Mostrando postagens com marcador Luiz Felipe Scolari. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiz Felipe Scolari. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Telê 1986, Felipão 2012

 
 
Em 1986 o mundo ainda vivia a Guerra Fria, em que pesem as reformas incipientes promovidas pelo então líder soviético Mikhail Gorbatchev. No Brasil, a nova democracia, sob a alcunha de “Nova República”, engatinhava, enquanto a inflação galopava: era o ano das eleições para a Assembleia Constituinte e do Plano Cruzado. No futebol, começávamos a viver o falso dilema entre “futebol-arte” e “futebol de resultados”, posto que bom número de “entendidos” passaram a defender a tese, após a tragédia de Sarriá, de que jogar bonito não levanta caneco. Nessa época, minha vida se resumia às atividades da escola e do catecismo religioso, à convivência familiar, às peladas na rua e às primeiras angústias de amor. Coisas como a prova de matemática, a prece ao meio-dia, desenvolver o chute com curva, andar a cavalo, pescar lambari, diferenciar tatu-bola de tatu-peba, e, especialmente, debelar a timidez para me aproximar da garota amada eram minhas grandes preocupações existenciais. Apesar de ser apenas um molecote pré-adolescente do interior, continuava a idolatrar o escrete canarinho de 82 e a acreditar que somente jogando bonito era possível vencer. Sem saber, eu fazia parte da esmagadora maioria – o então chamado “povo” –, cuja opinião, muitas vezes, era desqualificada pelos tais “entendidos”.
Um dos fatos marcantes de 86 foi o anúncio de Telê Santana como técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo, no México. Desde o ano anterior, um grande imbróglio marcava o futebol brasileiro. Contratado pelo clube árabe Al Ahli (apesar do nome, não é o mesmo que enfrentará o Corinthians no Mundial de Clubes), seus dirigentes não admitiam cedê-lo para a seleção brasileira, apesar do clamor popular e da pressão da CBF. Desde a seleção mágica de 82, o Brasil havia frustrado as expectativas dos torcedores com os selecionados de Carlos Alberto Parreira, Edu Coimbra e Evaristo de Macedo. Após muita pressão – houve até uma campanha, “Fica, Telê”, lançada pela Revista Placar –, o Al Ahli “emprestou” Telê apenas para a disputa das eliminatórias. Festa geral! A seleção passou sem grandes dificuldades, com atuações destacadas de Zico, Casagrande e Renato Gaúcho.
O ano da Copa começou com duas perguntas cruciais: quem sucederia Giulite Coutinho na presidência da CBF e quem seria escolhido como técnico canarinho no México. Octávio Pinto Guimarães – oposicionista e aliado de Nabi Abi Chedid, liderança em ascensão – venceu as eleições e, de certa forma, surpreendeu o país ao anunciar, pouco tempo depois, que Telê estava de volta. Eu e o chamado “povo” vibramos com o retorno. Vale dizer, uma vibração espontânea, espécie de euforia, vinda de dentro.
Em 2012 vivemos o capitalismo globalizado, o reinado das finanças, da marca, do logo, do mercado e da mercadoria; da imagem produzida no talhar do marqueteiro. Ironicamente, os dias atuais parecem confirmar a concepção do velho Marx de que, sob a égide do capital, os homens se tornam mercadorias e estas ganham personalidade. O Brasil tem uma democracia consolidada e uma economia estável e emergente, noves fora a discordância das imortais Carlotas Joaquinas e o persistente, muito embora combalido, complexo de vira-latas: a Constituição de 88 é uma conquista nacional inegável, bem como nossa moeda, o Real. Hoje sou um quarentão, graduado e pós-graduado, vacinado, concursado, casado (sem papel passado), quase pai e habitante de metrópole. Minha grande preocupação é que o dinheiro necessário à família dure todo o mês e que meu guri nasça e cresça com saúde. No âmbito ludopédico, mantive a coerência: continuo a associar futebol bonito a bons resultados. Graças aos deuses da bola, tenho hoje – enfim! – um paradigma a corroborar minha tese: o Barça de Messi, Xavi e Iniesta.
No começo de 2012 uma notícia improvável correu os jornais: Ricardo Teixeira, presidente da CBF desde o fim da gestão Octávio Pinto Guimarães, deixava o cargo. No seu lugar entrou José Maria Marin, o vice com o dom de surgir do nada. Entrou e tardou a impor sua vontade de demitir o técnico Mano Menezes. Quando o fez, a sensação de ação inoportuna foi inevitável: afinal, passados dois anos, Mano parecia dar mostras de ter encontrado um caminho interessante. No entanto, sua permanência não era do gosto de Marin; dizem as más línguas, descontentamento compartilhado com a FIFA, com os patrocinadores, com os marqueteiros, com Romário, com a Rede Globo e, vejam só, com o “povo”. Se bem que, nestes tempos, o nome “povo” caiu em desuso. Melhor dizê-lo no jargão da moda, a estatística: Luiz Felipe Scolari entra com aprovação de 54% dos brasileiros. Melhor assim: sendo Felipão e Parreira, o “novo” coordenador técnico, figuras conhecidas do mercado, quer dizer, do povo, facilita muito as vendas, quer dizer, as coisas. Por falar em povo e em Parreira, é curioso ver alguém que antes, como técnico da seleção, tratava as críticas populares como “caixa de ressonância” dos comentaristas esportivos, agora, na condição de coordenador técnico, clamando o mesmo povo (o mesmo?) a apoiar o selecionado canarinho. Parreira deve ter entendido a mecânica da coisa – se o povo era manipulado pelos críticos, pode bem ser manipulado pelos ufanistas –, passando de vítima a operador do vox populi.
A imagem vitoriosa de ambos – campeões das Copas de 94 e 2002 – ajuda a manipular, quer dizer, seduzir a torcida nacional no melhor clima “pra frente Brasil, salve a seleção”. A mesma torcida que, segundo Galvão Bueno, tem um caso de amor com a amarelinha. Como se não bastasse, Felipão e Parreira têm visões táticas modernas, apesar de suas maiores conquistas já distarem longa data. Ainda assim – talvez a culpa seja da idade –, confesso que passei longe de sentir com o retorno de Felipão o entusiasmo do retorno de Telê. Na verdade, não vejo nenhum treinador no Brasil muito melhor do que Mano, mormente um cujo último time acabou rebaixado no Brasileirão. De qualquer forma, o importante é que, para a felicidade geral da nação e dos bons negócios, o “povo” deu seu aval (ou, quem sabe, deram por ele), por mais que essa aprovação não reflita a convicção nas qualidades atuais do “professor”, mas, acima de tudo, a desaprovação com o trabalho anterior, a falta de opções conhecidas e a arriscadíssima aposta de que a vitória de ontem é garantia de vitória amanhã.    
* * *
 
 
 
Recorrendo novamente ao velho Marx, corre-se o risco de se repetir como farsa a história antes ocorrida como tragédia. Ou não. O tempo roda e as semelhanças do hoje com o ontem, mutatis mutandis, vêm à tona. Muito embora, claro, existam diferenças importantes entre as épocas. Senão vejamos.
A “família Scolari” retorna à Granja Comary. Nos tempos em que a residência do selecionado nacional era a Toca da Raposa também havia uma família. A figura do pai, ao mesmo tempo rígido e carinhoso, que ensina pacientemente e também cobra determinado comportamento, dentro e fora do campo, é marca comum de Telê e Felipão. A propósito, vige no país certa cultura de valorizar esse tipo de relação paternal como condição necessária para o bom andamento dos times. Premissa não necessariamente comprovada na prática: se, por um lado, essa postura dos treinadores facilita a organização de um grupo de jogadores naturalmente difícil de se lidar, repleto de vaidades e arroubos de rebeldia, por outro lado, os atritos ríspidos são inevitáveis. Brigas fizeram parte da carreira dos dois treinadores não só com seus atletas, como também com dirigentes, jornalistas, torcedores e até com outros treinadores.
Se a figura do pai remete tanto a Telê como a Felipão, alguns dos princípios de conduta transmitidos aos filhos, ou melhor, aos jogadores são bem diferentes, para não dizer antagônicos. Telê não abria mão do jogo limpo, na bola, além da técnica apurada, do futebol bem jogado como meio para chegar à vitória. Perna-de-pau não tinha lugar com ele, muito menos os chegados em um pontapé na canela do adversário. Certa vez, passou uma descompostura no jogador Zé Elias, durante um programa de televisão, porque, no seu entendimento, o então volante do Corinthians era desleal com seus companheiros de profissão. Scolari, por sua vez, é um dos principais expoentes da escola gaúcha, do jogo duro, combativo, que não concebe a vitória no futebol através da beleza, mas da postura de guerreiros em uma batalha. Não é à toa que “A arte da guerra”, de Sun Tzu, foi seu livro de cabeceira durante a Copa de 2002. Além do mais, algumas das nossas tradicionais malandragens – tais como provocar o adversário ou pressionar a arbitragem –, eram repudiadas por Telê na mesma intensidade com que são incentivadas por Felipão. Em outras palavras: para Telê, futebol é jogo para artistas; para Felipão, é peleja de macho.
Daí decorre outra diferença: as opções táticas. Telê partia do princípio de que os melhores jogadores sempre devem estar em campo. Entenda-se por “melhores” aqueles com técnica mais apurada, os mais habilidosos, com mais visão de jogo, inteligência, sem abrir mão do preparo físico. Assim, seu esquema tático era montado em função de dois fatores: a presença dos melhores e a utilização dessa capacidade em um jogo envolvente e para frente. O bordão de Jô Soares – “bota ponta, Telê!” – é bastante exemplar disso. Na preparação para 1982, Telê testara alguns pontas-direitas sem se convencer de suas potencialidades (ex: Tita, do Flamengo, e Tarciso, do Grêmio). Ele próprio, um ex-ponta-direita, entendeu que a posição passava por um momento de escassez de talentos. Juntando-se a isso o fato de quatro craques do meio-campo estarem no auge – Cerezo, Zico, Falcão e Sócrates –, não teve dúvidas em fazer adaptações. Se do lado esquerdo Éder cumpria à risca a função de ponta, na direita, Sócrates preencheria o espaço eventualmente, auxiliado pelas subidas do lateral Leandro. Nas eliminatórias para a Copa de 86, a adaptação ocorreu pela esquerda: Junior, antes lateral, passou a ocupar a meia, auxiliado pelas subidas do lateral Branco; do lado direito, Renato Gaúcho era o homem de confiança, pelo menos até que o descontentamento do treinador com o comportamento extracampo determinasse sua saída. Em síntese: Telê não era refém de tradicionalismos táticos, de um esquema pré-definido, mas um estrategista que montava sua equipe usando o melhor à sua disposição, fundado no toque de bola e na ofensividade.
Ao contrário deste, Felipão não tem tanto problema em deixar dois ou três jogadores mais habilidosos no banco de reservas, além de montar seu esquema priorizando a marcação. Que o diga a saída encontrada na Copa de 2002: três zagueiros, com um deles, Edmilson, às vezes servindo como volante; nos jogos finais, além dos três zagueiros, dois volantes de fato: Gilberto Silva e Kleberson. Para compensar, contava com três craques do meio para a frente: Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Solução, a propósito, não muito diferente da encontrada por Parreira, em 94: Mauro Silva e Dunga como um paredão no meio, compensado com a movimentação de Bebeto e a presença artilheira de Romário no ataque.
Um ponto em comum: tanto Telê como Felipão apostaram suas fichas em jogadores de extrema confiança – até porque eram gênios da bola –, independentemente das dúvidas com as condições físicas. Apesar do frágil joelho, Telê não abriu mão de Zico, em 86, ainda que para entrar nos momentos finais das partidas. Apesar do joelho frágil, Felipão não abriu mão de Ronaldo, em 2002. Neste ponto, inclusive, Scolari foi até mais ousado que o “Fio de Esperança”: em 86 não havia substituto à altura para Zico; em 2002, Romário, apesar da idade, continuava artilheiro e aclamado pela torcida.
Onde a história se repete? Se na época de Telê havia deficiência na ponta – ora na direita, ora na esquerda –, hoje não há um centroavante capaz de satisfazer à maioria dos boleiros. Ironicamente, depois de Reinaldo, Careca, Romário e Ronaldo, não temos mais um grande matador; apenas bons jogadores que já foram mais convincentes em outros momentos, como Fred, Damião e Luiz Fabiano. Tanto que, quiçá sob inspiração catalã, Mano Menezes passou a testar – com relativo sucesso – um time sem centroavante, mas com volantes, meias e atacantes de beirada de área bastante rápidos e com capacidade de articulação: Paulinho, Ramirez, Oscar, Kaká, Hulk e Neymar. Confesso que sinto a falta do são-paulino Lucas nesse rol. Conclusão: assim como Telê, Mano, considerando as deficiências e potencialidades dos jogadores à sua disposição, optou por sair do esquema tradicional. A pergunta: Felipão fará o mesmo ou não abrirá mão de um atacante de área, ainda que esteja em condições inferiores a outros jogadores? Complementando: Felipão abrirá mão de um volante, pelo menos, mais firme, fixo, no meio, tirando Ramires ou Paulinho, ainda que os dois passem por grande fase? Vou além: Felipão dará a si próprio opções táticas ou fará como Dunga que, a pretexto de “comprometimento”, deixou de convocar jogadores como Ganso e Neymar para a Copa de 2010? Até que ponto a pressão da torcida e de Marin (para não falar dos patrocinadores, dos empresários, dos marqueteiros e até da FIFA) pela presença de “medalhões” no selecionado nacional não comprometerá o time e a formação de opções táticas?
Ainda que Felipão não seja uma novidade, não dá para saber como será o “novo velho” técnico da seleção brasileira. Felipão 2012 é igual a Felipão 2002? Na comparação com Telê, confesso que preferia alguém com o perfil deste. Não pela ultrapassada oposição entre futebol-arte e futebol-resultado (a respeito, vale muito a pena a leitura do ótimo artigo de Tostão: http://ludopedicas.blogspot.com.br/2012/12/a-linha-reta-nao-sonha.html ), já que arte e resultado não são características necessariamente excludentes. Que o diga a própria história do futebol brasileiro e da nossa seleção, pentacampeã mundial (resultado) e com times que encantaram pela beleza do jogo, vencendo (58, 62, 70) ou perdendo (82). Aliás, entre Telê e Felipão, seria ridículo rotular um como pé-frio e o outro como vitorioso: aquele, depois das eliminações em 82 e 86, montou o vitorioso e “artístico” time do São Paulo, campeão mundial de 92 e 93; este, depois da conquista de 2002, oscilou, a favor e contra si, bons trabalhos (seleção de Portugal), conquistas, com todo o respeito, menores (campeão do Uzbequistão e Copa do Brasil) e críticas severas (passagem fraca no Chelsea e participação na campanha palmeirense que culminou no rebaixamento). Ou seja, ambos, jogando cada qual a seu modo, ganhou e perdeu, como ocorre na carreira de todo bom técnico.
Pelo que se vê hoje, a última participação de Felipão no Palmeiras, em que pese a evidente limitação técnica do elenco, foi de uma pobreza tática atroz. Como diz Paulo Vinícius Coelho, o time jogava como equipe de futebol americano, buscando ganhar jardas até um determinado ponto onde Marcos Assunção pudesse atuar, ora como “kicker” (chutando direto a gol), ora como “quarterback” (lançando a bola na cabeça de um companheiro). Também pela observação do momento atual, a equipe mais eficiente na obtenção dos resultados e que, ao mesmo tempo, encanta a todos os que apreciam o futebol bonito (claro, também considerando a qualidade do elenco) é o Barcelona. Aí é que está: o Telê de hoje – e já o disse antes – responde pelo nome de Pep Guardiola. E tivemos a chance de escolhê-lo...
Bem, essa é uma opinião pessoal. Quiçá, de uma pessoa ultrapassada, sem a plena noção das tantas mudanças ocorridas de 1986 para cá.  Afinal, naquela época o capitalismo era uma das possibilidades, envolto no mantra da eficiência do mercado e na satisfação das vontades das pessoas; hoje, é um consenso, guiado pelo marketing de tudo e todos, criador de imagens e vontades outrora inexistentes. Lá atrás, o conjunto dessas pessoas era chamado de povo, uma entidade, no Brasil, pré-cidadã, a dar os primeiros passos na conquista de direitos; hoje, apesar de direitos conquistados (sobretudo no papel e no discurso), é vista mais como um conjunto de consumidores em ascensão do que propriamente de cidadãos. Antes, ter reconhecido talento para treinar ou jogar bola eram condições suficientes para um técnico ou um jogador vestirem a camisa amarela; hoje, a isso é necessário aliar o carisma junto a torcedores-consumidores, exigência das redes de transmissão e demais patrocinadores. Na penúltima década do século XX, tatu-bola e tatu-pepa eram diferentes, mas ambos brasileiros; no século XXI, cedemos ao concurso fuleco (ops!) para, entre amijubis e zuzecos, enriquecer ainda mais a FIFA, detentora de direitos de comercialização de nosso (nosso?) mascote. Enfim, apesar da FIFA e da CBF que, elas sim, mantiveram sua essência (infelizmente!), é evidente que o mundo mudou, a economia mudou, o futebol mudou, o povo mudou, o tatu mudou e, olhando bem para o espelho, não consigo me lembrar desses cabelos brancos.
* * *
Sobre Telê Santana
Duas dicas para quem quer saber mais sobre o mestre Telê. Sobre a campanha “Fica, Telê!”, capitaneada pela Revista Placar, em 1985, eis o link para acessar matéria publicada:
Para conhecer um pouco mais da vida desse grande treinador, recomendo o livro “Fio de Esperança”, de André Ribeiro, publicado pela editora Cia. dos Livros.
* * *
Sarriá, o Olímpico e a tristeza
 
 
Partidas históricas da seleção brasileira de Telê Santana ocorreram no estádio Sarriá, em Barcelona. Luiz Felipe Scolari consagrou-se à frente do Grêmio, contabilizando vitórias no estádio Olímpico, em Porto Alegre. Justamente esses estádios – em 1982 e em 2007 – foram os palcos das minhas maiores tristezas com o futebol. O Olímpico, daqui a pouco, virá abaixo. Sarriá já não existe mais. Tampouco as minhas tristezas.
 
JFQ

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Ideias fora do lugar

Luiz Zanin


Para a opinião pública, Felipão é um acerto. Para a opinião publicada, um retrocesso. Para os torcedores comuns, o Brasil precisa de um líder que conduza ao hexa. Os especialistas preferem quem leve a seleção pelo caminho da modernidade. Do que julga ser a modernidade, o paradigma atual do Barcelona. Daí o desencontro. Como a substituição de Mano por Scolari foi política e não técnica, a dupla Marin-Del Nero, que de boba não tem nada, olhou na direção da popularidade, que tira o foco de outras e mais graves questões. Daí o nome de Guardiola, tão insistentemente lembrado, não ter passado de leve devaneio de primavera.

Essa, como outras decisões no mundo do futebol, está aberta a controvérsias. Ninguém nega experiência à dupla Scolari-Parreira. Em certa medida, experiência é importante mesmo, ainda mais em situação-limite como costuma ser uma Copa do Mundo, quando qualquer descuido ou perda de concentração podem ser fatais. Lembrem o que aconteceu, por exemplo, na Copa de 1998, quando tínhamos tudo para ganhar a final e perdemos para um caso até hoje muito mal explicado. Enfim, um líder carismático (como Felipão) pode ser muito útil numa hora dessas.

Pensando de maneira menos pontual, parece lógico que a dupla não pode oferecer grande perspectiva de renovação tática. Embora tenham sido os dois últimos técnicos brasileiros campeões do mundo (Parreira em1994, Felipão em 2002), não têm convencido em seus últimos trabalhos. Parreira parecia ter um time de sonho na Copa de 2006 e deu com os burros n’água de maneira até patética. Depois do Penta, Felipão foi bem na direção de Portugal, mal na do Chelsea e acaba de contribuir para o rebaixamento do Palmeiras.

Os críticos têm alguma razão em colocarem um pé atrás – alguns já colocam os dois pés atrás em relação à dupla. Quem viu o Palmeiras jogar ultimamente sabe que o estilo não recomenda o técnico. Com outro elenco ele poderia ter feito algo diferente? É bem provável, mas indemonstrável. E Parreira? Quem não se lembra do seu Corinthians, muito bem treinado, e que tinha na posse de bola seu ponto forte, antes que essa característica fosse elevada a dogma com a ascensão do Barcelona? No entanto, aquele Corinthians forte, racional e experiente foi demolido por um Santos adolescente e ofensivo em dois jogos nas finais o Brasileiro de 2002.

O que tudo isso quer dizer senão que não existem fórmulas prontas para vencer ou perder no futebol?

O Barcelona seria o mesmo sem os jogadores que lhe dão suporte? Por que então tomá-lo como modelo absoluto? Alguém elegeu como paradigmas o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão ou o Flamengo de Zico? Não, porque esses modelos se esvaziariam sem os jogadores que lhes emprestaram corpo e alma.

O Barcelona tem sido considerado mais que um clube (é seu slogan). O Barça seria uma ideia. Um modelo absoluto. Para um futebol sem ideias, como o brasileiro atual, parece mais fácil importar uma, já pronta. Sem lembrar que existem problemas de aclimatação e execução. Sem isso, ideias não passam de abstração. Ou deslumbramento tolo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 04/12/2012.

Guardiola e a Semana de 22

José Roberto Torero



A CBF chutou a bola para fora. Teve a chance de fazer um gol de placa, mas mandou a gorduchinha para fora do estádio.

Guardiola até já havia dito extraoficialmente que aceitava o cargo. Mas a CBF desprezou o melhor técnico do mundo.

Neste século não houve time mais impressionante que o seu Barcelona. Foram muitos títulos, largas goleadas e estatísticas impressionantes. O time venceu mais de 70% de seus jogos e não raras vezes teve mais de 70% de posse de bola, mesmo enfrentado equipes razoáveis como Chelsea e Real Madrid.

Em seus quatro anos à frente do clube catalão, o técnico venceu três campeonatos espanhóis, duas Copas da Espanha, três Supercopas, duas Ligas dos Campeões e dois Mundiais de Clubes.

Mas esqueçamos os números e os títulos. Era só olhar o Barça em campo que você sabia que aquele era o melhor time do mundo. Desde a Laranja Mecânica não havia um time tão inovador. Os catalães reinventaram o futebol. E de uma maneira tão humilhante que as outras equipes sequer conseguem imitá-lo.

Claro que Felipão é um bom técnico (e não vou usar o argumento do rebaixamento do Palmeiras para a Série B, isso foi apenas um tropeço), mas Guardiola é melhor. E não um pouco melhor, mas muito. É um Steve Jobs do futebol.

Se ele é o melhor técnico e temos os melhores jogadores, nada mais natural do que unir ao outro. Só que nada é natural no mundo do futebol.

Os argumentos contra Guardiola são: ele é estrangeiro, ele nunca dirigiu uma seleção e ele não conhece os jogadores brasileiros.

O terceiro argumento não é verdade. Temos mais jogadores selecionáveis na Europa do que aqui. E seria apenas uma questão de tempo para conhecer os que jogam no Brasil.

Quanto a nunca ter dirigido uma seleção, argumento usado por José Maria Marin, é uma bobagem. Felipão também nunca havia dirigido uma seleção antes de vencer a Copa do Mundo de 2002.

Por fim, contra o argumento patriótico, uso a célebre frase do escritor Samuel Johnson: "O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas".

O que o Brasil precisa é de uma Semana de 22 no futebol. Precisa de uma antropofagia futebolística. Nas últimas décadas temos sido apenas exportadores. Mas chega de arrogância. É a hora de aprender com os alienígenas. Por que não trazer técnicos de fora? Nos outros esportes já estamos fazendo isso. E tem dado muito certo.

Com o argentino Rubén Magnano, a seleção brasileira de basquete voltará a disputar uma Olimpíada depois de 16 anos. Com o técnico norte-americano Barry Larkin, o Brasil classificou-se pela primeira vez para o Mundial de beisebol. E com o ucraniano Oleg Ostapenko, as meninas da ginástica olímpica chegaram onde apenas haviam sonhado.

O argumento nacionalista é de uma hipocrisia imensa. Afinal, a empresa que controla a seleção até 2022 é a saudita ISE --a seleção, nos últimos três anos, jogou 42 partidas, mas apenas cinco no Brasil.

Ou seja, os torcedores podem ser estrangeiros, a empresa controladora pode ser estrangeira, mas o técnico não? Hipocrisia.

Era o momento da revolução --não como a que Marin apoiou em 1964, é claro. Mas perdemos o bonde da história. Ou o trem-bala, para atualizar a frase.

Com Guardiola teríamos mais chance de voltar ao alto do pódio do futebol mundial. A seleção poderia transformar os adversários em bobinhos, e eles ficariam apenas correndo atrás da bola no meio da roda.

Mas preferimos o passado.

A troca de Mano por Felipão foi mais ou menos como a troca de Ricardo Teixeira por José Maria Marin. Trocou-se alguma coisa para que tudo continue como está.


JOSÉ ROBERTO TORERO, 49, é jornalista, escritor e roteirista, autor de "O Chalaça" (Objetiva), de "Uma História de Futebol" (Objetiva) e de "Dicionário Santista" (Ediouro), entre outros

Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2012.

De Felipão a Getúlio

Eduardo Bueno



Então, Felipão bateu o barro das esporas, encilhou a cavalgadura e enveredou pela velha rota dos tropeiros, disposto a amarrar outra vez sua bela besta baia no velho obelisco.

Saiu de Passo Fundo, trotou pela Vacaria, e, entre aplausos e mugidos, chegou a Itararé --o velho sítio da "batalha que não houve". Ali, de novo, não encontrou resistência alguma. Passou pela avenida 23 de Maio sem alcançar o significado da data e, entre altivo e autista, cruzou o Tietê como se fosse o Rubicão.

Depois de galopar entre as carretas da Via Dutra, atingiu enfim o coração da antiga capital federal. Teve um déjà-vu ao prender as rédeas do rocinante na esguia coluna de pedra erguida ao final da Avenida Rio Branco. Alguns paisanos o saudaram. Outros, certos de que estavam diante de uma "alma semibárbara egressa do regime pastoril", torceram, quando não empinaram, seus narizes. Como bom sargento, Felipão ignorou-os todos.

São jocosas, mas não gratuitas, as comparações entre o retorno de Felipão ao comando da seleção brasileira e a marcha de Vargas rumo ao Catete em 1930.

E se há algum anacronismo aqui, ele reside no fato de que, embora não tenha voltado ao poder "nos braços do povo", nem sido precedido pelo "movimento queremista", a verdade é que, tal qual Getúlio em 1954, estamos diante da segunda vinda Luiz Felipe Scolari. O que já quase o alça ao posto de Messias...

Metáforas e piadas abundam, franqueando o emprego dos clichês --pena que os mais utilizáveis não se prestem aos detratores de Felipão. Afinal, se o velho chavão "povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la" for verdadeiro, então o hexa já está no papo.

Mais amargo ainda para a falange anti-felipônica é o dito: "A história sempre se repete, ora como farsa, ora como tragédia".

Felipão pode ter seus defeitos, mas nem seus inimigos mais empedernidos acham que ele seja uma farsa. E sua primeira passagem pela seleção só foi trágica para os amantes do dito "futebol-arte".

De qualquer forma, não deixa de ser uma ironia divertida e reveladora ver antigos barões do café de cepa quatrocentona, e velhos cortesões da finada Belle Époque carioca tendo, outra vez mais, que fazer um pacto federativo e recorrer à essa espécie de caudilhismo positivista de cunho artiguista tão exemplarmente representado pelo jeito gaúcho-platino de jogar futebol, sempre posto em prática pelos times de Felipão.

Engraçado assistir esse pessoal de fatiota abrindo mão de seus supostos ideais em nome do pragmatismo e do "bem maior": ganhar a Copa em casa --sem sucumbir num novo Maracanaço.... Se não para próprio Uruguai ou --Deus nos livre!-- para a Argentina, desta vez para a ex-metrópole de nossos vizinhos, a poderosa Espanha.

Tudo isso seria só hilário, ou curioso, não fosse patético e tão exemplar do atraso. Não o suposto "atraso" de Felipão, é claro, mas o da esclerosada e ditatorial CBF, bem como o do eterno país do futuro do pretérito, que a mantém e a explica.

De todo modo, se o Brasil ainda crê nos "pais do povo", porque não recorrer ao sujeito que, se não é o pai da pátria (de chuteiras), com certeza é o pai da família Scolari?

Sem falar no bônus das galhofas. Felipão já disse como julga ser o dia a dia dos barnabés de bancos estatais. Periga, daqui a alguns dias, falar dos R$ 31 milhões anuais que a agremiação de Rosemary Noronha (que já ganhou estádio de presente) receberá de outra instituição financeira do governo.

Dentro do campo, também pode funcionar. Afinal, a Copa não passa de um torneio mata-mata. Até porque, como futebol-bailarino, pontos corridos é coisa de fresco. Ala pucha, tchê!


EDUARDO BUENO, 54, é jornalista e escritor, autor de "Brasil: uma História" (Leya) de "A Viagem do Descobrimento" (Objetiva) e de "Grêmio: Nada Pode ser Maior" (Ediouro), entre outros

Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2012.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Qual Felipão?

Eduardo Maluf




A CBF "apresentou" ontem Luiz Felipe Scolari como técnico da seleção. A questão é: qual Felipão vai assumir a equipe? O campeão da Libertadores de 1995 e 99, mundial em 2002 e vibrante comandante de Portugal ou o desmotivado e acomodado treinador do Palmeiras rebaixado para a Segunda Divisão?

Desde que retornou ao País e ao Palestra Itália, em 2010, Felipão não parece mais aquele líder obcecado por vitórias e por montar grandes times. Seu comportamento até certo ponto apático levou-me a escrever coluna intitulada "A crise de Felipão", em setembro de 2011. Em 2012, apesar do título da Copa do Brasil, manteve-se indolente. Quem acompanhou de perto seu trabalho nos anos 90 e no início da década passada chegou a ficar chocado com a mudança em seu estilo.

Big Phil, como é chamado na Europa, está na lista dos maiores treinadores da história de Portugal e do Brasil por suas notáveis conquistas. Depois de 2006, quando avançou à semifinal no Mundial da Alemanha com os portugueses, porém, não alcançou mais grandes feitos. Foi mal no Chelsea, sumiu no Usbequistão e manchou o currículo com a queda do Palmeiras para a Série B.

Esse simpático senhor de 64 anos tem carisma e é querido por grande parte da população. Tudo isso conta, sobretudo quando falamos de uma Copa no Brasil. Mas... e a eterna conversa de que seleção é momento? Vale para jogador e não para treinador? Ou abrimos exceção? Ele pode, claro, resgatar o entusiasmo ao se ver diante de um novo grande desafio em sua vida profissional. Mas não creio que esta fosse a hora de promovê-lo ao cargo.

Considerei equivocada a demissão de Mano Menezes (também motivada por questões políticas) por acreditar que o menor de nossos problemas estava na comissão técnica. O maior déficit, hoje, é de jogadores. Os principais nomes são jovens demais, como Neymar, Oscar, Lucas. Eles são talentosos, mas precisam de companheiros mais experientes para lhes dar retaguarda. É aí que pecamos.

O sinal de desespero na busca por um líder é a forma como encaramos o retorno de Kaká. Houve um festival de elogios ao meia do Real Madrid depois dos últimos amistosos. Será que José Mourinho não entende de futebol para deixá-lo no banco em quase todas as partidas do Real? Se o brasileiro estivesse no auge da condição, não ficaria fora nem de um conjunto de estrelas como esse espanhol.

A capacidade técnica de Kaká é indiscutível. Faltam-lhe, no entanto, sequência, ritmo, consistência... Tomara que seus problemas físicos tenham, de fato, sido resolvidos, mas só saberemos ao fim de uma temporada inteira.

Não era momento de mudança no comando da seleção - até por não haver nenhum nome com unanimidade para substituir Mano. A amarelinha sozinha já nos põe entre os favoritos em qualquer disputa, independentemente da situação. Mas estamos andando na contramão dos principais adversários e tornando nosso caminho para o hexa cada vez mais distante e esburacado.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 30/11/2012.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Feira de negócios

Tostão





Está praticamente certo que Mano Menezes não foi dispensado por razões técnicas, e que Felipão será o novo treinador da seleção.

Meses atrás, em uma coluna fictícia, escrevi que Mano Menezes, no psicanalista, dizia-se preocupado com a nomeação de Felipão como assessor do Ministério do Esporte. Mano suspeitava que Felipão era o técnico preferido do governo. Um mês depois da Olimpíada, Felipão saiu do Palmeiras. Será que a ficção estava próxima da realidade?

Repito minha hipótese de que a CBF, influenciada pela importância política e comercial da Copa e pelos investidores e marqueteiros, quer um técnico carismático, capaz de empolgar o torcedor, de conviver com a pressão de um Mundial no Brasil e ainda ser um escudo para os dirigentes. Mano é racional, frio e técnico. Sorri pela metade, como José Serra.

No passado, as estrelas do futebol eram os jogadores. Depois, surgiram os treinadores. Agora, é a época dos investidores e marqueteiros.

Isso pode ser bom ou ruim. Nenhum dirigente de clube ou da CBF decide nada sem ouvi-los. Nem sempre o que é bom para o time é bom para o clube, pelo olhar comercial e político. Cada vez mais, futebol é uma feira de negócios.

Guardiola foi um sonho. É lamentável a prepotência e o corporativismo dos técnicos brasileiros, antigos e novos, em relação aos estrangeiros, mesmo sendo Guardiola. Querem manter os empregos, o prestígio e ainda ficar próximos da CBF.

Obviamente, em um passe de mágica, nem mesmo em um ano e meio, Guardiola faria a seleção jogar tão bem quanto o Barcelona. Não temos tantos craques. Mas muitas coisas poderiam ser melhoradas já para o Mundial. Temos de pensar no futuro e criar novos conceitos.

A maior dificuldade do técnico seria a falta de um craque no meio-campo, no nível de Xavi, Iniesta, Busquets, Fàbregas, Xabi Alonso, Pirlo, Yaya Touré. Todos estão em uma lista de 15 armadores, selecionados pela Fifa, que vão ocupar três posições na seleção do ano. Nenhum dos 15 é brasileiro.

Enfim, os treinadores brasileiros perceberam que os volantes, além de marcarem bem, necessitam ter bons passes, serem organizadores, inventivos e ainda chegarem à frente. Só teremos um craque nessa posição quando os técnicos das categorias de base pararem de colocar os armadores habilidosos para ser meias ofensivos ou atacantes pelos lados.

Com a saída de Mano, que tentava mudar a maneira de jogar da seleção, continuaremos no jogo truncado, no estilo vapt-vupt. Às vezes, dá certo. Como disse Paulo Vinícius Coelho, quando Felipão era técnico do Palmeiras, o time parecia de futebol americano, que ganhava terreno (jardas), aos poucos, por meio de faltas, até chegar próximo do gol para Marcos Assunção jogar a bola na área.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 28/11/2012.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Felipão é o novo técnico da seleção





A CBF já acertou com um novo técnico para a Seleção, mas não tem mais um diretor de Seleções: Andrés Sanches deixou nesta quarta o cargo, que acabou extinto pelo presidente José Maria Marin, e Luiz Felipe Scolari é o substituto de Mano Menezes. O anúncio oficial de Felipão, campeão mundial em 2002 com o Brasil, será feito na quinta.

Andrés pediu demissão do cargo de diretor de Seleções através de uma carta. Em São Paulo, Marin disse que a posição está extinta para a volta da função de coordenador, exercida nas Copas do Mundo de 1994 e 2006 por Zagallo, de 1998 por Zico e de 2002 por Antonio Lopes. Tetra nos Estados Unidos, Carlos Alberto Parreira é o mais cotado para assumir a tarefa de trabalhar na nova função.

FONTE: GLOBO.COM

http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2012/11/andres-sanches-deixa-o-cargo-de-diretor-de-selecoes-da-cbf.html