Paulo César Carpegiani não é mais técnico do São Paulo. Em reunião na tarde desta quinta-feira, a diretoria do clube decidiu pela saída do treinador que não resistiu a mais uma derrota, dessa vez para o Flamengo, a terceira seguida no Campeonato Brasileiro.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
A solução para a Argentina está no Brasil
A Argentina empatou mais uma vez. De novo, um modorrento zero a zero. Depois da Bolívia, a Colômbia foi a barreira intransponível para os hermanos nesta Copa América. A equipe de Sergio Batista não consegue criar jogadas. A razão talvez seja o esquema montado pelo próprio treinador. Atrás, há uma barreira de três volantes - Banega, Cambiasso e Mascherano - e dois laterais que pouco sobem - Zabaleta e o interminável Zanetti. Na frente, dois atacantes isolados - Lavezzi e Tevez - e o "melhor do mundo", Messi, com a duríssima tarefa de fazer a ligação e ainda chegar para compor o ataque. Messi não está bem, mas, ainda que estivesse, o esquema de Batista o sobrecarrega. As opções no banco são outros atacantes - Higuaín, Aguero, Di Maria, Milito. No entanto, o problema é a articulação no meio.
Tivesse assistido à partida do Cruzeiro contra o Grêmio, também ontem, o técnico argentino talvez ficasse com uma (outra) pulga atrás da orelha: será que esse Montillo não seria útil à nossa sofrida seleção? Oh, se seria! E caso dê uma espiada nesse mesmo país vizinho e rival, veria que há outras opções: D'Alessandro e Conca. Mas o melhor mesmo seria Montillo, em ótima fase. Como não o convocou, melhor para o Cruzeiro.
JFQ
terça-feira, 5 de julho de 2011
Gato por Lebre, Pato por Ganso, La Pulga por El Pibe, Marta por Marta
O final de semana foi movimentado para o futebol. No México, nossa seleção sub-17 garantiu vaga nas semifinais do Mundial da categoria, após vitória contra o Japão, por 3 a 2. Na Alemanha, pelo Mundial feminino, Marta e companhia garantiram a classificação antecipada para os mata-matas, depois de golear a Noruega, por 3 a 0. Finalmente, na Argentina, a seleção de Mano Menezes não passou de um 0 a 0 contra a Venezuela, seleção que resolveu dar trabalho ao Brasil nos últimos tempos. Com este resultado, nossa seleção juntou-se às arquirrivais Argentina e Uruguai como protagonistas das surpresas na estreia do torneio continental. O time de Messi não passou de um empate contra a Bolívia, por 1 a 1, mesmo placar da equipe comandada por Oscar Tabárez, também correndo atrás, contra o Peru. Mas, tratando-se de futebol, os placares não dizem tudo...
***
Messi para Cristo
No país acostumado a tratar Diego Armando Maradona, El Pibe Doro, como um verdadeiro deus, os hermanos resolveram tomar Lionel Messi, La Pulga, para Cristo. O melhor do mundo não convence seus compatriotas, que tomaram Carlito Tevez como o verdadeiro ídolo pátrio. Explica-se: além da pecha de que Messi joga muito no Barça e pouco com a camisa argentina, há o histórico de ter passado toda a carreira, desde a infância, em campos espanhóis. Enquanto isso, Tevez foi ídolo no Boca.
O problema maior é a velha história de tomar um ídolo como redentor. A Argentina – talvez a imprensa mais do que os próprios torcedores – comete o mesmo erro, para não dizer vício, de achar que um grande jogador é capaz de substituir um time bem montado. O Barcelona, por exemplo – como já disse neste blog milhares de vezes –, não é dependente de Messi, apesar deste ser, óbvio, sua grande estrela. Kaká é outro exemplo: na última Copa foi "eleito" salvador da pátria, quiçá como uma última esperança de salvação de uma equipe que não convencia, quiçá para mascarar essa evidência. Ou seja, dá-se a culpa em um jogador pelas mazelas de todo um time. (Obs: não é exatamente este o caso de Ganso no último jogo do Brasil, apesar de haver semelhanças quanto à função de principal jogador).
Outra questão é a comparação entre Messi e Maradona: eis a grande diferença entre ambos. Dieguito resolvia sozinho – que o digam a fraca Argentina de 86 e o limitado Nápoli de 90 –, o que pode ter deixado os hermanos mal acostumados, enquanto Messi depende de bons companheiros ao seu lado.
O técnico Sergio Batista também deu sua parcela de contribuição para o resultado, não apenas por sobrecarregar Messi, mas por abusar do defensivismo contra uma seleção não tão perigosa. Três volantes – Banega, Cambiasso e Mascherano – é um exagero, um “dunguismo” desnecessário, e que não dá ao articulador do time as melhores condições de construir as jogadas. Justo a Messi, que tem Xavi e Iniesta ao lado para armar as jogadas de ataque do Barça! Para piorar, Tevez foi colocado como segundo atacante, um tanto isolado, enquanto o limitado Lavezze fazia as vezes de centroavante.
Há que se considerar, ainda, os méritos da seleção boliviana, bastante aplicada. Assim como a venezuelana e a peruana nos seus respectivos jogos. Sim, não há mais bobos no futebol. Além de não ter nada igual a disputar uma competição sem qualquer pressão para vencê-la.
Aposta: Na próxima partida, entra Aguero, Higuaín ou Di Maria. Talvez dois deles.
***
Entre o princípio e o fim, o detalhe do gol... ou da falta dele
Adryan, revelação do Flamengo e da seleção sub-17
Quem vê apenas os placares dos jogos, não sabe o enredo, às vezes dramático, construído para se chegar a eles. Na partida em que a seleção sub-17 se classificou para as semifinais do Mundial disputado no México, os 3 a 2 podem ser resumidos assim: uma partida em que o Brasil manteve o domínio, fazendo 3 a 0, até que deu uma pane no final. O Japão se aproveitou, em menos de 10 minutos marcou dois gols e, talvez, nossos garotos tenham tido a sorte de que não havia mais tempo para o empate japonês. Agora o Brasil pega o Uruguai na semifinal, com a lição de que não pode bobear, ainda que a vitória pareça irreversível. Na outra semifinal, a Alemanha enfrenta o México. Destaque para a jovem revelação Adryan, que já havia se destacado no Flamengo, na conquista da Taça São Paulo de Juniors: é uma grande promessa.
No caso das seleções principais masculina e feminina, houve uma quase unanimidade em apontar Marta como gênio e Neymar como uma decepção. Em três ou quatro jornais que vi, as manchetes vinham com fotos dos dois, ela comemorando, ele cabisbaixo. Quem toma o placar de 3 a 0 e a informação de que Marta marcou dois, sendo o primeiro um golaço, e que Neymar não conseguiu marcar um golzinho sequer na Venezuela, confirma a ideia transmitida pelas fotos nos jornais. No entanto, há que se ressaltar que a seleção feminina jogava muito mal até o gol de Marta. A atuação das meninas não foi além do que jogaram – ou deixaram de jogar – contra a Austrália. O gol de Marta – após cometer falta, diga-se de passagem, não marcada pela arbitragem – abriu caminho para o resultado e para a arte que se viu após. Vá entender as mulheres! Ou melhor: vá entender o futebol! A melhor explicação, creio, está justamente no gol, esse detalhe, como dizia Parreira, capaz de mudar toda uma tendência, toda a história de uma partida, às vezes de um campeonato.
Só que esse mesmo detalhe – no caso, é um detalhe de fato, um tanto inexplicável de se dizer o porquê de ter ocorrido aqui e não alhures – não aconteceu na partida contra a Venezuela. Ah, se aquele chute de Alexandre Pato não tivesse ficado no travessão! O Brasil começou implacável contra os venezuelanos. Os jogadores entenderam bem a proposta “catalã” de marcar a saída adversária: nos primeiros sete minutos, sete roubadas de bola no campo de ataque. Porém, como o esforço não foi idêntico nas finalizações, o time de Mano Menezes acabou arrefecendo seu ímpeto e entrando na modorrenta troca de passes sem objetividade. Sem o gol no início – que, quem sabe, poderia ter aberto a porteira para uma goleada – a seleção se perdeu em campo.
Sobre as imagens dos jornais, em que pese haver sentido na Marta sorridente e no lamurioso Neymar, não é nada impossível que nos próximos jogos os dois sejam novamente vistos com semblantes totalmente diferentes. A depender de um detalhe capaz de trazer o equilíbrio emocional necessário para os talentosos redescobrirem, de um momento a outro, o talento que jamais deixaram de ter.
***
Desculpas e “comprometimento”
O empate sem gols contra a Venezuela gerou uma série de explicações. Ou melhor, de desculpas, muitas delas nada criativas. O frio e o gramado cheio de buracos e areia são os fatores cuja citação é feita com mais vergonha. Além deles, há a pressão da estreia e a “nova” realidade do futebol mundial, onde “não há mais bobos”. Que o digam, além do Brasil, a Argentina e o Uruguai, que também não passaram de um empate contra Bolívia e Peru!
Aí a explicação já ganha certa sofisticação: a equipe adversária jogou fechada, dificultando as ações ofensivas do Brasil. Tal justificativa, contudo, recai no “dunguismo” de que a seleção só joga bem contra outras grandes seleções, que jogam mais abertas, que também têm a obrigação de vencer. Então, tá. É melhor jogar contra os fortes, o perigo são os fracos... No curto período de Mano, porém, já perdemos para Argentina e França, além de empatar com a Venezuela.
O pior “dunguismo”, porém, não foi esse, mas um certo “comprometimento”, palavra sacrossanta na época do antecessor de Mano, que significava, em suma, que jogadores que vinham de longo tempo no grupo sejam mantidos, ainda que outros estejam em melhor fase. Isso explica, por exemplo, os tantos volantes convocados para a Copa e as ausências de opções, até mesmo táticas, ao se deixar de levar para a África do Sul jogadores como Neymar e Ganso.
Mas, no caso de Mano, o tal comprometimento se deu justamente com Ganso. O santista, tido como fundamental para o novo esquema da seleção, foi mantido na partida, ainda que claramente estivesse perdido em campo e errando muitos passes. Os “milaneses” Robinho e Pato, que vinham relativamente bem – para mim, Pato foi o melhor brasileiro na partida –, saíram para dar lugar a Fred – por que Fred ? – e Lucas; Ganso e o esquema foram preservados. Eis o comprometimento: a preservação de um jogador e de um esquema a qualquer custo. Mano confiou até o fim que, mais cedo ou mais tarde, em um lance, as coisas dariam certo e se encaixariam. Há de se respeitar a opção do treinador. No entanto, também há que se preocupar com o fato de que alternativas táticas devem ser consideradas e que o técnico tem que ser corajoso para tirar de campo quem for necessário.
O problema do Brasil não era tanto o ataque – apesar de as finalizações serem um ponto a se melhorar, e muito! –, mas, sobretudo, a articulação. Sem a bola, o Brasil marcava à frente e a roubava até com certa facilidade. Mas, mesmo com a bola nos pés durante a maior parte do jogo, não sabia como chegar ao gol venezuelano. Pelos lados, tanto André Santos como Daniel Alves não apoiaram com eficiência. Pelo meio, Ramires partia destrambelhado com a bola, sem passar para ninguém, até trombar no marcador adversário. E Ganso, o principal responsável pela articulação das jogadas – quiçá, sobrecarregado –, subia à frente e muitas vezes não voltava para assumir sua principal função de distribuir a bola no meio-campo.
Aposta: Elano deve jogar na próxima partida, com o objetivo de ajudar Ganso no meio, mas sem se descuidar da marcação. Ramires ou Robinho deve pagar o pato (ou o ganso?).
Por fim, uma explicação que merece crédito: a falta de entrosamento. Só se faz o esquema sair do papel e ir à prática com muita repetição, muitas tentativas e erros, muitos jogos. E o Brasil de Mano jogou pouco. Para ser exato, o time considerado ideal, tirando uma “peça” aqui, outra ali, só atuou contra os Estados Unidos e contra a Venezuela, a primeira e a última partidas sob o comando de Mano Menezes. Sim, há que se ter paciência e confiança na capacidade do treinador. Que, aliás, já provou merecê-la. No entanto, este também há de nos convencer que possui um plano B ou C, caso o jogo não esteja fluindo. Se pudesse palpitar, diria que este plano alternativo passa necessariamente por Lucas, o do São Paulo.
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De bico também pode
Neymar precisa entender que gol de bico também vale. A propósito, eis um problema que nada tem a ver com o treinador, cujas declarações cobrando objetividade do jovem talento santista são abundantes na imprensa. Neymar precisa perder o cacoete do preciosismo. Ouvir o que diz Mano e, se quiser, rever o que fazia muito o hoje responsável pela gestão de sua carreira, Ronaldo Fenômeno.
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Falta de fair-play e falta (e abuso de) autoridade
Um lance foi muito comentado na partida entre Brasil e Venezuela. Com o jogador venezuelano Miku caído, Ganso prosseguiu uma jogada. Sem ouvir ou sem perceber os clamores para que chutasse a bola para fora de campo, Paulo Henrique tocou para Neymar que arrematou para fora do gol. Ato contínuo, os jogadores da Venezuela partiram para cima, reclamando da “atitude anti-desportiva” de PH. Para piorar, na saída para o intervalo, o técnico venezuelano César Farias partiu para cima de Neymar para tirar satisfações, ao que teria sido empurrado por Mano Menezes.
O que chama a atenção no “causo” não é apenas a falta de fair-play deste ou daquele lado, mas a falta e o abuso de autoridade. No caso de Ganso, não consigo entender por que um jogador deve parar a jogada para o atendimento de outro, e não o árbitro. A ideia é que o juiz não tem autoridade para parar a partida, dependendo do “bom senso” de quem tenha a posse momentânea da bola. Com certo exagero, é como o Estado deixar de assumir responsabilidades que são suas, fingindo que aquelas são dos cidadãos. Quer dizer, os venezuelanos deveriam ter partido em cima do juizão, e não do jogador brasileiro.
Por outro lado, a atitude do treinador da Venezuela, “tirando satisfações” – o que, ressalte-se, é muito comum também entre jogadores dentro de campo, especialmente quando avaliam que outros estão simulando faltas – é outra falta de fair-play, para não dizer um abuso da autoridade, dada a condição de “professor”, não apenas decorrente da falta de bom senso, mas também do vácuo de autoridade deixado pela arbitragem.
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O último bobo e o fim dos gigantes
Bolívia, Peru e Venezuela fizeram bonito na estreia. Não venceram, mas deixaram de ser goleadas – melhor: deixaram de perder! – pelos “gigantes” Argentina, Uruguai e Brasil, todos campeões mundiais.
Lembro-me quando era uma vergonha não golear a Colômbia ou o Equador. Há muito isso deixou de existir, já que após Valderrama e companhia, de um lado, e Aguinaga e companhia, de outro, essas duas seleções passaram a ser bem mais respeitadas. Outras, como o Peru e a Bolívia, oscilam momentos bons e ruins. Já a Venezuela, apenas há pouco tempo ganhou o status de “time a ser respeitado”. Penso que a Venezuela, inclusive, seja o último dos "bobos" sul-americanos, deixando o continente sem essa espécie futebolística. Melhor para o esporte bretão. Muito embora os outrora gigantes – mesmo o Uruguai, também há pouco renascido à condição de “uma das melhores seleções” – tenham, por seu lado, se apequenado. Ainda assim, aposto: Brasil, Argentina ou Uruguai será o campeão desta Copa América.
JFQ
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Por uma solução realmente majestosa
Após o 5 a 0 contra o São Paulo, com direito a frango do ídolo Rogério Ceni, o diretor de marketing do Corinthians, Luis Paulo Rosenberg, lançou a campanha: faltam 19 gols para o Timão fazer o centésimo sobre Ceni. A provocação é uma resposta ao tão propalado centésimo gol do goleiro, feito sobre o alvinegro, em partida realizada em março. Além disso, é mais uma resposta – como se não bastasse o baile no último jogo – aos tricolores que afirmavam que Rogério faria o centésimo gol, pela segunda vez, contra o arquirrival, já que a FIFA reconhece apenas 99 dos tentos anotados pelo arqueiro.
Essas são provocações que fazem parte do futebol. A rivalidade entre as torcidas é um ingrediente fundamental para que o esporte bretão seja tão popular e, por que não dizer, elemento relevante na cultura nacional. E a rivalidade entre corinthianos e são-paulinos, em particular, no chamado Clássico Majestoso, é uma das principais, indubitavelmente, do futebol brasileiro.
Intróito feito, há que se realçar uma disputa nada majestosa que vem se travando entre alvinegros e tricolores. Uma disputa que vai muito além das quatro linhas e que abrange dinheiro público e a possibilidade de desenvolvimento de uma região carente da capital paulista.
O último capítulo da novela do estádio da Copa do Mundo de 2014 foi a aprovação de R$ 420 milhões em incentivos fiscais pela Câmara Municipal de São Paulo para a construção Fielzão, projeto de “casa” do Corinthians. Após dois turnos de votações, os incentivos foram aprovados por 39 votos contra 15 e uma abstenção. Além disso, foi aprovado substitutivo do Executivo que condiciona os incentivos à realização da abertura da Copa do Mundo em São Paulo e que o governo abra em até 60 dias um novo edital para que haja isenção fiscal para as empresas interessadas em se instalar na Zona Leste.
Em minha modesta opinião, sopesados os prós e contras, os custos e benefícios da aprovação ou não, a solução parece ter sido razoável. Há bons argumentos de lado a lado, assim como há discursos demagógicos e eleitoreiros para atingir, por um lado, os que não admitem que São Paulo esteja fora do Mundial ou, por outro lado, aqueles que associam tudo o que diz respeito à Copa com falta de ética, com corrupção e, na melhor das hipóteses, com falta de mentalidade cidadã. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Do jeito que ficou, como amante do futebol e como cidadão paulistano, confesso que fiquei satisfeito. Contempla o desejo – legítimo! – da maior cidade do país em participar deste evento caríssimo (em todos os sentidos) aos brasileiros, os interesses – também legítimos! – de inserção da Zona Leste no desenvolvimento da capital e as cautelas – fundamentais! – para que recursos públicos não sejam aplicados tão-somente para a contemplação de interesses privados e/ou em projetos indevidos.
***
Este desfecho, contudo, não se deu sem discussões ríspidas e acusações. Acusações, inclusive, de que interesses e sentimentos clubísticos estariam acima do interesse público. No caso, interesses e sentimentos de corinthianos e de são-paulinos.
O mais engraçado é que tanto os favoráveis à concessão das isenções, como os contrários, arrogam-se na condição de patriotas em defesa do bem nacional. Afloram-se os ímpetos de grandiosidade patriótica naqueles que bradam pela necessidade da concessão, num indisfarçável tom de chantagem, uma vez que sem elas não haverá estádio paulista na Copa, uma vergonha municipal, estadual e nacional, além de que a pobre região de Itaquera jamais terá semelhante oportunidade de desenvolvimento econômico e social. Já os contrários vociferam pela injustiça, falta de ética e inconstitucionalidade das isenções, tratando-se de um clube rico e de uma empreiteira milionária, beneficiados por uma graça estatal, via de regra, negada aos comuns empreendedores.
O fato é que a Copa está aí e São Paulo, por meio de seus representantes, precisa decidir se quer ou não participar do evento. Claro que a questão não é tão simples, há outros tópicos a serem considerados. Não foi São Paulo – a cidade – que tirou o estádio do Morumbi logo no início, considerado palco certo da abertura. Também os cidadãos paulistanos não foram consultados se desejavam que seus recursos fossem investidos neste evento, muito embora seja bem provável uma aprovação maciça à participação da cidade na Copa, em que pese o discurso moralista de quem não se conforma até agora que o Brasil tenha sido escolhida para ser a sede da Copa de 2014 e também das Olimpíadas de 2016.
A propósito, apesar de legítimo o voto contrário aos benefícios fiscais à Odebrecht e ao Corinthians dado vereador Aurélio Miguel, campeão olímpico e conselheiro do São Paulo Futebol Clube, bem como por outros onze membros da edilidade paulistana, parece um tanto forçada a atitude de, perdida a batalha no plenária da Câmara, recorrer ao Ministério Público aventando a inconstitucionalidade da medida.
Enfim, tanto os favoráveis como os contrários aos benefícios podem fundamentar seus votos nas razões e interesses mais condizentes com o interesse público, como podem valer-se das motivações mais torpes. Não é o ser a favor ou ser contra, pura e simplesmente, que evidenciará o patriotismo ou a malandragem implícita na decisão do “nobre” edil. Ainda assim, o resultado do imbróglio talvez tenha sido o melhor, dada a circunstância.
JFQ
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Como votaram os vereadores
Sim
Adolfo Quintas (PSDB)
Agnaldo Timóteo (PR)
Alfredinho (PT)
Atílio Francisco (PRB)
Carlos Apolinário (DEM)
Claudinho (PSDB)
Claudio Prado (PDT)
Dalton Silvano (sem partido)
David Soares (PSC)
Domingos Dissei (DEM)
Edir Sales (DEM)
Eliseu Gabriel (PSB)
Everson Marcos de Oliveira (PSDB)
Francisco Chagas (PT)
Gilson Barreto (PSDB)
Goulart (PMDB)
Ítalo Cardoso (PT)
Jamil Murad (PCdoB)
José Américo (PT)
José Police Neto (sem partido)
José Rolim (PSDB)
Juliana Cardoso (PT)
Juscelino Gadelha (sem partido)
Marta Costa (DEM)
Milton Leite (DEM)
Milton Ferreira (PPS) Natalini (sem partido)
Netinho de Paula (PCdoB)
Noemi Nonato (PSB)
Paulo Frange (PTB)
Quito Formiga (PR)
Roberto Tripoli (PV)
Salomão (PSDB)
Senival Moura (PT)
Souza Santos (sem partido)
Toninho Paiva (PR)
Ushitaro Kamia (DEM)
Victor Kobayashi (PSDB)
Wadih Mutran (PP)
Não
Abou Anni (PV)
Adilson Amadeu (PTB)
Antonio Carlos Rodrigues (PR)
Arselino Tatto (PT)
Attila Russomanno (PP)
Aurelio Miguel (PR)
Aurélio Nomura (PV)
Carlos Neder (PT)
Chico Macena (PT)
Claudio Fonseca (PPS)
Donato (PT)
José Ferreira, o Zelão (PT)
Marco Aurélio Cunha (DEM)
Sandra Tadeu (DEM)
Tião Farias (PSDB)
Não votou
Celso Jatene (PTB)
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sexta-feira, 1 de julho de 2011
O vôo de Falcão e a crise do Galo
O Atlético Mineiro parece ter se especializado em apagões durante as partidas. Contra o Flamengo, no último domingo, o time de Dorival Junior ia muito bem, vencia por 1 a 0, até que Ronaldinho Gaúcho, com um golaço, empatou a partida. Se ficasse por aí, ainda vai. O problema é que outros três gols flamenguistas se seguiram, selando o placar final de 4x1 para a equipe carioca, e demonstrando a extrema fragilidade defensiva que acomete o time mineiro ao sofrer um gol.
Ontem, jogando diante de sua torcida, em Sete Lagoas, a história não foi muito diferente. Até o placar foi semelhante: 4 a 0 para o Internacional. Todos os gols foram marcados no segundo tempo. Ou seja, para o Atlético, o princípio segundo o qual onde passa um boi, passa uma boiada, está virando lei.
O problema do Galo parece até mais psicológico do que técnico ou tático. Dorival Junior, que já salvou o time de um iminente (segundo) rebaixamento no ano passado, terá que ir além das boas “peças” e da sua organização em campo para fazer um campeonato em que o Atlético, uma vez mais, não passe o constante sufoco do risco de retornar à Série B. Quanto aos jogadores, muito embora haja setores carentes, não se pode dizer que um elenco composto, dentre outros, por Rever, Dudu Cearense, Richarlyson, Daniel Carvalho, Guilherme e Mancini é um elenco fraco. Talvez tenha uma média de idade um pouco acima do desejável, mas não é ruim.
Quanto ao esquema de jogo, o Atlético marca bem e procura tomar as ações, especialmente com Richarlyson e Daniel Carvalho, em busca dos atacantes, Magno Alves e Guilherme. No entanto, Guilherme, apesar de rápido, não está bem, errando passes e fracassando nas tentativas de superar os zagueiros. Além disso, o Galo não consegue recompor seu sistema defensivo quando perde a bola; daí, vários dos contra-ataques adversários resultarem em gol.
Sim, tanto o Flamengo como o Inter tiveram méritos; e muitos! Porém, há algo de muito errado pelos lados do alvinegro de Belo Horizonte, especialmente na cabeça dos seus jogadores, e que ajuda a explicar as duas goleadas consecutivas.
Por outro lado, o Inter parece ter voltado a ocupar – como nos últimos anos – seu posto na lista de favoritos ao título. Falcão conseguiu dar um novo encaixe ao Colorado, já bastante entrosado – a maioria dos jogadores atua junta há um bom tempo –, com destaque para três (mais ou menos) novos reforços: Leandro Damião, Zé Roberto e Oscar. Este último, aliás, fez uma partida primorosa ontem, dando assistência, distribuindo bolas e marcando gol.
Se era contestado nos primeiros jogos, Falcão, que chegou a se desentender com seus antigos colegas de imprensa, mostra que não retornou aos campos à toa. É bom que o levem a sério.
JFQ
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quinta-feira, 30 de junho de 2011
Comentários periféricos sobre uma importante vitória
Bahia 0x1 Corinthians
Brasileirão 2011
Rafael Soares
Um resultado importante que veio com muito sufoco. Diante de Pituaçu lotado e de um Bahia desfigurado, sem muitos de seus titulares, o Corinthians arrancou uma importante vitória que lhe garantiu a liderança do campeonato.
Escrevo para falar menos do jogo como um todo e mais de algumas coisas específicas. Em primeiro lugar me impressionou positivamente a vontade e o empenho que o jogadores do Corinthians demonstraram na marcação. A aplicação era tanta no primeiro tempo que me perguntava se iria sobrar algum fôlego para o segundo. E sobrou, pois a "pegada" continuou similar.
Como já anunciei que não faria nenhuma análise sistemática da partida, volto agora minha atenção às novas peças do elenco que entraram no segundo tempo. Diante da pressão imposta pelo Bahia, Alex e Sheik pouco fizeram. Porém, me preocupa menos o que produziram ou deixaram de produzir nesta partida e mais a atitude, dentro e fora de campo, do segundo. Das duas partidas que vi, fiquei receoso com uma certa firula sem propósito do Sheik e do que escreveu no seu twiter após a goleada contra o São Paulo. É preciso ter mais objetividade e seriedade dentro das quatro linhas e não é com um jogo que se vira "mais um louco do bando", isso leva tempo e comprometimento. Por fim, acredito que seja melhor deixar que os torcedores façam as piadas e ironizem os adversários.
* Rafael Soares, corinthiano, é colaborador do Ludopédicas.
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Colaboração,
Corinthians
Jogando pela janela
Antonio Prata
Curiosos são os caminhos do engenho humano. Tome o caso do futebol e das janelas, por exemplo. Por mais de cem anos, os dois viveram isolados, sem que nenhum torcedor percebesse o potencial lúdico e ofensivo desta união. Eis então que, em algum momento da década de 90 do século passado, a centelha da inventividade espocou nos neurônios de um boleiro, trazendo-lhe a brilhante ideia de escancarar as persianas, cravar as mãos na esquadria e dividir com o quarteirão suas fantasias mais íntimas: "Chuuuuuuupa porco!". Estava criada, assim, uma nova forma de comunicação: o insulto-futebolístico-intercondominial.
Embora já faça mais de uma década que, pelas janelas do meu bairro, porcos, bambis, peixes e gambás intimem-se mutuamente à felação, ainda não consegui me acostumar com o fenômeno. Toda quarta e domingo, salto do sofá ao primeiro grito, deixando cair das mãos o livro ou o controle remoto, crente que está pegando fogo no prédio, que estão assaltando o apartamento de cima. Fecho as janelas, aumento o volume, mas é difícil me concentrar com as imagens que cruzam o céu da cidade, dignas de um quadro de Bosch, de um dos "Caprichos de Goya", de uma versão hardcore da Arca de Noé, por Robert Crumb: homens com camisetas de seus times, as calças arriadas, recebendo fellatios de peixes, porcos, de gambás, do Bambi.
A relação entre o esporte bretão, a zoofilia e o sexo oral é um mistério a ser desvendado por psicólogos, cientistas sociais e semiólogos. A este modesto cronista cabe apenas levantar perguntas mais simples. Por exemplo: se desde o início da humanidade há janelas e discórdias, por que foi somente o futebol que deu às fenestras o atual status de arena?
Ou estarei errado, e nas noites estreladas da Grécia antiga ecoavam provocações como "chuuuuuupa, tebano frouxo!", "cala a boca, espartano maloqueiro!"? Terão as vozes se levantado entre os muros dos castelos, defendendo protestantes e católicos: "Vaaaaaai Luteroooo!", "Eô, eô, torquemada é um terror!"?
Acredito que não. Se a comunicação intercondominial já existisse no passado, teriam chegado até nós outros exemplos, para além das tranças de Rapunzel. Ao que parece, o fenômeno é recente e está só começando. Pelo que noto aqui em Perdizes, já não se restringe ao ludopédio. Várias vezes por semana, alunos do Mackenzie urram, de forma nada polida, sua superioridade sobre os estudantes da PUC, ao que os filhos da PUC respondem, na mesma altura e baixeza; um tal de Arthur tem sido constantemente insultado, e há também meras manifestações de júbilo, encarnadas neste gritinho tão irritante que, desde o surgimento do Big Brother, disseminou-se como uma praga pelo país: "Uhu!".
Faz algumas semanas, li neste caderno que uns prédios já estão multando seus condôminos berrões. Acho bom. E iria além: em caso de reincidência, o linguarudo deveria perder o direito à janela, assim como um motorista inábil perde a habilitação. Acimentem-se as fenestras: o sujeito terá que viver para sempre num cubo sombrio, ouvindo o eco das próprias palavras e refletindo sobre seus obscuros significados.
antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata
FOLHA.com
Blog "Crônica e Outras Milongas"
antonioprata.folha.blog.uol.com.br
*Publicado na Folha de S.Paulo, em 29/06/2011.
Tragédia argentina
Das dores que sofre um homem na vida, são particularmente intensas aquelas causadas pelo time do coração. Quem não sofreu uma derrota daquelas em que a gente passa dias e dias sem se conformar? O que dizer, então, de uma desclassificação. Ou da derrota em final de campeonato!
Porém, dessas dores ludopédicas, nada se compara à de um rebaixamento. Falo com propriedade, já que a sofri há poucos anos. Em 2007, para ser mais preciso, quando “meu” Corinthians passou pelo vexame do descenso no certame nacional. Assisti a toda aquela fatídica partida contra o Grêmio sentado no chão da sala, com a televisão sem volume. Na verdade, não assistia ao jogo, mas rezava. Ou, talvez, observava aquela movimentação de jogadores como quem vê um moribundo na cama, à beira da morte, implorando para que o quadro crítico seja revertido. Em vão...
Quando o árbitro apita o final da partida, também encerra a esperança e abala profundamente o orgulho atrelado àquela camisa e àquele escudo. Emerge ali uma sensação amarga de incredulidade, de impotência, de indignidade, de vergonha e, ao mesmo tempo, de raiva. Os gritos e xingamentos durante a partida dão lugar às lágrimas e, depois, à revolta. Não são incomuns as reações violentas como as observadas no Couto Pereira, em Curitiba, em 2009, ou como as que acometeram Buenos Aires, domingo passado, após a queda do tradicionalíssimo River Plate, equipe da preferência de 18 milhões de argentinos e dono de 33 canecos nacionais, 2 Libertadores e um mundial interclubes.
Apesar das aparências, em que pese a frieza do juízo gerado pelas imagens incontestes, toda aquela revolta quiçá não se deva a simples vândalos, como vociferam os racionais comentaristas de ocasião, mas a seres humanos, demasiado humanos. Afinal, futebol, acima de tudo, é paixão; para os argentinos, em especial, alguns níveis acima do padrão médio de passionalidade, é mais uma fonte de tragédia!
Óbvio, não justifico a violência e os atos de vandalismo. Sim, têm que ser punidos os responsáveis, doa a quem doer, sem a desculpa de que agiram sob “forte emoção”. Por outro lado, não deixo de tentar entender o fenômeno: o futebol não é mero jogo, mas paixão; não se trata de um confronto de “peças” movidas sob a lógica de planos táticos, mas de homens que representam uma camisa e uma história, inspiradoras de orgulho em milhões de fiéis apaixonados.
Aos hermanos torcedores do grande clube de Nuñez, vai aqui uma dica de quem já sofreu essa experiência e sua peculiar dor: ao fim e ao cabo, sejam otimistas. Sim, até porque há razões para sê-lo. Nada melhor que o dia seguinte e a busca por sair do fundo do poço para que se reavive o brio e o amor ao time. O orgulho ferido é uma grande força para que se façam revoluções. E o rebaixamento é uma clara evidência de que certa revolução clubística é necessária. Prova disso é que, via de regra, os clubes que passaram por semelhante vexame, lotaram seus estádios no decorrer na campanha na segundona, viram seus torcedores renovarem seu amor ao escudo – aliás, não há momento mais apropriado para que o torcedor queira mostrar sua paixão pelo clube do que na luta pela volta à primeira divisão –, e conseguiram o ascenso logo em seguida. Que o digam, além do Timão, outros grandes brasileiros como o Atlético Mineiro, o Coritiba, o Grêmio, o Palmeiras, o Botafogo, o Bahia, o Fluminense.
Se isso ocorre na terra de Garrincha e Pelé, também deve acontecer no país de Messi e Maradona.
JFQ
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Estreia com vitória. E sufoco
Brasil 1x0 Austrália
Copa do Mundo de Futebol Feminino
Terminou há pouco a partida entre Brasil e Austrália, pelo Mundial Feminino, na Alemanha. Em busca do primeiro título, nossa seleção obteve uma vitória magra, por um a zero, mas importantíssima para a classificação. No grupo do Brasil (Grupo D), além da Austrália, também estão Guiné Equatorial e Noruega (ver classificação: http://globoesporte.globo.com/futebol/mundial-feminino/#/classificacao-e-jogos ).
Embora tenha somado os três pontos, nossa seleção mostrou falhas que precisam ser sanadas. Tanto no primeiro tempo, como depois do gol de Rosana, aos 9 minutos do segundo, o Brasil conteve muito mal as seguidas investidas da seleção australiana. Em uma oportunidade, inclusive, aos 42 da segunda etapa, a jogadora australiana Vanna só não marcou um gol “feito” porque forçou demais na tentativa de encobrir a goleira Andreia. Mera questão de azar (delas).
Além das dificuldades da defesa brasileira em contem as subidas das adversárias, o meio-campo também foi bastante ineficiente em organizar ataques, apesar da presença da genial Marta. As melhores subidas do Brasil foram pelas pontas, não obstante os cruzamentos raramente encontrarem alguém na área para finalizar.
O dia foi de pouca inspiração, mas conseguimos o que mais interessa em uma estreia: a vitória. Aliás, tomar sufoco faz parte de uma espécie de tradição nas estreias de mundiais, femininos ou masculinos.
Espera-se que a partir da próxima partida, contra a forte Noruega, dia 3/7, o escrete de Marta, Cristine, Érika, Formiga, Maurinne e companhia, além de vencer, também convença. Provavelmente, será o jogo a definir a primeira classificada do grupo.
JFQ
terça-feira, 28 de junho de 2011
Corinthians, o único
Único invicto entre os paulistas neste Campeonato Brasileiro; único time a derrotar, e golear, o líder São Paulo até aqui; único a jamais ter feito a festa que os santistas fazem pela terceira vez, assim como os tricolores já fizeram outras três e os palmeirenses ao menos uma; este é o Corinthians, único também entre os grandes de São Paulo sem casa própria.
E foi no Pacaembu, na casa que virou sua sem sê- -la, que o Timão se aproveitou dos desfalques são- -paulinos e o venceu sem dificuldades depois que o tricolor ficou com dez em campo, ainda no primeiro tempo.
Os 5 a 0 foram a exata tradução da superioridade alvinegra, coroada com olé e uma infinidade de bolas entre as pernas.
Pois o Corinthians é tão grande, e aparentemente tão mais importante que os rivais, embora não possa concorrer com nenhum deles na relevância dos troféus conquistados, que impressiona como nenhum de seus adversários festeje coisa alguma sem fazer questão de lembrá-lo.
Se é ainda polêmica a tese freudiana sobre a inveja que a mulher teria do pênis, parece indiscutível o ciúmes que o tamanho da torcida corintiana desperta em seus concorrentes.
Porque não há outra explicação para as inúmeras agressões à nação corintiana em meio aos mais que justificados festejos praianos, assim como acontece quando a festa é alviverde ou tricolor - ou até mesmo rubro-negra e colorada.
Se é raro que o Corinthians tenha uma direção que chame a atenção por suas qualidades, como na época dourada da "Democracia Corinthiana", é frequente que se veja apontados entre os defeitos do seu comando os mesmos que se apresentam nos demais clubes.
E se o Corinthians não é o único dos grandes paulistas a conhecer a segunda divisão, só ele ganhou o primeiro Mundial de Clubes da Fifa, apesar de também apenas ele ter o título contestado.
Quem sabe um dia o Corinthians seja visto como mais um, depois de ganhar sua Libertadores e inaugurar o seu estádio, sobre o qual, com razão, pairam as mesmas críticas que um dia recaíram sobre o Morumbi, justa ou injustamente.
Porque imaginar o Corinthians com torcida menor do que alguém é perda de tempo, o que deixa um único caminho aos rivais: o de se dar conta que se nem festa são capazes de fazer sem lembrar a existência corintiana é porque importante mesmo é quem é sempre lembrado.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 27/06/2011.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Invictos e renascidos, entre o chocolate e o desandar da maionese
Corinthians 5x0 São Paulo
Mesmo após o sacolejo que tomou no Pacaembu, ontem, o São Paulo continua líder do campeonato brasileiro. Na minha modesta opinião, o 5 a 0 se explica menos pela expulsão de Carlinhos Paraíba – justa, diga-se de passagem –, do que pela perda de parte importante do elenco Tricolor: Lucas, Casemiro, Miranda, Rhodolfo. O São Paulo começou bem o clássico; quiçá, começou melhor que o Corinthians. Os dois times, aliás, partiram para a partida com proposta igual: marcação em cima e velocidade nas subidas, especialmente em contra-ataques.
O São Paulo manteve Dagoberto e Fernandinho bem abertos, enquanto Marlos buscava a ligação. A revelação são-paulina Wellington marcava bem no meio-campo, apesar de nitidamente nervoso durante toda a partida. Enquanto esteve em campo, Carlinhos Paraíba desempenhou importante função de marcar e de auxiliar Marlos na ligação com o ataque. Os jovens Bruno Ovini, Luiz Eduardo e Bruno Caio não tiveram um mau desempenho, mas a ausência de entrosamento pesou.
Do lado corinthiano, ainda mais motivado por conta da última derrota para o rival, a marcação também foi implacável – destaque para Paulinho e Ralf – e os ataques eram feitos também pelos flancos, com Willian pela direita e, principalmente, com Jorge Henrique e Danilo pela esquerda.
Pode-se dizer que foram duas partidas distintas: o primeiro tempo, muito equilibrado, e o segundo, quando o Timão deu baile. Após o primeiro gol, do ex-são paulino Danilo, só deu Corinthians. Com um a menos e precisando atacar, o Tricolor se abriu e, para piorar, os jogadores do alvinegro não mais erraram passes. Além disso, o até então adormecido Liedson resolveu compensar todas as atuações apagadas neste campeonato, mostrando todo seu talento de atacante matador: marcou três gols seguidos. Para fechar com chave de ouro, até o ídolo tricolor Rogério Ceni, que poderia marcar seu centésimo gol em jogos oficiais – justo contra o Corinthians, em quem fez o centésimo da carreira! – sofreu um frango no chute de longa distância de Jorge Henrique.
Em outras palavras – palavras boleiras –, enquanto desandava a maionese são-paulina, o Corinthians aproveitou para aplicar um chocolate.
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Flamengo 4x1 Atlético Mineiro
Um enredo muito parecido foi observado na partida entre Flamengo e Atlético Mineiro, no Engenhão. Neste caso, o Galo também começou bem a partida, mantendo uma vitória parcial de 1 a 0, dos 7 até os 21 minutos do segundo tempo, quando Ronaldinho Gaúcho marcou um golaço. A partir daí, o Mengo acertou seus passes, Ronaldinho resolveu renascer das vaias para o futebol, senão primoroso, minimamente bem jogado, como dele se espera. Além dele, Deivid, que entrou no lugar de Wanderley, também surpreendeu – ao menos, os acostumados com o fraco desempenho das suas últimas atuações – e marcou dois gols. Thiago Neves, em boa partida, também marcou o dele. Destaque ainda para Renato Abreu, marcando bem e ajudando na distribuição das jogadas e investidas ao ataque.
Resumindo, assim como no Majestoso jogado no Pacaembu, de uma hora para outra, o que parecia equilíbrio tornou-se uma mistura de chocolate rubro-negro com maionese mineira desandada.
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Detalhe: Corinthians e Flamengo são os dois únicos invictos do campeonato.
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Detalhe: Corinthians e Flamengo são os dois únicos invictos do campeonato.
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Palpite: o Corinthians é forte candidato ao título brasileiro deste ano. O São Paulo, apesar da goleada, e o Flamengo, feitos alguns ajustes, também devem permanecer nas primeiras colocações no decorrer do certame. Vasco, Cruzeiro e Internacional também merecem respeito. E que todos eles tenham muito cuidado com o Santos, especialmente quando o Peixe deixar a comemoração da Libertadores para trás e estiver com elenco completo e compenetrado neste campeonato que é especialidade do professor Muricy.
JFQ
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sábado, 25 de junho de 2011
Dois meninos
O ano: 1950. O menino brincava enquanto o pai ouvia o rádio com máxima atenção. O pai, jogador de futebol profissional, dissera ao garoto que aquela era a mais importante partida da história do país. Uma final de Copa do Mundo disputada no Brasil, em que a seleção nacional, com seu glorioso uniforme branco, disputaria, favorita, a taça contra a celeste uruguaia. O menino, vendo a seriedade no semblante do pai, compreendia, na sua forma de criança, o quão relevante era aquele jogo de bola para os adultos; para seu pai, em especial. Apesar de continuar brincando, não deixava de atentar para as reações e humores do velho por um segundo sequer. Assim, sorriu quando o pai comemorou o gol da seleção, ficou apreensivo quando ocorreu o empate e arrasado quando um tal de Ghiggia marcou o tento da virada. Só não chorou como o pai, que foi às lágrimas quando o jogo acabou e o Brasil, apesar do favoritismo, de ter Zizinho e de jogar em casa, perdeu um Mundial que todos davam como ganho. Com um sorriso envergonhado, o menino se aproximou do pai e disse, amoroso:
- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.
Quando o Uruguai bateu o Brasil naquela final de Copa, o tal menino tinha apenas nove anos de idade. Oito anos depois, aos dezessete, participou da campanha brasileira na Suécia, quando nossa seleção, jogando ora de amarelo, ora de azul, conquistou seu primeiro título mundial. A partir de então, o Brasil tornou-se o maior vencedor de mundiais e o status de país do futebol; o tal menino tornou-se o rei desse esporte. E o Santos, o time que o revelou, até hoje é conhecido como o mais completo e vencedor clube enquanto Pelé desfilou seu imenso talento pelos gramados do país e do mundo.
O ano: 2003. O mesmo Santos, pela primeira vez após a despedida do seu maior astro, disputava uma final de Libertadores. Com o rei, conquistara dois títulos; o primeiro contra o Boca Juniors, da Argentina, e o segundo, contra o Peñarol, do Uruguai. Mas isso ocorrera há quase quarenta anos. Desta vez, o adversário era novamente o Boca, o mesmo da primeira conquista. Outros meninos brilhantes haviam surgido na Vila famosa, a confiança era total. Não obstante, os argentinos tinham vencido o primeiro jogo, lá, por dois a zero. Nada que não pudesse ser revertido na finalíssima, em casa. Entre tantos torcedores, um homem assistia à partida pela televisão, enquanto o filho de onze anos brincava ao lado. Sim, brincava, mas não deixava de observar a peleja, nem de reparar nas reações e humores do pai. Quando a partida acabou, percebeu que a derrota por três a um para os argentinos, com Robinho e tudo, arrancara, além de alguns xingamentos, uma lágrima do pai. E, docemente, tentou consolá-lo:
- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.
O pai sorriu, apesar da dor da derrota. Notara a semelhança com a história do outro menino. Só não podia imaginar que o consolo do filho não era mera coincidência, mas o destino novamente escrito pela boca e pelo talento de outro menino, o seu Junior. Oito anos depois, o Santos disputa novamente uma final de Libertadores, contra o Peñarol – sim, o mesmo do segundo título da América –, e ergue a taça pela terceira vez. Melhor: pela primeira, após a despedida do seu menino-rei dos gramados. Agora, o Junior é o novo menino-rei.
Eis as histórias de dois meninos que reverteram a história. Que, de certa forma, nos redimiram. De uma final melancólica, de derrota, reescreveram outra, vitoriosa, campeã. A história do menino Pelé ocorreu de verdade. Já a do menino Neymar... bem, nada há que prove a existência dos fatos relatados, pelo menos até a vitória contra os uruguaios, absolutamente verdadeira. E é isso o que importa: é verdade que esses meninos cresceram, viraram reis e trouxeram – e continuam trazendo –, com seu talento inigualável de tratar a bola, tantas alegrias e taças. E também é verdade que esses meninos nasceram e nascerão de tempos em tempos neste país. Meninos de favelas, de campinhos de várzea, de escolinhas. Meninos da Vila. Meninos do Brasil.
JFQ
Agora, quem dá bola na América
Santos 2x1 Peñarol
Santos campeão da Copa Santander Libertadores 2011
Rafael, um jovem e brilhante goleiro, com um futuro promissor. Danilo, também jovem, convocado para os times de base da seleção brasileira e, certamente, um jogador que vestirá a amarelinha principal no futuro próximo para atuar na lateral direita ou como volante. A dupla de zaga, a muralha praticamente intransponível: Edu Dracena, o capitão, e Durval, o cabra macho. Adriano, outro jovem talento, a princípio visto como um batedor, mas que evoluiu a bom marcador. Arouca, o elegante meio-campista, raro volante com categoria e inteligência – por falar em seleção, faz por merecer uma oportunidade. Léo e Elano: os representantes da geração de meninos da Vila precedente a esta, e que, apesar de já experientes, encaixaram-se perfeitamente nessa engrenagem vitoriosa. Zé Eduardo (ou Zé Love, para os íntimos... ou íntimas): o quase-matador, cuja movimentação na área adversária compensa a uruca na hora H de marcar o gol.
Por fim, eles, a dupla genial, esperança do futebol brasileiro em 2014: Ganso e Neymar. Aliás, “Ganso e Neymar” passou a ser uma expressão, uma mítica figura ludopédica, uma força futebolística, como a mágica linha de frente de outro Santos, o maior de todos. Quando o santista de hoje estufa o peito para falar “Ganso e Neymar” soa como uma atualização da consagrada “estrofe” repetida por seus pais e avôs: “Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe”. A continuidade dessa dupla já não interessa apenas aos santistas, mas a Mano Menezes, aos brasileiros e a quem aprecia o melhor do nosso futebol-arte-com-resultado.
Organizando tudo, o mestre Muricy Ramalho, que, a pretexto de trazer equilíbrio à equipe, trouxe a liderança que faltava, o comando de quase-pai, muito além da figura fria do estrategista.
Claro, não se pode esquecer dos demais jogadores que, de uma forma ou de outra, participaram dessa gloriosa campanha campeã: Jonathan, Pará, Alex Sandro, Alan Patrick, Bruno Rodrigo, Maikon Leite, Keirrison, dentre outros. Não se pode esquecer o presidente Luis Álvaro de Oliveira, que, a despeito da péssima imagem que têm os cartolas (não sem razão), mostra-se um inovador e um excepcional administrador do clube. Não se pode esquecer, ainda, daqueles que participaram da formação desse escrete tão vitorioso, desde há uns três anos, ora consolidado campeão de vários títulos: Dorival Jr., Wesley, André, Robinho...
Enfim, eis um time campeão, em uma fase esplendorosa, com (mais) uma geração de raros talentos. O tricampeonato da Libertadores fala por si, mas o brilho deste Santos não se resume a ela. Trata-se de um projeto em curso, que já soma dois paulistas, uma Copa do Brasil e agora, a América. No final do ano, quem sabe, contabilizará o maior de todos os títulos: o Mundial. Aí, caso não volte a zebra mazêmbica ou outra zebra qualquer, veremos, enfim, o embate que tanto se desejou de 2010 para cá: Xavi contra Ganso, Messi contra Neymar, Barça contra Peixe. Sim, não foi apenas o Santos que ganhou a América; é o mundo que está ganhando o que o futebol pode dar de melhor.
JFQ
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Milhões de detalhes levam à taça
José Roberto Torero
Este texto não é um. São dois. A primeira metade estou escrevendo no intervalo do jogo, no meio da torcida santista no Pacaembu (a ala dos jornalistas estava lotada). A segunda parte farei no fim do jogo.
Pois bem, após estes 48 primeiros minutos, minha conclusão, nada criativa, é que o jogo será definido por um detalhe. Digo isso não só pelo 0 a 0, mas principalmente pelo currículo dos clubes na fase de mata-mata.
Explico: o Santos sempre venceu seus oponentes por um e apenas um gol, somando-se os dois jogos.
Com o Peñarol deu-se a mesma coisa nas oitavas e nas quartas, e nas semis passou ainda com mais dificuldade, graças ao critério dos gols marcados fora de casa.
Ou seja, são dois times que sempre superam seus inimigos por pouco, que passam raspando sobre precipício, e hoje não há como ser diferente. Um detalhe, um lance fatal, uma jogada perfeita deve decidir o jogo.
Nestes primeiros minutos houve vários candidatos ao posto de jogada decisiva: dois chutes de Elano, um de Zé Love, uma grande chance de Léo e uma cabeçada de Durval. Da parte do Peñarol, houve belo chute cruzado.
Daqui a 45 minutos escreverei de novo. Talvez dizendo que minha tese foi perfeita, talvez dizendo que sou uma besta.
Fim do jogo. Sou uma besta. Não porque houve três gols, ou seja, três detalhes, mas porque pensei melhor e achei minha tese do lance decisivo uma bobagem.
Não foi o gol de Danilo que deu o campeonato ao Santos.
Foi também o tapinha salvador de Rafael, a saúde de Pará, os bicões de Durval, a cabeçada de Edu Dracena, a garra de Léo, a perna providencial de Adriano, a calma de Ganso, a eficiência de Elano, as boas antecipações de Arouca, o gol de Neymar, o suor de Zé Eduardo, a esperteza de Muricy. E todos os jogos e lances que fizeram o caminho do time até aqui, inclusive a conquista da Copa do Brasil.
Uma vitória não se faz apenas por um sim do time que vence, mas por vários nãos do time que perde. Os erros dos outros também contam.
São os milhões de detalhes que levam um time ao título. E o último gol, é claro, é o mais importante deles.
Agora, enquanto Pelé entra em campo, penso que ele foi o maior detalhe que já houve. Detalhe tão gigantesco que foi sempre uma sombra sobre o Santos. Mas agora não há mais sombra. O time de Neymar conseguiu a maior vitória da era pós-Pelé.
O Santos é o campeão da América do Sul. E isso não é um detalhe.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 23/06/2011.
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Santos
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Santos, tricampeão da Libertadores!
Em um jogo truncado, mas em que o Santos foi sempre superior ao Peñarol, o Peixe faturou o tricampeonato da Libertadores da América. O primeiro título pós-Pelé.
Parabéns, Santos! Campeão da Libertadores 2011.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Alguém explica?
Antero Greco
Como apaixonado por futebol, assim como você, preferia agora discutir o belo empate do Santos contra o Peñarol, anteontem, pela final da Libertadores. O time brasileiro ficou perto do tri, para honra de sua história gloriosa. Seria mais empolgante, também, falar do líder São Paulo, do vice-líder Corinthians e do imprevisível Palmeiras, ali entre os quatro.
Mas vou ser sincero: se na coluna de hoje eu me pusesse a abordar só a bola rolando, iria me sentir traidor. Isso mesmo: estaria a enganar a você e a mim. Na ordem natural das coisas, o mundo do futebol deveria girar em torno dos astros, dos treinadores, das polêmicas a respeito de quem é melhor, se o juiz errou ou com quem ficará o título. Era assim; agora não mais, infelizmente.
Por aqui, o esporte mais popular do mundo virou assunto de Estado e de interesse público, por causa dos preparativos para a Copa que a Fifa jogou no nosso colo. Não passa dia sem que sejamos surpreendidos por medidas que desafiam o bom senso e atingirão nosso bolso, em nome da boa organização do evento previsto para 2014.
Abro o Estado de ontem e vejo que é aprovada isenção de ISS para a Fifa, que já havia recebido outras benesses. O texto final carece de ajustes, mas o essencial está lá: a dona da Copa, que nem brasileira é, fica livre de imposto que toda empresa daqui paga. (Em São Paulo, todo mês religiosamente repasso 5% para a Prefeitura, sem perdão.)
Veja que curioso. A Fifa vira e mexe se zanga com algum governo que mete o bedelho na estrutura do futebol. Ela diz que isso é inadmissível, pois não se pode permitir que a política interfira no esporte. E pune o país em questão. Está certo que em geral ela propõe represálias para Confederações poderosas como as de Cochinchina, Longistão, Beleléu… O Brasil teve CPIs sobre futebol, há uma década, e não sofreu sanções.
Pois a Fifa apolítica, que celebrou um Mundial na Argentina sob ditadura sangrenta, dá seus pitacos em governos soberanos. Basta ver as exigências que faz de participação oficial para as Copas e as isenções fiscais que pede. Quer dizer, governo não pode intervir no futebol, mas a Fifa pode fazer com que estados deixem de arrecadar impostos.
Abro também a Folha de S. Paulo de quinta-feira e leio que o governo federal pretende manter sob sigilo os custos das obras para a Copa de 2014 e para os Jogos Olímpicos do Rio em 2016. Trocando em miúdos, é o seguinte: os gastos só serão fornecidos para órgãos competentes – os Tribunais de Contas –, quando o governo achar conveniente, e sob a condição de que não se tornarão públicos. Ficam fechados a sete chaves.
Dessa forma, não se saberá, por exemplo, se houve estouro em algum orçamento para esses eventos.
A alegação para a inclusão desse item na Medida Provisória 527 (que trata especificamente das duas competições) é a de que se corria risco de fraudes nas licitações. Agora, tudo se torna mais controlável. Também se diz que a constituição prevê sigilo, sempre que houver interesse do Estado e da sociedade.
Sei que assunto tão delicado foi estudado por gente muito mais preparada do que eu, que não passo de reles palpiteiro de esportes. Mas, preso à minha ignorância, me assaltam dúvidas. Uma delas: quanto mais transparentes forem as contas e as concorrências públicas, tanto melhor para todos? Ou não?
Não é de interesse da sociedade saber para onde vai seu dinheiro? Não é melhor para o governo escancarar o jogo, num momento em que as obras para a Copa despertam ceticismo no povo e nos deixam com um pé atrás? Não lutamos tanto contra censura e pelo estado democrático, justamente para debatermos com os governantes temas importantes para nossa vida? Já querem tornar eternos certos papéis oficiais. Agora, também os gastos para Copa e Olimpíada, que não são tão essenciais assim, ficarão trancados, longe de olhos curiosos?
Sei que é alta a probabilidade de estarmos a travar batalha perdida. Sei que são cada vez menos os órgãos de imprensa que se permitem fazer questionamentos. Sei que, à medida que se aproximar a Copa, com clima ufanista, serão vistos como chatos e antipatriotas Jucas, Trajanos, Calazans, Mauro Cézares, Salins e Malias da vida e outros que rechaçam o jornalismo chapa-branca. Mas esses, tanto quanto você e eu, são como o macaco Sócrates, do Planeta dos Homens, e candidamente afirmam: “Eu só queria entender”.
* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 17/06/2011, e em http://blogs.estadao.com.br/antero-greco/2011/06/17/alguem-explica/
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