sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Tolerância zero

Eduardo Maluf



Rudolph Giuliani se tornou famoso com a política da "tolerância zero" contra criminosos em Nova York nos anos 1990. Reduziu os índices de violência na megalópole americana e ganhou popularidade no país. As ações radicais não costumam dar certo na maioria dos casos e devem ser evitadas, mas às vezes são necessárias.

Ou as autoridades impõem tolerância zero com os delinquentes do futebol ou continuaremos a ver mortes como a do garoto boliviano de 14 anos, atingido por um sinalizador atirado por torcedores brasileiros, segundo a polícia boliviana, durante Corinthians x San Jose, anteontem, em Oruro. É preciso que o rigor das leis seja aplicado também no esporte, e o bandido de torcida receba punição como qualquer outro cidadão.

É fácil, de nossa parte, jogar 100% da responsabilidade de garantir a segurança dos eventos nos dirigentes, policiais e organizadores. Queremos demais deles e, frequentemente, não cumprimos nossos deveres e obrigações. Chiamos quando entidades proíbem a entrada de bandeiras e rojões nos estádios, não permitem o consumo de bebida alcoólica e vetam, por exemplo, a "avalanche gremista" em Porto Alegre.

No mundo dos sonhos tudo isso deveria ser liberado. Desde que todos os presentes se comportassem de maneira adequada. Não é, porém, o que ocorre, e os inúmeros casos estão aí para comprovar. Bandeiras com mastros e rojões podem ser usados como arma para ferir ou matar.

Cobrar dos policiais que cuidem de dezenas de milhares de torcedores numa noite, num campo, e assegurem que nada acontecerá é exigir muito além da capacidade humana. Se um grupo de dez pessoas quiser, vai arrumar confusão e provocar brigas. Por isso, enquanto houver gente determinada a causar baderna num palco de futebol, é imprescindível estabelecer punições e medidas que possam parecer impopulares, como a exclusão de bandeiras e rojões.

Os bons torcedores, como sempre, acabam pagando o pato. Mas é melhor que deixem de carregar bandeira ou beber cerveja na arquibancada do que corram o risco de perder a vida como o menino Kevin Beltrán Espada.

O competente jornalista e corintiano Wilson Baldini Jr. me ligou ontem pela manhã, chocado com a tragédia na Bolívia, dizendo-se favorável à exclusão do Corinthians da Taça Libertadores. Tenho dúvidas se seria justo punir o clube e milhões de corintianos por causa de meia dúzia. Mas é certo que ações como essa (além, claro, das penas previstas pela lei) fariam o sujeito pensar bem antes de atirar rojão, sinalizador ou iniciar uma briga com torcedores adversários - inimigos para muitos.

A tolerância zero mudou o comportamento do público esportivo na Inglaterra e em vários países da Europa. O Brasil avançou pouco e segue no Terceiro Mundo na questão de segurança nos estádios. O reflexo está nas arquibancadas. Cada vez mais apaixonados por futebol têm trocado o campo pela televisão e a tranquilidade de casa.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 22/02/2013.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Recordes de Messi

Ruy Castro



Neste momento, 11 da noite no Rio e duas da manhã em Barcelona, Lionel Messi deve estar quebrando mais um recorde. Não se passa um dia sem que Messi, craque do Barcelona e da seleção argentina, não quebre um recorde no futebol, para nosso deleite, admiração e inveja.

Nos últimos tempos, a Fifa --entidade equivalente em termos terrenos à Santíssima Trindade nos celestiais-- homologou novos recordes de Messi. Ele foi o melhor jogador do mundo pela quarta vez consecutiva e o maior goleador da Europa também pela quarta vez consecutiva. Antes, já tinha sido o primeiro a marcar cinco gols numa só partida da Liga dos Campeões. Agora, é também o maior goleador num só ano em todos os tempos e o maior em um só ano do Campeonato Espanhol, do Barcelona e da seleção argentina. Como se não bastasse, tornou-se, há pouco, o maior goleador que já usou um smoking com bolinhas brancas numa cerimônia oficial.

Outro recorde, ainda pendente de confirmação pela Fifa, é o de maior número de espirros no vestiário antes de um jogo contra o Real Madrid. E não há limite para os futuros recordes de Messi. Já se tem como certo que, um dia, ele chegará aos mil gols e será campeão, bicampeão e tricampeão mundial por seu país.

Quando os argentinos dizem que Pelé não era aquilo tudo por não ter atuado na Europa, esquecem-se de que o Santos de Pelé vivia na Europa e que, aqui, tinha de enfrentar outros 12 ou 15 grandes times brasileiros, a milhares de quilômetros um do outro --e que Messi passa o ano disputando um campeonato, o espanhol, composto de Barcelona, Real Madrid, um eventual terceiro time e 17 perebas, sendo que o quarto colocado nunca fica a menos de 50 pontos do primeiro.

E, se Messi fosse brasileiro, eu me pergunto se nossos irmãos argentinos teriam a nossa adoração por ele.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 16/02/2013.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Vida do crack

Ruy Castro


Tarde desta quarta-feira. O ônibus do Botafogo segue pela avenida Brasil rumo ao estádio de Moça Bonita, em Bangu, onde, dali a pouco, o alvinegro carioca enfrentará o Audax, clube de São João de Meriti, recém-promovido à divisão principal do Campeonato do Rio. Entre os jogadores está o surinamês Seedorf, quatro vezes vencedor da Liga dos Campeões da Europa e tricampeão mundial de clubes.

Aos 36 anos, em grande forma, rico, independente e realizado, Seedorf podia escolher onde quisesse para jogar seu futebol. Escolheu o Brasil, o Rio e o Botafogo. Gosta de nós, é casado com uma carioca, fala perfeito português, e por que não vestir a camisa que, um dia, foi de Heleno, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Amarildo, Zagallo, Gerson, Jairzinho e Paulo Cesar?

Bem, segue o ônibus pela avenida que não por acaso se chama Brasil. Na altura do bairro de Ramos, os jogadores do Botafogo e todos que passam de carro se defrontam com uma dura realidade brasileira: as centenas de dependentes de crack à beira da rodovia. Alguns, agarrados ao único bem material que possuem: um cobertor --além, claro, do indispensável cachimbo. Um deles veste uma camisa do Botafogo. Uma camisa 10. A de Seedorf.

Seedorf viu bem o miserável que o tem como herói. O pobre diabo pode ter visto o ônibus do Botafogo, mas não se sabe se viu Seedorf na janela. A cena foi relatada ontem pelo portal "Lance!Net", infelizmente sem o nome do repórter.

O craque Seedorf tem escolhas e as exerce. Já o "Seedorf" do crack não sabe mais o que é escolher. Não sabe, aliás, nem quando, por quanto ou de onde virá o próximo cachimbo. O que lhe cair às mãos é para ser convertido em droga. Comer, dormir, viver, nada disso interessa. E não mora na cracolândia porque quer, mas porque não pode passar nem um minuto sem crack.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 01/02/2013.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Um tango para Messi


Luiz Zanin


Depois da quarta Bola de Ouro, superando Zidane e Ronaldo, o que falta ainda a Lionel Messi? Nada, dirão os tietes que, ouso supor, constituem a imensa legião de fãs de futebol (profissionais ou não) espalhados pelo mundo. Messi atravessou fronteiras, ou melhor, pulverizou-as. Tem torcedores em todos os países. E essa torcida se justifica. Entre todas as suas qualidades, não falta nem mesmo uma inesperada modéstia. “Não foi o meu melhor ano no futebol”, disse, apesar de ter feito 91 gols em 2012. Justifica: apesar da façanha individual, os títulos do time não vieram como ele gostaria. O Barcelona foi desclassificado pelo Chelsea e ficou sem o título de campeão europeu. Não pôde, por consequência, disputar o Mundial no Japão. Este homem, então, além de tudo, tem pensamento coletivo! Não é o cúmulo?

De minha parte, e sem querer estragar a festa da unanimidade, acho que falta ainda uma coisa a Messi: ser campeão do mundo pela seleção argentina. Trata-se de um desafio que virá apimentar ainda mais a Copa do Mundo de 2014. Já pensaram (batam na madeira, por favor!) a Argentina vencer a Copa no Brasil, em pleno Maracanã? Eu só não digo que seria uma tragédia pior do que a de 1950 porque já não se fazem mais tragédias como antigamente. Ninguém vai cortar os pulsos. Mas que vai ser um estrago, isso vai. E que vai despertar o nosso sempre presente complexo de vira-latas, disso não tenho dúvida

Deixando de lado esse pensamento sombrio, entendo que este passa a ser o principal desafio de Messi. A Copa é, para ele, aquela meta sem a qual os grandes craques não conseguem se motivar. Depois de ganhar tudo, bater todos os recordes, jogar no melhor time do mundo, o que mais resta? Pois bem, no fundo da consciência de Messi, ou, talvez, enterrado lá em seu inconsciente, deve incomodar essa proeza não realizada: dar a volta olímpica numa Copa do Mundo com a seleção do seu país natal, ser lá reconhecido como o digno sucessor de Maradona. Tornar-se, talvez, alvo da mesma idolatria de Diego Armando, ele, Lionel, de perfil tão oposto, tão avesso aos excessos (verbais e outros) do grande mito argentino?

Será isso possível? Maradona, que ganhou uma Copa para o seu país, parece argentino até a caricatura. É fácil visualizá-lo cantando Cambalache, por exemplo. Já Messi, com sua discrição, senso de economia de gestos e palavras, a finesse com que vai acumulando gol sobre gol, é mais minimalista. Vai à essência, depura movimentos, opta sempre pelo mais simples. Difícil imaginá-lo bailando um tango, essa dança tão cheia de arabescos e paixão. Se há uma argentinidade em Messi é a de um Jorge Luis Borges, tão portenho quanto inglês, com sua prosa sóbria e precisa.

Mas, quem sabe uma Copa, vencida no terreno do arquirrival Brasil, não seja capaz de entronizar Messi no imaginário dos seus patrícios? Cabe a Felipão e família exorcizar esse sonho de Messi – um pesadelo, do nosso ponto de vista.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 08/01/2013.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Quando o Corinthians jogou em Yokohama





Quando amanheceu o dia no Brasil, já era noite na terra do sol nascente. Estávamos acordados, fiéis e loucos, lá e cá. Ou melhor, onipresentes, como um todo-poderoso. Assim como em 1990, quando Tupãzinho empurrou a bola de carrinho, 16 de dezembro seria, mais uma vez, dia de glória. Naquela época, diziam sermos incapazes de ultrapassar os limites do estado; até há alguns meses, asseveravam que jamais transporíamos as fronteiras do país. Quebraram a cara antes, repetiram a dose agora. Éramos a piada e viramos o paradigma.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, sabíamos que o Chelsea jogaria no 4-2-3-1. Eles, coitados, desconheciam nossa alternância do 4-4-2 para o 4-3-3, somando 30 mil na arquibancada e outros 30 milhões nas casas, bares, padocas e onde mais houvesse uma TV ligada. Era muita desproporção a nosso favor, mesmo se considerarmos os tantos milhões de euros ingleses, ou melhor, russos. Já tivemos a lição de que grana não é tudo. Obrigado, professor Kia Joorabichian, nosso ex-Abramovic. Maior patrimônio é o que temos: a massa disposta a sofrer e a lutar, sem parar. Torcida que, qual tsunami, invadiu o Japão, assim como já fizera em 1976. Para quem pensava que o Rio de Janeiro era perto demais, percebeu que o Japão, para nós, também é logo ali. Yokohama, Maracanã, Morumbi: fazemos de qualquer lugar um grande Pacaembu.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, nem todos o viram, mas ali estava Ronaldo Fenômeno, no mesmo gramado em que outrora brilhou com a amarelinha. Estavam, ainda, Rivellino, Sócrates, Teleco, Cláudio, nossas vidas, nossa história e nosso amor. No impecável gramado nipônico sobrepuseram-se o chão da Fazendinha, o terrão da zona leste, os tijolos da arena em construção, a várzea onde Neco brincava, o solo do Bom Retiro sob os pés de cinco iluminados operários. A propósito, se nascemos à luz dos lampiões, hoje nos veem sob a luz dos holofotes de todo o planeta.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, ao seu lado adentraram jogadores de uniforme azul. Olhando bem, os uniformes também eram verdes, tricolores e até alvinegros, de outra estirpe. Cech, Lampard, Hazard e Torres eram, ao mesmo tempo, “são” Marcos, Ademir, Raí e Pelé, unidos para que o mundo não fosse nosso uma vez mais. Só que, vestidos de azul, os algozes de outrora não repetiram seus feitos. Secaram a mais não poder, em vão. Do mesmo jeito que, dias antes, fracassaram na tentativa de fazer do Al Ahly um novo Tolima.

Junto a Ralf e Paulinho estavam Rincon e Vampeta, Elias e Cristian, a garra de Biro-Biro, Wilson Mano e Ezequiel. Danilo armou jogadas à la Zenon, deu passes como Neto, confiante como Marcelinho. Fábio Santos foi combativo, raçudo: estavam consigo Wladimir e Zé Maria. Luizinho, o pequeno polegar, esteve representado pelo também pequeno, nem tão habilidoso, porém incansável, Jorge Henrique. Nosso intelectual Paulo André mostrou a inteligência do seu amigo, nosso eterno Doutor, e a segurança de Gamarra. Só Alessandro e Chicão entraram em campo como eles próprios: os bravos capitães da nave que partiu do fundo do poço da segundona para chegar ao céu sem limites do mundo. Tite, que não é Osvaldo, nem Brandão nem de Oliveira – também não é Menezes, ainda que, com certeza, um genuíno mano –, mas Adenor, o professor que ensina seus comandados a namorar e a jogar com “incansabilidade”.

Diferentemente da Libertadores, desta vez Sheik não estava endiabrado como um Edílson, nem Romarinho foi um talismã como Dinei. Nem precisaram, pois, desta vez, o protagonismo coube a Cássio: o gigante fez o primeiro milagre com o reflexo empresado por Gilmar; quando fez o segundo, assumiu a destreza de Ronaldo Giovanelli; quando fez o terceiro, já canonizado, era o próprio Dida defendendo o pênalti de Anelka.

O gol aconteceu no segundo tempo, igual a outro, também fadado a morar eternamente em nossos corações. Como em 1977, quando Basílio resvalou de cabeça na área, assim o fez Jorge Henrique. Aquela bola sobrara para Vaguinho; esta, a Paulinho. Na sequência, Danilo chutou e, como a trave de outrora, Peter Cech fez a pelota e a sina caírem na cabecinha de ouro de Guerrero, redivivo Baltazar, gringo como Carlito, oportunista como Luizão, Casagrande e Geraldão. Como se a cabeçada de Wladimir não tivesse sido interceptada, o dejá-vu nem chegou ao chute fatal de Basílio para que o grito de gol ecoasse neste e no outro lado da Terra, eternizando a imagem da bola a passar o muro vazado de Ashley Cole, Ramires e David Luiz. Quase reprodução do quadro em que aos pobres Carlos, Polozi e Oscar, caídos no chão, só restou lamentar o cumprimento do destino.

Logo após, vi Guerreiro correr em direção à torcida, ao mesmo tempo em que Chicão mordia o escudo, Marcelinho girava os braços, Rivellino gritava, Sócrates erguia o braço e cerrava o punho, Tevez dançava cumbia, Romeu dava cambalhota, Ruço jogava beijinhos, Neto deslizava de joelhos, Dentinho beijava os pulsos e o Fenômeno balançava o indicador, na falta de um alambrado para se jogar.

Quando Alessandro levantou a taça, repetindo o gesto da conquista recente da América, ali estavam William em chamas, Rincon vociferando palavrões e Gamarra com sua elegância guarani. A se lamentar, apenas a companhia de José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, filhotes de ditadura, posando na foto histórica do time do povo, em cuja camisa a democracia esteve tão dignamente estampada.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, estavam lá todos os corinthianos. Alguns milhares, de corpo presente. Outros milhões, em pensamento e emoção. Outros tantos, incontáveis, que sequer residem mais neste planeta ora conquistado por sua nação alvinegra: não estão aqui fisicamente, muito embora estejam na paixão legada a filhos, netos, bisnetos ou amigos, tornados loucos no imenso bando. Representantes de um povo sofrido, nem tanto hoje como no passado. Povo em ascensão, Obamas da ZL a descobrir que, sim, nós podemos. Povo que não pode mais ser visto, a não ser sob a incurável dor de cotovelo da rivalidade doentia, como torcedores de um timinho sem glórias sediado na Marginal sem número. Perdoem-me os coirmãos: hoje, o discurso rancoroso e pseudo-elitista só evidencia o temor de que esse time se torne potência globalizada. E, quem sabe, assim será. Afinal, aqui é Brasil e aqui é Corinthians!

De qualquer forma, apesar de tudo, pode até ser que continuem a nos ver como um time menor. Nas suas palavras, um time de favelados, de desdentados e analfabetos. Isso pouco importa, pois não é assim que nós nos vemos. E, quem sabe, talvez não seja assim que o mundo nos veja, pelo menos desde que o Corinthians jogou em Yokohama.


***

Agradeço a São Jorge pelo ano maravilhoso de 2012. Ano em que superamos o Santos de Neymar, o Boca de Riquelme e o Chelsea do dinheiro. Ano em que conquistamos a América e o mundo. O mesmo mundo que, ironicamente, acabaria em 2012, assim como deveria ter findado em 2000. Conclusão lógica: sempre que o mundo está para acabar, fica tão feliz com a vitória do Corinthians que continua a existir. Somente um todo-poderoso para adiar o apocalipse.

JFQ

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O grande segredo

Luiz Zanin


O Corinthians começou o jogo contra o Chelsea já vencedor. 95 minutos depois, estava consagrado. Mesmo se perdesse, e voltasse ao Brasil como vice, já teria dado exemplo raro de recuperação e restruturação. Campeão, torna-se uma espécie de paradigma, referência digna de ser emulada pelos outros clubes. Modelo difícil de ser seguido, diga-se, porque esse Corinthians que veio da série B, tornou-se campeão brasileiro, da Libertadores e do Mundo, na sequência, dificilmente pode ser imitado em todas as suas qualidades. O candidato a fazê-lo precisaria, para começar, ser detentor de torcida superior a 30 milhões de pessoas. Feito só igualável pelo Flamengo.

O que faz um time ter uma torcida desse tamanho? Dou um docinho de coco a quem me fornecer uma resposta razoável. Sabe-se que um time vencedor faz sua torcida crescer. O São Paulo é um bom exemplo recente. Em épocas favoráveis, o Palmeiras viu sua torcida aumentar. O Santos ganhou adeptos com times jovens e ídolos como Robinho e Neymar. O paradoxo do Corinthians foi ter crescido, de maneira exponencial, mesmo na seca mais ingrata, quando não ganhava nada e era humilhado por adversários. Florescia na aridez, como cacto no deserto. E, quando chegou a época das chuvas, inverteu o paradoxo e não parou de brotar. Esse é um dado particular, mística difícil de ser imitada. Que outra torcida levaria tantas pessoas até o lado oposto do mundo, a ponto de transformar Yokohama em sua casa? Então, no quesito torcida, deixemos o Corinthians com sua glória única. Só nos resta admirar e aplaudir.

Outras coisas, no entanto, podem servir de exemplo. Se não é qualquer time que conta com um poderoso ex-presidente como aliado, está ao alcance de todos adotar medidas de bom senso, como manter no posto um bom técnico, mesmo após uma derrota dolorida. Hoje todos reconhecem que a permanência de Tite depois da derrota para o Tolima foi pedra fundamental para a conquista do Mundial de Clubes. Quem apostou, na época, que ele ficaria? Ninguém que eu conheça.

Outra coisinha: o Corinthians mostra como é importante a manutenção de um elenco base. Não adianta nada montar um grande time se você tiver de desmanchá-lo no meio do ano e então recomeçar do zero. É um trabalho de Sísifo, os times nunca ficam prontos. O Corinthians está pronto há muito tempo e colheu os frutos dessa maturidade e permanência. Outra mutação: preservou a raça como parte da tradição e atualizou-a em rigor tático, o que é outro mérito de Tite.

Outro dado interessante para meditação dos rivais: o Corinthians nos lembrou que o futebol é esporte coletivo. É preciso montar uma equipe homogênea para ter sucesso. Um craque só não faz verão, como parece pensar o Santos, que deposita todas as suas fichas apenas em Neymar. Se o gênio não tiver com quem jogar, nada feito. Se Pelé não tivesse ao seu lado jogadores extraordinários teria realizado aquela carreira sem comparação? Claro que não.

O Corinthians é um todo. Um se destaca num jogo, outro na partida seguinte, mas é o conjunto que ganha ou perde. Esse é o “segredo”. Que, aliás, não é segredo para ninguém.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 18/12/2012.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Foi, Curintcha!

Antonio Prata





Das coisas mais bonitas que eu já vi: em Yokohama, Japão, do outro lado do mundo, um frio de bater queixo e o estádio apinhado de corintianos. Tudo preto, tudo -só com muita dificuldade se via, aqui e ali, esparsos smurfinhos do Chelsea.

Nem parecia que estávamos a 18.576 km do Pacaembu.

As faixas tomavam 360º do anel entre as arquibancadas: Fiel Capão, Guarulhos, Camisa 12, Tatuapé, Fiel Leme, Coringão Chopp, Fiel Morato, Curitiba, Fiel Cachoeira, Vila Moraes, Fiel Centro, Suzano, Fiel Soro-caba, Pavilhão 9, Cohab 5, Fiel Praia Grande, Taboão da Serra -e, não podemos deixar de mencionar, "Minha mulher deixou!", o que dá uma ideia da delicada situação conjugal que, em milhares de lares brasileiros, com o orçamento curto, ainda devendo prestação da TV e da geladeira, a decisão de passar uma semaninha no Japão deve ter criado.

Pois a mulher deixou, 30 mil mulheres deixaram, 40 mil, 50, jamais saberemos (tem que contabilizar os solteiros, também...): neguinho vendeu o carro, pegou empréstimo no banco, parcelou em três gerações, descolou casaco com o tio, ceroula com o primo, a avó tricotou a luva e cada corintiano presente no estádio fez valer o dinheiro, a paixão e o esforço que os trouxe até aqui.

Das coisas mais bonitas que eu já ouvi: em Yokohama, Japão, do outro lado do mundo, num frio de bater queixo e a torcida cantando, sem parar um único segundo: "Vamos, vamos Corinthians...", "Aqui tem um bando de louco!", "Timão ê ô", sem falar na vaia que ecoou pelo Oriente quando o Chelsea entrou para aquecer, uma vaia colossal, acachapante, digna de crônica do Nelson Rodrigues, que ainda estará zunindo nos tímpanos daqueles pobres e desolados bretões em seus últimos instantes sobre a Terra.

E não é que funcionou?

Como em raras vezes na vida, tudo deu certo. A torcida empurrou, o time respondeu, goleamos por 1 a 0. Torres foi anulado pelos peões -e, a essa hora, deve estar indo levar saudações alvinegras à rainha. David sumiu, sob o Golias corintiano. Oscar não deu nem pra Quiquito.

E Hazard, que em inglês quer dizer "perigo", se tiver um pingo de vergonha na cara, assim que pisar em Londres vai correndo a um cartório mandar botar um "No" antes de seu nome.

A equipe do Corinthians venceu pelo conjunto, mas dois jogadores merecem destaque. Cássio, que fechou o gol e levou merecidamente a Bola de Ouro (embora Muro de Ouro fosse o correto) e, claro, Guerrero. Que coisa mais óbvia e mais acertada, dessas que fazem a gente desconfiar, às vezes, que tem alguém nas coxias trabalhando no roteiro: um time que foi criado em 1910 por um cidadão chamado Bataglia conquista o mundo com um Guerrero. Melhor, impossível.

Foi, Curintcha!


Publicado na Folha de S.Paulo, em 17/12/2012.

Em nome da Copa

Ruy Castro



O estádio do Maracanã, na zona norte, fica numa confluência de bairros -São Cristóvão, Tijuca, Vila Isabel, Grajaú, Benfica, Estácio, Riachuelo, Andaraí, Rio Comprido-, todos densamente povoados e a distâncias que dispensam condução. Até há pouco, em dia de clássico, era emocionante ver a massa indo a pé, de chinelo, para o estádio -aos milhares, em passo acelerado, com as camisas dos dois clubes vestindo vizinhos de bairro ou de rua.

E, para quem morasse longe, nunca faltaram trens, táxis e, depois, o metrô. O carro particular sempre foi a última opção. Em 50 anos de Maracanã, posso contar as vezes em que fui num deles ao estádio.

Leio agora que, em nome da Copa e por ordens da Fifa, as violências que já se cometeram contra o Maracanã se estenderão ao seu entorno, a começar pela demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare. Esses dois equipamentos, em cujas pistas e raias surgiram tantos atletas brasileiros, irão ao chão para dar lugar a um estacionamento. Mais uma vez, o esporte é atropelado pelo mais arcaico e egoísta dos meios de transporte, o automóvel.

As picaretas atingirão ainda o Museu do Índio, prédio de 1865, que o poder público reduziu a cortiço. Em seu lugar, surgirá uma área de escape, permitindo que o Maracanã se esvazie em oito minutos em caso de terremoto, tsunami ou tufão. E, ao lado, a Escola Municipal Friedenreich, admirada por sua eficiência, também será demolida, para que surjam quadras de aquecimento de atletas.

Para a Fifa, o novo frequentador do Maracanã, depois de estacionar seu Cooper ou Jaguar, fará compras nos shoppings do estádio, se acomodará num belo camarote, discutirá Kant com os convidados da CBF e, de vez em quando, dará uma espiada no jogo pelo janelão que o separa dos verdadeiros torcedores.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/12/2012.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Doze é o número da sorte

Juca Kfouri





Para quem ficou, valeu ver Walter Casagrande Júnior com lágrimas nos olhos quando o Corinthians entrou no gramado em Toyota saudado com o alarido que se ouve normalmente no Pacaembu.

Ele lembrou do Doutor Sócrates, que, outro dia mesmo, estava aí com todos nós e, comovido, sacou como justificativa para torcer pelo alvinegro a hipótese de o Corinthians ser o Brasil no Mundial da Fifa, embora ele saiba que o Corinthians é o Corinthians em qualquer lugar do mundo e em qualquer torneio de que participe.

E só ele leva tanta gente dele, a Fiel, verdadeira camisa 12 do Timão.

Nem por isso o comentarista da Globo deixou de opinar que o Al Ahly mereceu o empate pelo que fez no segundo tempo -ou pelo que o Corinthians não fez na etapa final.

Talvez ele esteja certo, embora a superioridade alvinegra nos primeiros 45 minutos, principalmente na meia hora inicial, até o gol de Guerrero completando a trivela de Douglas, tenha sido mais marcante que a egípcia depois.

Só mesmo quando Aboutrika entrou o campeão africano criou chances de gol, uma de fora da área, como Douglas tivera no começo do jogo, e outra pela direita, quando Cássio fechou o ângulo providencialmente para evitar o empate.

Para chegar, 12 anos depois, a mais uma final do Mundial de Clubes da Fifa, o Corinthians precisou superar o jogo do vexame, o que se diz semelhante a bater em bêbado, apesar de não ser, apesar de nunca ter sido.

Vencida, também, a ansiedade da estreia, é de esperar que o Corinthians, o mais italiano dos times da América do Sul, segundo Diego Armando Maradona, jogue no domingo um outro jogo, com outro futebol, responsabilidades divididas com o rival, seja o favorito Chelsea, seja o mexicano Monterrey.

Chelsea que, além da vantagem do investimento sem limites, enfrenta o frio com absoluta naturalidade, coisa que não acontece com nenhum dos outros três semifinalistas.

Melhor para o Corinthians será mesmo pegar o time londrino, como foi melhor enfrentar o Boca Juniors na decisão da Libertadores, desafio de gente grande.

Já os mexicanos não só estão longe de serem vistos como gigantes como, para piorar, têm vencido os brasileiros tanto nos jogos das seleções principais como na final olímpica, na Londres do Chelsea.

Para terminar, voltando ao começo, creio não ser nenhuma traição reproduzir uma mensagem escrita que recebi em meu telefone no dia da final com o Boca e que guardei, por reveladora: "Vou te falar uma coisa. Eu parei em 94 e nunca mais senti vontade de jogar. Mas como eu gostaria de entrar em campo nesta quarta. Olha Juca, eu posso até ser demitido. Mas não vou me violentar. Vou torcer muito".

Preciso dizer quem foi o autor da mensagem?


Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/12/2012.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Telê 1986, Felipão 2012

 
 
Em 1986 o mundo ainda vivia a Guerra Fria, em que pesem as reformas incipientes promovidas pelo então líder soviético Mikhail Gorbatchev. No Brasil, a nova democracia, sob a alcunha de “Nova República”, engatinhava, enquanto a inflação galopava: era o ano das eleições para a Assembleia Constituinte e do Plano Cruzado. No futebol, começávamos a viver o falso dilema entre “futebol-arte” e “futebol de resultados”, posto que bom número de “entendidos” passaram a defender a tese, após a tragédia de Sarriá, de que jogar bonito não levanta caneco. Nessa época, minha vida se resumia às atividades da escola e do catecismo religioso, à convivência familiar, às peladas na rua e às primeiras angústias de amor. Coisas como a prova de matemática, a prece ao meio-dia, desenvolver o chute com curva, andar a cavalo, pescar lambari, diferenciar tatu-bola de tatu-peba, e, especialmente, debelar a timidez para me aproximar da garota amada eram minhas grandes preocupações existenciais. Apesar de ser apenas um molecote pré-adolescente do interior, continuava a idolatrar o escrete canarinho de 82 e a acreditar que somente jogando bonito era possível vencer. Sem saber, eu fazia parte da esmagadora maioria – o então chamado “povo” –, cuja opinião, muitas vezes, era desqualificada pelos tais “entendidos”.
Um dos fatos marcantes de 86 foi o anúncio de Telê Santana como técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo, no México. Desde o ano anterior, um grande imbróglio marcava o futebol brasileiro. Contratado pelo clube árabe Al Ahli (apesar do nome, não é o mesmo que enfrentará o Corinthians no Mundial de Clubes), seus dirigentes não admitiam cedê-lo para a seleção brasileira, apesar do clamor popular e da pressão da CBF. Desde a seleção mágica de 82, o Brasil havia frustrado as expectativas dos torcedores com os selecionados de Carlos Alberto Parreira, Edu Coimbra e Evaristo de Macedo. Após muita pressão – houve até uma campanha, “Fica, Telê”, lançada pela Revista Placar –, o Al Ahli “emprestou” Telê apenas para a disputa das eliminatórias. Festa geral! A seleção passou sem grandes dificuldades, com atuações destacadas de Zico, Casagrande e Renato Gaúcho.
O ano da Copa começou com duas perguntas cruciais: quem sucederia Giulite Coutinho na presidência da CBF e quem seria escolhido como técnico canarinho no México. Octávio Pinto Guimarães – oposicionista e aliado de Nabi Abi Chedid, liderança em ascensão – venceu as eleições e, de certa forma, surpreendeu o país ao anunciar, pouco tempo depois, que Telê estava de volta. Eu e o chamado “povo” vibramos com o retorno. Vale dizer, uma vibração espontânea, espécie de euforia, vinda de dentro.
Em 2012 vivemos o capitalismo globalizado, o reinado das finanças, da marca, do logo, do mercado e da mercadoria; da imagem produzida no talhar do marqueteiro. Ironicamente, os dias atuais parecem confirmar a concepção do velho Marx de que, sob a égide do capital, os homens se tornam mercadorias e estas ganham personalidade. O Brasil tem uma democracia consolidada e uma economia estável e emergente, noves fora a discordância das imortais Carlotas Joaquinas e o persistente, muito embora combalido, complexo de vira-latas: a Constituição de 88 é uma conquista nacional inegável, bem como nossa moeda, o Real. Hoje sou um quarentão, graduado e pós-graduado, vacinado, concursado, casado (sem papel passado), quase pai e habitante de metrópole. Minha grande preocupação é que o dinheiro necessário à família dure todo o mês e que meu guri nasça e cresça com saúde. No âmbito ludopédico, mantive a coerência: continuo a associar futebol bonito a bons resultados. Graças aos deuses da bola, tenho hoje – enfim! – um paradigma a corroborar minha tese: o Barça de Messi, Xavi e Iniesta.
No começo de 2012 uma notícia improvável correu os jornais: Ricardo Teixeira, presidente da CBF desde o fim da gestão Octávio Pinto Guimarães, deixava o cargo. No seu lugar entrou José Maria Marin, o vice com o dom de surgir do nada. Entrou e tardou a impor sua vontade de demitir o técnico Mano Menezes. Quando o fez, a sensação de ação inoportuna foi inevitável: afinal, passados dois anos, Mano parecia dar mostras de ter encontrado um caminho interessante. No entanto, sua permanência não era do gosto de Marin; dizem as más línguas, descontentamento compartilhado com a FIFA, com os patrocinadores, com os marqueteiros, com Romário, com a Rede Globo e, vejam só, com o “povo”. Se bem que, nestes tempos, o nome “povo” caiu em desuso. Melhor dizê-lo no jargão da moda, a estatística: Luiz Felipe Scolari entra com aprovação de 54% dos brasileiros. Melhor assim: sendo Felipão e Parreira, o “novo” coordenador técnico, figuras conhecidas do mercado, quer dizer, do povo, facilita muito as vendas, quer dizer, as coisas. Por falar em povo e em Parreira, é curioso ver alguém que antes, como técnico da seleção, tratava as críticas populares como “caixa de ressonância” dos comentaristas esportivos, agora, na condição de coordenador técnico, clamando o mesmo povo (o mesmo?) a apoiar o selecionado canarinho. Parreira deve ter entendido a mecânica da coisa – se o povo era manipulado pelos críticos, pode bem ser manipulado pelos ufanistas –, passando de vítima a operador do vox populi.
A imagem vitoriosa de ambos – campeões das Copas de 94 e 2002 – ajuda a manipular, quer dizer, seduzir a torcida nacional no melhor clima “pra frente Brasil, salve a seleção”. A mesma torcida que, segundo Galvão Bueno, tem um caso de amor com a amarelinha. Como se não bastasse, Felipão e Parreira têm visões táticas modernas, apesar de suas maiores conquistas já distarem longa data. Ainda assim – talvez a culpa seja da idade –, confesso que passei longe de sentir com o retorno de Felipão o entusiasmo do retorno de Telê. Na verdade, não vejo nenhum treinador no Brasil muito melhor do que Mano, mormente um cujo último time acabou rebaixado no Brasileirão. De qualquer forma, o importante é que, para a felicidade geral da nação e dos bons negócios, o “povo” deu seu aval (ou, quem sabe, deram por ele), por mais que essa aprovação não reflita a convicção nas qualidades atuais do “professor”, mas, acima de tudo, a desaprovação com o trabalho anterior, a falta de opções conhecidas e a arriscadíssima aposta de que a vitória de ontem é garantia de vitória amanhã.    
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Recorrendo novamente ao velho Marx, corre-se o risco de se repetir como farsa a história antes ocorrida como tragédia. Ou não. O tempo roda e as semelhanças do hoje com o ontem, mutatis mutandis, vêm à tona. Muito embora, claro, existam diferenças importantes entre as épocas. Senão vejamos.
A “família Scolari” retorna à Granja Comary. Nos tempos em que a residência do selecionado nacional era a Toca da Raposa também havia uma família. A figura do pai, ao mesmo tempo rígido e carinhoso, que ensina pacientemente e também cobra determinado comportamento, dentro e fora do campo, é marca comum de Telê e Felipão. A propósito, vige no país certa cultura de valorizar esse tipo de relação paternal como condição necessária para o bom andamento dos times. Premissa não necessariamente comprovada na prática: se, por um lado, essa postura dos treinadores facilita a organização de um grupo de jogadores naturalmente difícil de se lidar, repleto de vaidades e arroubos de rebeldia, por outro lado, os atritos ríspidos são inevitáveis. Brigas fizeram parte da carreira dos dois treinadores não só com seus atletas, como também com dirigentes, jornalistas, torcedores e até com outros treinadores.
Se a figura do pai remete tanto a Telê como a Felipão, alguns dos princípios de conduta transmitidos aos filhos, ou melhor, aos jogadores são bem diferentes, para não dizer antagônicos. Telê não abria mão do jogo limpo, na bola, além da técnica apurada, do futebol bem jogado como meio para chegar à vitória. Perna-de-pau não tinha lugar com ele, muito menos os chegados em um pontapé na canela do adversário. Certa vez, passou uma descompostura no jogador Zé Elias, durante um programa de televisão, porque, no seu entendimento, o então volante do Corinthians era desleal com seus companheiros de profissão. Scolari, por sua vez, é um dos principais expoentes da escola gaúcha, do jogo duro, combativo, que não concebe a vitória no futebol através da beleza, mas da postura de guerreiros em uma batalha. Não é à toa que “A arte da guerra”, de Sun Tzu, foi seu livro de cabeceira durante a Copa de 2002. Além do mais, algumas das nossas tradicionais malandragens – tais como provocar o adversário ou pressionar a arbitragem –, eram repudiadas por Telê na mesma intensidade com que são incentivadas por Felipão. Em outras palavras: para Telê, futebol é jogo para artistas; para Felipão, é peleja de macho.
Daí decorre outra diferença: as opções táticas. Telê partia do princípio de que os melhores jogadores sempre devem estar em campo. Entenda-se por “melhores” aqueles com técnica mais apurada, os mais habilidosos, com mais visão de jogo, inteligência, sem abrir mão do preparo físico. Assim, seu esquema tático era montado em função de dois fatores: a presença dos melhores e a utilização dessa capacidade em um jogo envolvente e para frente. O bordão de Jô Soares – “bota ponta, Telê!” – é bastante exemplar disso. Na preparação para 1982, Telê testara alguns pontas-direitas sem se convencer de suas potencialidades (ex: Tita, do Flamengo, e Tarciso, do Grêmio). Ele próprio, um ex-ponta-direita, entendeu que a posição passava por um momento de escassez de talentos. Juntando-se a isso o fato de quatro craques do meio-campo estarem no auge – Cerezo, Zico, Falcão e Sócrates –, não teve dúvidas em fazer adaptações. Se do lado esquerdo Éder cumpria à risca a função de ponta, na direita, Sócrates preencheria o espaço eventualmente, auxiliado pelas subidas do lateral Leandro. Nas eliminatórias para a Copa de 86, a adaptação ocorreu pela esquerda: Junior, antes lateral, passou a ocupar a meia, auxiliado pelas subidas do lateral Branco; do lado direito, Renato Gaúcho era o homem de confiança, pelo menos até que o descontentamento do treinador com o comportamento extracampo determinasse sua saída. Em síntese: Telê não era refém de tradicionalismos táticos, de um esquema pré-definido, mas um estrategista que montava sua equipe usando o melhor à sua disposição, fundado no toque de bola e na ofensividade.
Ao contrário deste, Felipão não tem tanto problema em deixar dois ou três jogadores mais habilidosos no banco de reservas, além de montar seu esquema priorizando a marcação. Que o diga a saída encontrada na Copa de 2002: três zagueiros, com um deles, Edmilson, às vezes servindo como volante; nos jogos finais, além dos três zagueiros, dois volantes de fato: Gilberto Silva e Kleberson. Para compensar, contava com três craques do meio para a frente: Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Solução, a propósito, não muito diferente da encontrada por Parreira, em 94: Mauro Silva e Dunga como um paredão no meio, compensado com a movimentação de Bebeto e a presença artilheira de Romário no ataque.
Um ponto em comum: tanto Telê como Felipão apostaram suas fichas em jogadores de extrema confiança – até porque eram gênios da bola –, independentemente das dúvidas com as condições físicas. Apesar do frágil joelho, Telê não abriu mão de Zico, em 86, ainda que para entrar nos momentos finais das partidas. Apesar do joelho frágil, Felipão não abriu mão de Ronaldo, em 2002. Neste ponto, inclusive, Scolari foi até mais ousado que o “Fio de Esperança”: em 86 não havia substituto à altura para Zico; em 2002, Romário, apesar da idade, continuava artilheiro e aclamado pela torcida.
Onde a história se repete? Se na época de Telê havia deficiência na ponta – ora na direita, ora na esquerda –, hoje não há um centroavante capaz de satisfazer à maioria dos boleiros. Ironicamente, depois de Reinaldo, Careca, Romário e Ronaldo, não temos mais um grande matador; apenas bons jogadores que já foram mais convincentes em outros momentos, como Fred, Damião e Luiz Fabiano. Tanto que, quiçá sob inspiração catalã, Mano Menezes passou a testar – com relativo sucesso – um time sem centroavante, mas com volantes, meias e atacantes de beirada de área bastante rápidos e com capacidade de articulação: Paulinho, Ramirez, Oscar, Kaká, Hulk e Neymar. Confesso que sinto a falta do são-paulino Lucas nesse rol. Conclusão: assim como Telê, Mano, considerando as deficiências e potencialidades dos jogadores à sua disposição, optou por sair do esquema tradicional. A pergunta: Felipão fará o mesmo ou não abrirá mão de um atacante de área, ainda que esteja em condições inferiores a outros jogadores? Complementando: Felipão abrirá mão de um volante, pelo menos, mais firme, fixo, no meio, tirando Ramires ou Paulinho, ainda que os dois passem por grande fase? Vou além: Felipão dará a si próprio opções táticas ou fará como Dunga que, a pretexto de “comprometimento”, deixou de convocar jogadores como Ganso e Neymar para a Copa de 2010? Até que ponto a pressão da torcida e de Marin (para não falar dos patrocinadores, dos empresários, dos marqueteiros e até da FIFA) pela presença de “medalhões” no selecionado nacional não comprometerá o time e a formação de opções táticas?
Ainda que Felipão não seja uma novidade, não dá para saber como será o “novo velho” técnico da seleção brasileira. Felipão 2012 é igual a Felipão 2002? Na comparação com Telê, confesso que preferia alguém com o perfil deste. Não pela ultrapassada oposição entre futebol-arte e futebol-resultado (a respeito, vale muito a pena a leitura do ótimo artigo de Tostão: http://ludopedicas.blogspot.com.br/2012/12/a-linha-reta-nao-sonha.html ), já que arte e resultado não são características necessariamente excludentes. Que o diga a própria história do futebol brasileiro e da nossa seleção, pentacampeã mundial (resultado) e com times que encantaram pela beleza do jogo, vencendo (58, 62, 70) ou perdendo (82). Aliás, entre Telê e Felipão, seria ridículo rotular um como pé-frio e o outro como vitorioso: aquele, depois das eliminações em 82 e 86, montou o vitorioso e “artístico” time do São Paulo, campeão mundial de 92 e 93; este, depois da conquista de 2002, oscilou, a favor e contra si, bons trabalhos (seleção de Portugal), conquistas, com todo o respeito, menores (campeão do Uzbequistão e Copa do Brasil) e críticas severas (passagem fraca no Chelsea e participação na campanha palmeirense que culminou no rebaixamento). Ou seja, ambos, jogando cada qual a seu modo, ganhou e perdeu, como ocorre na carreira de todo bom técnico.
Pelo que se vê hoje, a última participação de Felipão no Palmeiras, em que pese a evidente limitação técnica do elenco, foi de uma pobreza tática atroz. Como diz Paulo Vinícius Coelho, o time jogava como equipe de futebol americano, buscando ganhar jardas até um determinado ponto onde Marcos Assunção pudesse atuar, ora como “kicker” (chutando direto a gol), ora como “quarterback” (lançando a bola na cabeça de um companheiro). Também pela observação do momento atual, a equipe mais eficiente na obtenção dos resultados e que, ao mesmo tempo, encanta a todos os que apreciam o futebol bonito (claro, também considerando a qualidade do elenco) é o Barcelona. Aí é que está: o Telê de hoje – e já o disse antes – responde pelo nome de Pep Guardiola. E tivemos a chance de escolhê-lo...
Bem, essa é uma opinião pessoal. Quiçá, de uma pessoa ultrapassada, sem a plena noção das tantas mudanças ocorridas de 1986 para cá.  Afinal, naquela época o capitalismo era uma das possibilidades, envolto no mantra da eficiência do mercado e na satisfação das vontades das pessoas; hoje, é um consenso, guiado pelo marketing de tudo e todos, criador de imagens e vontades outrora inexistentes. Lá atrás, o conjunto dessas pessoas era chamado de povo, uma entidade, no Brasil, pré-cidadã, a dar os primeiros passos na conquista de direitos; hoje, apesar de direitos conquistados (sobretudo no papel e no discurso), é vista mais como um conjunto de consumidores em ascensão do que propriamente de cidadãos. Antes, ter reconhecido talento para treinar ou jogar bola eram condições suficientes para um técnico ou um jogador vestirem a camisa amarela; hoje, a isso é necessário aliar o carisma junto a torcedores-consumidores, exigência das redes de transmissão e demais patrocinadores. Na penúltima década do século XX, tatu-bola e tatu-pepa eram diferentes, mas ambos brasileiros; no século XXI, cedemos ao concurso fuleco (ops!) para, entre amijubis e zuzecos, enriquecer ainda mais a FIFA, detentora de direitos de comercialização de nosso (nosso?) mascote. Enfim, apesar da FIFA e da CBF que, elas sim, mantiveram sua essência (infelizmente!), é evidente que o mundo mudou, a economia mudou, o futebol mudou, o povo mudou, o tatu mudou e, olhando bem para o espelho, não consigo me lembrar desses cabelos brancos.
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Sobre Telê Santana
Duas dicas para quem quer saber mais sobre o mestre Telê. Sobre a campanha “Fica, Telê!”, capitaneada pela Revista Placar, em 1985, eis o link para acessar matéria publicada:
Para conhecer um pouco mais da vida desse grande treinador, recomendo o livro “Fio de Esperança”, de André Ribeiro, publicado pela editora Cia. dos Livros.
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Sarriá, o Olímpico e a tristeza
 
 
Partidas históricas da seleção brasileira de Telê Santana ocorreram no estádio Sarriá, em Barcelona. Luiz Felipe Scolari consagrou-se à frente do Grêmio, contabilizando vitórias no estádio Olímpico, em Porto Alegre. Justamente esses estádios – em 1982 e em 2007 – foram os palcos das minhas maiores tristezas com o futebol. O Olímpico, daqui a pouco, virá abaixo. Sarriá já não existe mais. Tampouco as minhas tristezas.
 
JFQ

domingo, 9 de dezembro de 2012

"A linha reta não sonha"

Tostão
 

 
 
A antiga e inapropriada discussão entre futebol-arte e futebol de resultados será ainda mais frequente até a Copa, por causa do fim do sonho de trazer Guardiola, símbolo do futebol bem jogado e bonito, e do retorno de Felipão à seleção, representante do futebol de resultados, embora, como todo bom técnico, tenha sucessos e fracassos.

Após a Copa de 1966, vencida pelos ingleses, só se falava, no Brasil, do fim do jogo moleque, inventivo e imprevisível das seleções de 1958 e 1962 e do novo futebol dos europeus, de resultado, força, disciplina tática, velocidade e objetividade.
Apenas quatro anos depois, após a Copa de 1970, o grande cineasta italiano Pasolini disse que a poesia brasileira tinha vencido a prosa italiana. Chico Buarque escreveu que os europeus eram os donos do campo, e os brasileiros, da bola. Hoje, não somos mais os donos do campo nem da bola. Não aprendemos a utilizar os espaços e damos a bola com facilidade ao adversário.
Entre 1974 e 1994, o Brasil não ganhou a Copa do Mundo, porque havia seleções melhores. A de 1982 foi exceção. Encantou, mas não venceu. José Miguel Wisnik, em seu excepcional livro "Veneno remédio", escreveu sobre esse período: "Predominava a ideia de que era preciso adotar um jogo eminentemente coletivo, tecnicamente responsável, compactamente defensivo, fisicamente forte e que abrisse mão de devaneios individualistas".
De 1994 até hoje, nas vitórias e nas derrotas, continuaram as discussões sobre o futebol-arte e de resultados.
As maiores equipes de todos os tempos, com vários estilos, sempre atuaram, primeiro, para vencer. A seleção de 1970 jogava um futebol de prosa e de poesia. Unem o pragmatismo criativo e o jogo coletivo com o talento individual e as fantasias. "A linha reta não sonha" (Oscar Niemeyer). Quando as grandes equipes perdem não é porque não são competitivas. Dezenas de detalhes, que, muitas vezes, duram uma fração de segundos, mudam a história de um jogo. "A vida é um sopro" (Oscar Niemeyer).
A arte necessita da técnica. Já a técnica sem a arte tende ao tecnicismo e à ineficiência. O que não se pode é confundir firula, habilidade sem técnica, com arte.
Infelizmente, um grande número de pessoas envolvidas profissionalmente com o futebol apenas se preocupa com o resultado, com os estereótipos, com o imediatismo e com as manchetes bombásticas.
A discussão entre futebol-arte e de resultados transcende o futebol. Faz parte das eternas dúvidas humanas entre a razão e a imaginação, o desejo e a ética, o real e o simbólico, e tantas outras dualidades. Quando vejo o Barcelona jogar, um time que une o individual com o coletivo, a beleza com o resultado e a utopia com a realidade, atenuam-se minhas dúvidas futebolísticas e existenciais.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 09/12/2012.

Que saudade, doutor

Xico Sá

 
 
 
Amigo torcedor, amigo secador, nesta semana fez um ano que o doutor Sócrates partiu. Não careço de efeméride alguma para celebrar, todo dia, toda noite, a memória do velho camarada. O momento, porém, tingido em branco e preto, é especial e comoveria o Magrão.
É, doutor, o bando de loucos, como você bem conhece, invadiu o Japão. Como na música do Gil, meu velho, teve corintiano que viajou até no cargueiro do Lloyd lavando o porão. Se oriente, rapaz, a festa começou em Cumbica e talvez não pare nem mesmo com o anunciado apocalipse que se aproxima.
Outra coincidência da semana, Magrones, é que o teu chapa Oscar Niemeyer também se foi. O último dos bravos comunistas, sempre motivo dos teus brindes, está chegando aí. Sei que vais tirar onda e dizer que estou sempre dando notícias velhas, que estou mais enferrujado do que minha última Remington.
Ah, Magrão, não zoa, mas realmente nada mudou muito depois que partiste. Aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock'n'roll, mas nada de novo debaixo do sol dos homens, meu camarada, como diriam o Eclesiastes e o teu amigo Chico.
Sabe quem saiu da CBF, Magrão? Acredite: o Ricardo Teixeira, teu ídolo (rs) para não dizer o contrário. O bom é quem entrou: o José Maria Marin, doutor, pode crer. Aquele mesmo cupincha da ditadura.
Mil desculpas, velho camarada, mas nada mudou neste último ano, embora o deputado Romário (PSB-RJ) insista em uma CPI para investigar os podres da CBF. O Juca, porém, continua cutucando os homens com sua caneta afiada, não para. O prezado amigo Afonsinho, aquele bom papo de sempre, agora escreve no espaço que ocupaste na "Carta Capital", tem repetido a categoria dos tempos de Botafogo.
Não zoa, notícia velha um cacete. Agora vou te contar uma nova. O Mano caiu, no momento mais errado do mundo -se é que tem tempo certo para queda- e o Felipão assumiu o comando da canarinha.
Foi mal, Magrão, esta bola tu cantaste há séculos. Essa, porém, é novíssima: os estádios para a Copa do Mundo estão em um atraso miserável (rs). Mais uma: a Fifa tende a proibir a venda de acarajé nos arredores da Fonte Nova durante o Mundial de 2014. Sério, Magrones, essa é braba, confesse.
Sabes quem está na bancada do nosso "Cartão Verde", doutor? O Rivelino, com um bigode de deixar teu ídolo Nietzsche com inveja, e o boa-praça Celso Unzelte, este sim um jornalista competente. Pasme, Magrão, o Vitor Birner aderiu ao futebol-arte. Um poeta. O velho Mussa, como chamavas carinhosamente o Vladir Lemos, continua o mais civilizado dos mediadores.
Fazes muita falta, doutor, e sempre cantamos para ti aquela seresta do Sérgio Bittencourt: "Naquela mesa tá faltando ele / e a saudade dele está doendo em mim".
 
Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/12/2012.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

À espera do número 257

Antonio Prata




 
Eu, no ano da graça de 1977, com apenas 49 dias de idade, vendo do berço o chute do Vaguinho explodir no travessão, Wladimir tentando de cabeça, Oscar salvando em cima da linha, Basílio pegando o segundo rebote e finalmente balançando a rede da Ponte Preta, acabando com quase 23 anos de sofrimento e me ensinando que a vida é dura, estranha, às vezes a coisa embanana ali na zona do agrião, mas no fim tudo pode dar certo; flashes do Pacaembu, poucos anos mais tarde, no colo do meu tio --cavalos, bandeiras, rojões--; o bigode do Zenon, o respeito imposto por aquele bigode, estendido a todos os bigodes subsequentes; o uniforme de goleiro igual ao do Carlos, ganho no Natal --e todas as vezes em que eu gritei "espaaaaaaalma Carlos!", jogando bola na rua ou no recreio, durante a infância--; a trave de madeira que meu avô fez para mim; Casagrande e Sócrates subindo ao palco num show da Rita Lee; meu pai pisando de leve no meu pé e piscando, no meio da torcida do Guarani, quando o Biro-Biro fez o gol lá no Brinco de Ouro da Princesa, em 1984; a agonia da final de 88, contra o mesmo Guarani, até o momento em que um moleque chamado Viola dá um carrinho de ninja, se estica todo e, com a ponta da unha do dedão, salva a pátria; eu, o Luiz e o pai dele numa Brasília estacionada num pasto, em algum lugar do Mato Grosso, tentando sintonizar o rádio para ouvir um Corinthians e São Paulo; o trator rebocando a Brasília atolada no pasto, duas horas mais tarde; o Nirlando, meu padrasto, me ensinando com sua agonia a dimensão trágica das batalhas ludopédicas; Kalunga, nome de um quilombo de bravos guerreiros, descendentes de negros e índios; a descoberta tardia da Democracia Corintiana, o orgulho pela Democracia Corintiana; eu, o Badá, o Miguel, o Perê, o Turco e o Binho subindo a Rebouças a pé, em 95, gritando "É campeão!", junto a um rio de gente, acreditando na concórdia entre as classes, as raças e religiões; eu, o Binho e o Perê às três da manhã, naquela mesma noite, na Paulista, fugindo de cinquenta corintianos, depois que um cara roubou o gorro do Binho e gritou "pega os são-paulinos!", nos mostrando que era preciso mais do que o futebol para superar as mazelas nacionais; Wladimir reunindo os garotos da rua, pegando meu primo pela mão e o levando para jogar bola, no dia em que o meu tio morreu; minha admiração por esse ato de generosidade e grandeza; a falta que faz meu tio-- são algumas das coisas que passam por minha cabeça quando o número 257 aparece no luminoso do Consulado Geral do Japão e me dirijo ao guichê para tirar o visto.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/12/2012.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Ideias fora do lugar

Luiz Zanin


Para a opinião pública, Felipão é um acerto. Para a opinião publicada, um retrocesso. Para os torcedores comuns, o Brasil precisa de um líder que conduza ao hexa. Os especialistas preferem quem leve a seleção pelo caminho da modernidade. Do que julga ser a modernidade, o paradigma atual do Barcelona. Daí o desencontro. Como a substituição de Mano por Scolari foi política e não técnica, a dupla Marin-Del Nero, que de boba não tem nada, olhou na direção da popularidade, que tira o foco de outras e mais graves questões. Daí o nome de Guardiola, tão insistentemente lembrado, não ter passado de leve devaneio de primavera.

Essa, como outras decisões no mundo do futebol, está aberta a controvérsias. Ninguém nega experiência à dupla Scolari-Parreira. Em certa medida, experiência é importante mesmo, ainda mais em situação-limite como costuma ser uma Copa do Mundo, quando qualquer descuido ou perda de concentração podem ser fatais. Lembrem o que aconteceu, por exemplo, na Copa de 1998, quando tínhamos tudo para ganhar a final e perdemos para um caso até hoje muito mal explicado. Enfim, um líder carismático (como Felipão) pode ser muito útil numa hora dessas.

Pensando de maneira menos pontual, parece lógico que a dupla não pode oferecer grande perspectiva de renovação tática. Embora tenham sido os dois últimos técnicos brasileiros campeões do mundo (Parreira em1994, Felipão em 2002), não têm convencido em seus últimos trabalhos. Parreira parecia ter um time de sonho na Copa de 2006 e deu com os burros n’água de maneira até patética. Depois do Penta, Felipão foi bem na direção de Portugal, mal na do Chelsea e acaba de contribuir para o rebaixamento do Palmeiras.

Os críticos têm alguma razão em colocarem um pé atrás – alguns já colocam os dois pés atrás em relação à dupla. Quem viu o Palmeiras jogar ultimamente sabe que o estilo não recomenda o técnico. Com outro elenco ele poderia ter feito algo diferente? É bem provável, mas indemonstrável. E Parreira? Quem não se lembra do seu Corinthians, muito bem treinado, e que tinha na posse de bola seu ponto forte, antes que essa característica fosse elevada a dogma com a ascensão do Barcelona? No entanto, aquele Corinthians forte, racional e experiente foi demolido por um Santos adolescente e ofensivo em dois jogos nas finais o Brasileiro de 2002.

O que tudo isso quer dizer senão que não existem fórmulas prontas para vencer ou perder no futebol?

O Barcelona seria o mesmo sem os jogadores que lhe dão suporte? Por que então tomá-lo como modelo absoluto? Alguém elegeu como paradigmas o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão ou o Flamengo de Zico? Não, porque esses modelos se esvaziariam sem os jogadores que lhes emprestaram corpo e alma.

O Barcelona tem sido considerado mais que um clube (é seu slogan). O Barça seria uma ideia. Um modelo absoluto. Para um futebol sem ideias, como o brasileiro atual, parece mais fácil importar uma, já pronta. Sem lembrar que existem problemas de aclimatação e execução. Sem isso, ideias não passam de abstração. Ou deslumbramento tolo.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 04/12/2012.

Guardiola e a Semana de 22

José Roberto Torero



A CBF chutou a bola para fora. Teve a chance de fazer um gol de placa, mas mandou a gorduchinha para fora do estádio.

Guardiola até já havia dito extraoficialmente que aceitava o cargo. Mas a CBF desprezou o melhor técnico do mundo.

Neste século não houve time mais impressionante que o seu Barcelona. Foram muitos títulos, largas goleadas e estatísticas impressionantes. O time venceu mais de 70% de seus jogos e não raras vezes teve mais de 70% de posse de bola, mesmo enfrentado equipes razoáveis como Chelsea e Real Madrid.

Em seus quatro anos à frente do clube catalão, o técnico venceu três campeonatos espanhóis, duas Copas da Espanha, três Supercopas, duas Ligas dos Campeões e dois Mundiais de Clubes.

Mas esqueçamos os números e os títulos. Era só olhar o Barça em campo que você sabia que aquele era o melhor time do mundo. Desde a Laranja Mecânica não havia um time tão inovador. Os catalães reinventaram o futebol. E de uma maneira tão humilhante que as outras equipes sequer conseguem imitá-lo.

Claro que Felipão é um bom técnico (e não vou usar o argumento do rebaixamento do Palmeiras para a Série B, isso foi apenas um tropeço), mas Guardiola é melhor. E não um pouco melhor, mas muito. É um Steve Jobs do futebol.

Se ele é o melhor técnico e temos os melhores jogadores, nada mais natural do que unir ao outro. Só que nada é natural no mundo do futebol.

Os argumentos contra Guardiola são: ele é estrangeiro, ele nunca dirigiu uma seleção e ele não conhece os jogadores brasileiros.

O terceiro argumento não é verdade. Temos mais jogadores selecionáveis na Europa do que aqui. E seria apenas uma questão de tempo para conhecer os que jogam no Brasil.

Quanto a nunca ter dirigido uma seleção, argumento usado por José Maria Marin, é uma bobagem. Felipão também nunca havia dirigido uma seleção antes de vencer a Copa do Mundo de 2002.

Por fim, contra o argumento patriótico, uso a célebre frase do escritor Samuel Johnson: "O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas".

O que o Brasil precisa é de uma Semana de 22 no futebol. Precisa de uma antropofagia futebolística. Nas últimas décadas temos sido apenas exportadores. Mas chega de arrogância. É a hora de aprender com os alienígenas. Por que não trazer técnicos de fora? Nos outros esportes já estamos fazendo isso. E tem dado muito certo.

Com o argentino Rubén Magnano, a seleção brasileira de basquete voltará a disputar uma Olimpíada depois de 16 anos. Com o técnico norte-americano Barry Larkin, o Brasil classificou-se pela primeira vez para o Mundial de beisebol. E com o ucraniano Oleg Ostapenko, as meninas da ginástica olímpica chegaram onde apenas haviam sonhado.

O argumento nacionalista é de uma hipocrisia imensa. Afinal, a empresa que controla a seleção até 2022 é a saudita ISE --a seleção, nos últimos três anos, jogou 42 partidas, mas apenas cinco no Brasil.

Ou seja, os torcedores podem ser estrangeiros, a empresa controladora pode ser estrangeira, mas o técnico não? Hipocrisia.

Era o momento da revolução --não como a que Marin apoiou em 1964, é claro. Mas perdemos o bonde da história. Ou o trem-bala, para atualizar a frase.

Com Guardiola teríamos mais chance de voltar ao alto do pódio do futebol mundial. A seleção poderia transformar os adversários em bobinhos, e eles ficariam apenas correndo atrás da bola no meio da roda.

Mas preferimos o passado.

A troca de Mano por Felipão foi mais ou menos como a troca de Ricardo Teixeira por José Maria Marin. Trocou-se alguma coisa para que tudo continue como está.


JOSÉ ROBERTO TORERO, 49, é jornalista, escritor e roteirista, autor de "O Chalaça" (Objetiva), de "Uma História de Futebol" (Objetiva) e de "Dicionário Santista" (Ediouro), entre outros

Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2012.

De Felipão a Getúlio

Eduardo Bueno



Então, Felipão bateu o barro das esporas, encilhou a cavalgadura e enveredou pela velha rota dos tropeiros, disposto a amarrar outra vez sua bela besta baia no velho obelisco.

Saiu de Passo Fundo, trotou pela Vacaria, e, entre aplausos e mugidos, chegou a Itararé --o velho sítio da "batalha que não houve". Ali, de novo, não encontrou resistência alguma. Passou pela avenida 23 de Maio sem alcançar o significado da data e, entre altivo e autista, cruzou o Tietê como se fosse o Rubicão.

Depois de galopar entre as carretas da Via Dutra, atingiu enfim o coração da antiga capital federal. Teve um déjà-vu ao prender as rédeas do rocinante na esguia coluna de pedra erguida ao final da Avenida Rio Branco. Alguns paisanos o saudaram. Outros, certos de que estavam diante de uma "alma semibárbara egressa do regime pastoril", torceram, quando não empinaram, seus narizes. Como bom sargento, Felipão ignorou-os todos.

São jocosas, mas não gratuitas, as comparações entre o retorno de Felipão ao comando da seleção brasileira e a marcha de Vargas rumo ao Catete em 1930.

E se há algum anacronismo aqui, ele reside no fato de que, embora não tenha voltado ao poder "nos braços do povo", nem sido precedido pelo "movimento queremista", a verdade é que, tal qual Getúlio em 1954, estamos diante da segunda vinda Luiz Felipe Scolari. O que já quase o alça ao posto de Messias...

Metáforas e piadas abundam, franqueando o emprego dos clichês --pena que os mais utilizáveis não se prestem aos detratores de Felipão. Afinal, se o velho chavão "povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la" for verdadeiro, então o hexa já está no papo.

Mais amargo ainda para a falange anti-felipônica é o dito: "A história sempre se repete, ora como farsa, ora como tragédia".

Felipão pode ter seus defeitos, mas nem seus inimigos mais empedernidos acham que ele seja uma farsa. E sua primeira passagem pela seleção só foi trágica para os amantes do dito "futebol-arte".

De qualquer forma, não deixa de ser uma ironia divertida e reveladora ver antigos barões do café de cepa quatrocentona, e velhos cortesões da finada Belle Époque carioca tendo, outra vez mais, que fazer um pacto federativo e recorrer à essa espécie de caudilhismo positivista de cunho artiguista tão exemplarmente representado pelo jeito gaúcho-platino de jogar futebol, sempre posto em prática pelos times de Felipão.

Engraçado assistir esse pessoal de fatiota abrindo mão de seus supostos ideais em nome do pragmatismo e do "bem maior": ganhar a Copa em casa --sem sucumbir num novo Maracanaço.... Se não para próprio Uruguai ou --Deus nos livre!-- para a Argentina, desta vez para a ex-metrópole de nossos vizinhos, a poderosa Espanha.

Tudo isso seria só hilário, ou curioso, não fosse patético e tão exemplar do atraso. Não o suposto "atraso" de Felipão, é claro, mas o da esclerosada e ditatorial CBF, bem como o do eterno país do futuro do pretérito, que a mantém e a explica.

De todo modo, se o Brasil ainda crê nos "pais do povo", porque não recorrer ao sujeito que, se não é o pai da pátria (de chuteiras), com certeza é o pai da família Scolari?

Sem falar no bônus das galhofas. Felipão já disse como julga ser o dia a dia dos barnabés de bancos estatais. Periga, daqui a alguns dias, falar dos R$ 31 milhões anuais que a agremiação de Rosemary Noronha (que já ganhou estádio de presente) receberá de outra instituição financeira do governo.

Dentro do campo, também pode funcionar. Afinal, a Copa não passa de um torneio mata-mata. Até porque, como futebol-bailarino, pontos corridos é coisa de fresco. Ala pucha, tchê!


EDUARDO BUENO, 54, é jornalista e escritor, autor de "Brasil: uma História" (Leya) de "A Viagem do Descobrimento" (Objetiva) e de "Grêmio: Nada Pode ser Maior" (Ediouro), entre outros

Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2012.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Onipotência da soberba

Tostão


Rinus Michels, revolucionário técnico holandês na Copa de 1974, deve ter ficado arrepiado ao ver as seleções brasileiras de 1958, 1962 e 1970. Suas ideias sonhadoras, com novos conceitos, foram assimiladas e aprimoradas por Cruyff, uma das maiores inteligências coletivas do futebol. O craque e treinador holandês criou variações e transmitiu esses conhecimentos ao Barcelona, que foram modificados por Guardiola e pela seleção espanhola. Todo esse saber evolutivo, associado ao recente pragmatismo criativo do técnico José Mourinho, se espalhou por toda a Europa.

Os principais times europeus, além de contratarem os melhores jogadores do mundo, priorizam, cada vez mais, o jogo coletivo, a troca de passes, que começa com os zagueiros, a diminuição dos espaços entre os setores, a alternância entre a marcação por pressão e a mais recuada, para contra-atacar, as múltiplas funções de um jogador e vários outros detalhes. É o futebol do presente e do futuro.

O futebol brasileiro, por prepotência, ao achar que só aqui tinha craques e se jogava em alto nível, involuiu coletivamente. Pior, o atual estilo de jogar dificulta o aparecimento de grandes talentos. Temos muitos bons jogadores, mas apenas um fora de série, Neymar.

Muitos outros fatores contribuíram para essa queda, como os gramados ruins, a promiscuidade e a ineficiência dos dirigentes de clubes, de federações e da CBF, e a pressão aos técnicos e jogadores para ganhar de qualquer jeito, consequência da violência na sociedade, na arquibancada e no gramado.

Como já tinha escrito, ficou mais evidente, após a entrevista coletiva para anunciar a comissão técnica, que teremos uma época de exacerbação do nacionalismo.

Só faltou Zagallo. Na entrevista, houve também uma exaltação das conquistas de 1994 e 2002, motivo principal, alegado pela CBF, para chamar Parreira e Felipão. A comissão técnica será quase a mesma de 2002. Os conceitos devem também ser os mesmos.

Muitas pessoas, em todas as atividades, acham que o que deu certo tem de ser repetido, como se houvesse apenas um jeito de ganhar. Esquecem também que há coisas erradas nas vitórias e acertos nas derrotas. Existe um grande número de fatores envolvidos nos resultados, ainda mais quando se tem craques, como Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

São indiscutíveis os méritos de Felipão e Parreira nas conquistas das Copas de 1994 e 2002.

Por outro lado, o assunto me faz lembrar de alguns médicos que justificavam suas condutas pelas experiências anteriores, que tinham dado certo, contrariando a evolução e as publicações científicas. Achavam que a experiência pessoal estava na frente do conhecimento e da ciência. É a onipotência da soberba.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 02/12/2012.