quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Por que torço pela seleção

Daniel Piza


Toda vez que no período mais intenso do Brasileirão tem jogo sem muita importância da seleção, mesmo que seja o embate de hoje à noite contra a mega-rival Argentina, é comum ouvir o lamento de que o torcedor não está nem aí para a canarinho, “só quer saber mesmo é do seu clube”. É difícil não partilhar certo desinteresse quando se tem em vista que no próximo fim de semana há uma rodada com confrontos, entre outros, de Vasco e Corinthians, primeiro e terceiro colocados, e de São Paulo e Flamengo, segundo e sexto. A expectativa enche o ar de frisson, quase como se fossem decisões, e põe em segundo plano um amistoso com pinta de caça-níqueis.

Diego Souza vai confirmar a grande fase e confirmar a sensação de que o Vasco está jogando o futebol mais convincente neste terço final do calendário? Seu terceiro gol contra o Cruzeiro não foi bonito apenas pelo chapéu no goleiro, mas também pela maneira como dominou de peito o passe de Juninho Pernambucano (que pode ser o maestro dessa marcha vascaína para o título), já lançando a bola à frente, longe do alcance do zagueiro, e também pela conclusão rápida de cabeça. Diego é de fases, mas, atuando como segundo atacante numa equipe com armadores experientes e alguns velocistas, essa fase pode se estender até dezembro. O Vasco é o time brasileiro menos dividido entre volantes que só desmarcam e meias que não marcam; e isso libera Diego para seu melhor.

Como venho dizendo desde agosto, Vasco e São Paulo têm os elencos mais completos, coesos, e por isso tendiam mesmo a desbancar Corinthians e Flamengo, antes se alternando na liderança. O Flamengo depende mais de Ronaldinho do que o Vasco de Diego, sobretudo depois que Thiago Neves caiu de produção, e aos poucos essa realidade ficou clara. O Corinthians ainda está na vice-liderança, mas até o fiel mais fanático sabe que o time tem poucas opções táticas, sobretudo na criação de jogadas, e que faltam jogadores que resolvam situações com um lance individual; mesmo Liédson, espertíssimo dentro da área, só trabalha com bola recebida ali.

O São Paulo demorou a acertar a defesa e ainda sofre com a falta de goleador, por mais que Dagoberto viesse em grande fase. No domingo, no empate emocionante com o Botafogo, muito se elogiou a mudança que o técnico Adílson Batista fez no intervalo, mas pouco se falou no erro da escalação inicial, com apenas um jogador de “vertical”, Lucas. Rivaldo é ótimo recurso para o segundo tempo, mas, com a volta de Dagoberto, a estréia de Luís Fabiano e a consolidação de um bom setor de meio-campo, em torno de Casemiro, há potencial para um estilo mais eficiente, de um padrão mais claro e afirmativo.

No entanto, embora não veja quase nenhuma relevância em jogos como o de hoje, não sou desse tipo que vê a seleção nacional como um estorvo no cronograma, uma imposição que atrapalha a paixão por nossos times de infância. Pode ver que, no fundo, essas críticas são de pessoas que são ainda mais nacionalistas do que aquelas que acham que torcer pela seleção é defender a pátria, a honra brasileira, pois repetem isso desde que a maioria de seu elenco passou a ser composta por jogadores que atuam no exterior e ganham fortunas. Não concordo com nenhuma das duas posturas.

Algum senso de pertencimento à parte (sou brasileiro e, como tal, fico feliz que minha nacionalidade seja associada a nomes como Pelé e seu “beautiful game”, não apenas a miséria, violência e vulgaridade), o que me interessa na seleção é que seja… um selecionado, uma combinação do que o futebol brasileiro tem de melhor. Se não fosse por ela, não teríamos visto Zico, Falcão e Sócrates do mesmo lado, ou Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Se não fosse por ela, não veríamos Neymar e Ronaldinho no mesmo time, apenas em times adversários. Ou seja, não veríamos o encontro de duas gerações de fantasistas, de jogadores que com sua plasticidade entortam os adversários, quer sejam eles argentinos quer japoneses. Enquanto essa possibilidade existir, vou estar diante da TV, torcendo pela seleção.

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 28/09/11 e no blog: http://busk.com/deck/por-que-torccedilo-pela-seleccedilatildeo?q=hoje 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O calcanhar de Sócrates

Fernando de Barros e Silva


"Muito alto e de pés pequenos, com dificuldade para virar rapidamente em direções opostas, ele deu uma dimensão inesperada ao passe de calcanhar, que explorava em condições inimagináveis, incluindo lançamentos longos -como se fosse um Curupira adulto e esclarecido, capaz de investir de um sentido positivo o ponto fraco de Aquiles". Talvez essas sejam as palavras mais inspiradas e certeiras para descrever o que distinguia o gênio de Sócrates em campo.

José Miguel Wisnik, seu autor, diz ainda em "Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil" que nunca sabíamos bem "o que esperar daquele genial gafanhoto ambulante que não parecia ostentar o inteiro domínio da sua disposição física".

O próprio Sócrates, em entrevista reunida no livro "Recados da Bola", do jornalista Jorge Vasconcellos, conta que desenvolveu o passe de calcanhar ainda jovem, diante da necessidade de se desfazer rapidamente da bola, antes do contato físico com o adversário, que seu corpo esguio não suportava. "O sapo não pula por boniteza, mas por precisão", dizia Guimarães Rosa.

Ainda sob o regime militar, Sócrates foi mentor e líder da Democracia Corintiana, uma experiência adulta e avançada no ambiente em geral infantilizado e até hoje arcaico e autoritário do futebol. No auge dos anos 80, passava semanas sem falar com a Rede Globo e se dava o direito de reagir com indiferença aos próprios gols, em protesto contra atos hostis da torcida.

Antiatleta com nome de filósofo -e Brasileiro como Tom Jobim-, Doutor Sócrates foi o capitão da seleção de Telê Santana em 1982, segundo ele "o grande time" em que jogou na vida, capaz da proeza de vencer perdendo, como a Hungria de 1954 ou a Holanda de 1974.

O drama decorrente do alcoolismo que ele enfrenta agora o coloca na posição de um Garrincha moderno, ou de um Garrincha esclarecido: desconfiado do sucesso, despreparado para a solidão, outsider como Mané, gauche na vida.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 11 de setembro de 2011.

Do "pum"

Antonio Prata

Passei segunda-feira escrevendo a crônica que deveria ocupar este espaço. Era seriíssima, sobre a morte, tinha arroubos de lirismo e aspirava mesmo a alguma profundidade. Após terminá-la, resolvi perambular pela internet, para dar uma espairecida. Qual não foi meu assombro ao ler, na página do UOL, a seguinte manchete: "'Pum' foi lamentável, mas não fez Fla perder, afirma Luxemburgo".

Minha primeira reação, após o susto, foi a descrença. Não entendo muito de futebol. Talvez "pum" fossem as iniciais de uma regra -"Pontos Unificados da Média"?-, que prejudicara o Flamengo, na tabela. Quem sabe, "Pum" seria uma torcida organizada -"Palmeirenses Universitários de Mucuri"?-, acusada de atirar pedras no ônibus rubro-negro, a caminho de tal partida. Cheguei a pensar que "pum", sempre entre aspas, na matéria, pudesse ser uma jogada nova, importada da Inglaterra, espécie de paradinha, proibida pela FIFA. Imaginei o atacante do time adversário praticando um "pum" desleal e marcando o gol da vitória.

Ao clicar na manchete, contudo, descobri que pum era pum mesmo - e meu coração bateu forte, como o de uma criança ouvindo pela primeira vez um palavrão sair da boca de um adulto.

A matéria começava assim: "O técnico Vanderlei Luxemburgo negou que o "pum" que um jogador (ainda não identificado) soltou durante sua preleção tenha sido um dos causadores da derrota por 3 a 1 para o Bahia, no último domingo". Ainda segundo o texto, Luxa teria ficado possesso com o riso desencadeado pelo traque e abandonado o vestiário. No dia seguinte, o Flamengo perdeu o jogo.

Queria parabenizar o UOL pelo pioneirismo. Salvo engano, é a primeira vez que um pum vira manchete, e eis aí um fato da maior importância. Afinal, se a flatulência causou tal estrago numa preleção, que desconfortos, desentendimentos e tragédias não terá acarretado, ao longo da história?

Imaginem um pum no plenário da ONU. Nas prévias eleitorais. Em negociações entre patrões e empregados. Terá o pum sido utilizado em interrogatórios? Haverá a CIA criado a simulação de pum, assim como inventou a terrível simulação de afogamento? Sem falar no perigosíssimo pum medieval, época em que reinos sustentavam-se sobre casamentos arranjados e alimentos pútridos.

Se nada sabemos sobre esses acontecimentos é porque, durante o século 20, a história esteve sequestrada pelo viés econômico. Nem a escola dos "Annales" -sem trocadilho, por favor-, com sua abertura metodológica, chegou a levar o pum a sério. E, no entanto, como provam a matéria do UOL e a experiência cotidiana, o homem não é governado somente por desejos materiais e conflitos políticos: move-se também por impulsos mais etéreos e -com trocadilho, por favor- intestinos.

Podemos tentar fugir de nossa pequenez construindo foguetes, fazendo abdominais ou escrevendo crônicas sobre a morte, com arroubos de lirismo e profundas aspirações, mas no fim das contas -e era isso que eu queria dizer em meu texto anterior, quando fui interrompido pelo anônimo traque, assim como Luxemburgo, na preleção-, não somos mais do que uns risíveis primatas que nascem, crescem, morrem e, neste ínterim, soltam uns puns por aí.


@antonioprata
Blog 'Crônica e Outras Milongas'
antonioprata.folha.blog.uol.com.br
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 7 de setembro de 2011.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Bellini e a menina

Ruy Castro


Em julho de 1958, uma menina de 10 anos, sofrendo de poliomielite desde bebê, fez sua primeira cirurgia na perna. Enquanto convalescia, montou um álbum de recortes sobre seu ídolo, o homem mais bonito do Brasil, o xodó de todas as mulheres, crianças e até avós: Bellini, zagueiro do Vasco e capitão da seleção brasileira recém-campeã do mundo na Suécia. Certo dia, a porta da casa onde ela morava com sua família no Leblon se abriu, e uma visita de surpresa disse: "Boa-noite". Era Bellini.

Como? Simples. Alguém que conhecia alguém que conhecia Bellini falou-lhe da menina. Bellini tinha 28 anos e não chegava para as encomendas. Quando não estava treinando ou jogando pelo Vasco, tinha de viajar com a Copa do Mundo pelo país e levantar o caneco em festas e banquetes. Mas ele achou tempo para ver a garota, que ficou muda de emoção enquanto ele lhe contava histórias da Suécia.

Dois anos depois, em 1960, a menina encontrou Bellini na rua, em Copacabana. Ele a reconheceu e ela lhe disse que, no dia seguinte, iria fazer sua segunda (e última) cirurgia. Bellini se interessou. Dali a dias, ligou para o hospital para perguntar como estava. Ao saber que brevemente ela iria para casa, deu um tempinho e foi visitá-la de novo, desta vez levando bombons. Era assim que ele era.

Passaram-se anos. Celia se tornou a violonista, arranjadora e maestrina Celia Vaz, uma das musicistas mais completas do Brasil e com sólida reputação no Japão, na Europa e nos EUA, muito maior do que em seu país.

Sábado último, após intermediação de amigos, Celia foi a São Paulo para encontrar Bellini e sua esposa Giselda, dar-lhe um beijo e retribuir os bombons. O intervalo de mais de 50 anos -o próprio Bellini tem hoje 81- não impediu que a emoção desandasse e as lágrimas de todos descessem pelos rostos e sobre o estojo da Kopenhagen.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/08/2011.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Gente humilde

José Roberto Torero


Abastada leitora, abestado leitor, alguns dias atrás resolvi fazer um programa de rico.

Não, não fui passar o fim de semana em Paris, nem passear de iate entre as ilhas de Angra.

É que, como estava em Curitiba, resolvi assistir ao jogo entre Atlético-PR e Corinthians e, para meu azar, só havia o mais caro dos ingressos, que custava a bagatela de R$ 150.

Então, já que teria que quebrar meu porquinho, resolvi fazer a festa completa. Fui e voltei de táxi, almocei na excelente churrascaria que fica dentro do estádio e comprei uma camisa na loja oficial. No total gastei mais de R$ 400. Quatrocentos!

Ainda não conhecia a Arena da Baixada e fiquei surpreso. É realmente o melhor estádio do Brasil.

Acomodações confortáveis, boa visão de campo e uma infraestrutura excelente.

Quantos aos torcedores endinheirados de meu camarote, devo dizer em sua defesa que vibram a contento. Aquela ideia de que só os fiéis de baixa renda têm amor real pela sua equipe é um preconceito tolo. Rico também tem coração. E de vez em quando o usa.

Pois bem, pensando em números, vi que minha cadeira estofada custava o mesmo preço de uns cinco assentos nas arquibancadas. Ou seja, o clube ganhava com a minha presença, o mesmo que com cinco torcedores normais. Mas tinha um gasto cinco vezes menor.

Quando comecei a frequentar estádios, ainda existia a geral, que hoje custaria algo como R$ 10. Você ficava de pé e a visão era muito ruim, mas qualquer pé-rapado podia ver o jogo. Porém, atualmente, não existem mais gerais. A elitização do torcedor de futebol é um fato. E nada indica que vá diminuir. Pelo contrário, a classe média invadiu os estádios. E a alta está chegando.

Por conta disso, creio que, se Chico e Vinícius escrevessem hoje os versos alexandrinos de "Gente Humilde", talvez eles fossem assim:

"Tem certos dias em que eu penso em minha gente/ E sinto assim todo o meu peito se apertar/ Porque me lembro num susto, bem de repente,/ Que eles não têm um camarote pra sentar./ Penso nisso quando eu passo no subúrbio,/ Eu muito bem, vindo de táxi ou avião/ E aí me dá como uma pena dessa gente/ Que vê o jogo narrado pelo Galvão./ São casas simples com cadeiras na calçada,/ E na estante uma TV sem pay-per-view/ Pela varanda flores tristes e baldias/ Como o torcedor que mais um jogo não viu./ E aí me dá uma tristeza no meu peito/ Feito um despeito de eu não ter como lutar/ O futebol abandonou a minha gente/ É gente humilde que nem pode mais gritar."

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/08/2011.

A fase anal do poder

Xico Sá


Amigo torcedor, amigo secador, na minha mania de Freud de botequim, refletia, com os cavalheiros da távola redonda, ainda sobre essa história, repetida ad nauseam, da oratória suja do senhor Ricardo Teixeira, o tutacamon da CBF.

Isso mesmo. Recapitulávamos a oralidade do mandatário, especialmente o episódio do "montão" de dejeto humano que diz despejar sobre a cabeça dos jornalistas que teimam em revelar o óbvio sobre o seu mandato perpétuo.

Não seria, amigo, manifesta confissão de quem não conseguiu ultrapassar a tal fase anal, a que se passa ali entre os dois e os quatro anos de idade?

A diferença, recorrendo à sabedoria do Dr. Sigmund, é que, no caso do cartola, talvez haja noção clara e consciente da sujeira que se pratica dentro de casa. Não existe, porém, a menor possibilidade de evolução para distinguir o sujo do mal-lavado, principalmente quando o assunto é dinheiro.

No pobre diagnóstico de boteco, também concluímos que o apego do dirigente à sujeira evita o famoso "tchau" que o pirralho dá às fezes durante a citada fase freudiana. A pequena criatura se orgulha de fazer cocô no lugar certo, mas se despede da sujeira.

Com o mandatário do futebol verde e amarelo, o desejo manifesto, a tomar pela sua oralidade, é emporcalhar os supostos adversários, como a imprensa que se rebela diante dos seus podres.

Dá para viajar um montão na leitura, com toda licença aos profissionais do divã, da fala ricardiana. Provavelmente outras interpretações bem mais humoradas e inteligentes aparecerão amanhã à tarde na avenida Paulista, local da marcha "Fora Ricardo Teixeira".

Uma coisa que não tem faltado a essa rapaziada que protesta nas ruas é juntar humor e política. Talvez acreditando no velho ditado latim "Ridendo castigat mores", ou seja, rindo corrigimos os costumes.

Tomara que a frase, citada de "O Carapuceiro" -jornal recifense da primeira metade do século XIX- ao grande esculhambador-geral José Simão, faça todo o sentido do mundo nos próximos meses. Só, assim, quem sabe, o alvo da passeata perca a sua garantia até a próxima Copa.

Sonha, meu filho, sonha, como dizia minha santa mãezinha dona Maria do Socorro. Sonha, meu filho, pois sonhar ainda é de graça aqui na serra do Araripe. Motivo é o que não falta para ir às ruas, ainda a mais eficiente das redes sociais da humanidade, e dizer um montão para o cara.

@xicosa
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/08/2011.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O jogo do ano



Fernando Matsumura

O estádio da Vila Belmiro, palco imortalizado pelo nosso Rei Pelé, ficou pequeno diante da genialidade de dois grandes jogadores que protagonizaram o melhor jogo do ano: Ronaldinho, o craque-fênix, e Neymar, o craque-emo.

Com início avassalador, o time do técnico Muricy provou que, completo, pode ser imbatível. Aos 25 minutos do primeiro tempo já massacrava o Mengão com 3 gols, tendo Neymar feito um golaço de placa, após dribles desconcertantes em Willians, Léo Moura e Ronaldo Angelim.

Tudo levava a crer que o último invicto do campeonato cairia diante do atual campeão das Américas de forma trágica.

Os rubro-negros lançaram-se, então, ao ataque e, ainda no primeiro tempo, diminuíram a diferença com gols de Ronaldinho e Thiago Neves.

O Santos ainda desperdiçou uma ótima oportunidade de ampliar o placar, após pênalti sofrido por Neymar, quando o jogador-cebolinha “é Elano que se aplende” deu uma “cavadinha” bisonha jogando a bola de graça nas mãos de Felipe, que ainda tirou uma onda fazendo uma seqüência de embaixadinhas.

Era o combustível que faltava ao Flamengo para, na raça, empatar a partida com o gol de cabeça de Deivid.

O segundo tempo prometia um jogo ainda mais eletrizante. Logo no início, Neymar, que caminhava para se consagrar naquela noite, desempatou com outro belo gol.

Renascia, nesse momento, o craque Ronaldinho! Após sofrer falta perto da grande área, o jogador chutou a bola por debaixo da barreira e fez um gol genial, enganando a todos.

Mas, faltava a vitória para coroar sua belíssima atuação. Em um rápido contra-ataque, Ronaldinho recebeu livre e marcou o seu terceiro gol no jogo (oitavo gol no campeonato, artilheiro absoluto) brindando a todos como uma vitória inesquecível.

Também, quem mandou convidar o craque para a festa?

* Fernando Matsumura, flamenguista, é colaborador do Ludopédicas.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Ainda há tempo para redescobrir a América

Rodrigo Bueno


Chega ao fim mais uma Copa América com os dez países filiados à Conmebol e dois convidados enfraquecidos das Américas do Norte e Central.

E termina com o presidente da entidade que dirige o futebol sul-americano apontando para uma óbvia, embora nunca tardia, união do continente americano.

México, priorizando (?) a Copa Ouro (?) e uma vaga na Copa das Confederações (?), e Costa Rica, pronta para qualquer parada, mandaram equipes sub-23 para a disputa na América do Sul que prometia ser a mais legal da história, ainda mais sem a presença comercial do Japão (?).

Até hoje, só não saiu a lógica Copa América com 16 seleções, as dez do Sul e outras seis de cima (definidas totalmente ou em parte por torneio qualificatório), por razões políticas tão idiotas quanto nebulosas.

As últimas eleições (?) presidenciais da Fifa mostraram o preço de vários dirigentes da Concacaf, e a mídia britânica escancarou a gula (?) dos principais cartolas sul-americanos.

Fazer uma competição só, fundindo Copa América e Copa Ouro, ganharia o poderoso mercado norte-americano, geraria mais dinheiro para Traffic, Full Play ou quem quer que seja e seria tecnicamente muito melhor, com força total de todos os participantes.

Seria, com tudo isso, uma resposta muito mais honesta e decente à Eurocopa, que namora já 24 seleções participantes, talvez um erro ou uma mania de grande- za europeia.

Mas meia dúzia de cartolas correriam o risco de perder votos e dinheiro sem seu torneio regional de qualidade mais que discutível.

Quem sabe o presidente da Conmebol, Nicolás Leoz, neste momento em que o mundo do futebol está mais atento à transparência e contestando velhas ditaduras, não tenha cedido à realidade afinal?

A globalização já é coisa do passado, o Mercosul já está velho e pequeno, e a Copa América caminha carente de mudanças que a tornariam algo muito maior e melhor.

A Libertadores conseguiu se adaptar aos novos tempos sem perder seu estilo próprio, sua veia desafiadora, sendo um perfeito espelho da Copa dos Campeões com identidade tão única quanto valiosa.

Não custa muito para que a Copa América seja unificada, como são a Copa da Ásia e a Copa da África.

A Pangeia dividiu os continentes, mas não separou as três Américas, ligadas ainda, mesmo que por um pequeno Panamá.

Espero que, quando esta coluna voltar de férias, já tenham descoberto novamente a América, não a América dos norte-americanos nem a América dos latino-americanos, mas a América de todos.
 
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 21/07/2011.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Todo-poderoso



Até onde irá a invencibilidade do Corinthians ninguém sabe. Mais cedo ou mais tarde, cairá. De qualquer forma, o Timão provou, mais uma vez, que tem uma equipe que encontrou o ponto ideal, dados os seus limites, para disputar o campeonato brasileiro. Encontrou um belo equilíbrio. Tite conseguiu incutir um padrão de jogo baseado na forte marcação - inclusive à frente, com a pressão dos atacantes nas saídas de bola adversárias -, e nos contra-ataques fulminantes. Conta para isso com um bom elenco, não apenas em campo, mas também no banco; fundamental para que se mantenha o ímpeto frenético por todos os 90 minutos. Alguns dos atuais reservas, como Renan, Emerson, Ramon e Alex, seriam titulares na maioria esmagadora dos clubes brasileiros.

Na partida de ontem - a sétima vitória consecutiva, décima de invencibilidade -, o invicto Corinthians mostrou mais do mesmo, e contou com a insistência do Botafogo em atacar por um lado só, a direita. Da mesma forma que atacava com personalidade, o Fogão abusou das tentativas por esse lado do campo, acionando ostensivamente Alessandro e Caio, mas preterindo demais o lado esquerdo. Isso se deveu também à má atuação de Maicosuel. O fato é que o lado esquerdo corinthiano, especialmente Fábio Santos, conseguiu neutralizar a principal jogada de ataque botafoguense. No meio, Renato, que estreou, revelou-se ainda fora de ritmo de jogo.

O Corinthians, ao tomar a bola, partia com determinação, partido à frente de forma variada: ora com bolas de lado alçadas na área, ora com bolas pela centro para o chute de quem chegava.

Além do aspecto técnico e tático, chamou a atenção a garra representada pelo goleiro Júlio César. Após sofrer uma luxação no dedo, faltando cinco minutos para o final da partida, o goleiro decidiu permanecer em campo. Caso contrário, como o Timão já havia realizado todas as substituições, o meia Alex faria as vezes de goleiro. Pois foi o próprio Alex que acionou contra-ataque para Edenílson, que chutou no canto esquerdo de Jefferson. O goleiro botafoguense defendeu, mas, no rebote, Paulinho empurrou a bola para dentro. Final: Corinthians, 2 a 0.

Além de Júlio César, que ficará um mês de molho, também Liedson desfalcará o Corinthians nos próximos jogos por causa de lesão no joelho. Além deles, Fábio Santos cumprirá suspensão automática na partida contra o Cruzeiro. Entram Renan, Emerson e Ramon. Ou seja, o Timão segue forte. Quem sabe, também invicto.

***

Em tempo: a fase do Corinthians é realmente de encher os olhos e as esperanças dos seus torcedores. Minha pergunta é: a estreia de Adriano ajudará ou criará problemas na continuidade dessa ótima fase... A saber.

JFQ

Gigantismo renascido versus mediocridade de resultados



Uruguai e Paraguai farão a final da Copa América 2011. Será a disputa entre um gigante que, após muito tempo de hibernação, renasce para o topo do futebol do continente e do mundo, e uma equipe medíocre que, assumindo a própria mediocridade, alcançou o objetivo de chegar à final.

O Uruguai, após um começou sofrível - talvez para fazer companhia a Argentina e Brasil -, mostrou o que tem de melhor. Um escrete muito entrosado, cujos jogadores atuam juntos na seleção desde a época da base, muito forte na marcação, que congestiona o meio-campo para dificultar as investidas adversárias e facilitar as próprias, e com um ataque rápido a contar com jogadores de qualidade como o inteligente Forlán, o implacável Suárez, o ligeiro Álvaro Pereira e o impetuoso Cavani. Este, porém, não participou dos jogos decisivos do time por conta de contusão; o que não foi suficiente para enfraquecer o Uruguai, a ponto de passar pela Argentina, em um jogaço, com um a menos e Muslera em atuação esplendorosa.

Contra o Peru, no entanto, o time de Tavárez resgatou uma característica da qual parecia ter abdicado: confundir garra com violência. Arévalos Rios e, principalmente, Lugano abusaram das faltas. Algumas bastante violentas, como uma entrada de Lugano no bom jogador peruano Vargas. Acho, inclusive, que Lugano deveria ter sido expulso por esta falta; se não, por merecer dois amarelos após as tantas faltas cometidas ao longo da partida. Usando da experiência - mas não da famosa e, por hora, aposentada catimba -, assim como da inexperiência dos jovens e briosos jogadores do Peru e da falta de pulso do árbitro, o Uruguai aplicou sua boa, mas um tanto exagerada, marcação ao limite e quem acabou com um a menos foram justamente os peruanos: o próprio Vargas, cansado de apanhar, tomou um vermelho quando resolveu bater. De qualquer forma, a celeste foi mais time durante a maior parte do jogo, da mesma forma que é mais time que qualquer outro desta Copa América.

O Uruguai vive um momento brilhante sob o comando de Oscar Tavárez. Começou a vivê-lo quando o treinador - muito criticado por isso, diga-se de passagem - decidiu fazer tanto as seleções de base como a principal jogarem o que seus compatriotas chamam de “jogo de moças”, ou seja, deixar de se valer da catimba e da violência desmesurada e apostar no talento dos jogadores e na construção de um time bem engrenado. Conseguiu. Para ser sincero, já considero o Uruguai como um dos favoritos para a conquista da Copa de 2014, em que pese a lembrança do Maracanazzo (dois raios caem no mesmo lugar?). Sim, é bom que nós, brasileiros, nos despreguemos do conservadorismo futebolístico de achar que, independentemente das campanhas, somente Brasil, Argentina, Alemanha e Itália competirão pela conquista do título. Que o digam a Espanha e a Holanda no último mundial.

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Já o Paraguai demonstrou apego à mediocridade. Claro, uma mediocridade que o levou à final. Uma mediocridade, por assim dizer, “de resultado”. É certo que na primeira partida contra o Brasil e na primeira partida contra a Venezuela – um 3 a 3 inesquecível, só que por conta da bravura dos venezuelanos -, o time fez gols, sempre em contra-ataques e dependentes de falhas dos adversários. Na segunda partida contra o Brasil e no jogo de ontem, contra a mesma Venezuela, esteve, na maior parte do tempo, atrás, acuado, à mercê dos erros alheios, da competência do goleiro Villar, da trave e da sorte. A Venezuela, ainda que utilizando excessivamente a ligação direta e os chutões na área, ganhava as bolas e produzia chances de gol. Mas, infelizmente, não os fez.


O Paraguai, que empatou todos os jogos nesta Copa América (duas vezes contra o Brasil, duas contra a Venezuela e uma contra o Equador), assumiu a condição de escrete medíocre e assim se posta dentro de campo. A propósito, também fora dele, a se julgar pela provocação aos jogadores venezuelanos que descambou em briga generalizada ao final da partida. Independentemente se o adversário é o incipiente Brasil ou a guerreira Venezuela, essa foi a postura paraguaia nesta Copa América. Assumiu, no decorrer da competição, uma estratégia idêntica à da Argentina na Copa do Mundo de 1990 que, mesmo tendo Maradona e Canniggia, arrastava a partida à decisão de pênaltis, confiando nas defesas de Goycochea. Ironicamente, perdeu a final para a Alemanha, por 1 a 0, em uma cobrança de pênalti. Talvez por torcida, mas também pelo que observei, estou convencido de que essa estratégia, repetida contra o Uruguai, não dará certo.

***

Sim, torcerei para o Uruguai. Torço, mesmo, para que a celeste goleie, para não deixar dúvidas sobre a mediocridade da seleção paraguaia. Não se trata, absolutamente, de rancor de brasileiro eliminado em uma inusitada disputa por pênaltis, mas de um sentimento nascido pela admiração por uma equipe que vem crescendo e outra que se furta de jogar bola. Torço para o Uruguai pelo ótimo trabalho que Oscar Tavárez vem desempenhando, e por conta do talento de jogadores como Forlán e Luisito Suárez, quiçá um dos melhores atacantes da atualidade. E torço contra o Paraguai – que me perdoe Larissa Riquelme – pela falta de coragem, de iniciativa, de abuso em contar com as falhas do adversário. Este Paraguai, apesar de contar com o bom goleiro Justo Villar e do fato de ter chegado à final (podendo até chegar, quem sabe, ao título), não honra a camisa outrora vestida por Romerito, Gamarra, Chilavert e Cabañas.

Que me perdoem os paraguaios, mas eu gosto é de futebol. Avante, celeste!

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CAMPEÃ MORAL


O título do texto é uma provocação. Nada mais bobo do que a expressão “campeão moral”, usado por quem perdeu, mas acha que deveria ter ganho. Ou porque se sente garfado, ou porque pensa que jogou melhor. De qualquer forma, perdeu.

Mas este título - em todos os sentidos - não parece tão descabido ou exagerado para a seleção da Venezuela. Sim, não ganharam, não passaram sequer para a final e talvez nem vençam a disputa pelo terceiro lugar contra o Peru. No entanto, a Venezuela apostou no sonho de ir o mais longe possível do que já fora em toda sua história, e conseguiu. Ousou jogar sem medo contra adversários vistos como imensamente superiores; provou que não o eram. Confiou no próprio talento e na própria capacidade e deu um show de auto-confiança e de espírito esportivo. E como fez bonito: empatou com o poderoso Brasil, venceu o Equador, arrancou um empate heroico contra o Paraguai, despachou o surpreendente Chile e foi eliminado pelo Paraguai, na disputa por pênaltis, após ter feito uma partida em que foi melhor. Invicto, disputa o terceiro lugar contra o Peru.

A Venezuela, para a qual esta Copa América marca a saída do grupo dos “bobos” ou, quem sabe, da condição de último “bobo” sul-americano, desdenhou de quem a estigmatizava, revelando, inclusive, bom conjunto e talentos individuais a serem observados com carinho daqui para frente.

Confesso que fiquei fã da Venezuela. E, vá lá, na condição de reles torcedor e amante do jogo ludopédico, outorgo-lhe o título: campeã moral desta Copa América.

JFQ

terça-feira, 19 de julho de 2011

Qual a medalha de Ricardo Teixeira?

Editorial da revista Lance!
LANCE! OPINA:


Nada melhor para definir o caráter de uma pessoa do que ouvir o seu próprio discurso. As recentes declarações do presidente da CBF e do COL (Comitê Organizador da Copa de 2014) à revista Piauí deixaram à mostra um Ricardo Teixeira que ninguém seria capaz de descrever. Só ele mesmo. Os maus modos das palavras de baixo calão, a arrogância de se achar dono do futebol e ameaçar os que não comungam de seus interesses e a prepotência de se colocar acima das instituições, da Justiça, da Imprensa, da opinião pública, resumem a personalidade do homem que há mais de duas décadas reina no nosso futebol.

A fome de poder do senhor Teixeira não tem limites. Montou o COL à sua imagem e semelhança. Notória competência, independência, reconhecimento social não foram requisitos para escolha dos membros. Tão somente, precisavam ser amigos ou parentes do rei. Da filha ao advogado, passando pelo assessor de imprensa. Sócio do comitê – uma situação inédita em toda a história das Copas – foi flagrado por este LANCE! que denunciou artifício que lhe permitiria manobrar a seu bel-prazer – inclusive em benefício próprio e privado – eventuais lucros do Mundial. Ao menos nesse ponto, viu-se forçado a recuar.

Ele é assim. Diz que ninguém tem nada a ver com as contas da CBF por ser ela uma empresa privada. Como se o futebol não fosse um patrimônio cultural, um bem do povo brasileiro. Tentou mesmo passar por cima da lei, devolver os incentivos fiscais que o COL terá direito até 2014, como forma de se livrar da fiscalização dos tribunais de contas. Manobra, enfim uma boa notícia, que a Receita Federal promete abortar.

Teixeira diz que exerce controle sobre a política editorial da maior rede de televisão do país. E o mais impressionante é que nenhuma notícia sobre as acusações que vem sofrendo mundo afora – e que o atiram no mar de lama e corrupção que ronda a alta direção da Fifa –, ganha destaque nos noticiários dessa emissora. Em contrapartida, diz que pode retaliar, "fazer maldades" contra os veículos (além deste LANCE!, Folha de S.Paulo, UOL e ESPN ) que não considera aliados. Atitude vingativa. Como vingativa foi a decisão de afastar Romário – o agora deputado que teve a petulância de convidá-lo a depor na Câmara sobre as suspeitas de irregularidades – da solenidade de sorteio das Eliminatórias da Copa.

O Brasil – ou pelo menos um lado do Brasil – está cheio de Ricardo Teixeira. Num país onde governadores beijam-lhe as mãos à caça de um joguinho a mais ou a menos da Seleção, louve-se os deputados do Amazonas que negaram-lhe o direito de receber o título de cidadão amazonense. “Ele merece receber uma medalha do presídio”, resumiu Marcelo Ramos, do PSB local.

Ainda há tempo de reagir. Para ser grande, para atrair investimentos e a admiração do mundo, não basta a um país ter uma economia estável. Não bastam grandes eventos. É preciso dar um sinal de que a moralidade, a defesa do interesse comum, a transparência no trato da coisa pública – que a presidente Dilma tem pregado desde a sua posse – são bens irrefutáveis de toda a Nação.

Manter Ricardo Teixeira no comando da Copa com certeza não é sinal disso. É um mau recado para o mundo. E faz mal ao Brasil.


* Publicada no LANCE PRESS!, em 14/07/2011 às 23:42
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Ciência e futebol

Tostão

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, importante pesquisador, radicado nos EUA, utilizou, em um dos capítulos de seu livro "Muito Além do Nosso Eu", o quarto gol do Brasil contra a Itália, na final da Copa de 1970, como exemplo para discutir a plasticidade e a interação dos neurônios e dos circuitos cerebrais.

O pesquisador contou em detalhes, tão bem quanto os melhores narradores e comentaristas esportivos, como oito jogadores trocaram passes, durante 30 segundos, sem interrupção.

Ele disse, e concordo, que nenhum dos oito atletas tinha a ideia sobre o que seria o resultado final de sua interação com os companheiros, além de ser impossível planejar o lance.

Já os reducionistas, lembrou o neurocientista, tentariam explicar a complexidade da jogada estudando as características de cada jogador e separando as ações de cada um no momento da jogada.

O conjunto não é apenas a soma das partes. Quando partes se juntam, pode ocorrer algo novo, inimaginável. O time encaixa, como diz o chavão do futebol. Os técnicos aproveitam para falar que tudo foi planejado.

Paradoxalmente, quanto mais os jogadores estão preparados para ocupar vários setores do campo, em uma mesma partida, mais eles são compartimentados, pela visão reducionista dos técnicos, a atuar pelos lados ou pelo centro, pela direita ou pela esquerda, de volante ou de meia, de primeiro ou de segundo volante, de primeiro ou de segundo atacante.

O sonho dos técnicos é transformar o futebol em um jogo mais previsível, onde tudo pode ser planejado e ensaiado.

A principal deficiência da seleção brasileira é não ter um armador de grande talento, desses que os comentaristas não sabem se é volante ou meia.

Contra o Equador, a principal qualidade coletiva do Brasil foi a troca de posições entre Robinho, Neymar e Pato. Por outro lado, os três e mais Ganso estavam sempre no campo do adversário. Lucas e Ramires ficaram sozinhos na marcação.

O Equador tocou a bola com facilidade no meio, pelos lados e nas costas dos volantes. Hoje, contra o Paraguai, um time bem melhor, isso poderá ser um problema.

A solução não é escalar Jadson no lugar de Robinho. Jadson também joga no campo do outro time. Se entrar Elano, melhora a marcação, mas o time perde um jogador na frente. O que fazer? É um problema para Mano resolver, para outra coluna, para uma discussão acadêmica ou para uma boa conversa em um botequim.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 17/07/2011.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sobre vexames, zebras e lições



O final de semana foi de zebras e “quase zebras” no futebol. Para muitos, a palavra certa é vexame. Fico com a primeira opção.

As “quase zebras” ficam por conta das eliminações de Argentina e Brasil, em que pese o “quase” ser pouco para muitos brasileiros. Grande parte da população de nosso “país do futebol” não admite derrotas, nem empates, contra quem quer que seja. Da Holanda à Venezuela, da França ao Paraguai. O Brasil, dizem, sempre tem obrigação de ganhar. Então, tá.

O fato é que, considerando tão somente a camisa e a circunstância, esperava-se que Argentina, Brasil, Colômbia e Chile fizessem as semifinais da Copa América. Deu Uruguai, Paraguai, Peru e Venezuela. Eis o futebol, simples assim. Até mesmo no futebol feminino, as poderosas norte-americanas sucumbiram, também nos pênaltis, diante das japonesas. Por acaso, este foi o final de semana das prorrogações e dos pênaltis. Por falar nestes, também foi o final de semana dos goleiros.

***

São Muslera e Tevez, o herói que virou vilão



Na visão simplista do futebol, reduzido a chavões, mitos e maniqueísmos - em vez de ser entendido em sua complexidade shakespeariana, como diria Nelson Rodrigues, para não dizer em sua complexidade humana -, a sempre trágica Argentina jogava em casa, com a obrigação de ganhar a Copa América. Afinal, não fatura este e nenhum outro caneco desde a Copa América de 1993. Neste período, para piorar, tornou-se freguês do arquirrival Brasil em finais.

Os argentinos contavam com Messi, o melhor do mundo, cujas costas carregam o fardo pesadíssimo de super-heroi ingrato, capaz de voar com a camisa do Barcelona, mas impotente com a da seleção de seu país (¿seu país não é a Espanha?, perguntariam alguns), como se o glorioso uniforme branco e azul fosse untado de criptonita. Heroi ingrato e degenerado, pois não sofreu as mazelas sociais do mais europeu dos sul-americanos, e não conta o hino nacional, ao contrário do filho dileto, Carlitos Tevez, o menino de Forte Apache, periferia de Buenos Aires.

Quis o destino, porém, que justamente Carlitos perdesse o pênalti decisivo da eliminação argentina e que garantiu o Uruguai nas semifinais. Talvez a melhor perspectiva fosse a de que Muslera, um goleiraço nesta partida, pegou mais esta bola, posto que Tevez não bateu mal. Contudo, como nas tragédias a culpa é fator importante...

Afora as mitologias e simplismos, o fato é que nem Uruguai, nem Argentina, nem ninguém fez uma grande Copa América até aqui. Todos estão se preparando para 2014, alguns com mais base - consolidada em 2010 ou mesmo antes - e outros estão mais atrasados, como o Brasil. O Uruguai de Oscar Tavárez jogou muito bem contra a Argentina, ganhou nos pênaltis como também poderia ter perdido.

Apesar da eliminação, a Argentina teve a lição de que Messi precisa de um parceiro no meio e de atacantes que se movimentem na frente. Como está acostumado a jogar no Barça: não como um salvador da pátria, mas como o melhor em um conjunto excelente. Sergio Batista deve repetir a formação nascida no jogo contra a Costa Rica. Aos poucos, aparecerá uma Argentina muito forte.

Já o Uruguai, a cada dia vem mostrando que renasce como grande selecionado mundial. Ainda que não apresente um futebol brilhante, é bastante competitivo. O grande responsável por isso é Tavárez, que trabalhou não apenas no time principal, mas também nas seleções de base. Não é à toa que a celeste tenha chegado às semifinais da última Copa do Mundo, tenha eliminado o Brasil e feito a final do Mundial Sub-17, tenha se classificado para disputar as Olimpíadas de Londres e vá disputar na próxima quarta-feira, contra o Paraguai, as semifinais da Copa América. Tudo isso faz parte de um mesmo processo de renovação e mudança de paradigma - leia-se: sai o Uruguai brigador e catimbeiro, surge o Uruguai técnico e aguerrido, mas sem violência - cujo grande mentor é Oscar Tavarez.

***

Terminou como começou



Não tomo a eliminação do Brasil pelo viés do vexame. Prefiro o viés das lições. A principal: a seleção de Mano Menezes mostrou ao final nada muito diferente do que se vira no começo - um time em formação, sem padrão de jogo formado, com alguma, mas pouca, evolução. Entendo que a Argentina saiu melhor do que o Brasil. Os hermanos encontraram um caminho a ser desenvolvido; nós, nem isso.

Das quatro partidas feitas pelo Brasil, a última foi justamente a melhor. No entanto, após três empates e uma vitória, fica claro que temos muita dificuldade em marcar gols e pioramos no aspecto defensivo. Na frente, o Brasil até melhorou no quesito finalizações, mas não no colocar a bola para dentro... sequer estou me referindo aos quatro pênaltis perdidos.

No aspecto defensivo, jogadores de confiança vêm falhando: zagueiros, laterais e até o goleirão Júlio César. Nem mesmo Lucas Leiva e Ramires mostram-se como uma dupla confiável de volantes.

Não obstante, não há que se busca culpados. Não há propriamente culpados, mas, isto sim, “peças” a serem trocadas. André Santos e Ramires, em primeiríssimo lugar. E, principalmente, há um padrão de jogo a sair da teoria para se consolidar na prática. No papel, Mano tem muito clara a seleção ideal; não obstante, está fracassando em executá-la na prática. É certo que isso requer muita repetição, como também é certo que a insistência vale a pena quando se vislumbra que algo está se encaixando. Não é o caso. Ganso, no Santos - da mesma forma que Messi, no Barcelona - não é salvador da pátria. Joga com Elano e Arouca o auxiliando na armação e para se desvencilhar de marcadores. Não pode ser tomado como único articulador, “O” distribuidor de jogadas, “O” ditador do ritmo, “O” cadenciador. Nem Ramires, nem Lucas lhe servem como anteparo. Para que se continue a apostar em Ganso, é necessário que Mano ouse, colocando um único volante de contenção. O melhor jogo de Ganso foi quando Jadson esteve a seu lado, no primeiro tempo da primeira partida contra o Paraguai. Eis a evidência de um caminho a ser seguido.

O trio de ataque formado por Robinho, Pato e Neymar teve momentos bons e momentos de pouca ou nenhuma inspiração. Foi pior quando cada um se limitava a uma região do ataque – Neymar pela esquerda, Robinho pelo meio e Pato pelo meio –, e melhor quando os três se movimentavam por todos os cantos. Neymar precisa perder uma certa marra que ganhou ao ser destacado por todos, ao ser considerado como “o Messi brasileiro”. Precisa se lembrar de que está na seleção, não no Santos; com a amarelinha, pelo menos a princípio, todos são grandes jogadores, não apenas ele.

Na zaga, da mesma forma que Daniel Alves cedeu o lugar a Maicon, todos os demais precisam de uma sombra, não se sentirem intocáveis. Mesmo Lúcio e Júlio César, ainda que o resultado final seja a manutenção de todos. Como o mesmo Maicon revelou, algum tempo na reserva pode ser muito bom como provocação íntima. Em especial, André Santos precisa de uma sombra ou, na reserva, ser alçado à condição de sombra de Marcelo ou de Adriano.

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Mano, o ousado medroso


Mano Menezes mostrou seu lado “professor Pardal”. Ou, quem sabe, tenha mostrado seu lado titubeante, pouco convicto. Tenho comigo que Mano passa por um dilema entre ousadia e conservadorismo. Ao combinar os dois, não dá certo. É preciso optar: ser ou não ser... “dunguista”.

Ao colocar Jadson ao lado de Ganso, inova. Ao não observar apenas um volante, é medroso. Ao colocar três atacantes que se movimentam e marcam a saída, opta uma característica positiva da “referência Barcelona”. Ao cair no clichê de que é preciso um atacante de área que sirva de referência, cai no conservadorismo. Ao perceber que Ganso tem qualidades para ser o articulador, aposta em uma potencialidade que existe certo. Ao definir Fred como o centroavante, como fora Romário e Ronaldo, aposta em uma potencialidade que não existe.

Há vários equilíbrios possíveis. Mas é preciso achar o ponto. Ser ousado. Ou não.

A definição de um padrão é fundamental. Até porque, dos principais candidatos ao título em 2014, o Brasil é o mais atrasado.

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Pênaltis, goleiros e areia


Decisão por pênaltis não é loteria. Tampouco é pura técnica. Penso que seja o mais emocional de todos os momentos ludopédicos possíveis. Assim, em tantos casos, o “melhor” time ou aquele que joga em casa - como Brasil e Argentina, respectivamente - vão para a disputa muito mais pressionados e, portanto, muito mais passíveis de cometerem erros.

No caso do Brasil, o péssimo gramado, cheio de areia, não explica, por si só, as quatro cobranças erradas. Ou melhor, as cinco, já que o paraguaio Barreto também errou. Do mesmo modo, não se pode deixar passar em branco que o estado lamentável do gramado, indigno de figurar em um jogo tão importante de Copa América. Uma coisa que falta, aliás, ao futebol são critérios bem definidos do que seja um gramado passível de abrigar uma partida oficial.

De qualquer forma, apesar de estranho, não é tão surpreendente assim que os quatro brasileiros que cobraram tenham perdido (não considero que o Brasil perdeu quatro cobranças, já que o pênalti é um ato individual, em que pese o jogo ser coletivo). Assim como o tenham perdido Tevez, na partida da Argentina contra o Uruguai, e Falcão Garcia, no jogo Colômbia x Peru.

Mais do que repreender e estigmatizar os cobradores, talvez seja melhor louvar a competência dos goleiros. A propósito, o uruguaio Muslera e o paraguaio Justo Villar foram, sem dúvida, os melhores jogadores de seus times nesses jogos decisivos.

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A surpresa do último bobo


Ninguém merece mais aplausos nesta Copa América do que a seleção da Venezuela. De suposto bobo, saco de pancadas dos adversários, a Venezuela classificou-se, pela primeira vez em sua história, para disputar uma semifinal.

Time muito bem montado, forte na marcação e perigoso nos contra-ataques, os venezuelanos provaram que não é um simples acaso seu sucesso no torneio. Que o digam o Brasil, com quem empataram por zero a zero, o Paraguai, contra quem buscaram um empate heróico por 3 a 3, e o Chile, sensação do certame, onde joga o badalado Alexis Sanchez, eliminado após perder por 2 a 1.

JFQ

Japão supera os EUA e é campeão da Copa do Mundo feminina



O Japão é o novo campeão mundial do futebol feminino. Coroando uma campanha histórica e surpreendente, a seleção japonesa desbancou o favorito Estados Unidos na final deste domingo, em Frankfurt, na Alemanha, e ganhou nos pênaltis por 3 a 1, após um empate de 1 a 1 no tempo normal e outro 1 a 1 na prorrogação.

Sem nenhuma tradição no futebol feminino, o Japão tinha somado apenas três vitórias nas cinco edições anteriores do Mundial organizado pela Fifa - duas contra a Argentina e uma contra o Brasil. Dessa vez, porém, a seleção japonesa não se intimidou diante das grandes potências do esporte e foi avançando até o título inédito.

Na primeira fase do Mundial, o Japão somou duas vitórias (Nova Zelândia e México) e uma derrota (Inglaterra). Depois, já nas quartas de final, eliminou a anfitriã Alemanha. Na sequência, passou pela tradicional Suécia nas semifinais. E, por fim, derrotou os Estados Unidos, que buscavam o tricampeonato.

Os Estados Unidos já foram campeões mundiais duas vezes (1991 e 1999) e chegaram ao pódio nas outras três edições realizadas. Além disso, conquistaram três das quatro medalhas de ouro disputadas na história do futebol feminino na Olimpíada. E, para completar, eliminaram o Brasil da estrela Marta nas quartas de final da competição da Alemanha. Por isso, eram os favoritos na decisão deste domingo.

Diante de um público de 48.817 pessoas que lotou o estádio em Frankfurt, além da torcida do presidente Barack Obama, que acompanhou a final pela TV, os Estados Unidos começaram melhor, pressionando o adversário. E chegaram a mandar uma bola no travessão aos 27 minutos, com Wambach. Mas, aos poucos, o Japão equilibrou o jogo e passou a ter maior controle de bola.

Os gols, porém, saíram apenas no segundo tempo. Num rápido contra-ataque aos 23 minutos, Morgan, que tinha entrado no lugar de Cheney no intervalo, abriu o placar para os Estados Unidos. Mas o Japão empatou aos 34, quando Miyama aproveitou vacilo da zaga adversária e deixou tudo igual.

A decisão, então, foi para a prorrogação. E os Estados Unidos saíram novamente na frente, com uma cabeçada de Wambach aos 13 minutos do primeiro tempo. Mas o Japão voltou a empatar aos 11 da segunda etapa, quando Sawa também fez de cabeça, tornando-se a artilheira do Mundial (cinco gols) - Marta ficou com quatro.

Na disputa por pênaltis, as experientes jogadoras norte-americanas sentiram o nervosismo e desperdiçaram três cobranças - a goleira Kaihori defendeu os chutes de Boxx e Heath, enquanto Lloyd chutou por cima. Assim, os Estados Unidos marcou apenas com Wambach. Do lado do Japão, Nagasato também errou, mas Miyama, Sakaguchi e Kumagai fizeram os gols e garantiram o título inédito.

* Publicado pela agência Estado: http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,japao-vence-eua-e-e-campeao-do-mundial-feminino,746170,0.htm

Após terceira derrota consecutiva, Falcão é demitido do Inter


A sequência de resultados inconstantes do Internacional desde o começo do Campeonato Brasileiro fizeram o presidente Giovanni Luigi demitir o técnico Paulo Roberto Falcão e o responsável pelo departamento de futebol, Roberto Siegmann. A informação foi confirmada pelo cartola que deixa o comando do grupo profissional.

http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-noticias/2011/07/18/presidente-do-inter-demite-o-tecnico-falcao-e-o-responsavel-pelo-futebol.htm

Adilson Batista, o novo técnico do São Paulo

Nem mesmo os maus resultados obtidos em seus últimos trabalhos tiraram a empolgação de Adilson Batista. O treinador vai comandar o São Paulo a partir desta segunda-feira, quando será apresentado oficialmente no clube paulista.

Muito criticado em suas passagens por Corinthians, Santos e Atlético-PR, seus três últimos clubes, Adilson quer agora recuperar o status de treinador de ponta, que conseguiu ao conduzir o Cruzeiro ao segundo lugar da Libertadores de 2009.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Crítica à crítica

Virou lugar-comum a crítica de vários locutores e comentaristas esportivos sobre a arbitragem brasileira. Eis o bordão: “no Brasil, o árbitro apita qualquer faltinha”. O paradigma é a civilizada Europa, onde se deixa o jogo correr, não se amarra a partida com o apito. O falante Galvão Bueno, por exemplo, é um que adora bater nessa tecla, deixando em segundo plano as ponderações de um constrangido Arnaldo César Coelho. Para o comentarista de arbitragem, “a regra é clara”; e falta é falta!

No entanto, com o crescimento dessa crítica quase unânime – tem razão Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra, de fato! –, alguns árbitros passaram a tolerar lances mais ríspidos, como se fosse “coisa do jogo”. Com isso, algumas partidas beiram à perda de controle, com seguidas jogadas violentas.

Foi o que ocorreu ontem, no jogo entre Corinthians e Internacional. Apesar de vários lances violentos – com destaque para uma cotovelada de Bolívar em Liedson e outra, de Juan em Emerson –, o juizão Ricardo Marques Ribeiro deixou de reprimi-las apontando a falta ou mostrando cartão. No final, os dois únicos amarelos, dados a Zé Roberto e Gilberto, ambos do Inter, foi muito pouco para o que foi a partida. Deu sorte o senhor Ribeiro.

Às vezes, quando se papagaia muito uma coisa, esta passa a ser entendida como verdade absoluta. A quem pensa que a Europa é exemplo de arbitragem, talvez seja apropriada uma boa pesquisa sobre as contusões graves que ocorrem por lá, e uma análise do porquê certos “guerreiros” como Felipe Melo, Van Bommel ou Gatuso são, vez por outra, concebidos como craques.

JFQ

Para comemorar, sem se iludir



Copa América
Brasil 4x2 Equador

Há alguns dias, quando a seleção brasileira feminina bateu a Noruega por 3 a 0 e a masculina não passou de um empate sem gols contra a Venezuela, vários jornais publicaram foto de uma Marta esfuziante ao lado de um Neymar cabisbaixo. Na ocasião, comentei que, dada a natureza do futebol, não seria de se estranhar que num futuro próximo os semblantes dos retratados se invertessem. Por acaso, a situação das duas seleções se alteraram: enquanto a feminina voltou para casa, eliminada do Mundial (pela enésima vez) pelos EUA, o Brasil de Neymar segue na Copa América, classificado em primeiro no seu grupo.

Contudo, não se deve esquecer a natureza fugaz desse esporte. Da mesma forma, os gritos de gol na partida contra o Equador podem dar lugar ao silêncio vexatório depois do jogo contra o Paraguai, no próximo domingo. Tudo depende da continuidade ou não das evoluções – nem tantas assim, diga-se de passagem – notadas na última peleja. Vamos a ela.

Contra o Equador, as melhores novidades aconteceram do meio para frente: 1) Maicon mostrou-se ótima opção de ataque, nas passagens pela direita, qual um ponta das antigas; 2) Os três atacantes movimentaram-se bastante, não ficando presos a um espaço do campo, e, até que enfim, finalizaram várias vezes: Pato marcou dois gols, Neymar, outros dois, além de arriscar tiros até com exagero, e Robinho chutou bola na trave e marcou um gol legítimo, erroneamente anulado pela arbitragem. Como pontos negativos: 1) Ganso continua perdido, o que deve continuar enquanto não houver um parceiro no meio, como foi Jadson na partida contra o Paraguai; 2) Ramires está afoito, não servindo de opção para as subidas pelo meio ou como auxiliar de Lucas Leiva na marcação; 3) os zagueiros e o goleiro Júlio César, até pouco tempo, inquestionáveis, passaram a falhar com preocupante constância.

Parece ter havido uma inversão no desequilíbrio brasileiro. De uma equipe com boa defesa e articulação/ataque fraco, o que se viu na partida contra o Equador foi um escrete com tendência a marcar e sofrer gols com facilidade. Quanto ao ataque, apesar de Maicon ter jogado muito bem – o melhor em campo –, a seleção não pode depender apenas de suas jogadas pela direita. André Santos também deve servir como opção à esquerda e, principalmente, Ganso deve mostrar a que veio: ser o maestro do time, o ditador do ritmo no meio-campo brasileiro. Mas, repito, o problema de Ganso não é individual, assim como não era o de Messi; da mesma forma que o craque argentino encontrou em Gago um parceiro, Ganso precisa do seu, como foi Jadson. Por falar em Argentina, apesar da vitória brasileira, a seleção de Mano Menezes não demonstrou contra o Equador ter encontrado um padrão de jogo, como se pôde observar na partida dos hermanos contra a Costa Rica.

Quanto à defesa, alguns acertos devem ser feitos no posicionamento dos zagueiros e Júlio César, apesar das falhas – considero apenas o primeiro gol de Caecedo um frango, mas não o segundo –, continua sendo o melhor goleiro brasileiro e um dos melhores do mundo. Em que pesem os comentaristas que batem na tecla da má fase do arqueiro da Inter de Milão, não consigo enxergar Victor ou Jefferson como opções à altura de Júlio César. Enfim, ele merece crédito.

O problema maior está em Ramires: mal na marcação e à frente. Nem rouba as bolas com a pressão veloz outrora observada, nem serve de elemento surpresa a compor o ataque. Se Mano quiser ousar, Jadson seria uma opção, mas que acarretaria na presença de apenas um volante, Lucas Leiva, a ser compensada pela diminuição das subidas dos laterais e/ou em marcação à frente feita pelos atacantes. Aliás, por que o Brasil desistiu da postura de marcar no campo de ataque, como se viu no início do jogo contra a Venezuela?


De qualquer forma, há que se admitir que o Brasil melhorou contra o Equador. No entanto, há também que se lembrar – o placar final muitas vezes obscurece o enredo da partida – que a seleção mostrou um bom futebol apenas no segundo tempo. No primeiro, repetiram-se as mesmas falhas dos jogos anteriores. Para se ter uma ideia, ao final da primeira etapa o Brasil tinha 65% de posse de bola, mas finalizara 5 vezes, contra 6 do Equador. Ou seja, repetiam-se as estéreis trocas de passes das partidas anteriores.

Torçamos para que o Brasil do segundo tempo do jogo contra o Equador retorne contra o Paraguai. Melhor: além disso, que sane as deficiências demonstradas. Comemoremos a evolução, mas com os pés no chão; ainda há muito o que melhorar. A vitória, contudo, é fundamental do ponto de vista emocional: resultado e placar dão confiança, ajudam a desinibir os garotos para a continuidade do trabalho. Em outras palavras, é uma excelente motivação para que, após a partida de domingo, Neymar e companhia continuem a sair sorridentes nas fotos dos jornais.

***

Sabe com quem está falando, professor?

Muito interessante a reação de Mano Menezes a cada gol feito pelo Brasil. Da comemoração no banco de reservas seguia-se o chamamento de algum jogador para instruções (broncas?), levando a reações de revolta por parte dos comandados. Lucas Leiva esboçou inconformidade em relação a alguma crítica do treinador e Thiago Silva chegou a jogar um copo d’água em claro sinal de discordância com alguma reprimenda do “professor”.

Apesar da relação hierárquica, fica a impressão de que o comandante é mais fraco que os comandados. Mais ou menos como se todos soubessem da fragilidade de Mano no cargo de treinador da seleção, podendo cair a cada má atuação do time, ao contrário de jogadores consagrados, certos de que voltarão ao selecionado nacional pelas mãos de um outro técnico.

Mais ou menos como o caso de Pelé que, expulso em uma partida amistosa, voltou a campo, enquanto o árbitro foi substituído. Surreal, pitoresco, etc., mas revelador de que ter estrela, e não apenas o cargo ou a função, é fundamental para manter-se no futebol.

A Mano ainda carece conquistar essa estrela.

***

Em tempo: Ganso mostrou certa timidez ao ser substituído. Não que devesse vociferar contra o treinador, atitude imbecil de jogador marrento, até porque não fez boa partida. O meia do Santos saiu com semblante acanhado, mantendo-se assim no banco de reservas. Paulo Henrique precisa se convencer de que é um craque, não duvidar disso. Ganso tem estrela, mas, por ora, talvez esteja colocando em dúvida sua capacidade de brilhar.

JFQ

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A conquista de um sonho




Rafael Soares

Acredito que poucos se deram conta das vitórias conquistadas pelo Corinthians no seu Centenário. A primeira delas, e talvez a mais importante porque abriu caminho para as que se seguiram, foi a reestruturação da diretoria do clube. O Corinthians, semelhante a grande maioria dos clubes brasileiros, nunca havia conseguido emplacar uma administração profissional de seu futebol. A história do alvinegro paulista foi marcada por diretorias amadoras, escândalos, declarações acaloradas, negócios realizados por pura emoção ou que não beneficiavam em nada o clube.

No entanto, após umas das piores crises, que levou o clube ao inferno da segunda divisão, surgiu no Corinthians uma nova administração muito mais próxima ao modelo profissional que todos desejam. A marca Corinthians foi reconhecida como uma das mais importantes do país, gerando uma série de ações de marketing muito bem sucedidas, auferindo muitos recursos ao clube, além do reconhecimento internacional. O time passou por um grande período mantendo a base e o treinador, comportamento que permitiu o retorno a primeira divisão do futebol nacional, lhe rendeu títulos tanto regional quanto nacional e o colocou novamente na disputa do mais desejado título para os corinthianos, o da Copa Libertadores.

A Libertadores não foi conquistada, ainda, porém algo mais importante, e que parece passar desapercebido, sim. A construção de seu estádio, sonho mais antigo do que a conquista da América, foi garantida hoje. E mais, este estádio tão desejado e tão importante para seu crescimento e afirmação do clube como o mais importante do país, será nada mais nada menos do que a abertura da Copa do Mundo de 2014! Esta conquista, articulada no ano do Centenário, é muito mais importante do que a Libertadores, porque elevará o clube a um novo estágio e proporcionará muitos títulos, inclusive o da Libertadores.

* Rafael Soares, corinthiano, é colaborador do Ludopédicas.

Messi brilhou porque a Argentina mudou ou a Argentina mudou porque Messi brilhou?



Até que enfim, a Argentina mostrou bom futebol nesta Copa América. Mais do que isso, o grande ídolo Lionel Messi também desencantou. Pouco importa se o adversário era a Costa Rica. Os adversários anteriores, Bolívia e Colômbia, que empataram com os argentinos, também eram, no papel, muito inferiores; vale dizer, a Bolívia foi derrotada pela mesma Costa Rica por 2 a 0.

O que aconteceu, não nessa partida, em que a “verdadeira Argentina” se mostrou, mas nas anteriores, quando se viu a caricatura de uma das mais importantes seleções mundiais e do melhor jogador do planeta? Tenho uma hipótese: na partida contra a Costa Rica, o técnico Sergio Batista perdeu o medo de jogar apostando na vocação ofensiva e de toque de bola da Argentina. As quatro alterações que fez - saíram Cambiasso, Banega, Lavezzi e Tevez, entraram Gago, Aguero, Di Maria e Higuain -, menos pelos jogadores e mais pelo reenquadramento tático, possibilitou uma nova postura, uma nova dinâmica e, principalmente, que Messi pudesse jogar tudo o que sabe. E como ele sabe jogar!

Nas partidas contra Bolívia e Colômbia, Batista colocou Messi em uma cilada. Atrás dele, três volantes com características mais defensivas do que de armação; à frente, dois atacantes de lado de campo, cada qual muito isolado, à esquerda e à direita. O craque do Barça ficava sozinho com a responsabilidade de criar jogadas no meio e buscar Tevez e Lavezzi, que, apesar de movimentarem-se bastante, tendem a correr com a bola nos pés, não de receber a bola passada e finalizar de pronto.

A mudança mais ousada foi a colocação de um único volante de contenção - Mascherano - , compensada pela retenção dos laterais para função exclusiva de marcação; aliás, os pesados Zabaleta e Zanetti, ainda que bons jogadores (especialmente o último), atualmente não têm muitos recursos para o apoio.

Gago passou a auxiliar Messi no meio, participando da articulação e, não sendo “La Pulga” o único alvo a ser marcado, dificultou sobremaneira as ações defensivas costa-riquenhas no meio-campo. Além disso, para ajudar ainda mais as jogadas criadas por Messi nas assistências, calharam muitíssimo bem as três opções à frente, Aguero, Di Maria e Higuain. Todos se movimentaram muito e foram premiados com bolas açucaradas, no jeito para a finalização. Dessa forma, apesar da fase (ou característica?) de Higuain, que não consegue enfiar a bola para dentro, considerando a abundância de chances criadas e finalizações realizadas, os três gols foram até pouco.

Em suma, as mudanças no elenco e no esquema tático fizeram muito bem à Argentina e a Messi, que, finalmente, conseguiu melhores condições para mostrar que é, sem dúvida, o melhor jogador do mundo.

Além dos fatores acima, há que se ressaltar as consequências psicológicas positivas da boa receptividade da torcida de Córdoba sobre o escrete argentino. A começar pela presença no estádio do lendário Mário Kempes, que dá nome ao estádio. Isso também tirou muita pressão dos jogadores. Bem melhor do que começar as partidas questionando Messi por não cantar o hino nacional.

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Lições para o Brasil

A mudança na seleção argentina pode bem servir de lição ao Brasil. Principalmente quanto à assunção de uma postura vencedora. Em outras palavras: para que se “arrisque” a jogar com apenas um volante, há que se estar convencido de que a equipe tem potencial para manter a bola na frente. Eis a lógica: manter a posse de bola e a ofensividade é uma maneira, quiçá a melhor, de proteger-se atrás. Em linguagem popular: o ataque é a melhor defesa.

No caso da articulação no meio, Jadson provou que pode ser o anteparo de Ganso (guardadas as devidas proporções, o nosso Messi). À frente, Lucas Silva poderia compor com Pato e Neymar um trio de ataque a se movimentar como fizeram Aguero, Di Maria e Higuain.

Ramires seria sacado, mas os laterais deveriam ficar mais atrás para não deixar a defesa desprotegida. De qualquer forma, nossos laterais têm mais recursos para apoiar do que os argentinos, o que, eventualmente, seria uma “vantagem comparativa” brasileira.

Claro que não se trata de uma fórmula que sirva a Barcelona, Argentina ou Brasil a qualquer hora e contra qualquer adversário. Cada um tem características, potencialidades e limites distintos, que devem ser sopesados quando das escolhas táticas. Entretanto, há que se considerar, ao menos como uma lição, o jogo da Argentina contra a Costa Rica. Até para que não se faça o samba de uma nota só, como Galvão Bueno, para quem tudo parece se resumir à falta de referência na área. A propósito, talvez seja o momento de o nobre locutor considerar que Ronaldo e Romário não jogam mais, e Fred, apesar de um jogador muito esforçado, pode não ser um salvador da pátria.

JFQ