantes. O lucro foi do público.

Entre nós, houve a atuação emocionante de Ronaldinho no sábado. Iluminado, ele fez três gols, construiu belas jogadas, dominou o jogo. Verdade, foi contra o Figueirense, uma das apostas mais seguras ao rebaixamento. Mesmo assim, houve quem dissesse que Ronaldinho não jogava desse jeito desde 2006, quando era o melhor do mundo, antes de naufragar naquela Copa em que o Brasil era tido como favorito. A bem da justiça, naquela Copa o Gaúcho não foi náufrago solitário. A equipe toda foi ao fundo, do roupeiro ao presidente, como um lamentável Titanic.

Voltemos ao presente: Ronaldinho foi saudado como craque redivivo e não faltaram comentários do tipo "Ah, se ele jogasse sempre assim..." Bem, ninguém joga sempre assim. O mínimo que se pode exigir de um craque é certa regularidade. Mas, mesmo essa qualidade da constância o Ronaldinho vem mantendo em sua fase atleticana. Para quem saiu do Flamengo com o rótulo de "ex-jogador em atividade", a volta por cima é significativa. Ele tem sido decisivo para o time mineiro em suas pretensões a um título que não vê desde 1971.

Não que já não tenhamos visto atuações antológicas do Ronaldinho no Brasil. Lembram daquele mágico Flamengo 5 x 4 Santos na Vila Belmiro, no qual ele ofuscou até mesmo Neymar? Mas este jogo no Independência parecia especial. As câmeras mostraram como ele chorou após marcar o seu primeiro gol, aquele golaço improvável, por cobertura. Por que chorava? Descobriu-se que seu padrasto havia falecido na véspera. A própria mãe do craque parece que está muito doente. Com essa carga sobre os ombros, Ronaldinho tomou-se de emoção e devolveu em futebol a dor que vida lhe causava. Ele, sempre tão lembrado pela vocação boêmia, era turbinado em campo pelo mais elementar sentimento humano - a revolta diante do destino, a angústia da mortalidade, da nossa condição plebeia e perecível. Foi, talvez, esse sentimento confuso da finitude que forneceu ao craque as armas para uma atuação inesquecível.

Que paradoxo, não é verdade? Quando sentimos a morte de perto, na perda de um ente querido, mais vontade temos de nos afirmarmos como vida. O luto do Gaúcho, naquele sábado, terminou numa explosão de alegria da torcida. O futebol só não suporta é a indiferença.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 09/10/2012.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nem na várzea

Antero Greco




Brasil x Argentina, o maior duelo mundial de seleções, está escangalhado desde 2011, quando inventaram o Superclássico das Américas. A série de confrontos entre as duas escolas que mais astros revelaram para o futebol em todos os tempos não passa de deslavado caça-níquel para forrar os bolsos das respectivas confederações e seus parceiros comerciais. Por uns cobres, banalizaram rivalidade centenária e tentaram tapear torcedor e jogadores com a conversa de que tem taça em disputa. Até ai, nenhuma novidade; nos antigos festivais da várzea sempre havia um trofeuzinho como prêmio, e que era levado a sério.

Não é o que aconteceu com esses tira-teimas com os argentinos. Os responsáveis pelos confrontos deram tanta importância ao peso histórico da amarelinha e da celeste que decidiram mandá-las a campo numa cidade de fronteira. Quem conhece Resistencia garante tratar-se de lugar simpático, agradável e sossegado, de comida farta e de gente atenciosa. Acredito, e espero um dia desses ter o privilégio de visitá-la.

Mas, muito obrigado, por nada. Águas de Lindoia também é acolhedora, tem clima espetacular e paisagem repousante; vale a pena a viagem. Nem por isso, recebe jogos da seleção brasileira. Nem que tivesse um estádio moderninho como o Centenário, onde, se presumia, as equipes nacionais iriam encontrar-se na noite de anteontem para definir o campeão da versão 2012 do Superclássico. Não teve jogo por causa de black out, ou apagão mesmo, como usamos de uns tempos para cá, para ressaltar uma falta de luz que beira à esculhambação.

Não gosto de recorrer à expressão deuses do futebol, pois a considero batida e tremenda lorota. Mas que foi uma ironia do destino, não há dúvida. Parece que a natureza quis pregar uma peça na cartolagem ao desligar a torre central de iluminação. Recado para aprenderem a não brincar mais com tradição. Não respeitaram a majestade dessas seleções e entraram pelo cano. Tomaram prejuízo e ainda têm de indenizar o público. Se eu tivesse comprado ingresso, faria um barulho e tanto para ter o dinheiro de volta. No mínimo.

Falei em várzea, e peço desculpas aos varzeanos. Lá isso não aconteceria. Evidente que incidentes como esse podem ocorrer em qualquer cidade - na quarta-feira mesmo alguns estados no Brasil sofreram com queda de energia. A questão, maior, está no fato de que clássico de tamanha envergadura (mesmo que jogado só com atletas que atuem nos dois países) não pode ser marcado para cidade com estrutura modesta. Os nossos vizinhos têm Córdoba, Mendoza, Rosario, para citar alguns centros importantes, fora Buenos Aires. Seriam mais adequados e talvez contassem com mais recursos para os reparos. Porém, sabe-se lá por quais razões políticas, foram para Resistencia...

Deu pena das delegações. Os rapazes convocados treinaram, se concentraram, viajaram, chacoalharam em avião, alguns sonharam com a possibilidade de agradar aos técnicos e serem chamados mais vezes. Voltaram para casa frustrados. Como decepcionados também ficaram os fãs. Fora jornais, rádios.

O grotesco deu as caras até após o anúncio do cancelamento da partida. Um repórter levantou a dúvida a respeito do destino da taça - e ouviu do diretor de seleções da CBF que o certo seria considerar o Brasil "campeão", por ter vencido por 2 a 1 em Goiânia. Vixi! A situação era tão constrangedora que a questão do troféu não importava nada no momento. Tinha cabimento pensar nisso? Chato.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 05/10/2012.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tiranos dos estádios

Antero Greco



Vira e mexe, a tevê mostra torcedores com cartazes singelos, na base do “Mamãe, olha eu aqui”, “Galvão, me filma”, “Amor, te amo!” e coisas do gênero. Não faltam, também, imagens de crianças, senhoras, jovens a tomar sorvete. “As famílias de volta aos estádios”, exultam narradores empolgados. Uma impressão de ambiente descontraído, sereno, alegre e democrático. Certo? Errado.

Os campos de futebol tornaram-se lugar de autoritarismo, arbítrio, repressão. Sem espaço para democracia. Começa pelo clima tenso nos meios de transporte. O sujeito corre risco de linchamento, se cruzar com rivais, no ônibus, no metrô – ou a pé mesmo. Caminhar com camisa da equipe só em grupos, como as organizadas. Caso contrário, é colocar a cabeça a prêmio.

Depois, há a intimidação dos flanelinhas ou a ação escorchante de cambistas. No portão, se o guarda se invocar, o infeliz não entra nem com faixas engraçadas. E, se a fila demora a andar, pode ser atropelado por cavalos, nos sentidos literal e figurado. Lá dentro, arrisca-se a ver o cartaz confiscado, se o árbitro considerar que contenha frase ofensiva. Tem mais: o bolso lhe é tungado, se sentir vontade de comer ou de beber algo. E o nariz é aviltado, se usar o banheiro.

A maior afronta que sofre, no entanto, está na liberdade de torcer, de curtir o espetáculo, de aplaudir os ídolos, de exercer a cidadania pelo lazer. As arquibancadas pertencem a bandos de machistas, truculentos, de tiranetes que determinam como os outros devem comportar-se. E não necessariamente os “inimigos”; impingem regras despóticas para os seguidores de seu próprio time.
 

Os covardes se fortalecem sob a certeza da impunidade, escorados no famoso “não vai dar nada mesmo”, e não têm mais noção de dignidade. Exemplo chocante ocorreu no domingo, após o jogo em que o São Paulo empatou com o Coritiba (1 a 1), no Couto Pereira. O meia-atacante Lucas ouviu os apelos de uma fã, aproximou-se das arquibancadas e lhe atirou a camisa que vestia.

A adolescente Milenna, 13 anos, viveu naquela tarde momento inesquecível, para o bem e para o mal. Assim que agarrou o presente se viu cercada por brucutus irados, por acéfalos que a xingaram e ameaçaram. O pai, assustado, tentava dialogar com os estúpidos, apavorado com a perspectiva de ver sua menina agredida. A camisa tricolor foi jogada no fosso. A PM não interveio e Milenna conheceu a realidade das arquibancadas.

Impressionantes alguns desdobramentos do episódio. Nas redes sociais, não foram poucos os jovens a argumentar que a mocinha e o pai dela “vacilaram”. Postura de certa forma corroborada por Vilson Andrade, presidente do Coritiba. O dirigente afirmou, para a rádio CBN, que iria acionar responsáveis pelo incidente, “inclusive o rapaz (Lucas) que jogou a camisa”, como se no gesto delicado estivesse embutida hostilidade. Voltou atrás.

Fere saber que muitos entendam como lógica e normal a submissão à vontade das quadrilhas de boçais. Envergonha ler comentários de que estavam certo torcedores do Corinthians que exigiram a expulsão de um turista escocês, que no domingo foi ao Pacaembu ver o jogo contra o Sport com camisa do Celtic (verde e branca).

Acham natural que atitudes fascistas esmaguem o direito que temos de nos vestir como queremos, de nos divertirmos num campo de futebol. Pessoas assim também vão dizer que ditaduras são inevitáveis, irão justificar linchamentos, aplaudirão esquadrões da morte. E nem se darão conta de que, assim, vivem presas ao medo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 03/10/2012.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Placar" crucificada

Xico Sá
 
 
 
 
Amigo torcedor, amigo secador, uma ótima ideia a da "Placar", digna dos tempos gloriosos da publicação, foi, mesmo antes de a revista chegar às bancas e ser lida, rebaixada à condição de polêmica santa, cega e sem juízo.
As redes sociais da Internet, tais como algumas pracinhas moralistas e fofoqueiras do interior, pegaram uma capa antológica para Cristo. Nela aparece o genial e genioso Neymar, do Santos FC mais uma vez campeão deste ano, crucificado como Jesus.
Os editores da revista usaram a crucificação como castigo público, talvez a imagem simbólica mais velha e popular do mundo, para discutir as acusações contra o atacante do Peixe e da seleção canarinha.
A capa explica o motivo de pregar o jogador na cruz: "Chamado de 'cai-cai', o craque brasileiro vira bode expiatório em um esporte onde todos jogam sujo". Você pode discordar ou não do pensamento, mas daí a fazer disso uma guerra pentecostal contra a sacada da "Placar", pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para muitos, a revista estava comparando Neymar com o homem de Nazaré. Isso seria um pecado mortal. Os editores foram condenados ao inferno em segundos. Fico espantado com a treva, com a incapacidade de se fazer uma leitura menos religiosa e mais sensata.
Não duvido que alguns exemplares sejam queimados nos templos evangélicos e católicos. Se bem que, como discordam do uso e culto às imagens, algumas igrejas pentecostais não podem condenar por uma simbologia em que não acreditam.
Você pode até acusar a revista de apelativa, sensacionalista e outros adjetivos colados ao exercício do jornalismo desde Gutenberg. Não consigo ver nem mesmo este aspecto. Acho, no máximo, um recurso engraçado para ilustrar a reportagem. No tempo em que nossa imprensa era mais criativa e bem-humorada, tínhamos capas e mais capas, páginas e mais páginas desse naipe.
É certo que não existiam as redes sociais, e apenas umas raras cartinhas, lavrando o protesto moralista, chegavam às redações. Assim como é certeiro que jornalista é um bicho orgulhoso que não gosta muito de ser contestado, tem dificuldade para lidar com as críticas do ombudsman e não gosta de assinar o "B.O." da seção "Erramos".
Bom que o barulho do Facebook e do Twitter, em muitas ocasiões, seja capaz de desconstruir manchetes vendidas como bombásticas e arrasadoras etc. Tudo isso é muito positivo. A confusão com a metáfora da "Placar", porém, não faz sentido. Modestíssima opinião para tentar colaborar com o debate.
Usamos diariamente, até sem perceber, a imagem da crucificação. Fulano pegou alguém para Cristo etc. Sinceramente é muito barulho por nada, minhas caras irmãs Cajazeiras da pracinha do interior chamada Internet.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/09/2012.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Incertezas

Eduardo Maluf





A negociação envolvendo Ganso, Santos e São Paulo finalmente terminou. Não há vencedores nem perdedores nessa história, mas incertezas que só o tempo poderá desfazer. A maior delas é saber qual Ganso jogará no Morumbi. Aquele que brilhou na primeira metade de 2010 e passou a ser rotulado de craque ou o dos últimos dois anos, que pouco produziu.

O São Paulo faz aposta num atleta que vive de altos e baixos, sofre seguidas lesões, mas tem indiscutível talento. A tentativa é válida para um clube que tem dinheiro e vive num marasmo desde 2009, sem títulos e com participações fracas nas principais competições.

Por mais que o valor pago tenha sido expressivo, dificilmente os são-paulinos terão prejuízo. Ganso é jovem (completará 23 anos em outubro) e, mesmo que não se destaque tanto, em breve será negociado com a Europa por quantia no mínimo igual.

O meia estava insatisfeito na Vila Belmiro havia tempo, cenário que pode ter prejudicado seu futebol. Mas não podemos esquecer que ele teve boas chances na seleção e também não foi bem. Fracassou na Copa América de 2011 e saiu apagado da Olimpíada de Londres.

Seu grande momento ocorreu em 2010, quando foi protagonista, ao lado de Neymar, da conquista do Paulistão e da Copa do Brasil pelo Santos. Depois, viveu de lampejos, como na vitoriosa campanha da Libertadores de 2011, em que decidiu alguns jogos e ficou fora de outros por contusão.

Num ambiente novo, e mais motivado, o atleta pode ser importante para o São Paulo. É raro, atualmente, vermos um meia técnico e inteligente como o ex-santista. A posição é carente na equipe tricolor e na maioria dos clubes do Brasil. Caso se acerte com Luis Fabiano, pode ajudar a recolocar o clube no caminho do sucesso, perdido desde o tricampeonato brasileiro (2006, 2007 e 2008).

O torcedor são-paulino, porém, não deve se iludir. Ganso não ganha partidas sozinho como faz Neymar - aliás, o Santos sem Neymar é como a seleção argentina sem Messi. Em 2009 e 2010, muitos levantavam a questão sobre quem era o grande nome do Santos. Hoje a resposta é fácil. O atacante decolou e se tornou o número 1 do País. O meia não se transformou no gênio apontado por tanta gente.

Na pior das hipóteses, a negociação vai mexer um pouco com o clima do Morumbi, deve agitar o elenco. O São Paulo anda num período de dormência, desacostumado a grandes decisões, situação pouco comum em sua história recente. Boa parte do grupo atual parece desprovido de ambição. Se ganhar, ótimo! Se perder, tudo bem... Esse comportamento não combina com a grandeza do clube, tricampeão da Libertadores, tricampeão mundial.

Ganso está longe de ser um Pita, meia habilidoso, ídolo dos anos 80, ou Raí, astro da década de 90, mas certamente vai melhorar a qualidade do insosso meio-campo do São Paulo. Desde que sua condição física deixe de prejudicá-lo tanto.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 21/09/2012.

Hillsborough

Kenneth Maxwell




Em 15 de abril de 1989, a semifinal da FA Cup foi realizada no estádio Hillsborough, em Sheffield (Inglaterra). O Liverpool levou 50 mil de seus torcedores ao estádio para a partida contra o Nottingham Forest. E aquele seria o pior dia na história do futebol inglês.

Tumultos causados pela superlotação da área reservada aos torcedores do Liverpool resultaram na morte de 96 pessoas -homens, mulheres e crianças. Centenas de feridos e milhares de torcedores saíram traumatizados. E foram necessários 23 anos para que a verdade completa sobre o que aconteceu fosse revelada.

Na semana passada, uma comissão independente presidida por James Jones, bispo anglicano de Liverpool, publicou relatório revelando pela primeira vez a extensão do desastre, o acobertamento do acontecido pelas autoridades e o sofrimento das famílias das vítimas, acusadas pela polícia de causarem as próprias mortes.

O relatório descreve a reação caótica e incompetente da polícia e do serviço de ambulâncias, e o acobertamento perpetuado e sustentado pela polícia -até que o relatório revelasse, em todo o seu horror, o acontecido por meio da análise de milhares de documentos até agora sigilosos.

Os anos 80 foram caracterizados pela violência nos estádios de futebol. Ataques de torcedores do Liverpool causaram a morte de torcedores da Juventus em Bruxelas. A então premiê Margaret Thatcher tinha dívidas com a polícia devido às ações de policiais contra a greve dos mineiros.

Mas o relatório desacredita completamente a versão do incidente oferecida pela polícia e pelo jornal "The Sun", que, em artigo sob o título "A verdade", afirmou que os torcedores do Liverpool haviam agredido e urinado nos policiais que estavam tentando salvar os feridos, tinham roubado objetos dos mortos e estavam bêbados. O novo relatório indica que todas essas alegações sobre o comportamento desses torcedores no transcorrer da tragédia eram falsas.

O relatório constatou que 116 dos 164 relatórios policiais sobre o incidente foram adulterados. Demonstrou que não havia provas de violência ou embriaguez de parte dos torcedores do Liverpool. Não há indícios de que tenham roubado objetos dos feridos ou mortos. Na verdade, esses torcedores se esforçaram para remover mortos e feridos com macas improvisadas, e novas provas sugerem que 41 das 96 vítimas fatais poderiam ter sido salvas.

Os torcedores do Liverpool foram vítimas de um acobertamento. Mais ou menos como a polícia britânica reagiu quando da morte de Jean Charles de Menezes, com policiais agindo para se protegerem das consequências de suas ações.

O premiê pediu desculpas. As famílias das vítimas de Hillsborough querem processos criminais contra os responsáveis.


Tradução de PAULO MIGLIACCI
Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/09/2012.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A história pune

Antero Greco


O temor do estudante é repetir de ano. Trata-se de medo atávico de todo sujeito com inteligência mediana que frequentou bancos escolares. Só os gênios riem do perigo de ficar na mesma classe, por outro período, enquanto os colegas avançam, progridem, se aperfeiçoam.

Repetência existe no futebol e vem na forma de Série B. Cair é um pavor que tira o sono de time decente, que causa calafrios em dirigentes zelosos. Exceto clubes com perfil e vocação adequados para a divisão de acesso, como eufemisticamente se chama a passagem pelo purgatório esportivo, os demais se incomodam com rebaixamento. A queda humilha quem tem amor-próprio.

A história mostra que o descenso vira lição inesquecível e encorajadora, desde que saiba aproveitá-la. O Corinthians campeão da América é prova disso. Caiu em 2007, mas depois ganhou Paulista e Copa do Brasil em 2009, Brasileiro em 2011 e a inédita Taça Libertadores em 2012. A história também pune os teimosos e zombeteiros, que encaram a experiência na Segundona como tropeço ocasional e irrepetível, e desdenham a possibilidade de encará-la de novo.

O Palmeiras encaixa-se nessa categoria. Dez anos atrás, viveu o vexame de ser escorraçado da elite, sem um esboço sequer de reação da diretoria. Na época era comandado por mago da administração que havia optado por elenco "bom e barato", virava as costas para a equipe e se preocupava com sede, com indicação de conselheiros vitalícios, com a unidade de sua turma, com a permanência no poder e sabe-se lá com que diabo mais!

O time foi promovido em 2003, voltou para o paraíso em 2004, mas de lá para cá não se livrou das sequelas daquele episódio. O complexo de inferioridade, plantado e regado com esmero pela visão arcaica de seus guias, se consolidou, rendeu, deu frutos - o mais recente pode ser o retorno para a Série B ao final da temporada. O título paulista de 2008 e o da recente Copa do Brasil foram acidentes de percurso, fenômenos passageiros, que iludiram os torcedores e só fizeram reforçar a mentalidade de gente que parou no tempo. E teve ainda assombração que voltou a dar as caras na Turiaçu! Incensado como guru!

O bando de rapazes esforçados (mas, na maioria, tecnicamente limitados) a correr sem rumo, ontem à tarde, no clássico com o Corinthians, é o retrato do Palmeiras, dentro e fora de campo. Um Palmeiras menor, amedrontado. Um Palmeiras sem ousadia, sem equilíbrio. Um Palmeiras espezinhado, maltratado - mais por quem aparentemente veste suas cores do que pelos rivais.

O gesto de Romarinho, ao festejar o primeiro gol com beijo no escudo corintiano e perto da torcida palestrina, não foi ofensivo, como equivocadamente entenderam Luan e companheiros. Aborrece, e não é de hoje, executivo assumir ar blasé diante de catástrofe iminente, fazer galhofa na hora da tensão para mostrar serenidade, apelar para ironia que não escamoteia a incompetência, demitir treinador para livrar a própria pele.

Luan não é o vilão da vez; é vítima do movimento interno para apequenar o Palmeiras. Luan é dos que mais suam a camisa, uma camisa que, em outras épocas, não vestiria. Discussão à parte sobre os amarelos (ambos exagerados) recebidos por ele, o destempero que mostrou nos 26 minutos em que ficou no gramado sintetizou o que passa na mente desse grupo: a perspectiva de cair o apavora.

O torcedor, porém, não deve ver os atletas como traidores. A traição maior comete quem desprezou a história e as lições de 2002/2003.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 17/09/2012.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Recomeçar do três

Antero Greco



Acabou a segunda passagem de Luiz Felipe Scolari pelo Palmeiras. E de maneira melancólica, na forma de demissão na hora errada. Uma ruptura antes inimaginável para técnico com identificação tão grande com o clube, talvez menor só do que aquela de Osvaldo Brandão. (Os torcedores mais veteranos sabem o quanto o antigo mestre foi importante.)

A saída encontrada pela diretoria não fugiu à regra dos momentos de crise, com a equação mais simplória e desgastada do futebol: o time vai mal, a culpa é do treinador. Ele pega o boné, os jogadores ganham motivação, a torcida se acalma, a barra da cartolagem fica limpa, chama-se um substituto para apagar o incêndio e... e seja o que Deus quiser.

Os números não ajudavam e é difícil referendar as 14 derrotas. Contusões, suspensões, erros de arbitragem pesam, mas não justificam integralmente o retrospecto devastador. O time caminha para a segunda experiência na Série B em dez anos e o treinador tem parcela de culpa. Não se pode eximi-lo, assim como é preciso reconhecer-lhe a fidelidade ao clube, ao assumir muitas vezes tarefas dos dirigentes. Felipão tinha cacife para continuar. Errado achar que o Palmeiras virara refém dele. Talvez tenha virado presa de chinelinhos...

Adiantará pouco a dispensa do técnico, se não mudar a mentalidade no Parque. Nos últimos anos, passaram pela Turiaçu nomes consagrados como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, para ficar nos muito badalados, e não satisfizeram. Não tiveram capacidade para devolver à equipe a aura vencedora; de quebra, contaram com menos paciência e respeito do que Scolari. Coincidência o fracasso? Não, só prova de que a raiz do mal é mais profunda do que a eficiência dos métodos do professor do momento.

O Palmeiras sofre de fadiga de ideias que se arrasta há muito tempo. Começou no final dos anos 1970, ainda com o time empolgante (embora frágil) guiado por Telê Santana. Depois, veio a década perdida dos anos 1980. O ressurgimento se deu com o dinheiro da Parmalat, nos anos 1990, para a decadência ser retomada com força neste milênio.

O Palmeiras parou, ficou encalacrado no século 20, perdeu o trem da história em diversas ocasiões e não aprende. Os métodos de sua política de hoje em essência não diferem dos usados pelos antepassados que viviam nas montanhas da Campânia, da Calábria, da Sicília. Antes e agora são movidos por impulsos toscos, com diferenças: os nonnos eram rudes e analfabetos. Porém, leais a seus princípios. Respeitavam a terra de onde tiravam o sustento, amavam a família, eram prósperos. Com essa visão, os imigrantes fundaram o clube.

Os valores bons dos velhinhos do Palestra original foram empurrados para baixo do tapete. Pelo jeito, deles ficaram a prática das vendettas e o gosto pela conspiração e a polêmica. O Palmeiras foi minado pela briga por poder. E o torcedor? Este não quer saber se o comando é da turma da harmônica, do califa, do papaia, do tirano, da bocha. O palmeirense pede respeito por sua paixão e teme que esses grupos, daqui a algum tempo, estejam a disputar só carniça. Tenho pena do aficionado. Numa época em que futebol virou negócio tentador, paixão é sentimento de ingênuos.

Que o time vá para a Segundona, se for inevitável! Que a queda sirva para renovar, e banir quem é palmeirense de fachada. E que o Palestra recomece de três, como o personagem do napolitano Massimo Troisi num filme que não passou nos cinemas daqui. Pois três coisas boas não lhe faltam: torcida, história rica e o novo estádio.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 14/09/2012.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Morre Félix, goleiro da seleção brasileira na Copa de 1970




Félix Miéli Venerando, goleiro da seleção brasileira na Copa de 70, morreu nesta sexta-feira pela manhã aos 74 anos. O ex-jogador lidava com um enfisema pulmonar através de remédios e sessões diárias de oxigênio.
 
O goleiro foi revelado pelo Nacional, de São Paulo, e jogou na Portuguesa e no Fluminense e foi titular na conquista do tricampeonato, ao lado de Pelé, Tostão, Clodoaldo, Gerson e Rivellino.

Fonte: UOL http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2012/08/24/felix-goleiro-da-selecao-brasileira-na-copa-de-1970-morre-aos-74-anos.htm

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Keep Tense and Carry On"

Lúcio Ribeiro


Amanhã o Brasil pega a Suécia em amistoso festivo que serve de despedida do estádio em que ganhamos a Copa de 1958 e onde começamos a assombrar o mundo. Tudo neste noticioso trecho inicial é verdade.

Mas, além da simples notícia, ele é muito irônico. Alegria, tristeza, começos, fins. O clima não é de festa. É de funeral.

A dois anos de uma segunda Copa do Mundo em casa, tal amistoso vem poucos dias depois de o Brasil perder a Olimpíada mais ganha da história, batendo rivais fracos e perdendo a final para o primeiro selecionado médio que enfrentou. Isso com o "time-base" do Mundial-14, sob o comando do técnico "ideal" do Mundial-14, carregado pelo suposto futuro melhor jogador do planeta na projeção para 2014 etc.

O fiasco olímpico veio mostrar que continuamos a assombrar o mundo. Mas, desta vez, do modo negativo. Em 2011, o grito foi forte contra uma certa capa da revista inglesa "Four Four Two". O título da publicação era impiedoso: "A morte do Brasil". E trazia o símbolo da nossa camisa com um "RIP" (descanse em paz, do inglês "rest in peace") em vez de "CBF", a sigla da nossa empresa regente, da qual os ingleses adoram lembrar os escândalos.

Foi um sinal claro de que os gringos, principalmente os ingleses sempre tão apaixonados pelo Brasil, não estavam mais engolindo o "joga bonito" da propaganda. E, sem discutir os (bons) argumentos da reportagem, se ela fosse publicada agora, não ia ter muitas vozes contrárias. O que vai acontecer do pontapé inicial deste Brasil x Suécia de amanhã até o pontapé inicial do primeiro jogo do Brasil na Copa-14 move perfeitamente o mantra que virou título desta coluna, alusão contrária à famosa frase "Mantenha a Calma e Siga a Vida".

O Brasil ainda consegue façanhas. Para citar dois jogadores recém-vendidos e um cobiçado, Lucas e Oscar foram comprados por cifras astronômicas. Neymar é "incomprável". (Mesmo com a bola que vem jogando, continua um produto em alta. Basta ver esta Folha, com dois anúncios gigantes do jogador ao lado de textos sobre seu fracasso na edição de domingo. Neymar, fora do comercial contra a caspa, só apareceu mais quando foi vaiado.)

Vender jogadores por fortunas é um milagre que nosso futebol continua operando. Um caso algo recente, do atacante Keirrison (R$ 41 milhões para o Barcelona, sem nunca ter jogado pelo clube catalão), é exemplo didático-ilustrativo.

Claro que o Brasil fez por merecer ser chamado de "país do futebol" um dia, mas há tempos que o marketing do "joga bonito" é maior do que a realidade. Não faz sentido ver uma placa no Manchester Stadium dizendo que ver o City é como ver o Brasil jogar. Não em tempos de Barcelona e Real Madrid. Continuamos enganando o mundo. Mas eles estão caindo cada vez menos. E daqui a dois anos vêm nos visitar.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/08/2012.

Pras cabeças

Antonio Prata





"Nunca tantos deveram tanto a tão poucos", disse Winston Churchill sobre os pilotos ingleses, na Segunda Guerra Mundial. "Nunca tantos perderam tanto por tão pouco", digo eu, sobre os bravos guerreiros brasileiros que nos representaram nesta Olimpíada.

Foi um tal de ouro virando prata, prata virando bronze e bronze virando nada, na última hora, que é o caso de nos perguntarmos se não há, por trás de todas essas frustrações, um traço comum. Seria apenas azar ou sadismo dos deuses a queda de Diego Hypólito, o vento de Fabiana Murer, o bronze do Cielo, o "apagón" diante do México e a perestroikada que os russos nos deram no vôlei, quando ganhávamos por dois a zero e já tinha brasileiro (eu) gritando "é glas'nós't na fita!"?

Só Nelson explica, meus caros, Nelson Rodrigues e seu imorredouro diagnóstico do nosso complexo de vira-lata.

O patrício pode ser alto, forte, rico, talentoso, pode ter treinado como um chinês e ter médias de americano, mas na hora do vamos ver, quando o juiz apita, quando corre em direção à linha, quando flexiona as pernas para dar o salto, ele se enxerga banguela, desnutrido, desassistido; ele fraqueja.

É por isso que, pensando na Copa de 2014, na Olimpíada de 2016 e no futuro da nação, venho aqui propor ao governo a criação do Ministério da Psicanálise: pois de nada adianta gastarmos bilhões em infraestrutura se não sanearmos os subterrâneos da alma nacional.

O leitor consciente e politizado dirá que não faz sentido abrir mais um ministério, aumentar o funcionalismo e a burocracia, dar mais cargos ao PMDB etc. Concordo. Peguemos então um ministério que já exista e troquemos sua função. O Ministério da Pesca, por exemplo. A Dilma assina um decreto e os funcionários daquela pasta passam, como Simão, depois de encontrar Jesus, a ser "pescadores de homens".

Na chefia, sugiro uma mulher, porque elas não são frouxas, como nós --basta ver de que maneira o time de Neymar digeriu o gol do México e de que forma a equipe de Jaqueline reagiu ao set perdido pros Estados Unidos. Indico, como ministra, a psicanalista e colunista deste jornal, Ana Verônica Mautner, que além de mulher é húngara, povo que pode ser acusado de muitas coisas (não sei quais, essa é só uma frase de efeito), menos de refugar na hora do salto.

O Ministério da Psicanálise vai descobrir as raízes profundas de nossa viralatência. Vai fazer com que o brasileiro e, mais ainda, o atleta brasileiro, que é antes de tudo um forte, enxergue no espelho uma imagem digna de sua grandeza. Ele merece, nós também. Afinal, pode ser doce morrer no mar, Caymmi, mas morrer na praia é amargo pra caramba.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/08/2012.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nada é por acaso

Paulo Calçade




O Brasil conquistou 17 medalhas nos Jogos Olímpicos. O resultado prático disso é que a cada 11,5 milhões de habitantes o País consegue levar um atleta ao pódio. Com um olhar diferenciado para a educação e o esporte, a Austrália deixou Londres com 35, uma a cada 645 mil pessoas. E desta vez sem ser brilhante.

Esses números funcionam como um indicador de competência. Nos últimos 17 dias, falou-se demais por aqui na formação de uma nação olímpica. Simples como se bastasse apenas um decreto presidencial para mobilizá-la. Sem educação, saúde e esporte na escola, não funciona.

A única maneira de aumentar a quantidade de medalhas é investir, mas desde que o filtro de talentos seja melhorado. Não tem mistério nem fórmula mágica.

Entretanto, o que deveria ser visto como uma fonte de boas notícias acabou se transformando em mais uma fissura no duto do dinheiro público. Hoje existe dinheiro para o esporte: do governo, das estatais e das loterias. Mas ele nem sempre chega ao atleta, perde força no caminho e desaparece.

Não seria óbvio e obrigatório exigir auditorias independentes das confederações, para que cada real tivesse sua destinação comprovada? Essas entidades até divulgam balanços, de vergonhosa transparência.

Nem a elite do futebol escapa dos problemas estruturais do esporte brasileiro, que mesmo com a medalha de ouro permaneceriam intactos. A derrota talvez faça a CBF pensar um pouco. Melhor começar agora que esperar pelo resultado do Mundial. Um pouquinho de gestão não faz mal a ninguém.

O México não merecia perder o ouro na decisão do futebol, e a explicação é bem simples: trabalhou mais e melhor que o Brasil para conquistá-lo. O pódio é determinante para a formação do time de 2014 e a cor do metal no pescoço dos jogadores dirá muito sobre o futuro de Mano Menezes.

A prata pode servir para os outros, nunca para o futebol, cada vez mais sem sentido nos Jogos Olímpicos. A seleção teve demasiados problemas defensivos contra os mexicanos, sofreu o primeiro gol aos 28 segundos e teve muita dificuldade para ultrapassar o bloqueio de uma equipe mais bem treinada.

É necessário reconhecer Londres como uma etapa da preparação. O torneio olímpico mostrou que parte do grupo, que será bem diferente daqui a dois anos, ainda necessita de um banho de futebol internacional para aprender a enfrentar as imposições táticas e psicológicas de um tipo de jogo ainda raro por aqui.

Nada acontece por acaso. Nove jogadores mexicanos campeões pan-americanos em Guadalajara no ano passado receberam o ouro em Londres.

O futebol é apenas parte dos Jogos Olímpicos e já faz tempo que está na marca do pênalti. Triste é a maneira como os demais atletas brasileiros são tratados. São 'amarelões', fracassados, incapazes... É muito fácil analisar do sofá de casa e voltar a falar deles daqui a quatro anos.

Nada acontece por caso. Nadinha!


Publicado em O Estado de São Paulo, em 13/08/2012.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Neymar e a história

Juca Kfouri


Neymar jogará onde Pelé jamais jogou --certamente numa pena maior para Wembley do que para o Rei do futebol.
Mas neste sábado, às 15h de Londres, 11h de Brasília, Neymar pisará a grama tão sagrada de Wembley para o futebol como a de Wimbledon para o tênis.
Além do mais, Neymar terá a oportunidade que Romário teve, em 1988, em Seul, na Coreia do Sul, e não aproveitou, ao perder o ouro para a União Soviética, por 2 a 1, na prorrogação. O time brasileiro de então era melhor que o de hoje, a começar pelo goleiro, Taffarel. E tinha Jorginho, Ricardo Gomes, Mazinho, Bebeto, um timaço jovem contra os profissionais soviéticos que se diziam amadores.
Se em 1984 a prata veio numa Olimpíada boicotada pelos países comunistas e mais fortes no futebol olímpico, a de 1988 bateu na trave, mas, novamente, frustrou.
Para chegar à finalíssima deste sábado, Neymar e companhia precisaram vencer exatamente os anfitriões da Olimpíada de 1988, os coreanos do sul, cada vez mais rápidos, cada vez mais altos, cada vez mais fortes e menos bobos.
E que chegaram a perder dois gols em más saídas de Gabriel e patacoadas de Juan, além de terem sofrido um pênalti do zagueiro brasileiro, que quase arrancou a cabeça do bom atacante Ji Dongwon, que joga no Sunderland britânico, no primeiro tempo.
A sorte brasileira foi que o time asiático tem em Lee Bumyoung um goleiro do nível de Gabriel e, de erro em erro dele, além da conhecida visão de jogo e senso coletivo de Oscar, nasceu o gol brasileiro, de Rômulo, que permitiu aos meninos de Mano irem para o intervalo com uma vantagem que, se não fazia justiça, também não ofendia ninguém.
Passou a ofender quando, logo no recomeço do jogo, outro pênalti, desta vez de Sandro, no mesmo Ji, não foi assinalado pelo árbitro tcheco.
Como não demorou para sair o segundo gol, de Leandro Damião, ficou uma sensação de facilidade que, definitivamente, não houve. Daí em diante, a coisa mudou, e em ritmo de samba, Damião fez mais um, ao seu estilo, para manter o aproveitamento de 100% da seleção.
Old Trafford, que esperava ver seus representantes britânicos na semifinal, lotou mais uma vez para ver os brasileiros, agora contra os algozes de seus patrícios. Coreanos que empataram com os finalistas do México sem gols, na primeira fase.
O Rei Pelé deverá torcer pelo novo ídolo santista pela TV, quem sabe ouvindo os comentários de Romário. Que estará nas tribunas para comentar a final, garantia de recorde de audiência da Record. E, caso o ouro venha, com direito a festa da torcida nas ruas, hipótese pouco provável, apesar de o time merecer a comemoração.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/08/2012.

Desafio ao Galo

Lúcio Ribeiro


Faz um tempinho que quero falar aqui sobre o Atlético-MG e sua simpática campanha no Brasileiro, mas sempre vou dando aquela empurrada para frente, firme na filosofia "É o Galo. Vamos esperar mais uma rodada".
Nem sou mineiro para ser tão desconfiado assim. E a culpa disso não é minha, mas sim do próprio Atlético. O time é que é danado para superempolgar e depois megafrustrar na mesma velocidade, na mesma intensidade. Quando parece que vai, não vai. Mas, desta vez, neste ano "estranho", além de em campo a equipe estar convencendo, a conjunção astral indica que a sorte atleticana está mudando. E, se o aspecto místico realmente contar, boto fé no Galo em 2012. Por dois motivos:
1. Dá tempo de o time finalmente ganhar o título, porque o Brasileirão tem sua última rodada (2/12) marcada para algumas semanas antes do tal fim do mundo (21/12).
2. Neste ano apocalíptico, Corinthians foi campeão da Libertadores, o Chelsea eliminou o Barcelona, o Manchester City foi campeão inglês...
É engraçado notar que as últimas cruzadas do Galo têm de alguma forma o rival Cruzeiro no caminho. Na era dos pontos corridos, as duas melhores campanhas do Atlético foram com o Celso Roth, atual treinador "inimigo". Em ambas, ficou em 7º (2003 e 2009).
Em 2003 o Cruzeiro foi o campeão. Em 2009, o Atlético passou o campeonato praticamente todo no G4, chegando a liderar como agora, mas perdeu o fôlego no final e viu a última vaga da Libertadores ir para o Cruzeiro, nos últimos minutos da última rodada.
Desde que o técnico Cuca assumiu, faz exatamente um ano amanhã (olha o Atlético ficando um ano sem mudar treinador!), o Galo ensaia uma recuperação definitiva de autoestima. Do time e do técnico.
O Atlético foi campeão invicto no Mineiro deste ano e fez a arriscadíssima contratação de Ronaldinho Gaúcho. A fase anda tão boa que o Ronaldinho, que já não jogava bem no Flamengo, está jogando menos ainda no Galo, mas consegue ser muito útil. Tudo porque o time joga num 4-2-3-1 e a presença do Danilinho na direita e especialmente do Bernard na esquerda fazem o esquema funcionar. Até o Jô está tendo seus momentos. E, enquanto Ronaldinho chama toda a atenção e Bernard vai fazendo golaços, o low-profile Pierre mineiramente segura a onda lá atrás como um gigante. Um diferencial que o Galo tem para este ano é que, agora, tem um goleiro de nível e boas peças de reposição.
E, fora tudo isso, quando o Atlético consegue se manter líder em uma rodada em que ele nem joga e podia ser ultrapassado, chegou mesmo a hora deste espaço falar do clube mineiro, porque talvez tenha chegado mesmo a hora do Galo.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 07/08/2012.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Moderno e romântico

Paulo Vinicius Coelho


O jornalista argentino Roman Lutch escreveu a biografia de Marcelo Bielsa (La Vida por el Fútbol - O último romântico). No capítulo da chegada do treinador campeão olímpico de 2004 à seleção do Chile, Bielsa define os princípios básicos do futebol moderno em três pontos: pressão, rotação e ataque.

A seleção de Mano Menezes tenta repetir esses princípios, mas sem alcançar resultados tão explícitos quanto os de Bielsa na Argentina campeã olímpica em Atenas. O Brasil joga com bola no pé, marca pressão - mas nenhum de seus 12 gols olímpicos nasceu de bola roubada na frente - e jogou seu melhor futebol quando fez Hulk, Oscar e Neymar mudarem de posição constantemente.

Não aconteceu contra Honduras.

Se não acontecer contra a Coreia do Sul, o Brasil terá problemas. A seleção sul-coreana joga com duas linhas de quatro bem estreitas. É diferente da ofensiva seleção sul-coreana treinada por Guus Hiidink, semifinalista da Copa do Mundo dez anos atrás com Hong escalado como líbero.

Uma das tentativas de Mano Menezes é deslocar Oscar para o lado do campo e jogar com Neymar por dentro, atrás dos volantes, perto do centroavante. Pode ser perfeito contra a Coreia.

Aberto pela esquerda, Neymar tornou-se previsível contra o Egito, em parte do jogo contra a Bielorrússia. Contra Honduras, os dois gols de bola rolando nasceram quando saiu da ponta para o meio, arrastando seu marcador.

Se não há rotação, não há futebol moderno, ensina Bielsa.

Sem pressão, também não. O Brasil precisa ainda acertar o momento de marcar no ataque e tomar a bola lá. O resto é atacar.

As lições de Bielsa levaram a Argentina a sua primeira medalha de ouro, oito anos atrás. Aplicá-las amanhã é a melhor maneira de o Brasil sair da caixa de fósforos com a qual os sul-coreanos tentarão defender-se.


 

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/08/2012.