segunda-feira, 25 de junho de 2012

O mais importante

Juca Kfouri



Os embates mais importantes da centenária história corintiana não serão os contra o Boca Juniors nas duas próximas quartas-feiras pela decisão da Taça Libertadores da América.
Os 180 minutos que definirão o campeão, serão, no máximo, considerados o terceiro confronto mais importante da vida do Corinthians.
Porque o mais importante, acreditem ou não as novas gerações, foi mesmo o de 1977, pelo Campeonato Paulista, que, então, era considerado mais relevante que o Campeonato Brasileiro. (Prova disso foi que, em 1979, Corinthians, São Paulo e Santos abdicaram de disputar o torneio nacional para se dedicarem ao estadual).
O que estava em jogo naquela decisão contra a Ponte Preta era o fim de um trauma que já durava mais de duas décadas, um sofrimento sem fim, uma verdadeira humilhação, que precisava acabar para parir uma nova era. Que veio. Algo que quem não viveu não é capaz de imaginar.
O segundo jogo mais importante foi o da decisão do primeiro Mundial de Clubes da Fifa, em 2000, contra o Vasco, no Maracanã.
Aqui não se entrará na inútil polêmica em torno do título, porque a discussão em questão se limita aos corintianos, pouco importando, para eles, o que pensam os que não sejam.
Porque o fato é que os corintianos festejaram, e muito, seu primeiro título mundial.
Pensam agora no bicampeonato, contra o Chelsea, se passarem pelo Boca Juniors.
Contra quem farão, repita-se, seu terceiro jogo mais importante, para ocupar a vaga da disputa contra o São Paulo, em 1990, quando se conquistou o até então inédito título brasileiro, no Morumbi, estádio palco também do epopeia de 1977.
Tite não confessará, mas há de ter torcido pela Universidad de Chile, obstáculo menos difícil de ser vencido na final.
A alma corintiana sente diferente.
Quer o mais complicado, o mais épico, o hexacampeão Boca Juniors, que fulminou Cruzeiro, Palmeiras, Santos e Grêmio em quatro das nove decisões continentais de que já participou.
Se for para ganhar, que seja assim, depois de derrotar três grandes campeões da Taça.
Imagine a festa de uma gente que saiu na pré-Libertadores no ano passado se a vencer no seguinte.
Imagine, ainda, se a Libertadores vier sem derrota, campeão invicto depois de 14 jogos.
Só não será maior do que foi a de 1977.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 24/06/2012.

domingo, 24 de junho de 2012

Lorde Jorge

José Roberto Torero

Depois do empate entre Santos e Corinthians pela Libertadores, eu teria que me encontrar com Lorde Jorge, o balconista do Bar da Preta. Eu, santista. Ele, corintiano. Eu, eliminado. Ele, finalista.
Atravessei a rua pensando nas gozações que teria que escutar. Poderia ser algo como "Os Smurfs foram comidos pelos gaviões?", ou "O Neymar precisa descansar mais um pouco, dá férias para ele", ou ainda "O Ganso migrou para o Sul? Porque no jogo ele não apareceu".
Mas Lorde Jorge não precisava falar só do jogo. Havia outro tanto de vantagens que ele poderia arrotar: "Veja só, meu amigo, temos a maior torcida do Estado, somos campeões brasileiros, nossa casa está ficando pronta, ganhamos mais dinheiro do que qualquer outro clube brasileiro e agora estamos na final da Libertadores. Na arquibancada, no cofre ou no campo, somos os maiorais".
Pensava nessas frases e no quanto elas são verdadeiras. Realmente o Corinthians está por cima da carne seca. Pode ser o início de uma era alvinegra, assim como houve outra, de outro alvinegro, nos anos 60. Se o clube do Parque São Jorge tiver uma série de executivos razoavelmente competentes, o Corinthians pode vir a ser uma potência como nunca foi.
Caso isso aconteça, pobres dos ouvidos dos outros torcedores. É que os corintianos não gritam apenas pela alegria da vitória. Eles gritam pela alegria de gritar pela vitória. Eles não apenas amam o clube. Eles amam amar o clube. E, pior, trata-se de um amor exibicionista. Mais ou menos como aquele sujeito que não apenas dá flores à mulher, mas faz isso de joelhos e cantando um bolero.
Era algo desta natureza que eu esperava de Lorde Jorge. Um espezinhamento cruel e implacável. Porém, quando entrei no Bar da Preta, ele não falou uma palavra sobre o jogo. Perguntou o que eu queria, fez comentários sobre o clima, mas não tocou em assuntos futebolísticos.
A cada vez que ele passava pela minha frente no balcão, meus ouvidos esperavam a piada dolorosa, o chiste agudo, a chalaça maldosa. Mas Lorde Jorge mantinha-se impassível, como se nada tivesse acontecido. Foi então que eu, não aguentando mais a tortura da espera, levantei a bola:
--E aí, seu time vai ser campeão?
Ele parou, pensou um pouco e respondeu:
--Pode ser, porque passou pelo Santos, que é bem melhor que o Boca.
Ou seja, ao mesmo tempo em que assumiu apenas uma certa possibilidade de glória, fez um elogio ao meu time derrotado.
Um lorde esse Jorge.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 23/06/2012.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Coração na boca

Juca Kfouri



Que o jogo no Pacaembu, com 38 mil torcedores, esteve longe de ser um bom jogo de futebol nem é preciso dizer.
Quem viu, viu.
E houve quem visse sem ver.
E só aí é que o jogo não foi apenas bom, foi muito bom, extraordinariamente emocionante, embora as chances de gols possam ser contadas nos dedos de uma mão.
Mais que emocionante, na verdade, porque tenso, tenso até a medula.
O Corinthians fez quase tudo errado no primeiro tempo ao permitir que o Santos fizesse, no Pacaembu ensandecido, o que não fizera na Vila Belmiro.
Esperou demais o Santos em seu campo esquecido daquilo que Armando Nogueira ensinou: e o deus do estádio castigou quem o craque fustigou.
Neymar começou e acabou a jogada do gol santista, para sorte do Corinthians.
Porque exigiu que o Corinthians voltasse no segundo tempo para jogar ao seu estilo, coisa que se o gol tivesse acontecido mais para o fim do jogo teria sido impossível.
Por dessas ironias do futebol, Liedson entrou e sofreu a falta que levou ao empate no pé salvador e irritantemente tranquilo de Danilo.
Agora é ver na noite de hoje, em Santiago, se o Boca Juniors, em busca do heptacampeonato da Libertadores, com 2 a 0 na frente, ou a Universidad de Chile, o estilo mais perto de Barcelona que temos no continente americano.
O que se sabe é que a primeira final corintiana na Libertadores será disputada no Pacaembu, no dia 4 de julho, por coincidência, o Dia da Independência americana e, quem sabe, também o que torne a vida corintiana livre dessa obrigação de ganhar o único título que lhe falta.
Esse time alvinegro está longe de ser um time inesquecível, mas nunca esteve tão perto de se tornar um time inesquecível.
Coisas do futebol que é muito mais que um jogo disputado nas quatro linhas do gramado.
Outra vez ontem isso ficou provado, porque o que decidiu a vaga brasileira na final da Libertadores foram muito mais a alma e o coração, que pulsava na garganta e ameaçava sair pela boca, do que uma exibição digna de nota.
Tomara que contra os argentinos ou os chilenos possamos ver mais beleza do que vimos ontem.
E tomara que o coração suporte um embate que parece ser o de um time contra o mundo.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 21/06/2012.

Problemas que os cartolas não querem solucionar

Dois lances, em partidas decisivas realizadas nos últimos dias, foram alvo de muita discussão. Apesar do bafafá, estou convicto que se trata de dois pseudo-problemas. Ou melhor, de problemas cuja solução é fácil, óbvia até, mas que ninguém quer realmente implementar.


O primeiro lance é o gol não marcado da Ucrânia sobre a Inglaterra, pela Eurocopa. A TV mostrou inúmeras vezes, por diferentes ângulos, sem deixar dúvidas: o zagueiro inglês John Terry tirou a bola de dentro do gol. Não obstante, o bandeira não assinalou e o juiz não validou o que seria o tento de empate do time da casa. Caso assinalado, o gol poderia ter sido o primeiro passo para salvar a seleção ucraniana da eliminação. Poderia ter mudado a história do jogo, quiçá do torneio. Nos botecos e mesas redondas da vida ouvem-se vozes pedindo a cabeça da arbitragem. No entanto, pouco se diz sobre a solução definitiva do problema: o auxílio da tecnologia para dirimir dúvidas do tipo. Aliás, um auxílio já utilizado em outros esportes, como o tênis e o futebol americano.



O segundo lance foi o entrevero envolvendo o jogador Adriano, do Santos, com um gandula, na partida em que o Peixe terminou eliminado pelo Corinthians da Libertadores. Neste caso, nem arbitragem, muito menos gandula devem ser responsabilizados pela eliminação santista. Porém, há que se concordar com Cléber Machado, da TV Globo, que lamentou do quão chato é essa “praxe” de gandulas no Brasil, bastante “participativos” – ora retardando, ora acelerando as jogadas –, sempre em benefício do time da casa. Creio que o único fator extra-campo legítimo favorável ao time da casa é a torcida em número maior; no mais, só é aceitável a disputa de onze contra onze dentro das quatro linhas. Só fiquei frustrado com a falta de um comentário complementar do narrador da TV Globo: por que os gandulas são designados pelos clubes e não pela Federação ou pela CBF? Em outras palavras, por que não há gandulas profissionais e neutros, assim como – supostamente, pelo menos – o são os componentes da arbitragem?

Em suma, que me perdoem os revoltados de plantão, mas os verdadeiros culpados a quem deveriam voltar seu chororô não são nem bandeirinha, nem árbitro, nem gandula. São aqueles que têm o poder de mudar as regras e procedimentos do futebol – alguns bem simples, aliás – mas, por algum motivo, não o fazem.

JFQ

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O dia D, de dispensa

José Roberto Torero

Eles são mais ou menos 40. Talvez 50. Todos têm 16 anos. E já estão lá há um bom tempo. Dois, três, até quatro anos. A maioria vive longe de suas famílias. Só alguns conseguem pegar um ônibus para visitá-las no fim de semana.

Os quartos são pequenos, embaixo das arquibancadas. Eles dormem em beliches. Às vezes, treliches. Vieram de todos os cantos do Brasil. Uns são tímidos, outros, extrovertidos. Uns, bagunceiros, outros, organizados. Uns ainda têm espinhas. Outros já cultivam uma barba rala.

Estudaram nas escolas pagas pelo clube. Mas são escolas ruins, escolhidas para que eles passem sem muita dificuldade. É bom não perder muito tempo com coisas sem importância, coisas como português, matemática e ciências.

Hoje é o dia D. O dia das dispensas. O dia da volta dos que não foram escolhidos. O primeiro dia do resto de suas vidas. Eles vão para o ginásio. Sentam-se no chão. O diretor segura uma prancheta. Começa agradecendo pelo trabalho e disposição de todos, mas infelizmente o clube vai ter que cortar gastos. Depois diz que chegaram até ali porque têm algum valor, mas que o funil vai afinando e não há espaço para todos. E avisa que vai dizer os nomes dos dispensados.

Os garotos se ajeitam. Se fossem cães, as orelhas estariam em pé. O silêncio é total. Ninguém faz piadinhas. Eles sabem que talvez tenham que voltar para casa. Serão anos jogados fora. Deixaram de estudar sério para tentar a sorte no futebol. Mas deram azar. Voltarão como rejeitados. O diretor começa a dizer nomes: "Luiz Fernando, Alexandre Gomes, Maurício Arruda, Cláudio Gobbetti, Marco Aurélio, Paulo Santana, Marcelo Lira, Edgar Lemos e Dirceu da Silva. Espero que vocês não desistam. Boa sorte".

Os garotos tentam segurar o choro. Mas nem todos conseguem. Um não para de enxugar as lágrimas, outro chora de fazer barulho. Os que ficam dão tapinhas nas costas dos que irão. Estão tristes pela perda dos amigos e contentes por não terem sido escolhidos.

Luiz Fernando será vendedor de carros usados, Alexandre irá trabalhar de garçom, Maurício vai virar professor de educação física, Gobbeti será policial, Marco seguirá a carreira de pastor, Paulo será padeiro, Marcelo chegará a gerente de cinema, Edgar será borracheiro e Dirceu passará por times de seis Estados do Nordeste, abandonando a carreira aos 29 anos.

Uns serão tristes, e outros, felizes. Mas mesmo estes, de vez em quando, quando virem um jogo daquele time na TV, soltarão um suspiro e pensarão: eu podia estar ali.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 16/06/2012.

Jogo das 1.001 noites

Xico Sá

Amigo torcedor, amigo secador, coube a um dos maiores escritores do mundo, o espanhol Javier Marías, em crônica para o jornal "El País", exaltar, peça de brilhante defesa, a saudável função do futebol como ópio do povo -este velho tabu que nos persegue até hoje.

Marías tratou da necessidade dos esclarecidos europeus, não "nosotros" colonizados tapuias, aliviar a barra da realidade econômica com a Eurocopa. Em vez das obras de Marcel Proust ou de Sartre, a bola. Com a mesma função da literatura: suspender, por um momento que seja, o pesadelo da realidade. Nisso o futebol é melhor ainda do que o maior dos Kafkas ou Quixotes. Eu acredito.

Repare, amigo, nesse Santos x Corinthians, Corinthians x Santos, na Libertadores, começou quase um mês atrás e parece não terminar nunca, ainda mais agora, com o time mosqueteiro quase na final da obsessiva e secular peleja. Quase campeão, quase.

Tem jogo que não termina nunca mesmo, vara o calendário, move montanhas, moinhos e botecos, anota certezas bíblicas na súmula, fala a incompreensível língua dos sábios comentaristas, para tudo recomeçar, quase do zero, na noite da próxima quarta-feira.

Pobre de quem pensa que a partida são os 90 minutos no campo. Ignora a capacidade da imaginação de milhares de narradores que acordam, rezam, comem, dormem sonhando com a disputa. Como dizia meu amigo doutor Sócrates (Santos desde criancinha e corintiano enquanto jovem artista da bola), o futebol é mesmo um engradado de surpresas. Quem perder a aposta, meu jovem, devolve os cascos, os vasilhames, na esquina. Passa a régua.

Vale pela função narcótica. Pela história que cada jogo conta, qual uma linda e misteriosa Sherazade, para nos engambelar na vida. E temos escritor capaz de manter esse suspense? Não mesmo. Somente este interminável Corinthians x Santos nos mantém vivos até o próximo embate.

Repare quantas "verdades" discutiremos até lá e dias depois: Neymar não é de nada (livro dos Corintios), o alvinegro tem sob controle total qualquer jogo da Libertadores, o futebol-arte do Santos pode fazer um milagre etc. etc. Verdades absolutas até a próxima quarta.

E justiça seja feita à margem esquerda do Tietê. Antes mesmo do Javier Marías, a dupla MarkAntonyo e Franco 4 Dedos, editores de "O Ópyo do Povo", novíssimo periódico anarcorintiano de SP, havia cantado a bola. Só o futebol anestesia mais gostoso.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 15/06/2012.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Uma derrota de ouro

Juca Kfouri


No clima desta Eurocopa, que começou tão bem com quatro bons jogos em belíssimos gramados, a seleção olímpica do Brasil disputou brilhantemente um clássico do mesmo quilate contra o time principal da Argentina, sob o comando do melhor do mundo, o genial Lionel Messi, que quase "só" fez três gols em 90 minutos.

Mesmo sem o comando do já experiente zagueiro Thiago Silva, a meninada de Mano Menezes mostrou que o caminho para Londres está correto e que tem tudo para culminar com a medalha de ouro na Olimpíada.

Porque o time mostrou outra vez ter qualidades indiscutíveis e também porque Lionel Messi não estará no Reino Unido, assim como não estarão seus companheiros bicampeões olímpicos.

Nas inevitáveis comparações entre Pelé e Messi, vale lembrar que o Rei marcou três vezes no clássico entre as duas seleções, em 1963, numa vitória por 4 a 1, no Maracanã, pela Copa Roca, jogo que teve prorrogação para desempate e que terminou 5 a 2, mas entre os times principais.

Com um pouco mais de tranquilidade e com um pouco mais de boa vontade da arbitragem, a derrota por 4 a 3 seria, no mínimo, um empate, resultado justo para o que os dois times mostraram em Nova Jersey -e não será exagero dizer que, se uma seleção merecia a vitória, esta deveria sorrir para os meninos de Mano.

Claro, descontado o fato de que Lionel Messi joga de azul, e aí não tem justiça ou injustiça que dê jeito, porque ele é simplesmente fatal, diabólico, imparável, principalmente se quem tiver a missão estiver ainda meio que de fraldas, como os dois volantes e os dois zagueiros brasileiros.

Não é mentira dizer que o balanço dos quatro jogos foi positivo, apesar de duas derrotas.

Até mesmo porque a derrota de ontem foi muito mais digerível que a contra os mexicanos, o que revela que o time progrediu e que, com alguns ajustes, talvez Alexandre Pato no lugar de Leandro Damião, o rendimento possa ser ainda melhor, principalmente se Paulo Henrique Ganso voltar em forma para compor um meio de campo que não precisará abrir mão de Oscar.

A preocupação maior fica por conta de Marcelo, ótimo lateral, mas com a cabeça de Júnior Baiano, de Felipe Melo, de quem você aposta que mais cedo ou mais tarde aprontará e deixará o time na mão. Como ele já passou dos 23 anos, não há por que arriscar e talvez por isso José Mourinho prefira o português Fábio Coentrão.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/06/2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mais um recomeço

Antero Greco


O senso comum diz que todos merecem segunda oportunidade, se falharem na primeira. Pois entendo que lhes podem ser concedidas terceira, quarta, quinta chances de recuperar-se - ou tantas quantas forem necessárias. Se, afinal, houver resgate, terá valido a pena perseverar. Se o fiasco for inevitável, pelo menos restará como consolo o fato de que se tentou. O ser humano não é um circuito fechado, e ruim é a intolerância.


O Atlético-MG concede a Ronaldinho Gaúcho a terceira ocasião de reviver o exuberante auge da carreira, alcançado nos tempos iniciais de Barcelona e que se esgotou lá por 2006, por coincidência e ironia depois da Copa da Alemanha, aquela em que deveria ter sido protagonista. O time mineiro aposta no talento incomum do ex-melhor do mundo, assim como antes o fizeram Milan e Fla.

O investimento de risco começa, em parte, na noite de hoje, na partida que o Galo faz com o Bahia, no Estádio Independência, na retomada do Campeonato Brasileiro. Ronaldinho não jogará, ao contrário do que pretendia o clube, porque a CBF não tornou oficial a inscrição dele. Mesmo assim, terá contato com o público local, com a gente com a qual vai conviver nos próximos seis meses. Apresentação discreta, bem diferente daquela que encontrou nas chegadas anteriores, desde a época em que desembarcou no Paris Saint-Germain no começo dos anos 2000 vindo de Porto Alegre.

A intenção de ter cerimônia singela é proposital, garantem dirigentes do Atlético. Essa a maneira encontrada para passar o recado de que Ronaldinho chega em Belo Horizonte com status de atleta comum, sem badalações, sem fogos, sem trios elétricos, sinfônicas, fanfarras, grupos de rock ou pagode. Não usará nem a camisa 10, mas a 49, que estava disponível e que servirá como homenagem ao ano de nascimento da mãe, que passa por momento de saúde delicado.

O Atlético não rebaixa Ronaldinho ao agir assim; caso contrário, não teria aceitado a proposta de ser-lhe a boia salva-vidas. Os números dos últimos anos mostram que o astro oferece ao público parte pequena de seu repertório outrora fabuloso. Ele ficou sovina, por razões pessoais, talvez por abrir o foco para interesses fora dos gramados. Daí o rebaixamento de status- se bem que Ronaldinho meia-boca ainda é melhor do que muitos de seus companheiros.

O Atlético foi a opção viável para Ronaldinho, quem lhe abriu portas. Não vai demérito ao tradicional alvinegro mineiro, longe de ser um Caixa Prego FC. Só que não se pode ignorar a perda de valor e de mercado de um craque antes disputado a tapas. Em sua terra natal, não havia possibilidade de reconciliação com o Grêmio e é inconcebível a ideia de atuar pelo Inter. Clubes do Rio e de São Paulo disseram-lhe vá em frente e boa sorte. Centros emergentes do Leste Europeu, China e arredores tampouco se manifestaram.

O caminho é o Atlético-MG. Se Ronaldinho levar a sério, o acordo será benéfico para todos. O time contará com um dos mais criativos boleiros das últimas décadas. O profissional reconstrói imagem vencedora, apaga um pouco a pecha de baladeiro e, quem sabe?, ganha fôlego para voos lucrativos no que lhe resta de carreira, que embicou para a reta de chegada.

A bola está com Ronaldinho. É direito dele mostrar que não acabou e que consegue arrancar aplausos. Por isso, ao escrever a crônica, me vieram em mente versos de Bastidores, uma das obras-primas do Chico. "Cantei, cantei, nem sei como cantava assim. Só sei que todo o cabaré me aplaudiu de pé, quando cheguei ao fim..."

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/06/2012.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Templos: New Meadowlands ou MetLife Stadium

Esta é a primeira postagem da série “Templos”, destinada a falar de estádios do Brasil e do mundo. São relatos de quem esteve no estádio, em dia de jogo ou não, mostrando como se chega, quais as características do local e algumas impressões pessoais. Quem visitou algum grande templo do futebol, sinta-se à vontade para enviar seu relato.
***

Inauguro a série “Templos” falando do New Meadowlands (ou MetLife Stadium), em Nova Jersey, Estados Unidos. O local é utilizado comumente para jogos da NFL, o futebol americano. Às vezes, também é utilizado para o soccer, ou melhor, para o futebol de verdade... Aliás, trata-se da arena onde o Brasil enfrentará a Argentina no próximo sábado, dia 9/6/12. Também é o estádio onde Mano Menezes fez sua estreia na seleção brasileira, assim como Neymar, que também assinalou seu primeiro gol com a camisa canarinho.

Fui ao estádio em outubro de 2010 para ver uma partida da NFL, entre New York Giants e Detroit Lions. Logo de cara, chama atenção a facilidade de acesso. Partindo da estação Pennsylvania, em Nova York – mais conhecida como Penn Station, localizada embaixo do Madison Square Garden, e conectada à extensa malha do metrô –, o trem vai até uma estação em Nova Jersey, cidade vizinha. Faz-se a baldeação, tomando-se outro trem, cujo ponto final fica exatamente em frente à arena.

O New Meadowlands – arena multiuso construída em parceria entre duas franquias de futebol americano de Nova York, o Giants e o Jets – fica afastado da cidade, uma tendência das arenas atuais. Possui lojas de roupas e vários restaurantes. Tem até sanduíche de pernil, muito parecido com o vendido nas imediações dos estádios brasileiros. Cerveja é vendida sem problemas, com apresentação de documento de identificação; no meu caso, o passaporte. É frequente a movimentação das pessoas, no decorrer das partidas, para comprar os comes e bebes. Em suma, é intensa a comilança e a “bebelança” no estádio; dependendo da partida, mais intensa que a torcida pelas equipes em campo. Eis um ponto importante: convenci-me de que, apesar do inegável prazer em ver um joguinho enquanto se saboreia uma breja gelada, o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios brasileiros deve continuar proibido. A propósito, no trem de volta para NY, haviam dois garotos completamente bêbados; um deles, inclusive, quase não conseguiu sair, quando da baldeação, para vomitar.
Deixando de lado a parte escatológica, também chama atenção os assentos, todos numerados e relativamente confortáveis. São facilmente encontrados, em que pese os mais de 80 mil lugares disponíveis. Detalhe: em geral, o estádio fica lotado nas partidas da NFL. Nesse dia, inclusive. E grande parte do público só toma seus assentos a poucos minutos do início do jogo.
Filmei algumas passagens da experiência aqui relatada. Podem ser conferidas pelo link abaixo:
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Para terminar, uma pergunta: por que estão discutindo a possibilidade de fechamento do metrô Corinthians-Itaquera em dias de jogos? Além do New Meadowlands e outras arenas no exterior, aqui mesmo no Brasil, o Maracanã é um exemplo de estádio com metrô em frente. Claro que questões de segurança devem ser consideradas. No entanto, é perceptível – e irritante – a facilidade com que autoridades e especialistas encontram soluções em detrimento da rapidez, do conforto e da comodidade (por coincidência, o slogan do Metrô de São Paulo) dos torcedores, supostamente cidadãos. Não há outra saída para melhorar a segurança na saída dos jogos?
JFQ

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Lindo Chelsea

Rodrigo Bueno



A fila estava maior do que as de alguns "filmes cabeça" e de uns "filmes B" que vi recentemente no cinema. Acho que só mesmo "Os Vingadores" agitaram mais as telonas nos últimos dias do que a decisão da Champions League, que empolgou o grande público só a partir do final do segundo tempo.

Pela primeira vez fui ver um jogo todo em 3D. E na verdade não vi, pois deu um pau no sistema do cinema, e a galera, revoltada, engoliu o bom e velho 2D. Dois homens de meia idade, bem arrumados, trajavam camisas do Bayern. E dezenas de garotos (alguns poucos engomadinhos) vestiam Chelsea, que em campo não animava muito, assim como o jogo.

Dava para ouvir os resmungos de um senhor na prorrogação temendo o título do Chelsea, o que seria, segundo ele, um "crime" contra o futebol. Enquanto isso, a garotada que abraçou os Blues sorria cada vez mais, tanto que uma moçadinha se levantou e foi conferir a disputa de pênaltis de pé, todo mundo colado na tela e fazendo guerra de almofada (o pessoal estava tão convicto no título quanto na curtição de adotar um time da Premier League).

De fato foi uma experiência bem "diferenciada" para este jornalista que tinha acompanhado in loco três das quatro finais anteriores da Champions. E valeu o ingresso (me devolveram os R$ 60 da entrada por causa da pane no 3D).

O Bayern é melhor sim, mas sucumbiu diante do time que já nem é tão da moda (o Manchester City é o novo Chelsea, afinal). Quando o destino e os deuses do futebol querem uma coisa, não tem jeito. Não tem pênalti (burro é quem deixou o amarelão Robben bater), não tem desfalques (Ramires, Terry, Ramires, Ivanovic, Ramires, Meireles, Ramires...), não tem dono da casa (Allianzaço), não tem posse de bola (tão sacaneada nesta temporada), não tem planejamento (o Chelsea tem seus "jogadores-senadores" como técnico), não tem nada. Não era para o Chelsea ganhar a Europa este ano, mas foi!

É chavão comentarista dizer em seu país que o título, seja de que time for e como for, é "merecido", mas o que mais tem é gente desmerecendo a conquista épica dos Blues.

Se fosse um Grêmio feio campeão, seria copeiro. Se fosse um Corinthians feio campeão, seria na raça. Se fosse um Flamengo feio campeão, seria por causa do manto. Se fosse uma seleção brasileira feia campeã, seria porque os brasileiros são os reis do futebol mesmo. Mas foi um Chelsea feio, que fica do outro lado do Atlântico, que ergueu a tão badalada taça. Foi lindo!



Publicado na Folha de S.Paulo, em 23/05/2012.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Quando os campeões são de fato os melhores

Ainda que não tivessem levantado canecos no último domingo, estou convicto de que Santos, Fluminense, Internacional, Atlético Mineiro, Coritiba e Bahia são, hoje, as melhores equipes de seus respectivos estados. Nem sempre o campeão (conquista objetiva) é o melhor (avaliação subjetiva). Na minha modesta opinião, 2012 deve ser lembrado como o ano em que as equipes mais bem montadas, com os melhores jogadores, mais competitivas e com o futebol mais vistoso – as melhores, enfim – foram as que comemoraram os títulos de campeãs estaduais.


Já virou lugar-comum elogiar o Santos da “era Neymar” comparando-o com o da “era Pelé”. Diferenças de conjunturas à parte, o que há em comum é o encantamento que o Peixe provoca nos amantes do bom futebol, independentemente de serem ou não santistas. É difícil admitir, mas até eu, corintiano, gosto de ver as diabruras de Neymar, Ganso e companhia. Além da competição, da rivalidade, da luta, do jogo em si – em que um ganha e outro perde –, o futebol também atrai as atenções pela beleza das jogadas, pela habilidade, inventividade, criatividade, plasticidade, etc., demonstradas em campo. Hoje, não apenas no Brasil como em todo o mundo, o Santos é um dos principais expoentes do futebol-arte. Ou seja, não dá para refutar que o tri paulista foi mais do que merecido.


Mérito que também teve o Fluminense, campeão carioca (ou campeão fluminense?). Quiçá, uma nova “máquina”, pelo menos se considerarmos a metade ofensiva da equipe. Do meio para a frente, o Flu conta com um elenco excepcional: Deco, Thiago Neves, Fred, Rafael Sóbis, Wellington Nem, Lanzini. O problema do Flu é atrás, com jogadores um tanto pesados na marcação – Edinho, Leandro Eusébio, Gum –, embora Diego Cavalieri tenha voltado a mostrar que é um grande goleiro.


O “novo baiano” Paulo Roberto Falcão adaptou-se bem à terra de todos os santos. Após a saída abrupta do Inter – onde, inclusive, foi campeão gaúcho –, Falcão conseguiu manter a equipe competitiva de 2011, quando o Bahia confirmou a permanência na Série A, algo digno de nota atualmente para as equipes do Nordeste.

O mesmo pode ser dito do Coritiba, sensação de 2011, quando conquistou o vice da Copa do Brasil e passou 28 jogos em perder. O Coritiba é o único representante paranaense no Brasileirão 2012 e, mantendo a base e o técnico Marcelo Oliveira, deve ser, de novo, um adversário duro de ser batido.

Por fim, o Atlético voltou a ser o melhor de Minas. Porém, apesar da conquista invicta e de contar com jogadores destacados em seu elenco, como André e Réver, o Galo continua longe do nível esperado para um clube com tamanha tradição. Aliás, o futebol mineiro passa por um nivelamento por baixo. Além da supremacia do Galo, o campeonato mineiro expôs a ascensão do América e a decadência do Cruzeiro, que não conseguiu se refazer completamente da derrota para o Estudiantes, na final da Libertadores em 2009, e do quase rebaixamento no Brasileirão de 2011.

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Dois turnos

Vários campeonatos estaduais são disputados no sistema de dois turnos, em que o campeão do primeiro turno faz a final contra o campeão do segundo. Os campeonatos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, por exemplo, são disputados assim; inclusive, cada turno é considerado um campeonato a parte, com taça própria. O campeonato paulista já foi disputado em dois turnos; há muito tempo deixou de sê-lo. A favor, a tradição da forma de disputa. Contra, o relaxamento do campeão do primeiro turno na disputa do returno; raramente ganha os dois.

Agora, inconcebível, no meu modesto entendimento, é o campeonato de dois turnos em que o time que ganha ambos não é considerado automaticamente o campeão estadual. Como, por exemplo, aconteceu em Santa Catarina. O Figueirense, campeão de turno e returno, acabou derrotado pelo Avaí. Eis um grande incentivo para que as equipes levem todo o certame “nas coxas”, concentrando-se apenas nas fases eliminatórias e nas finais.

A propósito, uma curiosa lembrança: A famosa Copa União, realizada em 1987, foi disputada no sistema de dois turnos. O Atlético Mineiro, na época treinado por Telê Santana, faturou os dois. No entanto, premiado tão-somente com a vantagem do empate nas semifinais, foi eliminado pelo Flamengo. Absurdo dos absurdos, o Galo, mesmo vencendo turno e returno, sequer chegou às finais da Copa União de 87! Um ingrediente a mais para quem passa horas e horas discutindo se o campeão brasileiro daquele ano foi o Flamengo ou o Sport.

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Anos 2000: a era dos times do interior no Paulistão

Muitos afirmam que os times do interior são relegados da disputa do título paulista. Talvez essa afirmação não seja totalmente correta. Ao menos se tomarmos como referência os campeonatos disputados nos anos 2000 e se considerarmos como “do interior” todos os que estão fora da capital. Assim, o Santos e o São Caetano, por exemplo, seriam considerados times do interior.

Desde 2000, o Peixe faturou 5 dos 13 títulos disputados (2006 – após 22 anos de jejum no estado –, 2007, 2010, 2011 e 2012) e foi vice em outras duas oportunidades (2000 e 2009).

Disputado somente por equipes interioranas, o Paulistão de 2002 foi conquistado pelo Ituano, em final contra o União São João de Araras. Em 2004, contando com a presença dos clubes da capital, o campeonato foi decidido entre São Caetano (campeão) e Paulista de Jundiaí (vice). O Azulão, aliás, quase ganhou também em 2007, quando deixou escapar a taça no final da partida contra o Santos. Em 2001, em 2008, em 2010 e em 2012 outras equipes interioranas foram vice-campeãs paulistas: respectivamente, Botafogo, Ponte Preta, Santo André e Guarani.

E ainda tem gente que diz que o interior não liga para o Paulistão.

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O melhor jogo do domingo e um dos melhores dos últimos tempos




Em que pesem as conquistas em solo brasileiro, o jogaço, aço, aço do último domingo se deu nas terras da Rainha Elizabeth. O Manchester City sagrou-se campeão após 44 anos e longuíssimos 90 minutos diante do Queens Park Rangers. A partida oscilou entre a euforia e o desespero – ao final, a torcida estava absolutamente angustiada, muitos chorando –, assim como toda a temporada caracterizou-se pela alteração entre o “já ganhou” (quando o City abriu 8 pontos), o “já perdeu” (quando o rival United abriu vantagem) e pelo “sim, nós podemos” (quando o City venceu o United e empatou com o arquirrival em pontos).

Sabendo que o Manchester United vencia seu confronto contra o Southampton, o Manchester City tinha a obrigaçao de vencer o QPR, jogando em casa. Abriu o placar logo no início da partida. O Rangers virou a partida e segurou o placar até os acréscimos da segunda etapa. Foi quando aconteceu o desfecho épico: com dois gols em dois minutos. O City, enfim, pode soltar o grito de campeão.

A reação da torcida, com direito a invasão de campo, foi uma verdadeira catarse coletiva, um momento histórico que emocionou a todos, inclusive a mim, que nada tenho de simpatia em relação àquela camisa azul. Pelo contrário, confesso que a dinheirama colocada pelo árabe Sheik Mansour causa-me certa aversão. Qual o quê! Diante do que se viu no domingo após o gol do argentino Aguero, tudo é secundário em relação a tamanha luta e a tamanha conquista. Eis a beleza do futebol, essa espetacular invenção inglesa, de complexidade shakespeariana.

JFQ

Como não amar?

Lúcio Ribeiro



Fiquei me perguntando domingo por que não consegui conter umas poucas lágrimas com o feito do Manchester City, sendo que nem é com eles que eu me simpatizo na Inglaterra. Nem é com eles que eu me simpatizo em Manchester!

Futebol anda me deixando uma pessoa mais sensível? Teria razão para isso? Vejamos:

1. Esse título do City. Após 44 anos. Virada histórica com dois gols em dois minutos, No tempo extra. Na última rodada. Em casa. Perdendo até os 47 do segundo tempo para um time com um homem a menos à beira do rebaixamento. Quando o título estava indo para o maior rival. "Unbluelievable", manchetou um jornal inglês. O City é azul.

2. Ver o Santos jogar. Ver Neymar jogar.

3. A Libertadores entrando nas quartas com confrontos espetaculares envolvendo Santos, Corinthians, Fluminense, a surpreendente La U chilena e, sempre, o Boca.

4. Copa do Brasil também em reta final, com o São Paulo atrás do primeiro título e o inacreditável Palmeiras entrando em crise profunda após se classificar ganhando dois jogos, incluindo os 4 a 0 diante da torcida.

5. A final da Champions League, em Munique, com o jogo passando em cinemas brasileiros. Em 3D.

6. O choro coletivo dos jogadores do Athletic Bilbao perdendo o título da Liga Europa na semana passada. O Bilbao, do País Basco, "país" dentro da Espanha, jamais caiu para a segunda divisão espanhola e tem orgulho de contar com jogadores só da região, que é menor que Sergipe.

7. Mais choro. Gattuso, Inzaghi, Nesta e Seedorf abrindo o berreiro no fim do jogo do Milan domingo, pelo Italiano, porque não vão mais jogar pelo clube. A torcida chorou. Um comentarista da TV chorou ao vivo.

8. A temporada de golaços. O de letra do Ganso, as bicicletas de Fred e Diego Souza, o de rosca maluca do Cissé, o do Messi dando chapéu no goleiro no chão, o terceiro do Neymar contra o São Paulo, o "gol de Josimar" do Maicon, pela Inter e contra o Milan.

9. As possibilidades da internet: O "futebol de Twitter", o escocês Glasgow Rangers me convidando por e-mail para sua transmissão online, o aplicativo Live Score me informando em tempo real como andavam, sábado passado, os resultados do campeonato tcheco, o de Montenegro, a série B russa, e que no País de Gales o Follows tinha marcado um gol no tempo extra na vitória do Llanelli sobre o Aberystwyth, em play off galês para ver quem disputa a Liga Europa 2013.

10. E porque, caro leitor, I love this game.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 15/05/2012.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Elitizou geral

Xico Sá



Amigo torcedor, amigo secador, chama a atenção, tanto nas cenas vistas pela TV como no testemunho de corpo presente, como o público dos estádios é cada vez mais "playboy" e menos "mano", para usar a terminologia de classes adotada pelo rap. Com o alto preço dos bilhetes, especialmente na Libertadores, até a proletária massa corintiana deu lugar à sua torcida de classe média-média das regiões centrais de SP.

Nada contra os saudáveis jovenzinhos com óculos à Harry Potter, eles têm todo direito do mundo a embalar o seu time do peito, mas as arquibancadas estão perdendo o caráter democrático de unir todos os segmentos sociais, todas as cores e origens. A noite de anteontem no Pacaembu, quando o alvinegro da ZL triunfou sobre os equatorianos do Emelec, ficou evidente o processo de "mauricização"da torcida.

Era óbvio que isso ocorresse e talvez somente o Itaquerão, que prevê a volta da geral, devolva o direito do operariado tirar de novo a bunda do sofá e retorne ao campo. Você acredita?

O fenômeno não se restringe ao Corinthians. Repare no bolo de ingressos que boiou nas partidas das decisões dos Estaduais, incluindo Guarani x Santos no Morumbi, como mostrou esta Folha.

Nem a chamada nova classe C, toda prosa nas novelas e outras ficções extraoficiais, pode se dar ao luxo de brincar nos estádios.

Pesa no orçamento. Fora uma parte das torcidas organizadas, que toma porrada da imprensa e da polícia mas mantém certas regalias clubísticas, fica cada vez mais difícil a presença dos suburbanos corações nos jogos.

Não diria que estamos voltando para os tempos elitizados e brancos de Charles Miller, afinal de contas dentro de campo a miscigenação e a liberdade vingaram, desde o momento que times proletários como o Vasco, o Bangu etc quebraram tabus históricos.

Tampouco seria hiperbólico como o tio Nelson ao observar a "Passeata dos Cem Mil" contra a ditadura, em 1968: "Não havia, entre os manifestantes, um preto, um favelado, um torcedor do Flamengo e sequer um desdentado. Os cem mil tinham uma saúde dentária de artista de cinema".

Sociologia de terceira à parte, típica deste cronista de botequim, o corintiano fez a festa e segue rumo ao título. E para testemunhar um ambiente ainda bem misturado, só o amigo viajando para o Recife, onde Sport x Santa Cruz, no clássico das multidões, em plena Ilha de Lost, decidem o Pernambucano neste domingo.


@xicosa

Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/05/2012.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Mano convoca a seleção para jogos na Alemanha e nos EUA

Mano Menezes anunciou a lista de convocados para os jogos que a seleção brasileira fará no final deste mês e começo do próximo, na Alemanha e nos Estados Unidos.

O Brasil jogará contra a Dinamarca no dia 26 de maio, em Hamburgo; contra os Estados Unidos, no dia 30 de maio, em Washington; contra o México, no dia 3 de junho, em Dallas; e contra a Argentina, no dia 9 de junho, em New Jersey.


GOLEIROS

Jefferson (Botafogo)
Rafael (Santos)
Neto (Fiorentina-ITA)

LATERAIS

Marcelo (Real Madrid-ESP)
Daniel Alves (Barcelona-ESP)
Danilo (Porto-POR)
Alex Sandro (Porto-POR)

ZAGUEIROS

Thiago Silva (Milan-ITA)
David Luiz (Chelsea-ING)
Bruno Uvini (Tottenham-ING)
Juan (Inter de Milão-ITA)

VOLANTES

Rômulo (Vasco)
Casemiro (São Paulo)
Sandro (Tottenham-ING)

MEIAS

Ganso (Santos)
Oscar (Internacional)
Lucas (São Paulo)
Giuliano (Dnipro-UCR)

ATACANTES

Neymar (Santos)
Leandro Damião (Internacional)
Wellington Nem (Fluminense)
Alexandre Pato (Milan-ITA)
Hulk (Porto-POR)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Craque na Europa?


Luiz Zanin





Quanto mais Neymar brilha, mais “especialistas” torcem para que ele vá logo jogar na Europa. Como explicar esse enigma? Em lugar de se regozijarem por termos um jogador desse nível no Brasil, querem vê-lo pelas costas o quanto antes. Resolvi entender as motivações dessa turma. Ou pelo menos tentar. Há três tipos muito claros entre eles.


1) O tecnocrático. Ele desfila boas razões (técnicas, claro) para fundamentar a opinião. Neymar não teria mais adversários à altura. O jogador só progride quando encontra desafios crescentes. Esses desafios aqui seriam impossíveis pois, como se sabe, é na Europa que se concentram os talentos. Se ficar por aqui, o craque acabará por se repetir e não desenvolverá suas potencialidades como o faria se estivesse jogando em um dos gigantes do continente europeu. Há nomes respeitabilíssimos que defendem esse ponto de vista, entre eles Mano Menezes, até agora o técnico da seleção brasileira. Para eles, a saída de Neymar seria boa para o jogador e, sobretudo, para a seleção brasileira, que então teria um atleta já tarimbado pela excelência europeia na Copa de 2014.


2) O torcedor enrustido. Esse, para não dar muito na vista, saca do bolso argumentos racionais, como os expostos acima, mas não consegue disfarçar o ressentimento. No fundo sabem que jogadores fora de série desequilibram as disputas (sobretudo contra o seu time). Aspira ao nivelamento por baixo, à mediocridade geral que transformaria os campeonatos em emoção pura, “pelo equilíbrio” das equipes. Neymar destoa dessa pasmaceira travestida de competitividade. Assim como destoam Ganso, Lucas e poucos outros. O ideal seria que fossem todos para os quintos dos infernos, ao invés de ficarem perturbando por aqui com seu futebol de qualidade.


3) O eterno vira-latas. Sempre que alguma coisa começa a dar certo, ele ressurge, e com força redobrada. Ele tem um pressuposto: o Brasil é um país que não presta. Se algo positivo surge por aqui, deve ser logo desqualificado. Se isso não for possível, dada a sua qualidade inegável, deve-se recomendar que saia logo do País e vá brilhar em palco digno do seu talento. Se o tal cidadão fora de série for um cientista, por exemplo, recomenda que se mude para os Estados Unidos, país onde se faz pesquisa a sério. No caso do futebol, o destino é sempre a Europa. A expressão complexo de vira-latas, você sabe, foi inventada por Nelson Rodrigues para definir o aparentemente invencível sentimento de inferioridade do brasileiro. É pior ainda: esse personagem alimenta o desejo secreto de que nada dê certo, nada funcione ou prospere, para que assim possa exultar: “Viu? Eu tinha razão”. Sentir que sua opinião é a correta parece ser uma das maiores paixões do ser humano. Ainda mais quando essa opinião se confirma como negativa. Vá entender… Mas a alma humana comporta esses desvãos.


Por sorte há também os que ficam muito contentes com a presença do talento entre nós. Acham positivo o desafio que representam e entendem que qualidade chama qualidade. O desafio de superar o melhor é que faz seus pares crescerem. Quanto mais craques houver, melhor o nível da competição e maior a probabilidade de que outros craques surjam.



Publicado em O Estado de S.Paulo, 08/05/2012.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Naná Nike

José Roberto Torero

Naná Nike foi a primeira das chamadas marias-chuteiras. "Epa! Maria-chuteira, não. Caçadora de talentos ludopédicos-financeiros", explica a veterana senhora.

Hoje em dia, já de cabelos brancos (totalmente pintados de loiro, é claro), Naná Nike dá aulas para senhoritas que pretendem se casar, ou ter conta conjunta, com jogadores de futebol.
"O amadorismo ficou para trás. Acabou-se o tempo do chuteirismo-arte. Hoje a coisa tem que ser tratada como ciência. É o chuteirismo de resultados."

Seu curso inclui as cadeiras de Estratégias Futebolísticas Modernas ("É sempre útil para puxar conversa"), Contabilidade, Kama Sutra (básico, avançado e contorcionista), Direito Familiar (com enfoque em pensão alimentícia e herança), Maquiagem, Silicone (1, 2 e 3), e, quem quiser fazer pós-graduação, pode optar entre Sociologia das Churrascadas e Psicologia dos Centroavantes.
Aliás, Naná Nike ensina que a verdadeira chuteirista tem que escapar das festinhas dos jogadores, sempre repletas de atrizes pornôs, garotas de programa e demais senhoritas generosas.

Ela afirma que o melhor mesmo é se encontrar a sós com o futuro provedor. Tanto que suas meninas aprendem a se disfarçar de arrumadeiras de hotel, a fim de entrar nas concentrações, e de enfermeiras, para penetrar nos hospitais e pegar os atletas no frágil período de recuperação. Houve ainda uma que chegou a usar bigode para se passar por motorista particular de um famoso meia. O caso só não foi em frente porque o jogador preferia que o bigode fosse verdadeiro.

Entre as sabedorias distribuídas por Naná Nike está a de escolher o alvo certo: "Goleiros? Nunca. Ganham pouco e, se levarem um gol numa final, caem em desgraça. O melhor são os atacantes.
Mas os meias também são muito bons. Para longo prazo, volantes e zagueiros. Eles são o DI e o RF do futebol."

Outro ensinamento importante do chuteirismo é "Pegar os jovens. Nada de ir para cima de jogador que já teve vários casamentos. Fatiar o passe, tudo bem. A pensão, jamais!"

A sábia senhora avisa que é fundamental resistir à tentação de sair com os empresários dos jogadores. "Nem pensar! Esses são melhores que a gente. Acabam levando o do jogador e o nosso."

Naná Nike só dá o curso pelo prazer de passar sua vasta cultura acumulada, pois não precisa mais de dinheiro. "Cheguei ao ápice da profissão. Casei com um dirigente. O bom não é ser maria-chuteira, é ser maria-cartola."
Publicado na Folha de S.Paulo, em 05/05/2012.

A arte da guerra

Xico Sá

Amigo torcedor, amigo secador, ou o Corinthians acaba com esta história de espírito de Libertadores ou o espírito de Libertadores desencarna o Corinthians, mais uma vez, da competição continental.
O time mosqueteiro, de origem operária, já nasceu aguerrido. É uma característica natural. Mais que isso, vira fúria, avexamento e desequilíbrio, como na noite de anteontem em Guayaquil.

Sim, o juiz fez algumas trapaças de varejo que prejudicaram o alvinegro, mas não ao ponto de ter decidido o destino do jogo. Se for perder a razão cada vez que isso ocorrer fora de casa, em alguma cordilheira da América, melhor desistir da taça.

Há uma versão brasileira errada do que seria esse tal de espírito copeiro dos adversários latino-americanos. O que eles sempre usaram, principalmente os argentinos e uruguaios, donos do maior número de títulos, foi a catimba, que vem a ser o espírito de porco. Não o afobamento.
Eles têm a arte de minar a paciência dos brasileiros a cada lance. Nós caímos feito uns patinhos de tiro ao alvo de parque de diversões. A catimba é o avesso do repetido, ad nauseam, espírito de Libertadores.

Catimbar também não é recomendável, até porque esta patente não é verde-amarela, exige aprendizado e cátedra. O máximo que os times daqui conseguem é fazer cera -apenas um dos itens do pacote antijogo. Isso não quer dizer que os boleiros tupiniquins sejam inocentes. Na hora de bater, por exemplo, batem tanto quanto ou mais.

Voltemos ao mundo fantasma. Quantas vezes os brasucas triunfaram somente com o espírito de Libertadores? Sempre que esta pergunta incendeia o botequim, alguém lembra do bicampeão Grêmio, equipe que desperta em nosso imaginário a ideia de "guerras" e "batalhas".

É certo que o tricolor gaúcho contava com o espírito de cruzada medieval do Dinho em 1995, mas a gente esquece do quanto jogavam Arce e Carlos Miguel, sempre deixando Jardel pronto para dar boa noite Cinderela aos arqueiros inimigos. O título de 1983 nem se fala: De Leon, Renato, Tarcísio...
O São Paulo dos 90 tinha espírito de Libertadores? Batia era um bolão, isso sim, seu Telê que o diga. Os outros campeões idem. Galeria que tem, entre outros timaços, o Fla de Júnior e Zico e os Santos de Pelé, Neymar e uma maternidade inteira de meninos.

Sem essa de espírito de Libertadores.

Vale o mantra das antigas: o jogo é jogado, o lambari é pescado.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/05/2012.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Barcelona anuncia saída de Guardiola




Depois de muita especulação, o Barcelona anunciou nesta sexta-feira a saída de Pep Guardiola. O técnico decidiu não renovar seu contrato, que acaba ao final da atual temporada. O clube espanhol agradeceu o treinador, que deixa o comando da equipe após quase quatro anos e 13 títulos.

** Divulgado no site UOL: http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/espanhol/ultimas-noticias/2012/04/27/apos-quase-quatro-anos-e-13-titulos-guardiola-anuncia-saida-do-barcelona.htm

O mal e o bem

Rodrigo Bueno



Desde que o mundo é mundo há a disputa entre o bem e o mal. E desde que o Barcelona é o Barça de Messi e Guardiola criaram mundo afora uma nova e tola disputa entre o bem e mal.

Por que todos os times precisam copiar e tentar jogar como o fabuloso time catalão? Por que um Chelsea não pode montar uma linha de defesa parecida com a de um time de handebol e se segurar na defesa fora de casa com um jogador a menos por quase uma hora? Por que o Stoke City não pode ficar com 1% de posse de bola e ainda vencer com justiça por um gol de lateral-monstro ou ligação direta?
As regras do futebol não falam que um time precisa atuar no ataque, que é obrigado a jogar bonito etc. Na NBA, as torcidas cantam eufóricas "Defense" quando o time está lutando pela vitória ali todo atrás. Faz parte do esporte (de quase todos) atacar e se defender.

Já teve gente comparando a derrota do Barça de ontem com a do Brasil de 1982, a única que me fez chorar na vida (entendi, tempos depois, que a Itália mereceu aquele triunfo naquele dia). Há quem tema que, agora, após "José Mourinho ter ensinado como derrotar o Barcelona", o planeta será tomado por retrancas porque é isso que funciona, que o Barça acabou... Calma lá!

Durante o jogo, conferi ao máximo em mídias sociais as manifestações dos "defensores do bem" e dos "torcedores do mal": "Quem quiser torcer para o Chelsea torça, tem gosto para tudo" x "Encostou em jogador do Barça é falta e expulsão, que time mais chato".

O triunfo do Chelsea foi bravo, heroico, magnífico, épico... Drogba foi um monstro. Ramires destruiu o confronto nos dois jogos. Messi, bem marcado (pela primeira vez perdeu um pênalti e levou um amarelo no mesmo jogo), manteve sua sina de não balançar as redes do Chelsea e do Cech. Mérito do time inglês, que perdeu sua dupla de zaga titular ontem, que tem um elenco envelhecido, que trocou de técnico faz pouco tempo, que faz temporada irregular em seu país, que superou a torcida de boa parte do planeta... Fez o possível (como em 2009, quando foi prejudicado ante o Barça) e o que parecia impossível (agora).

O Chelsea cresceu demais nas mãos de um milionário e, curiosamente, pode ganhar a Europa quando já está decadente e sem o Special One (que não é o Diabo, creiam). Abramovich também não é o mal. Nem muito menos Sandro Rosell (Qatar Foundation e "otras cositas más") é o bem.

O Chelsea não é o Barça e é ótimo que seja assim, assim como é ótimo que saibamos conviver com as diferenças.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/04/2012.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sempre Santos!





Wagner Vilaron


Santos Futebol Clube. Pois é, para quem não sabe, o Santos só tem clube no nome. Passaram-se 100 anos e, ao contrário da maioria de seus rivais, o Alvinegro praiano não oferece a seus sócios nenhum tipo de estrutura esportiva, como piscinas, quadras poliesportivas, campos, ginásios, etc.

Mas, querem saber, que continue assim. Neste centenário, a ser completado no sábado, o Alvinegro notabilizou-se em todo o mundo por dedicar-se apenas à arte de jogar bola. E por ser monotemático em seu ofício, o fez tão bem que se transformou em referência.

É verdade que nem sempre foi assim. Nasci em 1971, portanto comecei a gostar e a acompanhar futebol no final daquela década. Embora tenha visto o Santos campeão paulista em 1978 e 1984, confesso que passei boa parte da infância e adolescência sem entender muito bem por que pais de amigos meus torciam pelo Peixe.

Sim, para mim tratava-se de um time admirado por velhos. A verdade é que dei um baita azar. De fato o Santos da segunda metade dos anos 80 e começo dos 90 era ruim de doer. Só mais tarde fui entender o motivo de todo aquele orgulho alvinegro.

Não sei medir paixão, por isso não me atrevo a dizer que uma torcida é mais apaixonada do que a outra. Mas tenho a convicção de que o torcedor santista, sobretudo o mais antigo, é o mais exigente. Este privilegiado tem como referência simplesmente o melhor time de futebol que o mundo já viu.

O problema é que os mesmos feitos e encantos que deixaram a torcida tão exigente também são capazes de produzir altos graus de frustração. Deve ser difícil tanto para quem acompanhou o time de Pelé quanto para aqueles que, como eu, só ouvem histórias e assistem aos poucos vídeos que circulam por aí, conviver com a ideia de que um time como aquele não existirá mais. Será? De onde tiramos estas conclusões? Enfim, este é um tema que renderia outra coluna.

O legado do Santos ao mundo não está em sua estrutura ou nos títulos que conquistou. O Santos não causa inveja nos rivais por ser dono da Vila Belmiro ou por ter vencido três Libertadores e dois Mundiais.

O Santos orgulha seu torcedor e faz os demais se remoerem por dentro sobretudo por ter se tornado sinônimo de futebol bem jogado, ofensivo, goleador. A história mostra que não é preciso ser santista para pagar ingresso e ver o Peixe jogar. Foi assim há 50 anos. É assim hoje.

Falo por experiência própria. Não sou santista, mas cada vez que piso na Vila Belmiro pouco me importo com o fato de o estádio ser pequeno, obsoleto, arcaico. A Vila é um grande barato. Cada cantinho parece ser testemunha da história.

Melhor ainda, seus protagonistas vivem circulando por lá com causos que, por mais que tenhamos ouvido, sempre nos deliciam com a narrativa ali, ao vivo.

Por tudo isso, Santos, dar os parabéns para você seria pouco. Quero mesmo é agradecer sua existência.

 
Publicado em O Estado de S.Paulo, em 12/04/2012.


terça-feira, 3 de abril de 2012

Os oito eleitos

Luiz Zanin


Duas rodadas antes de terminar a fase de classificação, o Campeonato Paulista já tem seus oito finalistas. Como era fácil prever, lá estão os quatro grandes. Entram mais quatro “convidados”: Mogi Mirim, Bragantino, Guarani e Ponte Preta. Não é um anticlímax, um daqueles finais manjados que arruínam qualquer suspense? O que ainda pode se alterar nessas últimas rodadas são as colocações, que determinam quem joga contra quem nos jogos eliminatórios e concedem a única vantagem aos quatro primeiros, a do mando do campo. Quer dizer, um tédio só, como já se sabia, aliás, antes de a bola rolar no primeiro jogo.

Daí para a frente, surge outra aberração, a disputa de quartas de final e semifinais em jogo único para, em seguida, o mata-mata ser restabelecido para a disputa da taça de 2012. Quem bolou esse absurdo deveria ganhar um prêmio. Ou melhor, um antiprêmio, como ser obrigado a frequentar essas reuniões de cartolas por toda a eternidade. Ou ficar de castigo até apresentar uma proposta convincente para redesenhar o calendário futebolístico brasileiro em seu todo. Porque, claro, os campeonatos regionais são parte de um problema que é muito maior e desafia qualquer racionalidade, que é o calendário brasileiro.

O problema do Campeonato Paulista é mais político que logístico. A medida óbvia seria abaixar o número de clubes na divisão principal para dezesseis, embora haja quem fale em apenas 12. Mas como a federação faria para implantar medida tão impopular? Esse é o desafio, mesmo porque o desnível entre times aumentou demais e isso também compromete o interesse do campeonato. É raro que um grande encontre problemas ao jogar contra um pequeno, mesmo que seja no campo deste. Se o campeonato concentrasse na 1.ª Divisão apenas os melhores clubes do interior, a competitividade aumentaria.

Como enfrentar o desafio de desagradar aos que ficariam de fora? Bem, esse é um problema que não é nosso, da crônica, mas de quem ocupa o poder na Federação Paulista. Ossos do ofício, ônus do cargo, que exige decisões difíceis de tomar. O fato é que o campeonato não pode ter esse formato de coração de mãe, que pode satisfazer a alguns interesses, mas compromete o espetáculo na sua dimensão principal que é a de manter um certo equilíbrio.

Já que não se pode eliminar vários clubes, a solução talvez fosse reunir os competidores em grupos, tendo os grandes como cabeças de chave e fazê-los jogar entre si. Avançam apenas os primeiros, ou os primeiros e segundos de cada grupo, que disputam entre si em eliminatórias até chegar à decisão. Algo no modelo da Copa do Mundo. Alguém por certo vai dizer que os times mais fracos teriam carreira breve e logo seriam eliminados, ainda na fase de grupos. É verdade. Mas como alterar esse sistema que aí está, e desagrada a todos os observadores, sem que alguém se sinta prejudicado? Impossível, mas algo precisa ser feito para que o campeonato não caia em descrédito.

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 03/04/2012.