quarta-feira, 1 de junho de 2011

É o Pet!


Fernando Matsumura

Ano de 2001. Final do campeonato carioca entre Flamengo e Vasco. Falta na entrada da área do Vasco. O tempo para aos 43 minutos do segundo tempo. O Flamengo vencia naquele momento por 2x1 e aquele gol poderia dar-lhe o tão sonhado tri. Todos os olhos se paralisam diante do camisa 10 rubro-negro. Ele pega a bola e carinhosamente a ajeita sobre o gramado. Daquela distância, nos tempos áureos de Zico, a torcida comemorava antecipadamente o gol. O jogador corre para a bola e....PAUSA.

A conquista do campeonato estadual de 1999 e 2000, credenciava o Mengão à disputa do tricampeonato carioca. A possibilidade de sagrar-se tricampeão sobre o arquirrival Vasco da Gama aumentava a ansiedade de todos. Talvez não muito para um jogador gringo (nasceu na Sérvia), de temperamento calmo, fala engraçada e nome de garrafa plástica: PETKOVIC.

Sob a veste do manto sagrado, Pet foi o jogador que mais honrou a camisa 10, após a Era Zico. Seus lançamentos perfeitos, as arrancadas em direção ao gol, a força do chute, tanto com o pé direito como o esquerdo, os golaços olímpicos, mas, principalmente, a maneira como batia uma falta faziam os torcedores mais nostálgicos se arrepiarem. No entanto, sua bela passagem pelo Flamengo só durou até 2002.

Em 2009, aos 36 anos, desacreditado no meio futebolístico, o ídolo rubro-negro regressou ao clube e protagonizou uma das conquistas mais marcantes da história do Flamengo. Após 17 anos, a torcida rubro-negra pode, enfim, soltar o grito e comemorar o sexto campeonato brasileiro. Graças a seu talento, foi o eleito, com justiça, o Craque do Brasileirão 2009 de melhor meia-esquerda.

Porém, como tantos outros ídolos do passado, chegou a vez do gringo encerrar sua carreira. Sob o comando de Vanderley Luxemburgo, Pet, reintegrado ao elenco após um período de afastamento, fará sua despedida, não jogando um simples amistoso, mas uma partida oficial pelo Flamengo contra o Corinthians pelo campeonato brasileiro. Será encerrado mais um ciclo da Camisa 10 na Gávea.


PLAY...caprichosamente ela voa em direção ao ângulo esquerdo do goleiro Helton e entra. GOOOOLLLLLLLLLL. É o Pet, é o Pet, é o Pet!!!

* Fernando Matsumura, torcedor do Flamengo, é colaborador do Ludopédicas.

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Barça e o futebol como deveria ser


Paulo Calçade

O mundo do futebol ficou a semana passada inteira discutindo como o Manchester United deveria jogar para deter o Barcelona na final da Uefa Champions League. Noventa minutos depois, com mais um espetáculo individual de Messi e um extraordinário jogo coletivo, só restava aplaudir. Até uma lenda como sir Alex Ferguson admitiu o show de bola. Os números confirmam o massacre: 12 finalizações corretas contra apenas uma e 63% de posse de bola.

Há 25 anos no banco de reservas dos ingleses, Ferguson pode fazer o que quiser, até imaginar que Carrick e Giggs vão dar conta de Xavi e Iniesta. Para agravar a situação, Busquets, normalmente o primeiro homem acima da defesa, também deveria ter sido acompanhado. Estacionado na área de Van der Sar, aos 24 minutos do segundo tempo, foi dele o passe para Villa fazer 3 a 1.

A decisão da Champions ajuda a explicar José Mourinho nas duas partidas semifinais. Ao colocar Pepe sobre Messi, o treinador português buscou um recheio para suas linhas de marcação, e impedir o argentino de jogar no vazio, como fez no sábado.

Ferguson foi corajoso ou ingênuo demais ao idealizar o Manchester com um gigantesco déficit de marcação. Veja: o time catalão joga com Villa e Pedro pelos lados, abrindo a defesa contrária e a mantendo no fundo do campo. Para os zagueiros Ferdinand e Vidic, o melhor negócio seria ter Messi como centroavante. Assim um deles marcaria e o outro atuaria na sobra.

Mas o futebol do argentino começa muito antes, no meio de campo, setor inexplicavelmente abandonado por Ferguson, que teve Carrick, Giggs, Park e Valencia na marcação a Iniesta, Xavi, Daniel Alves e Busquets. O resultado foi uma enorme superioridade técnica, numérica e vida mansa para o gênio.

Messi conseguiu permanecer fora das duas linhas de marcação. Rompeu a primeira com dribles e desestabilizou a segunda, pois Ferdinand e Vidic passaram o tempo entre a tentação de deixar o posto para pressioná-lo e a observação das falhas no meio-campo. Por isso Mourinho colocou recheio na bolacha das semis. Até ser expulso, Pepe foi um problema, depois...

O futebol coletivo do Barcelona irrita a turma acostumada ao jogo virtual, amamentada com replays demais. A mobilidade construída sobre o talento, o treinamento e o passe deram ao Manchester apenas oito minutos para sonhar. Com bolas curtas, o grupo de Guardiola parece jogar num gramado menor que o do adversário.

O Barça ataca e defende com a mesma intensidade. São tarefas coletivas, inclusive para o craque. Messi participa de tudo, principalmente do jogo efetivado sobre triângulos, criado para jamais faltar o passe. É simples: quando Busquets receber a bola, preste atenção no comportamento de Xavi e Iniesta.

Uma final contém responsabilidade demais, além do nível suportado pelo bom senso. Com tantos fatos e teses em jogo, alguns enfrentamentos são vistos como se o futuro do esporte dependesse deles.

Todo mundo com alguma intimidade com a bola é capaz de identificar o jogo mais bonito, o que não significa torcer por ele. Nem sempre a beleza sensibiliza o coração. Foi o caso da partida de sábado, no mítico e renovado Wembley.

Perde-se muito tempo pensando em como parar o Barça e quase nada em como imitá-lo. Pode ser utópico, mas entender o funcionamento do time catalão é mais útil que agredi-lo. Messi, Xavi e Iniesta são únicos, mas o estilo pode ser universal, não foi inventado por Pep Guardiola.

O Barcelona joga o futebol total. É técnico, tático, quase sem faltas. Wembley viu uma das maiores finais da Uefa Champions League que se tem notícia. Ferguson só poderia aplaudir.


* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 30/05/2011.

O estilo Barcelona

Paulo Vinicius Coelho

 

Uma enquete do diário Marca, na Espanha, apontou que 89% julgam o Barcelona o melhor time da história. Mesmo sem valor científico, a pesquisa impressiona. Ainda mais porque o jornal é conhecido por sua ligação com o Real Madrid. A melhor resposta sobre esse assunto foi de Josep Guardiola: "Houve outras grandes equipes, algumas que não vi jogar, como o Milan de Sacchi, o Real de Di Stéfano, o Santos de Pelé. Fico feliz por saber que daqui a vinte anos, este Barcelona será lembrado assim".

Troque uma palavra. Em vez de melhor, único. O estilo do Barcelona não está apenas na posse de bola, nem na troca constante de passes. Está no jeito de marcar. Dos times citados por Guardiola, nenhum marcava por pressão por tanto tempo. Só o Milan de Sacchi, a Holanda de Michels, o Ajax de Kovacs avançaram a marcação, mas não havia preparo físico para jogar dois terços das partidas assim, como o Barça faz.

O jogo do Barça é arte, porque o time tem força. Não se tem a bola por tanto tempo sem retomá-la. E não se retoma no campo de ataque se não houver preparo físico para fazer isso. "Um jogador da seleção me disse que os adversários correm tanto atrás do Barcelona que, quando têm a bola, não conseguem chegar na grande área", disse Mano Menezes.

E ainda tem Messi! O melhor do mundo é único e joga numa posição exclusiva. Centralizado no ataque, recebe sempre às costas dos volantes. Quando Carrick voltava para bloqueá-lo, Iniesta ficava livre. Quando Giggs tentava acompanhá-lo, Xavi se liberava. Se Park tentava persegui-lo, esquecia Daniel Alves.

Na mesma medida em que os marcadores procuram por Messi, os observadores buscam adjetivos. O mais brilhante foi o ex-auxiliar de Alex Ferguson, Brian Kidd: "O Barcelona é a melhor coisa do futebol desde a invenção da bola".



JOGADA ENSAIADA

Recuo estratégico. Na sequência de clássicos com o Real Madrid, o Barcelona só foi parado na pancada. Mas é de se lembrar como José Mourinho marcou Messi. Tirou Pepe da zaga e colocou-o à frente dos beques, atrás dos volantes. Lembre-se que, antes da expulsão do luso-brasileiro na semifinal, o Barça empatava por 0 a 0. Depois do cartão vermelho, Messi marcou duas vezes.

Pressão de Muricy. O atual técnico da seleção brasileira, Mano Menezes, conta que costumava treinar maneiras de sair da marcação pressão quando enfrentava o São Paulo de Muricy Ramalho. Não há milagre, claro. Mas o treino consistia em jogar nas costas da pressão.

Ou seja, com passes curtos, criar triangulações que façam a bola chegar atrás do jogador que avança na marcação. Na derrota do Barcelona para o Arsenal, nesta Liga dos Campeões, o segundo gol inglês nasceu de uma jogada assim. Saiu da pressão e chegou ao campo de ataque livre.


* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 30/05/2011.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Competitivo e banal

Tostão


Hoje, o Santos deve ter dificuldades para vencer o Cerro Porteño. Muricy Ramalho precisa criar opções de ataque. O time não pode depender tanto de Neymar.

Mudo de assunto.

Jogar de contra-ataque não significa, necessariamente, formar uma retranca. Sempre que a bola é recuperada, inicia-se o contragolpe. A equipe que toma a bola mais à frente é ofensiva e contra-ataca bastante.

Paulo César Carpegiani mostrou, contra o Fluminense, que sabe armar um time para jogar de contra-ataque e na defesa, com oito jogadores bem posicionados, marcando no próprio campo. Qualquer bom técnico sabe fazer isso, ainda mais quando tem dois atacantes rápidos e hábeis, como Dagoberto e Lucas. Dagoberto evoluiu bastante e aprendeu a finalizar. Lucas é um atacante. Não é jogador de meio-campo.

Mas Carpegiani não quer só isso. É um treinador inquieto, que gosta de futebol bonito e de criar variações. O que deveria ser virtude passa a ser deficiência quando não se consegue vitórias. O lugar- -comum conspira contra o treinador. O futebol, espelho da sociedade, só pensa em resultados. É o mundo competitivo e banal.

O Barcelona, por conseguir unir eficiência com beleza e qualidade, passou a ser símbolo da resistência contra o senso comum. O time catalão possui as principais virtudes dos grandes times do passado e do presente. Mas não foi fácil chegar a esse ponto. Os operatórios são cada dia mais numerosos.

O Barcelona é a única equipe do mundo que costuma marcar por pressão na maior parte do tempo, que atua com apenas um volante (Busquets), que não faz lançamentos longos nem cruzamentos para a área, para se livrar da bola e contar com a sorte, e que, em qualquer estádio, gosta de ficar com a bola. Por isso e por tomá-la com facilidade, tem, em todas as partidas, desde maio de 2008, maior posse de bola que o adversário.

Já o Manchester United, além de ter ótimos jogadores, é o maior representante do futebol equilibrado, organizado e regular. Raramente erra e perde. Mas é um time comum. Faz o que outros grandes fazem. A diferença está em executar melhor o que foi planejado.

Não será surpresa se o Manchester for campeão da Europa. Não será por um jogo que vou mudar meus conceitos. Se o Barcelona vencer, o que é mais provável, quem sabe surjam outros técnicos preocupados não somente com a vitória, mas também com a qualidade e a beleza do espetáculo.


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/05/2011.

Nomes imortais

Ruy Castro


Houve um tempo em que, ao andar pela rua, você entreouvia pelo radinho de pilha dos porteiros a narração do jogo daquela tarde ou noite e, se saísse um gol ou jogada importante, era fácil saber o que estava acontecendo. Afinal, os jogadores se chamavam Boiadeiro, Beijoca, Bobô, Biro-Biro, Dinamite, Fio Maravilha, Chulapa, Alfinete, Grapete, Caçapava, e só havia um de cada com esses nomes.

Hoje, não é mais assim. Mesmo assistindo ao Brasileirão pela TV e ligando os nomes às figuras, você pode se confundir. E não estou me referindo aos dois Deivids, três Lucas, três Douglas e três Gabrieis que jogam nos times em disputa. Nem aos cinco Renans -dos quais três, espantosamente, são goleiros. Nem mesmo aos cinco Evertons (um deles, Heverton), oito Williams (incluindo os Wilians e Willians) e oito Felipes ou Felippes, dos quais só um é Filipe.

Estou pensando mais nos nove Thiagos (que compreendem os Tiagos, com ou sem sobrenome, e um Thiego), 11 Leandros (contando um Eliandro) e na profusão de rapazes chamados Alex, Aleks, Alex Silva, Alessandro (vários), D'Alessandro, Alec Sandro e Alex Sandro. Sem falar nos sete Diegos e quatro Diogos (o nome é o mesmo) e nos nada menos que 11 Rafaeis. Daí, vários terem de usar o sobrenome.

Mas meus favoritos continuam a ser os sons: Acleisson, Adilson, Anailson, Demerson, Emerson (dois), Gilson, Glaydson, Jackson (dois), Jefferson, Jobson, Joilson, Keirrison, Kleberson, Liedson, Madson, Maylson, Richarlyson, Vilson, Wallyson e, pode crer, seis Andersons, com ou sem chapeuzinho no a. Além de um Wallace, um Wendel, um Werley, um Wesley e cinco Wellingtons, com um ou dois eles e com ou sem gê.

Pensando bem, de que estou me queixando? Em que outra época teríamos Avine, Fransergio, George Lucas, Maicon, Maicossuel, Robston, Sheslon e Tressor?
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/05/2011.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ascensão e queda dos “menudos do Morumbi”

Müller e Silas surgiram como dupla inseparável, qual Neymar e Ganso, nos anos 80. Eram os principais integrantes dos “menudos do Morumbi”, equipe do São Paulo Futebol Clube, comandada por Cilinho, repleta de jovens talentos, além de craques mais experientes, como Dario Pereira, Oscar, Pita, Careca e Falcão.

Os dois passaram pela seleção brasileira, pela Europa e encerraram suas carreiras em 2004. Os dois iniciaram carreira de técnico, sendo que Müller tentou, ainda, os ofícios de comentarista esportivo e pastor evangélico.

Neste momento, ambos estão novamente em evidência, mas por razões bastante distintas. Silas comanda o Avaí nas semifinais da Copa do Brasil, em surpreendente campanha que pode culminar no título inédito e na vaga para a Libertadores de 2012. Müller, por sua vez, é objeto de matérias televisivas dando conta de sua sofrível situação financeira, vítima da própria prodigalidade em lidar com o muito dinheiro que amealhou ao longo da carreira.

Para saber um pouco mais das trajetórias desses dois grandes boleiros, indico o ótimo texto postado no Futepoca, “Dois craques, dois amigos e dois destinos distintos”:


JFQ

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Time equilibrado

Muricy, após fase problemática nos últimos jogos à frente do Fluminense, assumiu o Santos mostrando toda sua competência. Conquistou o título paulista e avançou às semifinais da Libertadores, após despachar, ontem, o bem montado Once Caldas.

O principal elogio que se ouve em relação a Muricy é que o time do Santos está mais equilibrado. Em outras palavras, a equipe da Vila, que já tinha um ataque competente, passou também a ter uma defesa menos vulnerável. Considerando os números, após a vinda de Muricy, caiu a média de gols marcados e despencou a de gols sofridos. Exagerando, o Santos deixou de ser uma equipe que vence de 10 a 9, para se tornar uma equipe que vence de meio a zero. O resultado é o mesmo: vitória. Aliás, o Santos de 2010 faturou o Paulista e a Copa do Brasil, enquanto o Santos de 2011 já conquistou o mesmo Paulista e está bem encaminhado na Libertadores. Segue a sina de campeão.

Questiono, apenas, esse conceito de “equilíbrio”. Equilíbrio supõe uma equipe competente não apenas no ataque, mas também na defesa e no meio, na direita e na esquerda, jogando sem a bola e com a bola, etc. Todavia, como um economista keynesiano, no caso, analisando os assuntos da bola, aponto: há vários equilíbrios possíveis, não apenas o que corresponde a uma organização tática que priorize a segurança da defesa. Pode haver, inclusive, uma equipe que busca seu equilíbrio na ofensividade ostensiva. Como o próprio Santos, inclusive, em 2010. Em suma, para mim, o Santos não é um time mais equilibrado com Muricy, mas um time cujo equilíbrio se fundamenta na defesa mais bem composta, ainda que isso piore sua força de ataque. Marca registrada do São Paulo tricampeão brasileiro (2006/08), sob o comando do mesmo Muricy. Trata-se, portanto, de um outro equilíbrio, a partir de uma opção do treinador, mas também capaz de fazer do Peixe um time campeão. Muito embora, como se viu ontem, no Pacaembu, as vitórias, agora, sejam acompanhadas de um pouco mais de sufoco.

Ainda sobre equilíbrios, vejamos o exemplo do, quiçá, melhor escrete do planeta no momento: o badalado Barcelona. Sabe-se que o Barça prima por ter a posse da bola, mantendo-a nos pés de seus jogadores por mais de 60% da partida, em média. Para isso, o time joga compactado, no campo do adversário, o que implica que seus atacantes marquem as saídas do rival, bem como que seus defensores iniciem a articulação das jogadas, e troquem passes à exaustão, sem errar. Para isso, é imperativo que todos os onze jogadores sejam qualificados tecnicamente; eis um equilíbrio tático que não suporta pernas de pau! Aliás, acredito que para “desequilibrar” o Barça seja necessário impedi-lo de manter tamanha posse de bola; para fazê-lo, talvez seja o caso de não marcar Messi individualmente, mas, para começar, de marcar muito bem Piqué e Puyol.

JFQ

Mano convoca seleção para amistosos


O técnico Mano Menezes convocou 28 jogadores para os amistosos contra a Holanda, no dia 4 de junho, no Serra Dourada, em Goiânia, e diante da Romênia, quatro dias depois, no Pacaembu, em São Paulo. As principais novidades da lista do treinador são o goleiro Fábio, do Cruzeiro, Thiago Neves, do Flamengo, e Fred, do Fluminense.

Ronaldo Fenômeno será o 29º atleta chamado pelo treinador para a despedida no confronto na capital paulista.

Após a partida diante da Romênia, no dia 7 de junho, Mano Menezes cortará seis atletas e divulgará a lista de convocados para a Copa América no Pacaembu, em São Paulo. A estreia da Seleção será no dia 3 de julho, contra a Venezuela, em La Plata.

Lista de Convocados

Goleiros

Julio César (Inter de Milão)
Jefferson (Botafogo)
Victor (Grêmio)
Fábio (Cruzeiro)

Laterais

Daniel Alves (Barcelona)
Maicon (Inter de Milão)
André Santos (Fenerbahçe)
Adriano (Barcelona)

Zagueiros

Lúcio (Inter de Milão)
Thiago Silva (Milan)
David Luiz (Chelsea)
Luisão (Benfica)

Volantes

Lucas Leiva (Liverpool)
Ramires (Chelsea)
Sandro (Tottenham)
Henrique (Cruzeiro)
Anderson (Manchester United)

Meias

Elano (Santos)
Elias (Atlético de Madri)
Lucas (São Paulo)
Thiago Neves (Flamengo)
Jadson (Shakhtar Donetsk)

Atacantes

Robinho (Milan)
Neymar (Santos)
Alexandre Pato (Milan)
Nilmar (Villarreal)
Leandro Damião (Internacional)
Fred (Fluminense)

* Notícia extraída de http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2011/05/fred-thiago-neves-e-fabio-sao-novidades-de-mano-na-selecao.html

terça-feira, 17 de maio de 2011

O mundo do futebol e suas (des) lições


Pasquale Cipro Neto

Nelson Rodrigues dizia que o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes. Concordo, mas, parodiando o grande L. Babo, eu teria um desgosto profundo se faltasse o futebol no mundo.

Para mim, o futebol é beleza, estratégia, magia. Como torço para o Juventus, ou seja, para ninguém, fico livre para ver o que me interessa nos jogos: o talento e a capacidade dos atletas de articular as jogadas e de seguir a estratégia estabelecida.

Beleza e talento à parte, o futebol é também território de hipocrisia e de pouca inteligência. Quer coisa mais burra que a suspensão automática, imposta a um jogador que é expulso? Só no futebol alguém é culpado até que se prove o contrário… O árbitro acha que um atleta simulou uma falta (que houve), não marca a tal falta e dá ao jogador cartão amarelo -ou vermelho, se ele já tiver levado o amarelo. Depois do jogo, as imagens mostram à exaustão que o árbitro errou, mas a burra “regra” se mantém: o jogador está fora do jogo seguinte. O futebol é mesmo “burro, muito burro demais”.

O pior é ter de ler/ouvir a defesa da suspensão automática, sob o argumento de que, “se ela não existir, vira bagunça”. Tão ruim quanto essa “tese” é a de que condenar a suspensão automática é defender a impunidade. Condenar a suspensão automática é simplesmente condenar a impossibilidade de defesa, é condenar a condenação prévia, é condenar a pressuposição de culpa do atleta e a infalibilidade do árbitro. Só isso, nada mais do que isso.

O exemplo da suspensão automática é pretexto para um assunto “mais alto”: a capacidade de leitura, de interpretação (dos fatos, dos textos, do mundo). Quem entende, por exemplo, que a condenação da suspensão automática equivale à defesa da impunidade demonstra incapacidade de ler um texto e/ou fértil capacidade de tirar conclusões absurdas do que se diz/escreve. Paulo Freire dizia que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O futebol e suas belezas e mazelas estão no mundo, portanto…

Outro raciocínio genial que ouvimos no futebol é este: “Se o juiz dá aquele pênalti, era um a zero pra nós”. Diz-se isso onde quer que haja uma partida de futebol e, muitas vezes, também no rádio ou na TV.

Santo Deus! Será que ninguém é capaz de pensar que a consecutividade dos fatos gera entre eles uma relação tal que impede que se afirme que, “se o juiz dá aquele pênalti…”? É simples: o árbitro não marcou o tal pênalti; se o tivesse marcado, nada do que aconteceu depois do lance teria acontecido, porque a sequência seria outra, de modo que é simplesmente impossível afirmar qual teria sido o placar do jogo. Há outra aberração na tal afirmação (”Se o juiz dá aquele pênalti…”): por acaso pênalti é sinônimo de gol?

Na semana passada, houve mais “lições”. Terminado o jogo em que o Once Caldas eliminou o Cruzeiro da Libertadores, foi um tal de ouvir esta ladainha: “O time de pior campanha da primeira fase eliminou o de melhor campanha”. Elaiá! Como se pode dizer que a campanha do Cruzeiro, que na fase anterior estava no grupo X e, por isso, só enfrentou os times do grupo X, é melhor do que a do Once Caldas, que estava no grupo Y e, por isso, só enfrentou os times do grupo Y? A campanha do Cruzeiro só foi melhor que a dos integrantes do seu grupo, caro leitor.

Não se pode absolutizar o que é relativo, do contrário tudo pode dar errado: projetam-se pontes e prédios que caem, matam-se pacientes porque não se levam em conta os efeitos colaterais que determinados medicamentos podem provocar, tomam-se decisões que não seriam tomadas, arruínam-se relações que poderiam ter outro rumo. É isso.
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/05/2011.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Caiu na rede, é bi!



Em um jogo morno (para dizer o mínimo), ainda mais se tratando de uma final, o Santos conquistou o bicampeonato paulista. O Peixe não foi brilhante, mas jogou para o gasto contra um Corinthians nada inspirado, incapaz de furar a sólida defesa formada por Muricy. Além do mais, o Timão mostrou falhas na defesa e incompetência na ligação entre o meio e o ataque. Aliás, não fossem os frangos tomados por Júlio César e Rafael, os goleiros passariam despercebidos na partida. Enfim, a peleja vista ontem, na Vila, ficou muito aquém daqueles emocionantes jogos finais do ano passado, contra um forte Santo André, ironicamente, um dos rebaixados em 2011.

À parte o ruim jogo final, o Santos mereceu o título pelo que fez durante o campeonato. Ou melhor, pela ótima equipe que vem montando, a bem da verdade, com a mente mais voltada à Libertadores do que ao Paulista.

São Paulo e Palmeiras foram as equipes que mais levaram a sério o campeonato, talvez por serem as que levantaram a taça há mais tempo, chegando nas duas primeiras posições ao fim da primeira fase. Mas, considerando o regulamento – tardiamente criticado – e a competência dos adversários nos jogos decisivos, nem um, nem outro estiveram presentes na final.

O Santos, que primou em 2010 pela força ofensiva, aplicando várias goleadas, na era Muricy vem se mostrando um time mais “equilibrado” – para usar um jargão da moda. Na minha modesta opinião, trata-se de um time mais preocupado com a defesa do que propriamente equilibrado, já que, não necessariamente, a melhora nos números defensivos deveria recair na queda do número de gols marcados. O fato é que o Peixe está vencendo, conquistando títulos e seguindo na busca por outros.

Hegemonia santista nos anos 2000

Após vencer do mesmo Corinthians em 1984, com o famoso gol de Serginho Chulapa, o Santos ficou 22 anos sem faturar um campeonato paulista. Antes de voltar às conquistas estaduais, banais na era Pelé, o Peixe faturou dois brasileiros: em 2002 (contra o Corinthians, de novo) e em 2004.

Aberta a porteira, contudo, passou uma boiada de conquistas santistas no Paulistão: dois bicampeonatos, em 2006/2007 e em 2010/2011. E só não esteve na final em 2008, disputada entre Palmeiras e Ponte Preta, já que tem 2009 foi vice-campeão, para variar, contra o Corinthians.

Enfim, com 5 títulos em 11 disputados, ninguém venceu mais campeonatos paulistas no século XXI do que o Santos. Ou seja, neste momento, é mais do que verdadeira a frase inicial do hino: “agora quem dá bola é o Santos”.

JFQ

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Opinião de Torcedor



O Santos será o campeão paulista de 2011, simplesmente porque "agora quem dá bola é o Santos" ou, se preferir, porque só ele tem os melhores jogadores do Brassssiiiiillllllllllllll.

Sandra Regina Ignácio, santista.

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O Corinthians será campeão porque estamos num ano ímpar.

Wlademir Corazzari Jr, corinthiano.

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Depois da era Pelé, está voltando o ciclo do Santos campeão.

Fernando Miyadaira, santista.

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O Corinthians é sempre forte na final. Além disso, o Santos está cansado pelo excesso de viagens e jogos.

Mário Borges, corinthiano.

Não é só cansaço

Daniel Piza


A derrocada dos brasileiros na Libertadores, com exceção do Santos, e alguns outros resultados surpreenderam muita gente, a começar pelos "especialistas" (se é que há especialista em futebol). A maioria das explicações apontou para o cansaço decorrente do calendário brasileiro, que é o que menos tempo oferece de férias e pré-temporada aos atletas. Mas o fator qualidade não pode ser menosprezado. Tal como os times, os comentários parecem sofrer do complexo de superioridade: nunca perdemos para um adversário melhor... Isso vale para clubes grandes do sudeste também. Se um Palmeiras toma seis do Coritiba, é porque estava ainda sob efeito da desclassificação para o Corinthians no Paulistão; se ganhasse, as mesmas pessoas diriam que foi porque o time agora podia apostar num torneio só.

Sim, já falei muito aqui sobre a necessidade de ter campeonatos estaduais mais curtos, que deem mais descanso aos jogadores e não encavalem na fase final com a de Libertadores e Copa do Brasil. As lesões estão aí para demonstrar a dificuldade. Hoje o Santos pega o Once Caldas sem Ganso e Arouca, ausências sérias, e com isso o Brasil corre o risco de ficar sem representante nas semifinais. Mas nada disso significa que a rodada passada foi uma manada de zebras, já que Cruzeiro, Internacional, Fluminense e Grêmio foram "saídos". Mesmo o Cruzeiro, que vinha jogando o futebol mais vistoso entre os brasileiros, com meias como Roger e Montillo e a revelação Wallyson, em nenhum momento foi brilhante. Admiro alguns recursos de Roger, mas um time depender tanto dele não podia ser bom sinal.

A realidade do futebol brasileiro é que sofreu uma entressafra considerável nos últimos anos, tanto que os melhores do campeonato de pontos corridos foram argentinos, volantes ou goleiros (salvo Adriano, que nem jogou nada demais em 2009 pelo Flamengo). Apesar do retorno de alguns craques, ou de ex-craques como Ronaldinho Gaúcho, o nível médio ainda não faz jus à história do futebol brasileiro. Desde o Cruzeiro de Alex em 2003, não se vê um time realmente memorável. E mesmo com o formidável surgimento de alguns nomes do ano passado para este, como os citados Ganso e Wallyson e mais Neymar e Lucas, entre outros, eles ainda são poucos e novos. Que bom que o Brasil ganhou os últimos mundiais sub-17 e sub-20, mas, claro, ainda é preciso que essa geração amadureça.

Esse engano sobre a real qualidade geral do futebol jogado hoje em gramados brasileiros foi visto também na reação a jogos como o primeiro da final entre Corinthians e Santos, domingo passado, no Pacaembu. Por ter tido três bolas na trave e algumas chances reais de gol, como a bola de Danilo encobrindo Júlio César que Chicão afastou, o empate por 0 a 0 foi considerado emocionante, um "jogão", etc. Não foi nada disso, embora não tenha sido monótono. Os dois times atacavam com poucos jogadores, de forma desarticulada, com número impressionante de erros de passes e chutes. Os laterais subiam pouco, os meio-campistas se concentravam na marcação, ninguém mostrava visão de jogo. Ambos os treinadores pensaram antes em anular do que em açular o outro. Fora algumas jogadas de Neymar, quase nada se via de criativo ou inteligente.

Felizmente o jogo não seguiu a rotina vigente no futebol nacional, a de uma quantidade de faltas de dar inveja a retrancas italianas. Pois não dá para refletir sobre o assunto sem considerar este dado. Tido e pranteado como um futebol "técnico", ele é cada vez marcado por trombadas, por desprezo à posse de bola, por jogadas aéreas. Jogadores como Neymar e Lucas vão na contramão. Precisamos recriar uma cultura que dê ênfase a esse estilo, brasileiro por excelência, que não confunde futebol-arte com malabarismo nem futebol-ciência com burocracia, que combina a invenção com a maestria. Como Pelé, que antecipava jogadas como um enxadrista e desconcertava zagueiros como um ilusionista, precisamos abandonar as dicotomias. Só aí deixaremos de viver apenas de quase aposentados e pseudo revelações.

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 11/05/2011.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Invictus


Fernando Matsumura

Esse filme a torcida do Flamengo conhece bem: nos últimos 05 anos, conquistou nada menos do que 04 campeonatos estaduais (2007, 2008, 2009, 2011). E mais uma vez a torcida rubro-negra soltou o grito de campeão. Assim como em 2009, quando ergueu a taça de campeão brasileiro e teve como um dos protagonistas uma figura controvertida – Adriano, o Imperador – em 2011, o expoente desse novo Flamengo se chama Ronaldinho. Não o Gaúcho, aquele que tanto nos encantou com seu futebol freestyle, mas o Carioca, aquele que sob a veste do manto sagrado, jogou pragmaticamente ao longo de todo o campeonato para se consagrar em sua 1ª temporada como campeão carioca invicto.

Dirigido pelo técnico Wanderley Luxemburgo, o time rubro-negro, que ainda não sofreu uma derrota nessa temporada, manteve a regularidade durante toda a competição, apesar dos números: conquistou a Taça Guanabara (1º turno) atropelando seus adversários, jogando um total de 09 partidas, com 08 vitórias. No entanto, apesar da conquista da Taça Rio (2º turno), o time obteve apenas 04 vitórias, em 10 partidas disputadas. Embora a queda de rendimento se justificasse pela presença já garantida na final, após vencer a Taça Guanabara, bem como pela disputa em paralelo da Copa do Brasil, o time vem apresentando dificuldades de criação e sem padrão de jogo definido, o que pode complicá-lo na reta final da Copa do Brasil. Se Luxembrugo pretende repetir o feito do Cruzeiro em 2003 quando conquistou a Tríplice Coroa, precisará mais do que Morgan Freeman (como Mandela) fez para motivar seus jogadores.

* Fernando Matsumura, torcedor do Flamengo, é colaborador do Ludopédicas.

Vitória do futebol

Tostão

Começaram os decisivos clássicos estaduais. Ontem, o Santos venceu por 2 a 0. O São Paulo criou várias chances de gol, mas finalizou mal. Foi a vitória do time que tem o melhor técnico e os dois melhores jogadores do Brasil. No segundo tempo, o Santos melhorou depois que Muricy trocou o centroavante Zé Love, amigo do Neymar, por um terceiro zagueiro (Bruno Aguiar) e adiantou os laterais, Elano e Ganso. Os técnicos estão descobrindo que um time não precisa, obrigatoriamente, ter um típico centroavante.

Hoje, Palmeiras e Corinthians têm as mesmas chances, embora o Palmeiras seja mais organizado. Discordo que seja um time de operários. Além de Valdivia e Kleber, que estão no nível de quase todos os melhores jogadores que atuam no Brasil, vários outros têm as mesmas condições técnicas que a maioria dos que jogam nas principais equipes brasileiras.

No Rio, outro clássico sem favorito. Parte da mídia e dos torcedores, por convicção, por não gostar de Luxemburgo ou pelos dois motivos, critica o Flamengo, mesmo invicto há 24 jogos, por não encantar, como se tivesse craques para isso. O time é igual aos outros. Ronaldinho, há muito tempo, é apenas um bom jogador.

Mudo de assunto. Ganso foi muito criticado por dizer que quer jogar na Europa, e Juninho Pernambucano, muito elogiado por voltar e jogar de graça pelo Vasco. Penso diferente. Ganso foi sincero, disse quase o óbvio, e isso não significa que não tenha afeição pelo Santos nem que não vá se esforçar para jogar bem.

Juninho, e qualquer atleta, mesmo rico e agradecido ao clube, precisa ser profissional, cumprir obrigações e exigir direitos, a não ser que volte somente para receber homenagens e encerrar a carreira. Quem não ganha não pode ser cobrado. Isso prejudica sua atuação. As relações têm de ser profissionais. O que precisa ser criticado é o profissionalismo ganancioso e irresponsável.

Do Brasil, viajo para a Espanha. Bastou o Real Madrid empatar com o Barcelona, graças a um pênalti inexistente, e ganhar por 1 a 0 na prorrogação para os adoradores de Mourinho ficarem eufóricos e dizerem que foi uma vitória da tática e que o Real passou a ser o favorito na Copa dos Campeões. Gostam mais de Mourinho do que de Messi.

Mesmo depois dos 2 a 0, nada está decidido. O Real ainda tem chances porque possui um excelente técnico, apesar de querer ser mais importante que o futebol, e, principalmente, porque tem vários excepcionais jogadores, ainda mais livre do violento Pepe, merecidamente expulso.
 
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 01/05/2011.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

"The Busby Babes"

Kenneth Maxwell 


Em 6 de fevereiro de 1958, o voo da British European Airways que transportava o time do Manchester United para a disputa das semifinais da Copa Europeia de Futebol contra o Estrela Vermelha de Belgrado caiu em sua terceira tentativa de decolagem, depois de um pouso para reabastecimento em Munique.

A queda teve 28 vítimas fatais, entre as quais oito jogadores e três dirigentes do Manchester United. Matt Busby, o lendário técnico da equipe, sofreu sérios ferimentos. Ele só voltaria a Manchester de trem e via balsa, 71 dias depois.

Matt Busby assumiu o comando do Manchester United em 1945, depois de servir na Segunda Guerra. Recrutou Jimmy Murphy como seu assistente técnico depois de ouvi-lo fazer uma preleção a um time de futebol formado por soldados ingleses na Itália.

Na década de 50, Busby e Murphy montaram um time de adolescentes, conhecidos afetuosamente como "Busby Babes". Em 1956-57, o Manchester United chegou à semifinal da Copa Europeia, e foi derrotado pelo Real Madrid.

Após o desastre em Munique, Jimmy Murphy, que não havia acompanhado a equipe porque estava dirigindo a seleção do País de Gales em uma partida contra Israel pela classificação à Copa do Mundo, em Cardiff, convenceu a diretoria do Manchester United a não suspender temporariamente as atividades do clube.

Ele escalou uma equipe improvisada com dois sobreviventes da queda, sete reservas e dois jogadores contratados às pressas e, em 19 de fevereiro, derrotou o Sheffield United por três a zero em uma partida pela quinta rodada da FA Cup (Copa da Inglaterra).

Em 3 de maio, 85 dias depois do desastre em Munique, o Manchester United superou todas as adversidades e chegou à final da FA Cup, em Wembley, perdendo por dois a zero para o Bolton Wanderers.

Bobby Charlton, um dos "Busby Babes" e sobrevivente da queda em Munique, descreveu Jimmy Murphy como "o maior professor de futebol que conheci". O Brasil, então campeão mundial, tentou, sem sucesso, contratá-lo.

Nesta semana, a BBC contou a história daquele período heroico num filme evocativo, intitulado "United", recordando uma época em que os garotos locais de classe operária se davam bem no Old Trafford.

Hoje, o Manchester United é controlado pelo empresário americano Malcom Glaser. O futebol está a anos-luz de distância dos dias difíceis da década de 50 e se tornou um grande negócio internacional.

A Argentina tem 1,8 mil jogadores na Europa; o Brasil tem 1,44 mil. No Manchester United, atual líder da Premier League, há jogadores de 11 nacionalidades. Sir Alex Ferguson, o escocês que treina o Manchester United, é o técnico de maior sucesso na história do futebol britânico.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/04/2011.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A funcionalidade do chute no vácuo

Jogasse nos tempos de hoje, Garrincha não seria considerado um artista, mas um expoente da falta de fair play, a ética futebolística segundo a cartilha civilizatória dos campos do Velho Continente e dos velhos cartolas da FIFA. Os joões, por sua vez, seriam o supra-sumo dos operadores da bola, carregadores de piano incapazes de tocá-lo com maestria.

Passada a patrulha sobre Neymar, recaem as acusações dos idólatras do futebol Dunga – ou, se quiserem algo mais “moderno”, do futebol Felipe Melo – sobre o “mago” Valdívia. Na falta dos pênaltis com paradinha ou dos rebolados de Edmundo, o principal exemplo de falta de fair play agora é o “chute no vácuo”. A finta, executada de sobejo pelo chileno do Palmeiras, caracteriza-se por fazer que se vai chutar a bola, chutando o vento. O joão, ou seja, o adversário a marcar Valdívia, é induzido a sair do lugar para interceptar uma bola que permanecerá inerte. Passa por bobo, é certo, mas cumpre a função essencial de vítima, necessária ao futebol arte. Exatamente igual ao adversário de Mané Garrincha quando este ameaçava correr, deixando a bola parada.

A principal acusação que recai sobre o “chute no vácuo” é que não seria objetivo, servindo tão-somente para desdenhar, humilhar, esculachar, enfim, o pobrezinho do companheiro de profissão (oh, dó!). Não obstante, mesmo se considerássemos que tudo no jogo de bola é ou deva ser objetivo, a acusação, ainda assim, é injusta. Tratando-se de objetividade, o lance de Valdívia satisfaz, pelo que contei, três funções claras e próprias do futebol.

A primeira função é tática: como em outra finta ou drible, Valdívia desvencilha-se do marcardor, ganha espaços para avançar, dar assistência a um companheiro ou mesmo chutar a gol. Mexe uma peça adversária e faz com que as peças palmeirenses abram vantagem na distribuição dos espaços no gramado.

A segunda função é psicológica: retomando – pela enésima vez – a tese do doutor Sócrates, segundo a qual o futebol é sobretudo um jogo psicológico, não comportando peças, consoante a perspectiva anterior, mas homens e suas emoções, o “chute no vácuo” faz com que o marcador, em particular, e todo o escrete adversário, em geral, perca a cabeça. Saindo do eixo, desequilibrando-se emocionalmente, é claro que a equipe de Valdívia tenderá a envolver o adversário que, ademais, tenderá a apelar para a violência e ficar com jogador(es) a menos em campo (que o diga Anderson, do Santo André).

A terceira e última função é estética: com respeito aos carregadores de piano, mas se não houvesse quem tocasse o instrumento com a primazia de um craque, o futebol seria tão empolgante quanto o rugby e Domingos, da Portuguesa, deporia Pelé do trono, assumindo ele a condição de rei.

Pelo exposto, salve o chute no vácuo, as dancinhas, os chapéus, os elásticos, os carretéis (viram o lance de Leandro Damião na partida entre Internacional e Juventude?!) e toda a sorte de demonstrações do talento ludopédico.

Termino com um pedido aos apologistas da ética do talento como inimigo do fair play: deixem o “chute no vácuo” em paz ou, se quiserem, passem a aplaudi-lo como fazem os que realmente amam o bom futebol. Sob pena de, não o fazendo, tornarem o futebol atual, já tão diminuto de grandes talentos, num verdadeiro “chute no saco”.

JFQ

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Santos, 99


Juca Kfouri

A vitória santista sobre o Cerro Porteño veio na hora e no dia certos: na data do 99º aniversário do clube que teve o melhor time da história do futebol em fins dos anos 50 e princípios dos 60 do século 20.

Ao começar seu centésimo ano de vida, o Santos, mesmo com três desfalques tão importantes, fruto de uma noite insana em que fez tudo errado na Vila Belmiro, superou as melhores expectativas e se impôs em Assunção do Paraguai.

Como em seus melhores tempos.

Tempos que os sessentões viveram intensamente, fossem ou não santistas por opção, mas obrigatoriamente santistas por amor ao futebol.

Aquelas camisas brancas, aqueles calções brancos e aquelas meias brancas, que sobressaíam principalmente nos jogos noturnos e iluminados pelo lusco-fusco que nem de longe lembra as iluminações feéricas de hoje em dia, só eram menos mágicos que aqueles negros que se confundiam, tamanha a arte que desfilavam pelos gramados do mundo, para encantá-lo.

Era Dorval, era Coutinho, era Pelé, quem era?

Sim, teve ainda Gylmar dos Santos Neves, Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos de Oliveira, Calvet, como Ramiro e Álvaro, Jair, Zito, Mengálvio, Pepe, Pagão, Toninho Guerreiro, Almir Pernambuquinho, Lima, Haroldo, Rildo quantos!

Só craques, acredite.

Não, Pelé não pode ser citado apenas entre tantos jogadores admiráveis, alguns geniais mesmo. Mas sempre é bom destacar que se Ele participou dos famosos 5 a 2 no Benfica (o melhor jogo de que participou em sua carreira, segundo o próprio), no estádio da Luz, em Lisboa, na decisão do Mundial de Clubes de 1962, em 1963 Ele não estava quando veio o bicampeonato em duas batalhas memoráveis contra o Milan, no Maracanã lotado.

A primeira delas, sob chuva torrencial, é dos jogos que marcam uma vida.

Porque os italianos, liderados pelo brasileiro e ex-botafoguense Amarildo, o Possesso da Copa do Mundo de 1962, no Chile, saíram com 2 a 0 no placar no primeiro tempo, depois de terem vencido em Milão por 4 a 2.

Já eram os campeões mundiais quando São Pedro integrou-se ao time do, é claro, Santos, e Pepe, Mengálvio, Lima e Pepe de novo viraram para 4 a 2, forçando o terceiro jogo, então chamado de "negra", que os praianos venceram com pênalti cobrado por Dalmo, o patinho feio que virou cisne.

Desculpe, meninos, mas eu vi.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 17/04/2011.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os machões dançaram

Xico Sá

Amigo torcedor, amigo secador, de repente todos viraram Bolsonaros no ginásio do Riacho, em Contagem, Minas Gerais. Crianças, seguindo a fúria de pais e mestres, vestiram a máscara de Bolsonarinhos. Respeitáveis senhoras da sociedade também bolsonarizaram. Os machões, nem se fala, arrotaram testosterona com bílis verde-oliva.

O bolsonarismo homofóbico tinha como alvo Michael, jogador do Vôlei Futuro, de Araçatuba, que enfrentava o Cruzeiro. O atleta não deixou barato. Com o apoio de seu time e de dirigentes, reagiu publicamente, lavrou protesto e assumiu que era gay mesmo, e daí, qual é o problema, exigiu respeito.

Foi muito mais macho, aqui em um sentido de bravura, do que a massa covarde embalada pelo bolsonarismo latente. "Fiquei constrangido. Já tinha acontecido antes, com grupos menores. Mas foi a primeira vez que vi um ginásio inteiro gritando alto e bom som "gay, bicha". Foi por isso que me manifestei", contou Michael à Folha.

Ninguém é obrigado a se declarar gay e sair do armário. Seja no mundo esportivo, mais conservador e machista do que o pátio dos caminhoneiros, seja na repartição pública. Mas Michael, ao assumir a homossexualidade, deu uma bela contribuição contra o preconceito.

Lá na cidade de Goianinha, a 54 km de Natal (RN), o goleiro Messi, 24, do Palmeira local, aplaudiu a decisão do voleibolista. Ele é um caso raro de jogador de futebol que assume publicamente a orientação sexual. E recomenda o mesmo comportamento aos colegas de bola.

"Depois que assumi [há quatro anos], até mesmo as pequenas manifestações desapareceram. Agora, no máximo, surgem umas brincadeiras", conta o número 1 do Verdão do Agreste. "Além do respeito, me tratam com carinho, dengo, sou o xodó da torcida, como dizem por aqui."

Messi foi o principal responsável pela subida do seu time para a primeira divisão do Campeonato Potiguar. Herói em Goianinha, cidade de 20 mil habitantes, diz que, ao sair do armário, ganhou liberdade também fora de campo. Vai para os forrós, namora, aproveita a vida em público sem constrangimentos.

Os machões dançaram, velho Norman Mailer. Michael e Messi (Jamerson na pia batismal) ficam como exemplos contra a barbárie bolsonarística. Que pode se manifestar em qualquer local e hora. Em Minas ou nas gangues homofóbicas da avenida Paulista.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/04/2011.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Otimismo, pessimismo e indefinição


Copa Libertadores da América:
Jaguares-Mex 1x0 Internacional
Nacional-Uru 2x0 Fluminense
Santos 3x2 Colo Colo-Chile


Após os jogos de ontem, há motivos de otimismo e pessimismo quanto ao futuro dos times brasileiros na Libertadores. O que não há é definição sobre quem está e quem não está classificado para próxima fase.

A pior situação é a do Fluminense. O atual campeão brasileiro, mesmo tentando determinar as ações da partida, foi derrotado para o Nacional, no Uruguai, por 2 a 0. Na última rodada, o Flu, que tem 5 pontos em 5 jogos, no Grupo 3, precisa vencer o Argentinos Juniors, na casa do adversário, e torcer para que o Nacional perca para o América, em Montevidéu. Que dureza!

Já o Internacional, mesmo com a derrota por 1 a 0 para o Jaguares, do México, só perde a vaga se sofrer uma goleada histórica para o Emelec, jogando no Beira Rio. E, mesmo assim, considerando que o Jaguares vencerá o Jorge Willstermann. Moleza!

A situação intermediária fica por conta do Santos, terceiro colocado no Grupo 5. Restam duas rodadas e o Peixe, com 5 pontos, tem à sua frente o Colo Colo, com 6, e o Cerro Porteño, com 8. Na próxima quarta, o Santos pega o Cerro, no Paraguai, e fecha sua participação na primeira fase no dia 20/4, na Vila, contra o Deportivo Táchira.

Na partida de ontem, aconteceu de tudo um pouco. Em jogo nervoso, desde o princípio, o Peixe conseguiu impor seu jogo – destaque para o jovem Danilo – e abrir uma vantagem de três gols. Contudo, a partir da expulsão de Neymar, que tomou o segundo amarelo por comemorar seu gol (um golaço, por sinal, o terceiro do time) colocando uma máscara, o Santos perdeu de vez a cabeça. Em seguida, após entrevero envolvendo o santista Zé Eduardo e o chileno Scott, os dois foram expulsos. Até mesmo Elano, que já havia sido substituído, tomou cartão vermelho por jogar uma toalha no banco de reservas do adversário. Elano, com isso, desfalca o Peixe contra o Cerro Porteño.

Além das expulsões, o Santos quase viu uma vitória dada como certa ir por água abaixo. Aos 36 e aos 41 minutos da etapa complementar, o Colo Colo reagiu, mas não conseguiu evitar a derrota: Santos, 3 a 2.

***

Muricy assume o Peixe


A partida contra o Colo Colo foi a última do Santos sob o comando de Marcelo Martelotte. Doravante, Muricy Ramalho, que assistiu à partida de ontem das tribunas da Vila Belmiro, assume o time com missão idêntica à que tinha no Fluminense: fazer com que seu time consiga uma difícil classificação às oitavas da Libertadores.

Há quem diga que o estilo Muricy, apesar de sobejamente vencedor, não se coaduna com a vocação santista de jogar bonito e para frente. Talvez. No entanto, como se viu ontem, falta ao Santos equilíbrio. Em todos os sentidos, inclusive emocional.

Se Muricy privilegia o aspecto defensivo, também não se pode dizer que anule possibilidades ofensivas de suas equipes. Não se pode aventar, por exemplo, que Muricy anulará o potencial de Neymar, fazendo-o marcar atrás ou impedindo que o jogador arrisque lances mais ousados à frente. A principal mudança deve ser no meio-campo, com maior ênfase na marcação. Jogadores como Adriano e Rodrigo Possebon têm boa oportunidade de mostrar serviço e, caso o façam convincentemente, ganhar uma vaga no time titular. Porém, para maiores especulações, há que se considerar o retorno de Arouca, ainda afastado por contusão.

JFQ

Nem tão dramático assim


Copa do Brasil - São Paulo 2x0 Santa Cruz


Quem esperava uma partida dramática para o São Paulo, ontem – confesso que eu esperava –, frustrou-se com o 2 a 0 imposto ao Santa Cruz, na Arena Barueri. Ou, em se tratando dos são-paulinos, sentiu-se aliviado com a relativa tranqüilidade com que a equipe comandada por Carpegiani obteve sua classificação para as quartas de final da Copa do Brasil. Não que tenha sido fácil, mas foi uma classificação, no mínimo, sem grandes sustos.

Sem a ajuda da entusiasmada torcida pernambucana, que empurrou a equipe na semana passada, e sem a ousadia necessária para buscar o gol adversário, o Santa Cruz não ofereceu grande resistência. O São Paulo, bem superior tecnicamente, impôs-se desde o princípio e não foi importunado por contra-ataques na maior parte do jogo.

Zé Teodoro usou a mesma estratégia de marcar Lucas na base do homem a homem. Só que, desta vez, Evandro Sena não teve a mesma eficiência da partida anterior. O jovem craque buscou desvencilhar-se, conseguindo por algumas vezes. A marcação cerrada, porém, acabou por provocar um desentendimento mais forte entre os jogadores, o que culminou na expulsão dos dois. O vermelho, na minha modesta opinião, foi exagerado.

No mais, o árbitro Gutemberg de Paula Fonseca, em que pese a propensão aos chiliques e manifestações exageradas de autoridade, conduziu bem a partida. Pelo menos, não há que se atribuir a ele o placar e a classificação são-paulina.

Quem errou feio foi André Oliveira, zagueiro do Santa Cruz, que cometeu pênalti absolutamente desnecessário em Dagoberto – a bola já estava nas mãos do goleiro. A atitude de Oliveira foi decisiva, não por provocar o segundo gol são-paulino, já que Rogério Ceni perdeu a penalidade, em inusitada tentativa de cavadinha, mas por deixar a equipe pernambucana com um jogador a menos. Com isso, induziu o time de Zé Teodoro a uma estratégia defensiva, buscando a decisão por pênaltis quando um golzinho praticamente resolveria a parada a favor do Santa.

Contundido, Fernandinho deu lugar a Marlos, que imprimiu boa movimentação no meio-campo. A substituição mais produtiva, porém, aconteceu no segundo tempo. Ilsinho entrou no lugar de Casemiro e passou a criar várias oportunidades pelo lado direito. Aos 27, ele próprio marcou o gol da classificação.

Dada a opção defensiva e sem conseguir executar contra-ataques eficientes – Landu e Gilberto não se encontraram na partida – a manutenção do placar foi fácil para o São Paulo. Ainda mais depois que o Santa perdeu mais um jogador, Renatinho, expulso.

O Goiás será o adversário do Tricolor paulista nas quartas de final da Copa do Brasil

JFQ

***

Os confrontos das oitavas de final da Copa do Brasil

Flamengo x Horizonte-CE
Grêmio Prudente x Ceará
Caxias x Coritiba
Vasco x Náutico
Atlético-PR x Bahia
Palmeiras x Santo André
Botafogo x Avaí
São Paulo x Goiás

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Afinal, quem são esses mercenários?

Luiz Zanin


Sei que a situação entre Ganso e Santos está cada vez pior. Parte da torcida tachou o jogador de mercenário na derrota para o Palmeiras, domingo na Vila. Como não estava lá, não sei avaliar a dimensão da coisa. Pode ter sido uma minoria. Depois ouvi por uma rádio o coro dos descontentes. Pareciam uns três ou quatro gatos pingados, aquele tipo de gente que fica indignada diante das câmeras de TV e os microfones abertos, e depois se cala. De toda forma, mesmo vindo de uma minoria e, portanto, de parte não representativa da torcida, esse tipo de xingamento revela pelo menos um sintoma. A relação não é boa, e pode se deteriorar ainda mais, precipitando a saída do jogador. Mas não é exatamente isso o que ele deseja? Não é essa uma atitude padrão? Jogador anuncia que deseja ir embora; torcida o repudia; ele então diz que não tem mesmo mais ambiente e vai-se embora. Fim de jogo.

Todo jogador sabe que se quiser se queimar com a torcida, basta dizer que tem vontade de deixar o clube. É infalível. E por motivo dos mais simples. A torcida recebe esse tipo de declaração como insulto àquilo que mais preza no mundo - a camisa do seu time de coração. É como se o jogador dissesse que aquele manto sagrado não o aquece; que o clube é mera vitrine, passo intermediário para o que de fato interessa, o grande europeu onde terá fortuna e fama planetária. A torcida se ofende, mesmo se o boleiro repetir o chavão generalizador: "Todo jogador sonha em ir para a Europa e eu não sou diferente, etc."

Não adianta colocar as coisas nestes termos. Há um abismo intransponível entre esse tipo de jogador negociável e a torcida. Um trabalha na base da fria racionalidade econômica; a outra, no registro da emoção. Dificilmente se encontram. E, quando se encontram, o casamento é breve. Assim é a vida, no nosso tempo. E, para falar a verdade, a coisa pode ter se agravado, mas vem de muito longe. Dizem que quando Leônidas da Silva trocou o Flamengo pelo São Paulo, foi chamado de...mercenário, do que mais? E não parece ter sido o primeiro. Domingos da Guia, o Divino Mestre, conhecido pela dureza com que negociava contratos, era malvisto por dirigentes. O inocente Garrincha brigou com a diretoria do Botafogo, etc.

Enfim, o profissionalismo implica conflitos de interesse e cada um procura onde pode realizar suas aspirações, em especial se estas se traduzem em cifras astronômicas. Simples assim. Claro que tudo se alterou muito da época de Leônidas para cá. Naquele tempo, o jogador era pouco mais que uma mercadoria do clube, que fixava o preço do seu passe como bem queria. Hoje tudo mudou para o extremo oposto e o clube virou a parte fraca na relação. Jogadores e seus representantes, incluindo aí aqueles que detêm parte dos seus direitos econômicos, ditam as regras. Ao clube cabe formar atletas, pagar salários de marajás a crianças imberbes, sustentá-los quando se contundem, investir no tratamento médico (e psicológico) e, quando curados, ouvi-los dizer que à noite sonham mesmo é com o Barcelona e com o Milan. É a vida, amigos. Mas é claro que também isso não está direito e um certo reequilíbrio deverá ser encontrado no futuro. Mesmo porque existem contratos e eles deveriam ser respeitados, como acontece em qualquer outro tipo de relação na sociedade, de aluguéis a vínculos de trabalho.

Ganso, por exemplo, tem contrato assinado com o Santos até 2015 e não deveria estar fazendo marola tanto tempo antes do seu vencimento. Deveria voltar a jogar bola e deixar as coisas correrem mais frouxas porque, ao reencontrar seu futebol de antes da contusão, fará fortuna de uma maneira ou de outra. Não precisa se afobar e nem entrar na conversa de quem quer apenas lucro rápido e fácil. Esses, sim, são os verdadeiros mercenários. Os profissionais.
 
* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 05/04/2011.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Racismo, não! Homofobia, pode?

Há poucos dias, o lateral Roberto Carlos, em partida do seu time, o Anzhi Makhachkala, contra o Zenit, ambos da Rússia, foi alvo de manifestação racista ao entrar em campo. Um torcedor aproximou-se para lhe entregar uma banana. Na partida entre Brasil e Escócia, uma banana foi jogada no gramado, causando enorme mal-estar por, num primeiro momento, suspeitar-se tratar de ato racista contra Neymar.

Os dois episódios, pela associação com o racismo, causaram asco na maioria das pessoas. “Como pode acontecer algo assim em pleno século XXI?”, indagam jornalistas, jogadores, torcedores e cidadãos em geral.

No entanto, a mesma repulsa não ocorre em relação à homofobia. Como se esta forma de preconceito não tivesse alcançado, digamos, o status de atitude moralmente reprovável ou mesmo criminosa que já alcançaram o machismo e o racismo, por exemplo.

Prova disso foi a manifestação da torcida do Cruzeiro, em partida pelas semifinais da Superliga de vôlei masculino, contra o jogador Michael dos Santos, do Vôlei Futuro, de Araçatuba (ver matéria: http://globoesporte.globo.com/volei/noticia/2011/04/volei-futuro-reclama-de-homofobia-e-tumulto-em-minas-cruzeiro-rebate.html ).

É bom que se diga: a repulsa causada pelo racismo e a quase normalidade com que se dá a homofobia não é um estranho contraste na cabeça de poucos, mas cultivado pela maioria das pessoas na nossa sociedade. Por um lado, há que se comemorar o fato de negros, apesar dos pesares, terem avançado nas suas conquistas. Reforço: apesar dos pesares, ou seja, apesar de estarmos muito longe de considerar superado o problema do racismo no Brasil. Por outro lado, é premente que sejam tomadas atitudes enérgicas para que atos de hostilidade contra homossexuais deixem de ser entendidos como fruto de um “preconceito aceitável” ou, pior, como reação legítima de resguardo da família, dos bons costumes ou qualquer valor tradicional concebido de modo bitolado, fechado, cujos defensores mais radicais se veem como guardiães da palavra de Deus, da Moral ou o do que os valha.

Por falar nisso, o deputado Jair Bolsonaro, ontem, no programa CQC, da Band, confirmou que fora mal interpretado na entrevista de semana passada. Tentando externar toda sua raiva contra os homossexuais, foi, coitado, tomado por racista. Quanta injustiça! A propósito, parabéns a Marcelo Tas, que, expondo a si próprio e à filha, que é gay, deu verdadeira prova de coragem ao tornar público seu orgulho por ela. Quem sabe, um dia esse orgulho possa superar o ódio e incapacidade de convivência ainda vistos em campos, quadras, parlamentos e alhures. Chegou a hora de dar uma banana a todas as formas de preconceito, inclusive a homofobia.

JFQ

Futebol comparado

Antero Greco


Na crônica de ontem, falei de como certos clubes nos marcam, por proezas que vimos na infância. Pois vários deles renovaram, no espaço de 24 horas, o fascínio que sempre provocaram em mim. Aqui em Milão, pude assistir ao vivo à vitória do Milan por 3 a 0 sobre a Inter, na noite de sábado, numa experiência única. Já neste domingo, de maneira também inédita, vi o Palmeiras fazer 1 a 0 no Santos, mas pela telinha da do computador. Graças à tecnologia me senti em casa. Só não entendo como certos sites passam jogos que pagamos aí...

Tanto um clássico quanto outro tiveram tudo o que se espera deles: tensão, provocações entre torcidas e jogadores, lances de técnica e criatividade, vitórias convincentes. A do Milan representou grande passo para o título Italiano, num torneio por pontos corridos e a sete rodadas do fim. A dos palmeirenses serviu para fortalecer a autoestima de um grupo que partiu desacreditado, lidera a fase de classificação e pode sustentar a pretensão de colocar a mão na taça do Paulista na fase de mata-mata.

O Palmeiras não se comportou totalmente como o Milan, que foi muito ofensivo diante da Inter. Mas, assim como o rubro-negro italiano, a equipe de Felipão mais uma vez soube ser consistente na defesa. A segurança na retaguarda tem sido a base para que ambas obtenham sucesso em seus respectivos campeonatos. Os milaneses têm mais opções para o ataque.

Vi um clássico tenso na Vila, pelo menos no início. Ninguém alisou, a ponto de sobrarem safanões aqui e ali entre Kleber e Neymar. Ainda bem que Vinicius Furlan teve o bom senso de acalmar e apelou para a advertência, não para a expulsão direta como muitos de seus colegas. Gosto quando árbitros só mostram cartão vermelho em casos extremos.

A partir do momento em que se preocuparam mais com a bola, os dois times melhoraram. O Santos reclamou de pênalti em duas ocasiões - e fiquei em dúvida no lance do chute do Danilo santista que bateu no braço do xará alviverde. Foram poucas, porém, as oportunidades de gol. As que mais me chamaram a atenção se limitaram a duas defesas de Deola e a bolas que Marcos Assunção mandou na trave, para espanto e alívio do goleiro Rafael. Esses velhos rivais já tiveram encontros mais notáveis.

O Palmeiras desatou o nó graças à persistência de Kleber e à ação dos vários "operários" que compõem o time. O gol veio numa hora decisiva, em que o desgaste era evidente para ambos os lados. Depois do baque, o Santos entregou os pontos, da mesma forma como aconteceu com a Internazionale. Só não sofreu a humilhação da turma de Julio Cesar, Maicon e Thiago Motta, que levou um baile do Milan e agora deve pensar mais na Copa dos Campeões, já que amanhã recebe o Schalke na abertura das quartas de final. Na Séria A, está em 3.º

Milagre napolitano. Entre um clássico e outro, pude também acompanhar, ta aqui na Itália, um dos confrontos mais sensacionais dos últimos tempos, que terminou com vitória de virada do Napoli por 4 a 3 sobre a Lazio, no começo da tarde. Tenho certeza de que San Gennaro, o protetor de Nápoles, deu uma forcinha para sua gente. Só assim para explicar o que aconteceu no Estádio San Paolo.

A Lazio abriu vantagem de 2 a 0 - um dos gols, de André Dias, já na etapa final -, permitiu o empate com gols um atrás do outro, ficou novamente na frente com gol contra (Aronica), teve outro não validado (a bola bateu no travessão e caiu atrás da linha) e ainda sofreu a reação no final. O uruguaio Cavani foi o herói do dia, com três gols que só não deixaram o Vesúvio entrar em erupção, mas que botaram fogo nas arquibancadas. O Napoli está a três pontos do Milan e a briga pelo scudetto promete ser bonita. Quem sabe o santo não intervém de novo? Seria bacana. Amém

PS. Estava sem palpite para o clássico na Vila e prometi ontem que, ao ver a Santa Ceia, original, que está em Milão, tentaria inspirar-me. Voltei para o hotel com intuição de que daria Palmeiras. Juro que foi isso mesmo!

* Publicado em O Estado de S.Paulo, em 04/04/2011.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Favorito, sim!


Santos 0x1 Palmeiras

No início do Paulistão, o Palmeiras era, talvez, o representante dos quatro grandes no qual a maioria dos comentaristas esportivos menos botava fé. Apesar do comando de Felipão, o Verdão era – e continua sendo – o grande com elenco mais limitado tecnicamente. Ainda mais se considerarmos que Valdívia, a grande contratação do clube, passa por longo período afastado dos gramados por lesão. Bem como o eterno ídolo Marcos.

A rigor, o Palmeiras tem um grande jogador – Kleber, o gladiador – e um veterano, digamos, que impõe respeito – Marcos Assunção. No mais, trata-se de um elenco de jogadores regulares. Porém, pelo que vêm mostrando no campeonato, esses mesmos jogadores compensam a menor qualidade técnica com rigorosa disciplina tática. Quiçá, dos grandes, o aquele com padrão de jogo mais bem definido. O que faz desse time, com todos os méritos, o líder do campeonato e tão favorito ao título quantos os demais grandes.

Na partida de ontem, em que, ironicamente, o Peixe mostrou dificuldades em jogar embaixo d’água, o escrete de Felipão soube impor sua vigorosa marcação sobre Elano, Ganso, Neymar e companhia. Aliás, afora Neymar, que mostrou bastante empenho – mas longe do brilho costumeiro –, as demais estrelas santistas estiveram irreconhecíveis. Principalmente Ganso, que errou passes curtos e teve a bola roubada algumas vezes. No entanto, a má atuação do time da Vila não desvaloriza em nada a eficiência – ou o equilíbrio, termo da moda – demonstrada pelo Palmeiras. Pelo contrário, foi o Palmeiras que soube se impor e determinar seu ritmo ao adversário.

Cicinho foi implacável na marcação de Neymar. Rivaldo mostrou a aplicação de sempre, marcando e arriscando perigosas subidas ao ataque. Márcio Araújo, Danilo e Thiago Heleno compuseram um paredão quase intransponível à frente de Deola. Patrik mostrou habilidade e ótima visão de jogo ao deixar Kleber na cara de Rafael para fazer o gol da vitória.

O gladiador – o Rooney brasileiro, se me permitem a comparação –comprovou a boa fase, movimentando-se constantemente, buscando a bola no meio e partindo para o ataque, na base da velocidade e da força.

Seu companheiro de ataque, Adriano, iniciou a partida demonstrando excessivo nervosismo, assim com Neymar, e deu lugar a Luan. O substituto entrou muito bem. Arrisco até a dizer que a entrada de Luan foi o divisor de águas da partida, dando ao Palmeiras maior poder de articulação e ataque, além da eficiência defensiva, seu ponto mais forte.

***

São Paulo 1x0 Mirassol

O São Paulo passou por maus bocados contra o bom Mirassol, na Arena Barueri. Sofreu investidas perigosas e até tomou bola na trave. Em um jogo bastante equilibrado, foi salvo pela genialidade de Lucas, autor do gol de placa que garantiu os três pontos do Tricolor. Será difícil a Mano Menezes não colocar o garoto no time titular da seleção.

Botafogo 0x0 Corinthians

Já o Corinthians fez partida sofrível contra o fraco Botafogo, em Ribeirão Preto. O pobre Liedson passou os 90 minutos de jogo à procura de alguém que lhe servisse a bola em condições de marcar. Em vão. O 0 a 0 foi o resultado mais justo, uma vez que as regras do jogo não preveem a possibilidade de placar negativo.

JFQ

sexta-feira, 1 de abril de 2011

É duro ser bonito


Dentinho sempre disse que era lindo. Eu e o resto da torcida do Corinthians, apesar do gostarmos do seu futebol, não fazíamos o mesmo juízo da lata do moleque. Mas, depois da notícia veiculada ontem, talvez tenhamos que rever nossos conceitos.

Foi noticiado que Dentinho – sim, o Bruno Bonfim, atacante do Corinthians – está namorando nada mais, nada menos que Daniele Souza, a Mulher Samambaia. Pois é, as aparências enganam. No caso, suspeito que tenham enganado a ex-paniquete. Bem...

Enfim, apesar de verde, Dentinho, que não é palmeirense – nem são-paulino –, está encarando a Samambaia. E, pasmem, vice-versa!

Pelo jeito, como o Ozzy Osbourne, que entrou no Ginásio do Inter com uma bandeira do Grêmio, a moça é bem louca. Pelas mãos de Dentinho, ainda, será muito bem-vinda ao bando.

Ai,ai,ai, ui, ui!

JFQ